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    Na visão da proprietária da Casa de Bonecas da Rose, a mais excepcional marionetista do mundo era uma humana chamada Lucretia Abnomar, filha do lendário “Capitão Duncan”.

    Assim que a velha elfa disse essas palavras, o ambiente dentro da loja mergulhou em um silêncio absoluto por alguns segundos. Então, um som estrondoso rompeu o silêncio—Duncan começou a tossir violentamente.

    Co… cof… cof cof cof…”

    “Senhor, você está bem?!” A dona da loja se assustou com a reação dele. Como qualquer elfo acostumado a lidar com raças de vida curta, sua primeira expressão foi de preocupação, como se esperasse que o humano à sua frente caísse morto a qualquer momento. “Precisa que eu chame um médico?”

    Co… cof… Eu… cof… Estou bem”, Duncan finalmente conseguiu recuperar o fôlego e acenou para a idosa, ainda tentando se recompor. Ao mesmo tempo, no Banido, ele tentava acalmar a boneca amaldiçoada que havia se assustado com sua súbita crise de tosse. “Só me engasguei com a saliva… O que você disse mesmo? Lucre…?”

    “Lucretia Abnomar”, repetiu a elfa, com uma expressão que misturava surpresa e impaciência, como se achasse inacreditável que os humanos se chocassem tão facilmente com algo que, para ela, ainda era um acontecimento recente. “A capitã do Brilho Estelar, uma dos filhos do Capitão Duncan. A mais excepcional marionetista do mundo…”

    Duncan, que mal havia recuperado o fôlego, engasgou de novo.

    COF—!”


    No convés do Banido, Alice, que já havia se assustado com a primeira crise de tosse de Duncan, deu um pulo quando ouviu um alto ‘Porra!’ vindo do nada.

    Segurando uma grande cesta cheia de vegetais e frutas, a Srta. Boneca ficou olhando para o capitão com os olhos arregalados.

    “Você está bem?”

    “Estou bem”, Duncan respirou fundo, tentando controlar suas emoções. Depois de tanto treino, ele finalmente havia aprendido a dividir sua consciência entre dois corpos ao mesmo tempo. Mas agora, com essa revelação inesperada, ele quase perdeu o controle de novo.

    Para evitar agir de forma estranha na cidade-estado, ele acenou para Alice e disse rapidamente:

    “Vá para o interior do navio, preciso resolver algo.”

    Alice continuou olhando para ele com desconfiança. Seus olhos lilases refletiam o rosto de Duncan enquanto ela inclinava a cabeça.

    “Tem certeza de que está bem? Quer que eu te examine? Posso bater nas suas costas pra ajudar a desengasgar…”

    “Você sabe fazer isso?”

    “Não.”

    “Então vá, vá!”

    “Ah, tá bom.”

    Finalmente despachando a boneca atrapalhada, Duncan voltou sua atenção para a cidade-estado de Pland. Ele ergueu os olhos e fixou um olhar sério na elfa idosa à sua frente.

    “O lendário Capitão Duncan… você está falando daquele Banido…”

    Shhh! Não diga esse nome em voz alta!” A dona da loja o interrompeu rapidamente. “Você, um humano comum, talvez não saiba, mas pronunciar o nome de uma maldição terrível como aquela pode atrair desgraças! Cuidado para que aquele navio não apareça nos seus sonhos!”

    “… Você tem razão.” Duncan engoliu em seco, esforçando-se para ignorar o absurdo da situação e mantendo um semblante neutro. “Então… esse capitão não tem apenas uma filha chamada Lucretia? Ele teve dois filhos?”

    “Sim, isso já faz mais de cem anos. Eu os conheci, sabia? O filho se chamava Tyrian Abnomar. Depois, ele se tornou algum tipo de general sob o comando da Rainha de Geada, mas não ficou muito tempo nesse cargo. Parece que houve uma rebelião por lá, e ele acabou reunindo um bando para virar pirata. A filha era Lucretia Abnomar, a mais brilhante marionetista do mundo…”

    A velha elfa tagarelava, sua voz transbordando nostalgia. Mas então, fez uma pausa e suspirou.

    “Mas tudo isso já aconteceu há muito tempo… ou pelo menos para os humanos, parece muito tempo. Em Pland, quase ninguém menciona essa história, e até nas cidades élficas evitamos falar sobre aquele navio. Mas, no fim das contas, qual seria o problema? Aqueles dois nunca foram como o pai deles, nunca enlouqueceram. Eles ainda são capitães, vivos e bem…”

    “Espera aí!” Os olhos de Duncan se arregalaram. “Você está dizendo que eles ainda estão vivos?!”

    “Sim”, respondeu a idosa, como se não fosse nada demais. “Dizem que foram amaldiçoados pelo Subespaço. Agora, são imortais… Provavelmente vão viver mais do que eu.”

    Duncan ficou em silêncio.

    “Senhor, você tem certeza de que está bem?” A velha elfa voltou a perguntar, franzindo a testa. “Desde que começamos a conversar, seu rosto está meio estranho. Você não gosta desse assunto? É compreensível, muitos humanos não gostam de ouvir essas histórias. Alguns nem mesmo suportam escutá-las à luz do dia…”

    “Não, não! Eu quero ouvir!” Duncan rapidamente ajustou sua postura e expressão, inclinando-se para frente. Seu olhar intenso fixou-se na elfa. “Me conte mais sobre esses irmãos! E você disse que os conheceu?”

    “Foi há um século…” A anciã começou a relembrar, sua voz carregada de lembranças distantes. “Naquela época, eu já tinha minha loja nesta rua. Os irmãos vieram aqui comprar algo. Lucretia levou uma boneca de escala um terço, e Tyrian foi quem pagou. Eles ainda eram jovens naquela época. O pai deles… bem, naquela época ele ainda era um humano normal. Ah, mas melhor não mencioná-lo. Não podemos falar dele…

    “Depois, passaram-se mais de dez anos, e eu acabei encontrando Lucretia novamente em uma viagem para Lansa, onde fui trocar conhecimentos com outros artesãos”, continuou a velha elfa, imersa em suas memórias. “Naquele momento, ela já havia se tornado uma marionetista e engenheira mecânica excepcional… Os autômatos movidos a corda que ela criava eram algo que nem eu conseguiria fazer.”

    Ela continuou a tagarelar, compartilhando causos que, para a maioria dos humanos, já pertenciam ao domínio da história, mas que, para ela, eram apenas lembranças de sua longa vida.

    Parece que, independentemente da raça, os mais velhos sempre gostam de revisitar o passado e contar suas histórias. Basta alguém puxar o fio da conversa, e o assunto nunca acaba.

    Duncan ainda não conseguia acalmar as ondas de emoção dentro de si, mas sua expressão já estava controlada. Ele escutava cada palavra atentamente, absorvendo cada detalhe da conversa.

    Para os cidadãos comuns da cidade-estado, o Capitão Fantasma de um século atrás e seus filhos amaldiçoados eram apenas personagens de uma história distante. Mas, para uma elfa que já vivia ali há séculos, muitos dos chamados ‘mistérios’ eram simplesmente eventos que ela havia testemunhado pessoalmente em sua juventude.

    Ela falou muito sobre Lucretia e mencionou brevemente Tyrian e seu navio, o Névoa do Mar.

    No entanto, estava claro que seu conhecimento sobre Tyrian e seu navio era bem mais limitado do que sobre Lucretia.

    “Tyrian Abnomar serviu à Rainha de Geada… Isso foi há meio século, nem tão distante assim”, comentou a idosa casualmente. “Alguns humanos mais velhos ainda se lembram dessa história. Mas, na época, os reinos do Mar Gélido eram mais isolados, e as interações com Pland eram poucas…”

    O coração de Duncan batia com força no peito.

    Ele sabia exatamente quem era a Rainha de Geada. Afinal, tinha uma boneca em tamanho real dela dentro do Banido, pulando de um lado para o outro todos os dias. Mas ele nunca imaginou que aquela rainha, que foi executada por rebeldes há cinquenta anos, acabaria se conectando a ele por outro caminho—por meio de um ‘primogênito’ que ele nem sabia que existia até agora.

    “A Rebelião de Geada de meio século atrás…” murmurou ele, escolhendo cuidadosamente suas palavras para soar apenas como um cliente curioso por fofocas. “Li sobre isso em alguns livros de história, mas os relatos eram todos bem vagos…”

    “Claro que eram vagos”, a elfa disse, abanando a mão. “Dizem que teve algo a ver com aquele navio. Quem teria coragem de registrar os detalhes com clareza?”

    “Tyrian Abnomar se tornou um pirata depois da Rebelião de Geada?” Duncan perguntou, tentando soar apenas curioso. “Ele ainda opera na região do Mar Gélido?”

    “Parece que sim”, a anciã respondeu, pensativa. “Pelo menos, foi o que ouvi de um compatriota que fazia negócios no mar há uns vinte anos.”

    “E… Tyrian e Lucretia ainda mantêm contato?”

    “Como eu saberia?” A elfa deu de ombros. “Sou apenas uma velha senhora que tem uma loja em Pland. No máximo, vi os dois quando eram jovens e lembro de mais coisas do que vocês humanos. Mas saber tudo sobre eles? Isso já é demais, não acha?”

    “… Faz sentido.”

    Duncan fechou a boca e mordeu levemente a língua, percebendo que talvez estivesse demonstrando mais interesse do que o razoável. Assim, decidiu não pressionar mais o assunto.

    Porém, do outro lado do balcão, a idosa pareceu lembrar de algo. Seus olhos brilharam brevemente antes de se levantar.

    “Ah! Falando em Lucretia, lembrei-me de algo. Está guardado aqui há muitos anos. Talvez o senhor se interesse?”

    Dizendo isso, a velha elfa caminhou até um pequeno armário sob as escadas, destrancou uma portinhola baixa e começou a revirar a bagunça no depósito. Duncan a observou enquanto ela mexia em pilhas de caixas e objetos antigos, até que finalmente, do fundo do armazém, retirou um caixote de meio metro de comprimento e o colocou no balcão.

    “Isso é…?” Duncan olhou intrigado para a caixa.

    “Uma boneca.” A elfa sorriu calorosamente e abriu a tampa com cuidado. “O nome dela é Nilu—lembra que mencionei antes? Muitos anos atrás, Lucretia e seu irmão compraram uma boneca na minha loja. Mas, na verdade, aquela boneca fazia parte de um par de irmãs. Lucretia levou a mais velha, chamada Luni, enquanto esta aqui ficou para trás. O nome dela é Nilu.”

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