O abismo cheirava a pólvora velha e rocha moída.

    Quatro homens desciam pelas grossas cordas de cânhamo, escorregando rumo às profundezas da Cratera de Ashfall. O Rei Aldric e o Lorde Comandante Baelon exigiram o selamento imediato daquela anomalia. Para a missão, destacaram o Esquadrão Martelo, liderado pelo Capitão Kaelus, um veterano de rosto marcado por cicatrizes e barba rala, famoso por nunca questionar ordens.

    Os bicos de ferro das botas de Kaelus tocaram o solo instável da abóbada subterrânea. Acendeu a lanterna a óleo presa ao cinto, erguendo a luz para afastar o breu.

    Aos poucos, o restante da equipe pousou ao seu redor.

    Bram, o batedor franzino de língua afiada, sacudiu a poeira da capa de couro. Gareth, um soldado supersticioso de olhos arregalados, beijou um pequeno amuleto de ferro antes de soltar a corda. Por fim, Torin aterrissou com um baque surdo, o gigante da equipe sustentando um colossal escudo pavês, grosso o suficiente para parar o avanço de uma carruagem.

    A luz da lanterna revelou o campo de batalha do Esquadrão Gravios.

    O teto escavado possuía marcas de explosões violentas. Pilares de pedra encontravam-se estilhaçados. No entanto, o detalhe mais perturbador não era a destruição, e sim a paisagem adiante. As lendas sussurradas pelos cantos de Lancrey tornaram-se reais sob os olhos arregalados dos quatro soldados.

    Fachadas de catedrais góticas, praças petrificadas e arcos de pedra estendiam-se pela vastidão subterrânea, formando uma cidade inteira devorada pelo tempo.

    — Pelos deuses esquecidos… — murmurou Gareth, a voz embargada, apertando o amuleto contra o peito. — Nós caminhamos sobre os ossos dos nossos ancestrais a vida inteira.

    — Guarde as rezas para a taverna, Gareth — rosnou Kaelus, assumindo a dianteira com sua pesada maça de ferro em punho. Varreu o ambiente com os olhos semicerrados. — O relatório do General descrevia a carcaça de um monstro esmagada por esses escombros. Não vejo corpo nenhum.

    Bram caminhou até um monte de pedras rachadas, agachando-se perto de uma poça seca de sangue negro. Com a ponta da adaga, o batedor ergueu um tufo grosso de pelagem.

    — Não tem carcaça, Capitão — constatou Bram, esfregando o pelo entre os dedos. A cor violeta, quase doentia, brilhava sob a luz da lamparina. — Só tem restos. Pelos escuros, marcas de garras nas pedras e… um rastro de cinzas frescas arrastando-se para o interior das ruínas. A coisa cavou para fora dos escombros.

    Kaelus trincou o maxilar. O Lorde Comandante Baelon jurara tratar-se de um serviço limpo. Selar um túnel morto.

    — Não somos caçadores de anomalias, somos o esquadrão de demolição — decretou o Capitão, apontando para as colunas naturais de rocha sustentando as bordas da cratera. — Torin, traga os barris de pólvora negra. Bram, Gareth, espalhem as cargas nos pontos de tensão estrutural. Juntem tudo num único pavio mestre. Vamos explodir o teto dessa caverna e soterrar esta cidade amaldiçoada para sempre.

    Os homens assentiram, o pragmatismo militar vencendo o fascínio mórbido. Trabalharam em silêncio absoluto. Apenas o raspar dos barris de madeira e o desenrolar das cordas de estopim embebidas em óleo quebravam a quietude fúnebre.

    Vinte minutos depois, as armadilhas explosivas adornavam os pilares centrais.

    Os quatro soldados reuniram-se perto da base das cordas de fuga. Kaelus segurou a ponta do pavio mestre, sacando a pederneira.

    Um vento irreal cortou o abismo. Não uma brisa natural, mas um deslocamento de ar violento, carregado com o cheiro azedo de ozônio e carne apodrecida. A chama da lanterna de Kaelus piscou.

    Um vulto engoliu a luz.

    O som assemelhou-se ao chicote estalando no ar, seguido pelo estilhaçar úmido de ossos. Bram desapareceu. Num piscar de olhos, o batedor simplesmente sumiu do lado de Gareth, substituído por um rastro de sangue espirrado nas pedras.

    Um segundo depois, o grito rasgou a escuridão. Um berro agudo, molhado e desesperador, ecoando pelas catedrais vazias acima deles, silenciado subitamente por um estalo grotesco de cartilagem rompida.

    — Formação! — urrou Kaelus, chutando o pavio para longe e erguendo a maça. — Costas com costas! Torin, levante a porra do escudo!

    O gigante obedeceu prontamente, cravando a base do escudo pavês no chão rochoso, os músculos do pescoço saltando. Kaelus e Gareth colaram as costas na armadura de Torin, formando um triângulo defensivo impenetrável. As respirações ofegantes formavam pequenas nuvens brancas de vapor.

    Uma neblina densa, rasteira e artificial começou a brotar das sombras, engolindo os tornozelos dos soldados. O ar despencou para temperaturas congelantes.

    Um baque molhado soou no centro exato da formação.

    Gareth abaixou o olhar. A cabeça de Bram rolou até bater na ponta de sua bota. A expressão do batedor estava congelada em puro pânico, os olhos revirados e a garganta arrancada com precisão cirúrgica.

    O amuleto caiu das mãos do supersticioso. A mente de Gareth despedaçou-se.

    — Não! Não! Foda-se essa missão! — berrou o soldado, perdendo completamente o controle.

    Gareth quebrou a formação, dando dois passos cegos para frente, erguendo a espada sem qualquer técnica rumo à neblina espessa.

    Kaelus esticou a mão para puxá-lo de volta, mas seus dedos agarraram apenas o ar.

    Do meio da névoa escurecida, cinco foices de osso roxo emergiram horizontalmente. As garras colossais do Alfa atravessaram o corpo de Gareth como se a cota de malha do soldado fosse feita de papel molhado. O impacto lateral deformou a caixa torácica do homem instantaneamente. O barulho de dezenas de ossos pulverizados soou como o desabar de uma árvore. O corpo inerte de Gareth foi arremessado para a escuridão como uma boneca de pano ensanguentada, desaparecendo nas sombras.

    Restaram dois.

    A neblina girou, dissipando-se lentamente ao redor da silhueta colossal.

    O Racrydoth Alfa avançou. A carapaça violeta, espessa e cravejada de espinhos ósseos, raspava contra os pilares do abismo. A criatura não atacou com a mesma velocidade de antes. Caminhou com uma lentidão sádica, os olhos negros cravados nos sobreviventes.

    Kaelus sentiu as pernas tremerem, a maça pesando uma tonelada em suas mãos. Torin manteve o escudo erguido, os dentes trincados sangrando o próprio lábio de tanto pavor.

    A dez metros de distância, o monstro parou. As mandíbulas desfiguradas abriram-se, rasgando os músculos do próprio rosto. E do fundo daquela garganta infernal, o som inatural arranhou o ar denso da caverna.

    Aproximem.

    O peso daquela palavra humana dita por uma abominação quebrou a última barreira de coragem no peito de Torin. O gigante soluçou, os joelhos vacilando. Por uma fração de segundo, o escudo de aço desceu, revelando o tronco do guerreiro.

    Uma brecha ínfima. O suficiente para a condenação.

    O Alfa puxou o ar. O núcleo no peito da besta acendeu como um caldeirão rompido, iluminando as ruínas soterradas. O escuro do monstro abriu espaço para um tom laranja vivo, furioso e indomável.

    A mandíbula da criatura se escancarou, mas não expeliu chamas comuns.

    Kaelus cobriu os olhos com o antebraço, surdo pelo som que acompanhou o fogo. Eram vozes. Centenas de berros humanos ecoavam de dentro da torrente alaranjada, agonizando enquanto eram queimados de novo e de novo na fornalha digestiva da besta. O clarão derreteu o oxigênio ao redor.

    O jato de memórias carbonizadas e fogo corrompido atingiu Torin em cheio.

    O gigante nem teve tempo de gritar. O escudo incandesceu até virar escória líquida, e a carne do homem evaporou junto com a armadura. Em menos de três segundos, restou apenas uma silhueta de cinzas escuras flutuando na corrente de ar quente, espalhando-se pelo chão da cratera.

    Kaelus abaixou o braço, o rosto banhado em suor frio e fuligem.

    O Capitão encarou o Alfa. A criatura apagou as chamas da boca e o olhou de volta. Havia compreensão naqueles olhos negros. Havia uma paciência aterrorizante.

    O instinto primitivo de sobrevivência devorou a lealdade de Kaelus ao Rei. Ele soltou a maça de ferro. Girou os calcanhares e disparou em direção às cordas penduradas. As mãos machucaram-se agarrando o cânhamo áspero, os pés chutando a parede de pedra da cratera, subindo com o desespero de um condenado escapando da forca.

    Não olhou para baixo. Não precisava.

    No fundo do poço, iluminado apenas pelas últimas brasas das cinzas de Torin, o Alfa violeta recuou lentamente. Dobrou as patas colossais e sentou-se sobre os escombros, como um rei sombrio retornando ao trono.

    A fera ergueu o focinho, observando o pequeno Capitão fugir rumo à luz fraca da superfície, deixando-o ir como um mensageiro do apocalipse. Em seguida, a neblina rastejou mais uma vez, e o abismo engoliu o monstro por completo.

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