Índice de Capítulo

    O silêncio que se abateu sobre o campo era quase palpável, quebrado apenas pelo chiado sutil da energia que se esvaía. Ryuji Arata permanecia desacordado no chão, uma figura estática sobre as marcas escuras do solo castigado. Sua aura, outrora vibrante e impetuosa, agora não passava de um rastro quase imperceptível, uma chama fraca que ameaçava se apagar a qualquer momento.

    Alguns metros à frente, Tsubasa Hayashi mantinha-se de pé. Ele não recuava, mas seu corpo acusava o peso da situação. Os olhos estavam fixos em San Ryoshi, enquanto sua mente trabalhava em uma velocidade desesperada, processando a matemática cruel daquele cenário: quatro inimigos intactos. Ele estava sozinho. E, logo atrás, o coração do time permanecia inconsciente.

    Um vento frio e pesado cruzou a arena, arrastando a poeira dos destroços e aumentando a sensação de isolamento.

    Sander Shimo quebrou a quietude, soltando um estalo seco com o pescoço. No mesmo instante, raios negros começaram a estalar ao redor de seus ombros, curtos e agressivos. 

    — Então acabou mesmo, hein? — ele comentou, ajustando a postura com uma calma provocativa. — Achei que eles fossem durar mais.

    Ao lado dele, Karaku ergueu levemente o cano da arma. Seus olhos mantinham o brilho elétrico e analítico da Meta-Visão, mapeando cada centímetro do espaço restante. 

    — O resultado já estava decidido desde o começo — afirmou Karaku, a voz desprovida de qualquer emoção. — Foi apenas a conclusão de um cálculo óbvio.

    Tsubasa apertou a empunhadura da espada. Ele não respondeu, guardando o fôlego para o que viria. San Ryoshi, mantendo a mesma serenidade imperturbável de antes, fixou o olhar no espadachim.

    — Você ainda consegue lutar — disse San Ryoshi. O tom não carregava dúvida; era uma mera constatação técnica de que o adversário ainda possuía integridade física.

    Tsubasa respirou fundo, permitindo que o ar gelado estabilizasse seus batimentos. Ele abaixou minimamente sua base, distribuindo o peso do corpo para garantir o arranque. 

    — Consigo — respondeu, e seus olhos ganharam uma nitidez afiada. — Mas vencer sozinho… — ele fez uma breve pausa, encarando a linha de frente inimiga — …é impossível.

    Sander soltou um riso curto, claramente entretido. 

    — Finalmente alguém lúcido nesse projeto.

    Renji Asakura deu um passo à frente, fazendo a terra estalar sob sua bota. Mesmo ferido pelos estágios anteriores do confronto, a forma monstruosa recusava-se a ceder por completo. Suas garras permaneciam expostas e a íris vermelha brilhava em meio à penumbra da arena. 

    — Então ajoelha logo — rosnou Renji, a aura escura subindo de forma violenta ao redor do corpo. — E aceita a derrota de uma vez.

    Os músculos de Tsubasa tensionaram. Ele estava prestes a iniciar o avanço, ciente do preço que pagaria, quando algo mudou no ambiente.

    Karaku franziu o cenho de repente. O brilho de seus olhos oscilou; na projeção mental de sua Meta-Visão, uma das linhas futuras simplesmente desapareceu, deixando um borrão cinzento no esquema tático. 

    — …Espera — murmurou o atirador, a hesitação transparecendo pela primeira vez.

    San Ryoshi percebeu a quebra de ritmo no mesmo microssegundo. 

    — Tem alguém faltando.

    O aviso foi o suficiente para congelar a arena. Sander interrompeu o sorriso. Renji moveu a cabeça, varrendo os pontos cegos do campo. Tsubasa arregalou minimamente os olhos quando a percepção o atingiu.

    Kaede Shizuma. Ele não estava entre os caídos.

    O estádio mergulhou em um vácuo absoluto por um segundo. Dois.

    E então, o céu protestou.

    ESTALO.

    O som elétrico e agudo não veio do chão, mas das nuvens que começaram a se fechar em uma velocidade anormal, escurecendo o topo da arena. Raios de um vermelho espesso e violento cortaram a atmosfera, iluminando o campo com lampejos sangrentos.

    Sander ergueu o olhar, a testa franzida em confusão. Karaku forçou a Meta-Visão ao limite, mas as linhas de possibilidade enlouqueceram diante de seus olhos, fragmentando-se em milhares de vetores caóticos que mudavam antes mesmo de se consolidarem. 

    — …Não tô conseguindo ver—! — exclamou Karaku, o suor frio descendo pela têmpora.

    E então, o topo da tempestade cedeu.

    Kaede Shizuma surgiu no alto, despencando como um meteoro. Seu corpo estava completamente envolvido por descargas elétricas vermelhas tão densas que distorciam sua silhueta. A aura que ele emanava era absurda, uma massa instável de pura agressividade que parecia rasgar o próprio oxigênio ao redor. Os olhos brilhavam em um tom escarlate absoluto, e o sorriso em seu rosto era puramente insano.

    — SURPRESA! — a voz de Kaede desceu junto com o trovão.

    O chute veio em queda livre. Mas a técnica havia transbordado. Os raios vermelhos se expandiram ao redor de sua perna em proporções colossais, moldando-se no ar com uma nitidez aterrorizante. Mandíbulas elétricas se abriram; garras e presas de pura energia tomaram forma até que um leão gigantesco de plasma vermelho nascesse do movimento, soltando um rugido que fez as placas de concreto da arena vibrarem.

    O impacto aconteceu. E a realidade ao redor colapsou.

    BOOOOOOOOOOM.

    O solo abaixo do ponto de contato simplesmente desapareceu, transformado em uma cratera monumental. Estruturas de contenção foram vaporizadas instantaneamente pela temperatura e pela pressão do golpe. Os raios vermelhos avançaram em uma linha reta devastadora, varrendo tudo o que estava no caminho.

    Sander mal teve tempo de reagir, os olhos arregalados pela surpresa. 

    — QUE PORRA É ESSA—?!

    Tarde demais. O leão de plasma o engoliu por completo, anulando os raios negros antes que eles pudessem formar uma barreira. Ao lado, Renji cruzou os braços em uma tentativa desesperada de bloqueio, mas as garras de energia da técnica de Kaede atravessaram sua defesa com uma brutalidade avassaladora.

    O choque foi seco. O impacto, seguido pela explosão secundária, lançou ambos os corpos violentamente através do campo. Eles quebraram o solo em sequência, atravessando três fileiras de destroços antes de finalmente pararem, inertes.

    O silêncio retornou com o assentamento da fumaça.

    A voz mecânica do sistema da arena ecoou pelos alto-falantes, fria e incontestável: 

    [Renji Asakura eliminado.] 

    [Sander Shimo eliminado.]

    O campo inteiro travou. Até mesmo Tsubasa permaneceu imóvel, a espada ainda erguida, os olhos fixos na devastação à sua frente. Aquilo que acabara de acontecer desafiava qualquer leitura estratégica.

    No centro da imensa cratera, Kaede Shizuma tocou o chão lentamente. Faíscas vermelhas ainda estalavam em sua pele, deixando pequenos rastros de fumaça. Sua respiração era pesada, audível, mas o sorriso em seu rosto apenas aumentou, desafiador.

    — Heh… — Kaede soltou o ar pelos dentes, erguendo o olhar diretamente para o topo do time inimigo. — Agora ficou divertido.

    Restavam apenas dois do outro lado: Karaku Sabito e San Ryoshi.

    Karaku mantinha os olhos fixos nos destroços, a Meta-Visão ativa, mas visivelmente instável. A leitura falhava porque Kaede não operava sob lógica, padrões ou racionalidade. Ele agia como uma força da natureza, uma calamidade pura — e o futuro, por mais preciso que fosse, sempre tinha dificuldades para prever desastres.

    San Ryoshi observou Kaede em silêncio. O vento gerado pela explosão moveu lentamente os cabelos dele, limpando a poeira de sua postura impecável.

    E então, de forma clara, um pequeno sorriso surgiu no rosto de San. Um gesto contido, mas genuinamente interessado.

    — Então… — a voz de San Ryoshi ecoou, e sua aura ciano escuro subiu novamente, pesada e absurda, respondendo à provocação do ambiente. — …esse é o verdadeiro perigo.

    O campo permanecia um cenário de pura devastação.

    Raios vermelhos, resquícios da explosão anterior, ainda percorriam o solo rachado em pequenas explosões elétricas, estalando contra as pedras soltas. No centro de tudo, Kaede Shizuma encarava San Ryoshi. Sua respiração era pesada, audível, mas o sorriso em seu rosto guardava aquela mesma intensidade insana, quase selvagem.

    O silêncio que se seguiu à constatação de San foi cortado apenas pela eletricidade residual.

    Após as palavras do topo absoluto, o sorriso de Kaede alargou-se ainda mais. 

    — Demorou para perceber.

    Ao redor dele, os raios aumentaram de volume e frequência. Eram descargas violentas, instáveis, que pareciam lutar para romper a barreira da sua própria pele, como uma tempestade viva tentando escapar do corpo que a aprisionava.

    Do outro lado da arena, Karaku Sabito observava o fenômeno sem desviar o olhar. Sua Meta-Visão continuava ativa. Linhas futuras projetavam-se diante de si a cada milissegundo, mas permaneciam quebradas, trêmulas, incapazes de traçar um vetor definitivo. 

    — Ele não segue padrão algum — constatou o atirador, em voz baixa.

    Karaku ajustou levemente os óculos com a ponta do dedo, mantendo a frieza analítica. 

    — Mas, emocionalmente…

    Na sua mente, o padrão caótico das linhas mudou de repente. Elas começaram a se reorganizar, convergindo para um ponto comum. O cálculo foi concluído. 

    — …ele é extremamente simples de manipular.

    San Ryoshi escutou a análise sem tirar os olhos de Kaede, a postura perfeitamente alinhada. 

    — Orgulho.

    — Excesso dele — completou Karaku, abaixando lentamente a arma, pois a estratégia já estava desenhada.

    — Se separarmos os dois… — Seus olhos deslizaram por um instante até a figura de Tsubasa, metros atrás. — …a vitória deles acaba rápido.

    San Ryoshi fechou os olhos por um breve segundo. Havia uma aceitação gélida na sua expressão, como se o resultado daquele round já estivesse arquivado antes mesmo de ser executado. Então, ele deu um único passo à frente.

    A pressão atmosférica explodiu novamente.

    Tsubasa percebeu a mudança no ar no mesmo instante. Seus olhos estreitaram-se, calculando os vetores de aproximação de San e o estado físico de Kaede. Ele entendeu o perigo. Dando um passo rápido em direção ao companheiro, tentou intervir.

    — Kaede.

    Kaede nem sequer se moveu. Seus olhos continuavam fixos, cravados unicamente na figura imponente de San Ryoshi.

    Tsubasa deu mais um passo, a voz descendo para um tom firme, sério, despido de qualquer hesitação.

    — Escuta. A gente só tem chance se lutar junto.

    Kaede soltou um riso curto, seco, totalmente desprovido de humor.

    — Chance? — Raios vermelhos explodiram ao redor dos seus ombros, estilhaçando o chão sob as suas botas. — Eu não preciso de chances.

    Tsubasa franziu o cenho, o tom de aviso tornando-se mais urgente. 

    — Tu viu o que ele fez com o Ryuji.

    — Vi — respondeu Kaede, e o sorriso nos seus lábios cresceu, desafiando a própria lógica do medo. — E agora eu quero ver se ele aguenta comigo.

    Tsubasa fechou os olhos por um instante, inspirando fundo para forçar a calma que o ambiente exigia. — Isto não é sobre ego agora, Kaede.

    Finalmente, Kaede virou o rosto. Seus olhos brilhavam em um vermelho puro, incandescente, refletindo a energia destrutiva que carregava.

    — Para tu, não — a aura dele expandiu-se com uma violência brutal, fazendo o ar ao redor estalar. — Para mim, sempre foi.

    O silêncio pesou novamente sobre a arena.

    Tsubasa percebeu no mesmo segundo. Kaede não estava a ouvir. Não de verdade. Ele não procurava uma vitória tática, não queria coordenação e não estava interessado em planos de contingência. Ele precisava de uma afirmação absoluta. Queria provar algo para si mesmo, para o topo que o encarava, para o mundo inteiro — e, talvez, até para o Ryuji desacordado nas suas costas.

    Karaku, observando tudo à distância, permitiu que um leve sorriso surgisse no canto da boca. A Meta-Visão já previu aquela exata fratura na sincronia do time adversário.

    San Ryoshi ergueu levemente o olhar. Calmo. Esperando o momento do choque.

    E então, Kaede avançou.

    EXPLOSÃO.

    O solo cedeu por completo sob o impacto do seu arranque. Os raios vermelhos dispararam em todas as direções enquanto o seu corpo cortava o campo de batalha numa velocidade monstruosa, transformando-se num rastro de luz destrutiva.

    Tsubasa arregalou os olhos, o braço estendido em vão. 

    — KAEDE—!

    Tarde demais. Kaede já cruzou a distância sozinho. Direto. Como uma força indomável avançando contra uma calamidade ainda maior.

    San Ryoshi permaneceu imóvel. Não mudou a base, não alterou a respiração e sequer ergueu a guarda para o impacto iminente. Karaku deu um passo curto para o lado, ajustando a sua posição de cobertura, preparando o terreno para o desfecho que o futuro já mostrava.

    Enquanto isso, Tsubasa Hayashi apenas observava a silhueta de Kaede desaparecer no epicentro da tempestade vermelha. E, naquele microssegundo, a certeza atingiu-o como um golpe seco.

    O time deles tinha quebrado.

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