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    No dia do ataque ao grande salão, a Ordem se movia em direção ao esconderijo dos rebeldes, a fim de verificar se não foram atacados. Segundo Sora, o Império tinha conhecimento dos dois locais e pretendia atacá-los simultaneamente, para que não houvesse tempo de escapar. O grupo descansava perto de um pequeno lago. Akane ainda dormia — os efeitos do poder de Lília eram persistentes —, mas o toque dos raios de sol em seu rosto provocavam reações. Devagar, ela abriu os olhos.

    — Akane?! Você acordou! Eu estava começando a pensar que tinha pegado pesado com você… Está se sentido melhor? — questionava Lília, que a observava de perto.

    Era nítido que ela não queria falar sobre a noite passada. Suas palavras eram tão calorosas e, ao mesmo tempo, tão… vazias.

    — Não voltamos para a casa da Katharine. O Império sabe daquela localização. Estamos indo nos encontrar com os rebeldes. Vamos ficar aqui por mais algumas horas, então, se quiser, descanse mais um pouco. — ela deu um sorriso meigo.

    Nenhuma palavra carinhosa, nenhum gesto de afeto, nenhum milagre mudava o que a jovem sentia. Com o olhar vazio, sem vida, Akane fitou Lília.

    — Por que vocês me impediram? Por que você usou sua Manifestação em mim? — ela respirou fundo e olhou para a mão direita. — Eu poderia ter salvado o Kamito se vocês não tivessem me impedido. Ele poderia estar aqui se não fossem vocês.

    O aperto no peito era forte, pesado. Akane segurou o pingente com carinho — ao mesmo tempo que o apertava com força. Era quase impossível conter a angústia, a raiva e, especialmente, a vontade de chorar.

    — Eu jamais me perdoarei pelo que aconteceu. Eu podia ser segurado a mão dele, mas não o alcancei. Eu vi o medo no olhar dele. Eu tinha que ter me esforçado mais… Eu fui fraca e agora ele pode… estar morto. — ela socou o chão e desviou o olhar.

    — Você não podia salvá-lo, Akane. Se tivesse pulado daquela ponte, os dois estariam mortos. Não se cobre nem se culpe, muito menos tente acabar com sua vida porque ele se foi. Acha que o Kamito iria querer isso? — Lília se levantou com um olhar triste e pensativo, e se virou para o lago. — Se recomponha. Tire essa maquiagem borrada do seu rosto e essa tinta do cabelo. Depois disso, fale com os outros.

    — Se fosse simples… Você já o trata como morto e quer que eu me recomponha? O que vem agora? Mais uma missão? Quem nos deixará da próxima vez? Desde que chegamos, eu perdi meus amigos e o meu namorado, e para quê?!

    Lília a encarou com surpresa, e vergonha, pois não sabia como responder. Akane se levantou e se aproximou, sem desviar o olhar

    — Não vá achando que eu sou uma ferramenta ou que sou obrigada a obedecê-los cegamente. Vocês me impediram de salvá-lo e querem que eu haja naturalmente? Isso é uma brincadeira de mal gosto? Onde está a graça nisso?

    — Não diga ou faça algo de que possa se arrepender. — Katharine interrompeu, já se aproximando com um olhar sério. — Não desconte sua raiva nela. Lília fez aquilo para te poupar e te salvar. Foi um choque para todos a forma como ele se foi. Essa mulher evitou que você desperdiçasse a sua vida.

    Ela estava bem irritada. Mas, em vez de bater na garota, ela a abraçou.

    — Eu sinto muito, Akane. Sinto muito mesmo pela perda e pela sua dor. Dá para ver que você o ama com todas as suas forças, mas você não pode se tornar o inverso de quem você é por causa disso. Sabemos que esse não é o caminho certo.

    — Eu… Eu só queria ele aqui, comigo. Eu queria proteger ele, como prometi. Ele sempre me protegeu e cuidou de mim. Eu queria poder fazer o mesmo ao menos uma vez. Por que ele teve que me deixar? Eu não consigo parar de pensar na cena de ele caindo… — ela segurava a vontade de chorar, podia sentir um nó se formando na garganta. — Isso dói, isso dói muito. Eu me sinto uma inútil sem ele por perto, eu não queria ter acordado. Se eu soubesse que doía tanto, eu nunca mais acordaria. Eu… Eu não consigo. Eu não suporto essa dor e essa tristeza que me toma.

    — Eu sei… Sei como dói e como você se destrói por dentro, aos poucos, enquanto perde a vontade de viver e de ser feliz. Eu me senti assim quando perdi meu irmão mais velho há muitos anos. Eu era só um pouco mais velha do que você quando ele se foi, e eu me lembro de cada detalhe até hoje. — Katharine acariciava os cabelos da jovem e fechou os olhos.

    De alguma forma, que Akane não sabia explicar, aquela mulher parecia mesmo entender e compartilhar sua dor — não era apenas um discurso motivador. Ela então olhou para o céu, replicando um hábito do sobrinho que ela mal pôde conhecer.

    — O Kamito estará sempre em nossas memórias. Não perca as esperanças, Akane. Eu tenho certeza de que uma hora isso passará.

    — Akane, agora você precisa ser mais forte do que nunca. Você precisa suportar essa dor. As coisas não estão boas, nem para você, nem para nós… — disse Lília.

    Seu olhar dizia algo a mais. Ela parecia saber de algo, mas não queria contar. Ela então bagunçou sutilmente o cabelo da jovem e sorriu para tentar disfarçar. Contudo, Akane pôde sentir perfeitamente a energia dela estremecer.

    — Espero mesmo que ele não esteja morto. Ele não pode morrer.

    Após mais algum tempo com elas, Akane terminou a sós outra vez, sem saber o que fazer, o que pensar e com quem falar. Ao seu redor, os outros faziam algumas atividades como vigiar o local e acender uma fogueira. Ela foi até o lago, se agachou próxima à margem e encarou o próprio reflexo. Gostava do que via? Logo o desfez quando passou as mãos pela água para lavar o meu rosto.

    Ela limpava a maquiagem borrada enquanto tentava ignorar as memórias da noite passada, por mais difícil que fosse. Após remover a maquiagem, molhou o cabelo parar tirar a tinta branca. Os fios, vagarosamente, retornando à cor original.

    Faltava algo.

    Akane respirou fundo e pegou, em seus pertences, o kit de tinta.

    Minutos depois, encarava seu reflexo, agora com uma adição: uma mecha azul, do lado direito. Um pequeno símbolo em homenagem ao Kamito. Após se levantar, olhou ao redor. Nenhuma novidade.

    Solum e Coruja vigiavam duas pessoas: uma mulher estranha e o Político. Só ver o rosto do homem bastou para a raiva possuir o corpo da garota. Caminhou na direção deles sem medir as consequências, mas parou quando alguém tocou sua mão direita. Eram apenas Camily e Helenae, com seus jeitos meigos de ser. Podiam estar agindo por bondade, mas também estavam a impedindo de cometer um enorme erro.

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