O sangue negro de Marduc emergiu fino de onde a faca perfurou seu peito. Em um último suspiro ele engasgou, eu o beijei, meus lábios foram manchados pela seiva de ébano. O quarto ia aos poucos esfriando. O ar vinha gélido por baixo da porta, junto da luz que era escondida por uma sombra crescente. Um soldado abriu a porta, eu desci da cama, o outro guarda tomou no colo o cadáver. A expressão do corpo frio de Marduc era serena, pacífica… encarava o que quer que estivesse à sua frente com ternura, seu último olhar tinha sido para mim.

    Ofereceram-me banho, aceitei. No salão já havia pronto uma banheira, e um homem disposto a limpar-me. Pus primeiro o pé esquerdo dentro da água, estava morna. O esfregador passou o sabão por todo meu corpo, suas mãos eram magras e ásperas; arranhavam meu corpo como uma lixa. A água, por alguma razão, me sentia completo nela. Como se fosse minha extensão. Quando a mão do homem descia na água para esfregar minhas partes, era como se sua mão penetrasse na minha pele. Um arrepio que sentia, seja pelas mãos do homem, ou pela nesga de ar frio que corria pela sala. A água tremulava forte nesses momentos. Tentei fazer com que emergisse um pouco dela, e ela subia por uma espiral como um redemoinho que subia. E fiz com que subisse até o teto. Quando o tocou, a torre se desfez e a água caiu molhando os arredores da banheira.

    Assim que meu banho terminou, o homem pegou uma navalha e fez-me a barba, depois retirou os pelos do meu corpo. Passou um óleo, perguntei o que era, e respondeu que servia para hidratar a pele e fazer com que os pelos demorassem para crescer novamente. Trouxeram-me uma camisola, e ela cobriu-me dos ombros até os joelhos. Havia um espelho em frente, a marca de meus lábios não saia, o último beijo ficou eternamente marcado em mim…

    Mundo conforme visão de Fidel:

    Faz algum tempo que Piscis entrou correndo pela cidade como um louco. Eu e Naarus estamos em frente a ela, sentados sobre as raízes sobressalentes de uma árvore seca fora dos limites da cidade e de seu fedor. De longe, é possível ver a torre. Nuvens negras se formam e raios caem em torno dela, algumas criaturas tentam escalar as paredes externas, mas são atingidas pelos raios.

    — Nós deveríamos ir embora… — Disse Naarus, que desenhava algo no chão.

    — Temos que esperar pelo Piscis — Respondi.

    — E por quê? Ele matou Higgs e se jogou pela cidade sem se importar conosco! — Bradou Naarus, quebrando o galho que servia de pincel — Aquela aberração pode estar morta nesse momento, esperar que ele volte pode acabar sendo inútil…

    — Então vá, eu vou ficar esperando…

    — Eu deveria, mas não consigo me imaginar sobrevivendo lá fora sem você.

    — Penso o mesmo a respeito de Piscis — Disse, olhando para a torre — Acho que só ele poderá nos defender nessa jornada…

    Mundo conforme visão de Piscis:

    Foi preparado um funeral para Marduc no topo da torre. Os ventos fortes haviam se dissipado, os raios atingiam o solo ritmados como um soneto. Seis clérigos estavam em torno de um altar de calcário, e o corpo do demônio estava sobre ele. O perizônio escondia sua nudez maculada.

    — Servos, nossa serventia tomará nova forma! — Bradou o sétimo clérigo — nosso senhor não morreu! Sua santidade não pode ser morta!

    Soldados me guiaram para o centro de um círculo, havia um entalhe no altar e a mão de Marduc estava sobre ele, apontava para mim.

    — Nosso senhor apenas irá se apossar de uma nova criatura — Dizia o clérigo, enquanto tomava o punho de Marduc — O escolhido, o que recebeu o sinal e a semente do senhor! Ele será seu novo corpo sagrado.

    O clérigo cortou o pulso do demônio, o sangue negro correu pelos entalhes, desceu ao canal e preencheu o círculo em que eu estava. Eu sentia a intenção do sangue. Ele se movia em ondas de correntes opostas. Então começou a borbulhar na medida que os sete clérigos faziam suas orações. Logo ele emergiu em fúria, formando um domo em torno de mim. Toquei naquelas paredes negras, e estava quente, pulsando. O atravessei, e estava novamente naquele lugar escuro iluminado somente pelas minhas cicatrizes.

    Mundo conforme visão de Fidel:

    Um calafrio me atingiu, algo de ruim estava para acontecer com Piscis. Minha preocupação só piorou na medida que vi uma enorme mancha negra se formando no topo da torre. Pude ver, aquilo era obra de um poder tão horrendo que me deu náuseas. Olhei para o céu, procurando a lua e meu senhor.

    — Por favor! Ó Lunus, ouça-me, eu o vejo, sei que não está adormecido — Orava, pondo-me de joelhos — sei que suas súplicas estão voltadas para o propósito maior, mas imploro que ao menos me escute uma vez… Peço-te, proteja Piscis!

    Naarus me fitava de canto, achando que eu era um louco. De fato, talvez eu fosse, desde que observo o Titã na lua, tenho o ouvido pedir misericórdia intercedendo por alguém. Mas quem? Será que ele poderia me ouvir, e interceder por mim?

    — Ó Titã da lua, aquele que guarda a humanidade durante a noite — Continuei minhas orações — Dê-me então a força para proteger Piscis e em troca me tome por arauto!

    Gritei alto, e não tive respostas. Ainda de joelhos abaixei minha cabeça desiludido, assim como nunca curou meu escalpo, também não iria conceder meu desejo de proteger quem amo. Suspirei, doce ar de decepção, olhei para lua uma última vez. Os olhos de Lunus estavam voltados para mim…

    Mundo conforme visão de Piscis:

    Escuridão, há muito tenho vagado sob seu manto. O vale da sombra onde reside a morte, eu, seu guerreiro escolhido, ando sob sua tutela pisando nos ossos daqueles que sacrifiquei em seu nome. Minha luz são as marcas que minhas vítimas deixaram. Meus lábios são o sinal da última vítima.

    “Fazemos o que fazemos por um propósito… matar é um pecado, mas guerreiros não devem ser punidos pelas consequências de um bem maior!” Disse Sagi.

    “Para quem dizia que deveríamos ir além do bem…” Respondi.

    “Você viu, o demônio tinha coração, mas ainda era um demônio. Ir além do bem é entender que toda história tem dois lados, e não de deixar de tomar partidos” Disse Sagi.

    “E cá estamos… hipócrita!”

    “Entender a balança não implica que devo me abster de um lado. Se pensa assim, deixe que essa escuridão te consuma, já que se você não escolhe uma luz, então é apenas um corpo vazio” Disse Sagi.

    Mais à frente, encontrei um menino nu. Era loiro com olhos verdes, magro de ver os ossos, branco de ver suas veias. Ele me chamou consigo e guiou-me para um lago. As poucas árvores escondiam aquele lago, e apesar de não haver lua no céu, seu reflexo estava na água. O menino entrou no lago e começou a se banhar. Eu fiquei observando, mas tive um desejo estranho e o segui. Ele se jogou de costas em meus braços, nossos corpos aquecendo um ao outro, minha intimidade o tocava. Eu o queria, eu, o mordi no pescoço e arranquei um pedaço. Assim que engoli, quis outro, e nesse ciclo, bebi seu sangue, mastiguei seus olhos, lambi seus ossos até que não restasse nada. O sangue que cobriu meu corpo, que corria de meus lábios manchados, tentei lavar com a água do lago, mas não saia. Eis que surgiu outro menino, esse com olhos e cabelos negros, ele começou a lamber o sangue em torno de meu corpo. Até que fiquei totalmente limpo.

    Ele se prostrou em frente de mim, lambia os próprios beiços, seu pênis estava ereto. O tomei no colo, e em meu ouvido disse: “me devore como o anterior, e então ficaremos juntos para sempre…” a voz era de Marduc. Eu ia devorá-lo, mas vi adiante a silhueta de Fidel. Larguei o menino e fui na direção dele. “Não me deixe! Sem você não serei completo!” gritou o menino. Fidel era uma luz, e atrás dele havia uma figura feminina. Me agarrei com ele, e a luz me levou.

    Saindo da escuridão, o domo se desfez. O corpo de Marduc estava deformando. Seus ossos estalavam, braços alongavam e agarravam os soldados. Ele então os levava à boca, ao invés de mastigar, os engolia inteiros. E conforme ia se alimentando seu corpo ia crescendo. Me escondi na escada, mas vendo que a situação tendi a piorar, desci as espirais até o andar do salão. A criatura tentava me pegar, suas garras atravessavam o teto, e não conseguindo me encontrar, espiou pelo buraco me procurando. A íris amarelada era enorme e me encarava furiosa.

    Eu dava passos curtos e lentos, temendo pela hora em que ela desceria pelo teto atrás de mim. Fiquei contra a parede, engolia seco e respirava fundo. Não sei se esses serão meus últimos suspiros…

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