Capítulo 687 - Inversão
Fernando havia acabado de jogar a Lança de Fogo, Raul e Lerona estavam atacando Deran de forma quase suicida e o Mago da Terra tinha um olhar de pavor nos olhos. Mesmo sendo um poderoso Mago, comparável a um Major, ele definitivamente não sairia ileso disso!
De repente, toda a sala foi iluminada por um forte brilho verde e Fernando, que estava com seu Disparo Neural ativo, viu tudo o que aconteceu a seguir como se estivesse em câmera lenta.
Dezenas de vinhas cheias de flores vermelhas surgiram do chão de concreto, das paredes e até mesmo do teto. Em uma única fração de segundo, todo o ambiente foi tomado por elas.
Fernando observou de forma aterrorizada, enquanto ele próprio era envolvido pelas vinhas. Lerona e Raul também foram, e até mesmo sua Lança de Fogo foi engolida por elas em pleno ar.
Sssssss!
O som das poderosas chamas sendo apagadas ao serem completamente isoladas num casulo pôde ser ouvido e, antes que todos os outros, exceto o jovem Tenente, pudessem entender o que estava acontecendo, já haviam sido totalmente dominados!
“Q-que porra!” Raul gritou ao ser erguido no ar, enquanto tentava se libertar. Sua espada havia parado a centímetros de Deran.
Do outro lado, Lerona, mesmo com seus poderosos Atributos, não conseguiu se mover, também tendo sido pega pelas estranhas vinhas floridas.
O sujeito baixinho, ao ver isso, respirou aliviado, quando olhou para a mulher sentada no sofá, que ainda mantinha um brilho verde em seus olhos.
“Desculpe por fazê-la lidar com isso, querida.”
“Tudo bem. Seria problemático se esse prédio fosse destruído”, a Eterna Viajante respondeu, com uma voz calma.
Ao sentirem o poderoso mana da mulher, bem como sua Magia de Flora que poderia facilmente contê-los, Lerona e Raul arregalaram os olhos.
Merda, nós nunca tivemos chance! Essa desgraçada, ela é uma Maga Sênior! O Capitão moreno pensou, rangendo os dentes ao perceber que havia subestimado totalmente seu inimigo. Em termos militares e de força, a Eterna Viajante não era diferente de uma General! Isso estava muito acima do que conseguiam lidar desde o início!
“Olha só para vocês, deveriam ver suas caras”, Deran falou, com uma expressão cheia de triunfo, então apertou seu martelo, enquanto olhava para Raul.
Swish! Bang!
O martelo atingiu o rosto do Capitão.
“Não faça isso!” Lerona gritou, quando mais uma vez se debateu, tentando quebrar as vinhas.
Após receber o golpe, Raul moveu levemente o maxilar, quando cuspiu dois dentes, misturados com uma boa quantidade de sangue.
“Porra, meus molares… agora eu não posso mais mascar chiclete”, o sujeito disse, quando sorriu, exibindo dentes cheios de sangue.
“Ria enquanto pode, seu desgraçado”, Deran falou, quando levantou novamente o martelo. “Agora, você vai dizer exatamente o que eu quero, ou…”
Ao ver o martelo erguido, a expressão do Capitão moreno encheu-se de medo.
“E-espera! Eu falo o que você quiser!” declarou, com uma voz assustada.
Os olhos de Deran se estreitaram, achando estranho que o sujeito se dobrasse tão facilmente, mas continuou.
“Quem mandou vocês?”
“I-isso…” Raul parecia hesitante, como se as palavras estivessem presas em sua garganta. “Quem me mandou aqui foi… a sua mãe, seu filho da puta! Hahaha!”
O sujeito baixinho franziu o cenho quando, mais uma vez, ergueu o martelo.
“Tudo bem, temos três de vocês, acho que posso matar um”, falou, quando seu martelo encheu-se de um Mana denso, dessa vez pronto para partir a cabeça de Raul no próximo golpe.
“Você tem certeza de que quer fazer isso, Deran?” Uma voz fria e indiferente soou, chamando a atenção de todos na sala e impedindo o sujeito de concluir sua ameaça. A fonte não era outra senão Fernando, que mantinha um olhar fixo no sujeito.
O rosto do homem baixinho era cheio de soberba, quando deu uma última olhada em Raul, entendendo imediatamente as intenções do rapaz pálido em desviar sua atenção, então aceitou fazer parte da brincadeira.
“E se eu quiser, Fernando? É verdade que você me surpreendeu com todo aquele ouro e também com aquela sua magia”, disse, se aproximando do rapaz pálido, com um sorriso presunçoso no rosto. Logo que estava bem na sua frente, então seus olhos se estreitaram. “Quem está por trás de vocês? Se me responder sinceramente, talvez eu te dê uma morte rápida.”
Anteriormente, eles haviam forçado o rapaz a ingerir uma Poção da Verdade, então, em tese, se houvesse algo a ser dito, teria sido naquele momento. Mas Deran suspeitava que a poção não havia realmente feito efeito corretamente. Essa era a única explicação para tudo que ele tinha visto.
O jovem Tenente não respondeu imediatamente, quando olhou para a Eterna Viajante.
“Vou perguntar isso uma única vez. Você está de acordo com tudo isso?” indagou, referindo-se à intenção de Deran de matá-los.
A mulher, de olhos verdes cintilantes, não respondeu, apenas observou o rapaz pálido com olhos serenos. Mesmo sem palavras, ela havia dado sua resposta.
Vendo isso, Fernando suspirou consigo mesmo.
Então é isso… Acho que não tenho escolha. Ao pensar até aí, seu olhar focou-se em Deran, quando moveu levemente o dedo em sua mão direita. Brakas, faça!
O sujeito baixinho estava prestes a dizer algo, quando algo surgiu bem acima da sua cabeça.
Os olhos da Eterna Viajante, que estavam calmos, mudaram ao ver isso.
Deran não viu o portal negro, mas sentiu um estranho mana surgir e assim que olhou para cima, vários tentáculos apareceram de dentro.
“Ahhh! Que coisa maldita é essa?!” gritou, aterrorizado, quando foi envolvido e puxado em um instante para dentro do portal negro.
As vinhas da Eterna Viajante tentaram agarrá-lo, mas pararam quando um dos tentáculos, com um grande olho, ficou para trás e lançou uma rajada de ar frio, fazendo-os desacelerar e congelar. Após isso, o último dos tentáculos adentrou no portal, desaparecendo por completo.
Lerona, que apenas podia observar, ficou completamente chocada, sem conseguir entender o que havia acabado de acontecer. Ao mesmo tempo, Raul tinha um olhar assustado.
Aquela coisa, como ela é tão forte?! perguntou-se, perplexo.
Anteriormente, quando Argos ainda trabalhava para os Lobos de Batalha e havia montado uma emboscada para Fernando, Raul havia o ajudado a lidar com alguns dos captores enviados. Naquela época, ele havia visto pessoalmente o Beholder domado pelo seu pupilo.
Apesar de achar aquilo extremamente bizarro, como a criatura parecia estar sob total controle dele, acabou fazendo vista grossa. Além disso, a coisa não parecia ser tão forte, logo não parecia uma ameaça real. No entanto, agora, ao ver o Mago da Terra, que havia dominado completamente, tanto ele quanto Lerona, sendo capturado num instante, fez com que ficasse em guarda.
A Eterna Viajante, que até então estava indiferente a tudo que acontecia, levantou-se do sofá, seu rosto num misto de terror e fúria, enquanto olhava para Fernando.
“O que você fez?!”
Em resposta a isso, o rapaz pálido, amarrado em vinhas, apenas sorriu levemente.
“Eu? O que eu poderia ter feito nessa situação?” falou, ao olhar para baixo e focar em todas aquelas vinhas floridas ao redor de seu corpo, o imobilizando completamente.
Sua resposta irônica fez as mãos da mulher tremerem levemente. Diferente de Deran, que gostava de debater e responder a provocações, ela não tinha interesse nessas coisas. Ainda mais quando a vida da pessoa mais importante para ela estava em risco.
Fernando também já tinha notado que ambos possuíam algum tipo de relação que ia muito além de mera subordinação e era por isso que estava confiante em usar um refém.
Com as mãos ainda trêmulas, a Eterna Viajante deu um passo em direção ao rapaz pálido.
“Aquela coisa… Aquilo é um Beholder? Como? Por que uma coisa como aquela estaria associada com Humanos?!” perguntou, ao lembrar-se dos tentáculos, com alguns deles com olhos em suas extremidades. De repente, um pensamento a atingiu, fazendo-a encher-se de terror. Talvez não houvesse nenhum Cavaleiro ou futuro Grande Mago por trás deles, mas algo ainda pior!
Ela odiava profundamente os Humanos e sabia o limite de suas maldades e, mesmo temendo por sua vida, nada disso se comparava ao terror que um Beholder poderia causar nela.
Tudo que os Humanos poderiam fazer era ferir seu corpo e tirar sua vida, mas os Beholders eram diferentes. Uma vez capturado por um, seu destino seria pior do que a própria morte.
Todos eles não passam de peões dos Beholders? concluiu, ao olhar para Fernando e para os outros dois Humanos. Se esse for o caso, faz sentido que minha Poção da Verdade não tenha funcionado na criança. Então tudo que ele disse era mentira?
Diferente da Magia de Controle ou Lavagem habitual dos Humanos, que possuía muitas brechas e fraquezas, os Beholders simplesmente eram mestres no controle da mente, tendo sido um dos motivos pelos quais, por algum tempo, dominaram uma grande parcela do norte. Sua Magia de Escravidão, que poderia transformar prisioneiros em servos leais, era verdadeiramente aterrorizante. Mesmo os Altos Elfos temiam sua Magia e até os Anões Marteladores, que possuíam boas relações com quase todas as raças inteligentes, não se atreviam a se relacionar com os Beholders.
Devido a essa poderosa magia, se Fernando estivesse sendo controlado, era lógico que a Poção da Verdade não teria efeito real, mesmo que estivesse agindo em seu corpo! No passado, mesmo as Legiões Humanas tiveram grande dor de cabeça para conseguirem identificar espiões enviados pelos Beholders, pois eles pareciam pessoas completamente normais e passavam na maioria dos testes mentais.
Como alguém bem vivida e que já havia visto de tudo, a Eterna Viajante conhecia bem o nível da ameaça e não ousou baixar sua guarda.
Fernando não respondeu às perguntas ou deduções, apenas a encarando.
“O que você quer?” A mulher indagou, olhando nos olhos do rapaz. No entanto, não era como se estivesse falando com ele, mas com outro ser que não poderia ser visto.
Vendo isso, o jovem pálido sorriu levemente, tendo uma ideia sobre o que se passava em sua cabeça. Não importa quais fossem suas deduções errôneas, contanto que isso lhe desse um trunfo, ele a usaria!
Além disso, inicialmente ele não imaginou que Brakas realmente seria capaz de capturar Deran, um Mago comparável a um Major! Ele não sabia se o sujeito estava com a guarda baixa ou se Brakas realmente já era tão forte. Independentemente do que fosse, aquela única aposta havia realmente salvado suas vidas! Tudo que ele precisava fazer agora era ter cuidado sobre quais seriam suas próximas palavras, pois tudo dependia disso!
“Primeiro, que tal me soltar? Podemos discutir melhor desta forma. Afinal, seria um problema se o Deran terminasse machucado, certo?” falou, de forma levemente ameaçadora.
A Eterna Viajante tinha seus olhos verdes sobre o rapaz pálido, incerta sobre quem estava falando com ela, o jovem Tenente Humano ou o Beholder?
Apesar de hesitante, o brilho em seus olhos diminuiu, quando sua Magia de Flora começou a recuar. Todas as vinhas com flores retrocederam, libertando os três Humanos.
Lerona segurou sua lança com firmeza, enquanto olhava para a mulher com cautela, ao mesmo tempo que alternava seu olhar entre ela e Fernando, confusa.
“Guarda isso, ruiva”, Raul falou, empurrando a lança da mulher para baixo.
Ele não sabia qual era o plano de Fernando, mas tinha certeza de que não envolvia uma luta. A disparidade de forças era simplesmente alta demais. Eles sequer conseguiram derrotar Deran, mesmo que tivesse aquele Beholder, duvidava que seriam capazes de subjugar uma Maga Sênior, comparável a um General.
Ao ser liberto, Fernando não respondeu a nenhuma das perguntas anteriores da mulher, apenas caminhou de forma despreocupada pela sala, passando a poucos metros dela. Então, foi até o pequeno sofá que havia sido arremessado para longe, virou-o, arrastou-o de volta à sua posição inicial e então sentou-se.
“Vamos recomeçar do início”, Fernando falou, espreguiçando-se no sofá, então moveu levemente sua cabeça, indicando que ela se sentasse.
A mulher fez como foi dito, quando se sentou à frente dele, o observando com seus olhos verdes límpidos.
Dessa vez, Raul não se sentou, ficando de pé, do lado esquerdo de Fernando, enquanto Lerona ficou do lado direito. Agora que ambos sabiam que a mulher era uma Maga de Flora Sênior, simplesmente não podiam mais baixar suas guardas.
“O que você quer?” A Eterna Viajante repetiu. Não era possível ver corretamente metade de seu rosto, mas seus olhos claramente pareciam sombrios.
“É frustrante, não é?” Fernando perguntou, com um rosto inexpressivo. “Ter sua vida ou a de pessoas importantes para você nas mãos de outras pessoas.”

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