Índice de Capítulo

    Até então, Fernando, Lerona e Raul eram o lado frágil, mas com apenas esse único movimento, o jovem Tenente havia virado o jogo. Agora não eram eles que precisavam temer, mas sim a Eterna Viajante, caso ela quisesse ver seu amante novamente com vida!

    Ouvindo a ameaça, um vislumbre de inteligência passou pelos olhos da mulher. Se o Erolder estivesse no controle total do rapaz, ele não usaria ironia dessa forma.

    Mesmo que Erolders fossem uma das raças mais cruéis de Avalon, eles também eram arrogantes, metódicos e dificilmente se rebaixariam a um comentário como esse. Na verdade, essas coisas sequer entendiam o que significava ‘uma pessoa importante’.

    Para a raça dos Erolders, só havia duas coisas que importavam: hierarquia e poder. Qualquer outra coisa como ‘afeto’ ou ‘amor’ era considerada uma fraqueza ridícula por eles.

    O rapaz, ele serve aquela coisa de livre vontade?! indagou-se, chocada.

    Como uma Medusa descendente dos Altos Elfos, que havia vivido e visto muitas coisas em seu longo tempo de vida, ela havia ouvido muitas histórias sobre os Erolders mais poderosos e lidado com alguns solitários fracos no passado e mesmo com o controle mental apurado dessas criaturas, havia aspectos que elas simplesmente não podiam fingir e sentimentos eram uma dessas coisas. Sendo assim, a única explicação para o que estava ouvindo era que Fernando servia à criatura por vontade própria! Isso era algo ainda mais bizarro do que um Erolder no meio de uma cidade humana.

    “Se machucá-lo, mesmo que eu morra…” A mulher declarou, seus olhos verdes encarando o rapaz pálido, cheios de fúria.

    Fernando não deixou se intimidar.

    “E então? O que vai fazer?” perguntou, com uma voz gelada e um olhar cheio de frieza. “Você pode matar nós três, mas será que consegue matar ‘ele’? Além disso, se tocar em nós novamente, garanto que seu querido Deran vai odiar ter te conhecido. Se tentar algo, você morrerá aqui, mas garanto que ele viverá por muito tempo.”

    Mesmo que parecesse desonesto usar um refém dessa forma, Fernando não se importava com isso. Em primeiro lugar, haviam sido eles que o atacaram primeiro e o fizeram por duas vezes! Não só isso, como mesmo a dupla sendo muito mais forte, ainda tinham usado meios baixos, como poções, venenos e ataques surpresa. Sendo assim, ele apenas estava pagando seus atos na mesma moeda.

    A mulher congelou com a ameaça. Ela sabia do terror que era ser o escravo de um Erolder. Apesar de não ter tido tempo de mensurar a força da criatura e ter algumas dúvidas sobre o nível de força dela, acreditando ter visto tentáculos de cor amarela que representavam o nível de um mero Airolder, não se atrevia a arriscar a vida de seu amado. Além do mais, Deran nunca seria tão facilmente pego por uma coisa desse nível, então, pela dúvida, optou por ficar em silêncio, mostrando subserviência.

    Vendo isso, Fernando assentiu, era isso que ele queria. Contanto que a mulher cooperasse, todos deveriam sair dali vivos.

    Brakas, prepare aquilo. O rapaz ordenou mentalmente à criatura.

    Sim, Mestre!

    Enquanto ambos, o jovem Tenente e a Eterna Viajante estavam em silêncio, Lerona não pôde deixar de observar Fernando atentamente.

    Afinal, o que está acontecendo aqui e o que era aquela coisa? Aquilo realmente era um Erolder? Por que algo assim estaria com o Fernando?! A Capitã se perguntou, cheia de ansiedade.

    Ela própria nunca havia visto um Erolder pessoalmente, mas havia ouvido inúmeros relatos sobre essas coisas e sobre o fato de viverem principalmente além das Montanhas de Fogo, guardadas pela Grande Legião Lothar, com pouquíssimos espécimes estando presentes no restante de Avalon.

    Nesse momento, a Maga Sênior, com seus olhos verdes, observou o jovem Humano sentindo que ele era uma verdadeira incógnita. 

    “Tudo que contou antes era mentira, inclusive sobre a criança Medusa?” indagou, com um olhar fixo, tentando ler seus pensamentos. Esse era o único motivo pelo qual havia deixado todos eles viverem. Se fosse o Beholder falando naquele momento, então eles haviam sido completamente enganados!

    “Você vai saber logo”, Fernando falou, com alguma indiferença.

    Medusa?! Lerona pensou, assustada. Ela nunca havia visto um Erolder por si própria, mas já havia lidado com uma Medusa. Essas coisas eram aberrações nascidas do cruzamento entre Humanos e Elfos e eram criaturas monstruosas, que poderiam destruir outros seres vivos apenas com seu olhar.

    Quando era uma Cabo, ela foi incumbida pelo Alto Comando de lidar com uma Medusa que havia sido avistada próxima de um vilarejo. Mesmo levando seu esquadrão inteiro, ela havia perdido oito homens, quase metade de seus soldados, durante uma perseguição de dois dias e, no fim, não conseguiu capturá-la, sendo obrigada a recuar. Aquela memória ruim, de um de seus primeiros fracassos, a atormentou por muito tempo. Então, ao ouvir sobre uma dessas coisas novamente, não pôde deixar de estremecer.

    De repente, ao olhar para Fernando, que havia se mostrado um gênio incomum cheio de mistérios, dúvidas encheram sua mente. Perguntas como: ‘ele realmente está do nosso lado?’ ou ‘ele é uma ameaça a Humanidade?’.

    Esses pensamentos causaram uma confusão em sua mente. Mesmo que estivesse atuando como guarda dele por pouco tempo, havia se afeiçoado ao garoto e queria protegê-lo e ver seu futuro. Mas agora tudo havia mudado. Se Fernando tivesse se aliado a outras raças, ele se tornaria extremamente perigoso no futuro. Sua Aptidão Absoluta e suas Veias de Mana Expandidas, quando combinadas, eram uma arma que poderia mudar totalmente o equilíbrio de poder de Avalon em poucos anos!

    Se as coisas realmente forem assim, eu simplesmente deveria… pensou, olhando para as costas do garoto, enquanto apertava sua lança com força.

    De repente, o portal negro apareceu acima da cabeça do jovem Tenente, quando um item foi lançado em direção à Eterna Viajante e ela o agarrou por reflexo.

    O que é isso? perguntou-se, franzindo levemente o cenho. Era um cristal vermelho imbuído em um estranho mana. Assim que focou sua mente no item e sentiu uma Matriz dentro, sua expressão afundou.

    Lerona que viu aquele portal negro novamente, bem como o cristal sendo lançado, tremeu levemente. Ela havia visto aquilo antes, quando tiveram que assinar os Contratos de Sigilo sobre os segredos de Fernando.

    Na época, achou que era apenas algum estranho item de armazenamento, o que não era incomum, já que muitos tentavam fazer versões melhoradas das Pulseiras, mas agora sabia que não era o caso. Algo vivia ali dentro, algo que acompanhava o rapaz pálido em todo lugar, uma coisa não-humana que poderia atravessar a Matriz de Defesa de uma cidade humana!

    “Você me toma como uma tola?!” A voz da Eterna Viajante soou, cheia de fúria, quando seu mana pressionou os três. “Acha mesmo que irei assinar um Contrato de Vassalo com vocês? Eu prefiro morrer!”

    Fernando forçou-se a se acalmar e não perder a compostura, mesmo com o poderoso mana fazendo-o sentir um aperto sufocante em seu peito.

    “Você é uma meio-elfa, então deve ser capaz de ler isso”, falou, indicando que olhasse com atenção o item em suas mãos.

    Dessa vez, não apenas Lerona, mas Raul também tinha uma expressão estranha em seu rosto.

    A Eterna Viajante é uma Medusa?! Ambos pensaram consigo mesmos, alarmados.

    A Capitã olhou para o sujeito moreno em busca de respostas, mas ao vê-lo tão surpreso quanto ela, percebeu que ele também não sabia de nada a respeito disso!

    A mulher apertou os olhos, assim como ele havia dito, ela tinha um bom conhecimento sobre a escrita élfica. Seguindo o conselho do rapaz, a mulher checou o cristal com cuidado. Assim que inseriu mana nele, várias palavras surgiram à sua frente.

    Isso não é élfico, é da linguagem anã? perguntou-se, franzindo o cenho. Ela entendia um pouco dessa escrita, mas não totalmente. Ao ler o conteúdo, sua expressão mudou.

    Em resumo, o contrato dizia que ambos os lados assinariam e, assim que o fizessem, estariam proibidos de se atacar, direta ou indiretamente. Não só isso, como não deveriam mentir um para o outro.

    O que está acontecendo? E só isso? A mulher perguntou-se, com uma expressão chocada pela simplicidade do contrato. Nesse momento, o rapaz pálido tinha Deran como refém e poderia ameaçá-la de inúmeras formas, mas só havia feito termos simples nos quais ele próprio também estaria sujeito! Isso não parecia fazer o menor sentido. Tem algum truque nisso? Alguma pegadinha ou jogo de palavras?

    “Isso é o que é, não tem entrelinhas”, Fernando falou, entendendo o que ela estava pensando.

    A Eterna Viajante olhou para ele de forma estranha. Por mais que duvidasse de suas palavras, leu e releu o que estava escrito e não encontrou nenhuma brecha prejudicial. Após pensar por mais algum tempo, suspirou, finalmente cedendo.

    Sem dizer nada, inseriu seu mana no cristal, então o jogou de volta para Fernando, fixando seu olhar nele. O acordo só seria válido se os dois lados firmassem o contrato.

    Fernando recebeu o cristal e inseriu seu mana sem qualquer hesitação, então jogou para Raul.

    O Capitão moreno olhou para o rapaz de forma séria, como se muitas coisas estivessem passando por sua cabeça, mas não demorou muito, quando inseriu seu próprio mana e jogou para Lerona.

    A ruiva segurou o item, com um olhar estranho. Não sabia quais eram as regras incrustadas nisso. O jovem pálido simplesmente estava fazendo as coisas como bem entendia, sem consultar ou pedir a opinião de qualquer um deles. Somado ao que havia ouvido sobre Erolders e Medusas, isso a encheu de desconfiança.

    “Capitã Lerona, acredite em mim”, o jovem Tenente pediu com uma voz sincera, sem virar seu rosto.

    Desde o início, Fernando estava com seu Disparo Neural ativado de forma ativa e conseguia perceber as frágeis mudanças no comportamento da mulher ruiva, seja sua respiração, batimentos cardíacos, tudo era visto e sentido por ele. Até mesmo sentiu uma forte sensação ameaçadora vindo dela em certo ponto, mas mesmo assim, nunca virou para olhar ou levantou sua guarda uma única vez. Se ele queria que os outros confiassem nele, deveria fazer o mesmo primeiro!

    A expressão da mulher ruiva era claramente desconfortável, como se estivesse decidindo sobre o assunto mais importante de sua vida.

    Isso, obviamente, não passou despercebido pela Eterna Viajante. Fazia algum tempo que a ruiva parecia estar aflita. Inicialmente, a Medusa não se importou, acreditando que deveria ser devido à tensão da batalha, mas quando foi mencionado sobre ela ser uma ‘meio-elfa’, tudo ficou ainda mais evidente. O Capitão moreno, apesar de tentar esconder, também não pôde evitar transparecer seu choque.

    Eles não sabiam de mim? A mulher perguntou-se, surpresa. Ao parar para pensar, notou algo ainda mais surpreendente, o que a deixou extremamente confusa. Talvez eles também não soubessem sobre o Erolder? O que está acontecendo aqui?!

    Fernando sabia que a Eterna Viajante era uma pessoa extremamente inteligente, por isso não poderia perder tempo dando dicas ou tentando explicar a situação para Lerona ou Raul, ou ela logo entenderia tudo. Além disso, ele sabia que a mulher possuía alguma forma de barrar as comunicações das Pulseiras, logo também poderia ter meios de interceptá-las. Por isso, não poderia se arriscar trocando mensagens e só poderia contar que Raul e Lerona confiariam nele, ou tudo estaria acabado. No momento em que a Eterna Viajante entendesse tudo, poderia acabar tentando algo num ato desesperado e esse seria o pior cenário possível, pois todos morreriam!

    Após uma longa hesitação e ao olhar para o rapaz pálido, que em nenhum momento havia olhado em sua direção, Lerona apertou o cristal em sua mão esquerda, inserindo seu mana.

    Talvez eu me arrependa amargamente disso, mas confiarei minha vida a você novamente, Fernando!

    Após Lerona assinar, logo o cristal vermelho brilhou, quando implodiu em inúmeros fragmentos que voaram em direção aos quatro, entrando em seus corpos e misturando-se ao Mana. O contrato havia sido firmado!

    A partir daquele ponto, nenhum deles poderia se atacar ou mentir, se um lado o fizesse, seria destruído!

    Com um leve sorriso, Fernando encarou a mulher nos olhos.

    “A partir de agora, vamos ter uma conversa em igualdade e com franqueza. Para começar, qual é o seu nome? O seu verdadeiro nome.”

    A Eterna Viajante foi pega de surpresa com a pergunta. Há muito tempo, ela havia adotado o título de Eterna Viajante, passando por inúmeras cidades e regiões, mas nunca havia revelado seu verdadeiro nome para ninguém, exceto aqueles mais próximos dela. Apesar disso, assentiu, pois o contrato estava em vigor.

    “Meu nome é Arayel”, respondeu, com uma voz fraca, como se temesse dizê-lo em voz alta.

    Ouvindo isso, Fernando assentiu. Esse nome não lhe remetia a nada, mas parecia ser importante para ela. Mas mesmo sentindo que tinha conseguido algo, não parecia ser suficiente, quando pressionou ainda mais.

    “Quem você é?”

    A mulher franziu o cenho, incomodada com a implicação da pergunta.

    “Eu sou a Eterna Viajante”, respondeu, hesitante.

    Fernando manteve-se com um rosto inexpressivo.

    “Sua verdadeira identidade! Quem é você?!”

    A Eterna Viajante apertou os punhos com força, espremendo o bordado de seu vestido branco em suas mãos. Ela não queria dizer, não se atrevia a dizer, mas não tinha escolha.

    “Você quer saber quem eu sou, garoto Humano? Então eu lhe direi! É melhor que não se arrependa!” falou, com uma voz quase estridente, que fez todo o local tremer, seus olhos verdes límpidos se iluminaram com um fulgor verde forte. “Eu sou Arayel, a primeira de minha raça e a mãe de todas as Medusas!”

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