Capítulo 129: Sobremesa
24 de maio de 2024, sexta-feira.
O clima primaveril já se mostrava em seus dias finais, com um calor crescente a cada dia nas temperaturas. Apesar disso, o ar era agradável. Pelo horário, o vento estava mais frequente e era possível ouvir o farfalhar de árvores próximas.
Já dentro de casa, o ar estava diferente: era um clima acolhedor, quentinho e sem aquela brisa refrescante. A sala iluminada era aconchegante e um leve aroma floral preenchia o ambiente, vindo de alguma essência.
Aki se reclinou no sofá, depois de já ter tirado suas sandálias e seus pés nus tocando o chão fresco. Victor também deixou os sapatos na entrada da sala e aproveitou a sensação refrescante que seus pés lhe proporcionaram ali.
Os dois começaram a conversar sobre o dia, sobre o evento, sobre os possíveis contratos e sobre Jeanne. A conversa durou alguns minutos, até que os dois ouviram alguns passos apressados.
TAP! TAP!
A garota se virou na direção do som, para encontrar sua irmã correndo em sua direção. Estava com um pijama rosa e com a toalha ainda em mãos. Seus cabelos estavam úmidos e colados no rosto.
— Irmãzona! Irmãozão! — exclamou, saltando no colo de Aki. — Que bom que vocês ficarão comigo!
Aki não conseguiu conter um sorriso.
— É verdade! Nós também adoramos a novidade quando ficamos sabendo. — Aki acariciou os cabelos ainda bagunçados.
— E o que vamos fazer nessa noite? Já está ficando meio tarde… — Victor falou casualmente, enquanto se acomodava no sofá, ficando próximo delas.
— Eu quero comer! — Haru falou, empolgada.
— Mas você já jantou, não?
A pequena fez beicinho, desviando o olhar.
— Já… mas eu estou com vontade de comer uma sobremesa… — comentou, inflando as bochechas.
Victor sorriu e se levantou do sofá, abaixando-se em seguida para ficar na mesma altura dela e colocando a mão no queixo, como se refletisse seriamente naquela questão:
— Eu tive uma ideia! E se formos buscar alguns Dorayakis? — propôs. Haru não conseguiu disfarçar a empolgação.
— Certo! Eu concordo! Vou me trocar. Me esperem! — respondeu, saindo correndo para seu quarto quase em meio a tropeços.
— Você não acha que assim está mimando ela? — Aki perguntou com falsa acusação.
— É claro que eu vou mimar ela. Ela é minha irmãzinha, afinal. — Ele respondeu num tom provocativo e se fingindo de inocente, erguendo as mãos.
Os dois riram e Haru apareceu pouco tempo depois, já com roupas mais casuais. Os três saíram de casa e foram até à praça onde a senhora Nanami vendia seus dorayakis.
…
— Então eu estava certa! — Nanami exclamou, com um sorriso genuíno.
— Mas na época, não estávamos namorando… — Aki tentou justificar.
— Vocês formam um casal muito bonito! — Nanami elogiou, enquanto entregava uma sacola com os dorayakis que foram pedidos.
Victor acabou se afastando das duas mulheres por causa de Haru, que o puxou até uma gangorra que tinha naquela praça.
— Irmãozão, você pode me empurrar?
Observando o sorriso fofo no rosto da garota, ele não pôde negar. Olhou de relance para Aki, que parecia muito distraída conversando com a sua velha amiga.
— Tudo bem. Vou te empurrar muito alto! Você aguenta?
— É claro que eu aguento! Afinal, já sou uma mocinha! — Haru respondeu prontamente, segurando-se firme nas correntes do brinquedo.
O brasileiro não conseguiu conter o sorriso que insistia em permanecer no seu rosto. Quando ele puxou o assento e soltou, viu a garota balançar com uma risada fofa.
Seu coração se aqueceu instantaneamente, porém, um vislumbre quase o desestabilizou, quando pensou: “Eu teria sido um bom pai para a Ayla?”. Sua mão tremeu e um gosto amargo surgiu em sua garganta.
“Não posso ficar assim! Não há como mudar o passado. Preciso seguir em frente!”
Ele se forçava a tentar superar o passado completamente, contudo, como uma força inevitável, sempre era atingido por memórias ou pensamentos. Naquele momento, ele sabia que não era o local ideal, não queria estragar aquele momento com a sua nova “irmãzinha”.
A dor, a angústia, o sofrimento, tudo que passou, tinha de certa forma um lugar na sua alma, fazia parte dele, mas não podiam ser mais que lembranças e parte de sua personalidade. Aquilo não podia atrapalhar o andamento de sua vida — não mais.
Ele empurrou novamente a gangorra, para que Haru fosse mais alto. Balançou a cabeça em negação e continuou a brincadeira, empurrando-a novamente, e novamente.
“Isso não vai mais me atrapalhar!” Ele determinou em pensamentos, quando enfim, conseguiu dizer algo:
— Quer ir mais alto?
— É claro! Está muito divertido!
A voz de Haru variou pelo vento, velocidade e distância e Victor novamente a impulsionou. Uma gargalhada foi ouvida e ela gritou animada.
Aki se aproximou enquanto os observava:
— O Victor com certeza será um ótimo pai! — balbuciou convicta, falando mais para si mesma do que para outrem.
Quando percebeu as palavras que acabavam de sair de sua boca, ela tapou-a, sentindo seu rosto esquentar ligeiramente. “Boba…”
Com mais alguns passos, finalmente suas mãos tocaram as de Victor, que apenas observava Haru desacelerar lentamente, para irem embora.
Após algumas palavras, a gangorra parou e Haru desceu, correndo até o brasileiro e exclamando coisas animadas, como: “Foi muito divertido!”. Aki tentou conter a irmã mais nova e Victor disse que não precisava disso, enquanto acabaram rindo da situação.
Depois que chegaram, finalmente foram comer as sobremesas. Sentaram-se à mesa e cada um pegou o seu. Enquanto estavam comendo, teceram elogios ao sabor delicioso deles.
Haru ainda insistiu para eles assistirem um filme antes de dormir. Após um breve diálogo, o casal acabou aceitando.
…
Quando Victor percebeu, Haru estava dormindo, deitada no colo de Aki. E Aki, encostada em seu ombro, também cochilava. Somente ele estava assistindo a essa altura.
“O filme até que é interessante…” ele pensou, em brincadeira.
O filme acabou e ele cutucou Aki, chamando-a. Ela acordou, sonolenta. Ficou decidido que Victor carregaria a pequena até seu quarto, com Aki o acompanhando. E assim fizeram.
A cobriram na cama e saíram do quarto. Victor checou as horas e já estava tarde. Aki então ligou para o Sr. Yamada, seu pai. Para a surpresa deles, ele informou que ainda levaria um tempo até que chegassem em casa.
— Acho que vamos acabar dormindo aqui de novo, né? — Victor comentou, despretensiosamente.
Aki sorriu em resposta.
— Deve ser alguma brincadeira do destino, de novo…
— Você quer fazer alguma coisa?
— Outro filme? — respondeu em tom de brincadeira.
— Passo. Você vai acabar dormindo de novo.
Ele provocou com um sorriso e ela desviou o olhar, mexendo numa mecha de cabelo com o dedo indicador.
— Estou muito cansada dessas últimas viagens. — murmurou em resposta, espreguiçando-se. — Mas eu quero ficar aqui com você.
Seu olhar carregado de manha encarou os olhos quase pretos de Victor, que pôde contemplar aquele par de jóias cintilantes em sua direção.
— De qualquer forma, acho melhor você deitar no quarto com a Haru. Seus pais podem entender algo errado se acabarmos dormindo aqui no sofá.
Aki fez beicinho, mas era uma decisão justa.
— É, eu só queria ficar mais um pouco…
— Tudo bem. — Victor avançou e envolveu ela com um dos braços, enquanto recostava no sofá. — Vamos ficar assim por mais tempo.
Em seguida, a beijou. Ela se surpreendeu com a atitude repentina, porém, com uma sensação reconfortante no peito. Aki apenas fechou os olhos e se entregou ao gesto apaixonado.
Não sabiam dizer quanto tempo havia se passado; a sensação era de que tudo estava parado em volta, como se apenas os dois existissem naquele lugar.
O calor, o perfume, a sensação ao toque de lábios e pele, tudo misturando ao sentimento acolhedor e caliente que se intensificava. Borboletas no estômago ou frio na barriga não era o suficiente para mensurar tamanha intensidade do que sentiam.
Aquele momento aparentemente simples se tornou intenso, fervoroso, despertando sensações que somente eram sentidas em outros momentos bem específicos.
Não era necessário dizer nada, nenhuma declaração. Aquele beijo falava por mais de mil palavras; aqueles toques eram bem mais expressivos do que qualquer poesia.
Nessa onda de paixão e entrega, o celular de Aki tocou, os arrebatando daquela dimensão paralela em que estavam. Ainda assim, parecia muito difícil afastar os lábios. Como se estivessem sendo atraídos por um ímã invisível e extremamente poderoso. Aki ajeitou sua postura, relutante, sentindo seu rosto corar. Ela atendeu. Era sua mãe.
— (…) O evento já está se encerrando, filha. Acho que não vamos demorar para chegar…
Dentre outras palavras, essas foram as mais importantes daquele momento. Ela repassou o recado para Victor, que assentiu, também sentindo seu rosto arder levemente. Quase extrapolaram — se já não pudesse ser considerado isso — ali.
Aki decidiu ir deitar no quarto antes que as coisas se intensificarem de novo. Quando se levantou, Victor a observou caminhando até a porta. Ela deu uma última olhada para Victor e sorriu. Ele retribuiu. Então, deitou-se no sofá e começou a mexer no celular.
Antes de bloquear o aparelho, recebeu uma mensagem de Aki e ao abrir, era uma imagem que ela enviou, com uma frase:
[ Um presente pelo momento que tivemos agora. ]
Era uma foto de Aki na frente do espelho, usando um vestido azul, enquanto fazia biquinho e com o dedo indicador na bochecha.
[ Tirei essa foto fazendo essa pose de brincadeira, mas acabei salvando a foto. E… acho que você pode gostar… ]
A frase foi seguida por um emoji de um gatinho tapando o rosto com vergonha.
O coração dele saltou, não esperando isso.
“Que noite cheia de surpresas, eu acho…”
Ele ponderou, em pensamentos, quando respondeu com algumas mensagens provocativas. Trocaram textos e emojis por mais um tempo, até que Aki parou de responder e ele concluiu que ela já havia adormecido.
Victor bloqueou o telefone e espreguiçou, enquanto divagava olhando para o teto.

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