Índice de Capítulo

    Era uma segunda-feira terrível.

    Mas, qual segunda-feira era boa? A única possibilidade do primeiro dia da semana ser bom, pensando bem, é a em que todos os dias restantes são feriados.

    Ele observava o professor careca, que gesticulava de forma engraçada, desengonçada, falando sobre a primeira vez em que ele recebeu dez mil reais como engenheiro.

    Interessante, né? É muito empolgante ouvir uma pessoa falando sobre algo bom, como se tivesse sido ruim. Talvez o processo tenha sido difícil, sim, mas ruim? Dez mil reais? Ninguém se convenceria.

    Ele tentava relacionar essa experiência “complicada” com uma lição de moral. E, bem, como em todas as vezes em que ele tentou fazer isso, acabou em um relato de experiência.

    Um monólogo, uma história de boteco, quase. Empolgante. Definitivamente o auge de uma faculdade federal. Nada poderia ser melhor que isso.

    Seus olhos rolaram para a esquerda, parando nos rostos de cada um dos seus colegas. Dois deles prestavam atenção. Quer dizer, estavam “olhando” o professor. A mente deles estava em outro lugar, provavelmente.

    O barulho dos carros vinha do fundo, os pneus dançando no asfalto. Grilos cantavam aqui e ali, mas a música ambiente era o ronco interminável do ar-condicionado.

    O professor continuava o blá blá. Nada com coisa nenhuma, um “comentário” sem fim. Definitivamente uma experiência humana.

    O garoto, suspirando, pensou em sair da sala. Queria ir para casa, para qualquer lugar. Qualquer lugar que não esse. Era final de período, por que levar a sério?

    O problema era que muitos problemas se empilhavam dia após dia, numa centopéia humana de problemas enfiados um no outro, numa ciranda diabólica.

    A receita da loucura.

    “Caralho”, pensou ele, “o desgraçado vai continuar com isso?”

    Agora ele mostrava a planta de uma casa em que estava trabalhando. A história dos dez, cem mil na conta, rolava solta. O mesmo conto de sempre.

    O garoto queria que a vida dele fosse uma história. Uma novel, um mangá, um filme ou qualquer coisa assim, com uma estrutura. Um roteiro. Uma jornada do herói em que, estando no Mundo Comum, um Chamado à Aventura o tirasse dali.

    Mas, claro que as coisas não funcionavam desse jeito. Nunca iriam. A realidade era prática. Não era cruel, era concreta. Não havia nada esperando no fim do arco-íris.

    Se Deus existisse, ele se perguntava se ele fazia algum esforço para dizer que existia. Alguém poderia dizer que o próprio mundo era a prova disso.

    Se essa era a prova, então não tinha o que se discutir. No entanto, ele não estava convencido. Ele dizia ser cristão, mas a fé era meio vaga.

    Para não dizer vaga, era uma tentativa. Um esforço de acreditar. Tudo seria mais fácil se ele simplesmente acreditasse, mas até isso faltava a ele.

    “Que merda.” 

    Ele ainda precisava fazer uma prova, apresentar um seminário e, como se não fosse o suficiente, enfrentar um dragão. Dragão esse que tinha PHD e cinco quilotons de má vontade.

    O futuro era sombrio.

    E realmente era sombrio porque, ao chegar em casa, seria coberto por escuridão. Alguma coisa aconteceu na fiação, e ele vivia sem luz.

    Sua geladeira havia criado asas, a botija de gás voou com ela, e o fogãozinho, inutilizável, acumulava teias de aranha. O único cômodo com luz era o quarto dele.

    Ah, e o ar-condicionado havia queimado.

    “Eu só queria um fone.”

    Ele estava morrendo de vontade de ouvir The Cure. Aquela melancolia post punk do século passado, por alguma razão, dava um fôlego a mais.

    Depois de balançar a cabeça, percebeu que seus colegas estavam discutindo. Aparentemente o assunto era uma certa professora.

    Ele também não gostava dela.

    Ela ficou ausente por motivos familiares, e sua disciplina começou praticamente no meio do período. Além de ser exigente e irredutível, aquela mulher queria estender a disciplina até setembro.

    Se ele fizesse um comparativo, ela e sua orientadora estavam no mesmo nível de “fazer da minha vida um inferno”. 

    — Ela não pode fazer isso — disse uma colega, que era professora de história em uma escola ali perto. — Ela não tem essa liberdade toda.

    — É, mas ela precisa cumprir a carga horária dela. É o sistema, não tem o que fazer — respondeu o representante de classe. Não que ele estivesse defendendo ela, inclusive.

    — Sistema ou não, eu espero que ela dê um jeito. Eu é que não quero ficar aqui até setembro.

    — …Mas o sexto período….

    — Eu sei. É, realmente. Reformulando, eu não quero viver o sexto período, com esse fantasma do quinto.

    — Eu também.

    Todos ali tinham problemas. A universidade era quase um ponto de encontro de gente com a vida ao avesso, todos tentando arrumar um diploma e disputar melhor no mercado.

    Todo mundo sabia, no entanto, que isso não importava muito. Não naquela cidade em que estavam. Afinal, era uma cidade no fim do mundo, com quilômetros e quilômetros de floresta a isolando de tudo.

    Mesmo que fosse uma cidade portuária, com uma estrada que a ligava diretamente à capital, o diabo daquele município se acabava em politicagem.

    Você não precisava de diplomas. Pouco importava se você era médico de verdade, um advogado com uma carteira da OAB ou um técnico de TI com Python e COBOL no currículo.

    Bastava você encontrar o político certo, descer o zíper e fazer vuco-vuco com a boca e pronto. Você estava feito na vida. Dignidade? Ninguém ligava para isso.

    A vida era muito, muito fácil, se a sua honra não tinha valor sentimental para você. Para quem não tinha nada, perder isso não doía tanto.

    Se é que doía.

    Era uma droga. Era definitivamente ruim pensar esse tipo de coisa. Era como se afogar numa piscina. 

    Ele não queria afundar tanto, mas a melancolia fluia como um rio em sua mente. Era turva e nítida, fria e quente. Era confusa e, de algum jeito, compreensível.

    Talvez isso era o que significava ser humano. Talvez fosse idiota, uma espiral de auto-piedade que não daria em lugar nenhum.

    O engraçado era que, mesmo que ele pensasse tudo isso, nada estava acontecendo. Afinal, quando você para pra pensar, você pensa parado.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota