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    Uma hora antes da vitória de Aya e Elian sobre os Abutres Carniceiros no Hexacúpula — Áurea: Sala de reuniões gerais da Trion.

    Aura caminhava pelos corredores brancos quieta.

    Seus passos, controlados e firmes, ecoavam a cada toque contra o chão. Não havia pressa em seu semblante, tampouco calma.

    As luzes artificiais no teto lançavam um brilho frio e constante, refletindo no piso polido como um espelho opaco. O ambiente era tão limpo, tão perfeitamente organizado, que beirava o artificial.

    E isso, para Aura, era o que tornava aquele lugar ainda mais desagradável.

    Ela mal se dava ao trabalho de olhar para os lados. Já conhecia aquele trajeto como a palma da mão.

    Portas seladas com painéis luminosos, interseções idênticas entre si e linhas azuis discretas percorrendo as paredes como veias energizadas. Tudo permanecia igual ao que sempre fora. Não importava se era a Áurea de hoje ou de décadas atrás.

    A velha comandante mantinha as mãos atrás do corpo, a postura impecável e o olhar fixo à frente.

    Mas sua mente estava longe dali.

    “Veltor. É incomum que ele requisite oficialmente uma reunião entre os Pináculos da Trion. O que pode ter acontecido?”

    O som de seus passos diminuiu gradualmente, até cessar por completo.

    Diante dela, erguia-se uma porta diferente das demais. Maior, mais espessa, com linhas azuis brilhantes que cruzavam sua superfície metálica e uma pequena tela de reconhecimento ao lado.

    Ela a observou por um breve momento.

    “Seja o que for, espero que a ausência de Kael não seja um problema.”

    Com tranquilidade, levou a mão direita ao painel lateral. Imediatamente, uma voz robótica reverberou pela estrutura ao redor.

    Seja bem-vinda, Aura Silvani, Pináculo da Experiência, à base de reuniões gerais.

    A porta se abriu suavemente, revelando o vasto interior.

    O ambiente era amplo, mas diferente das salas de comando individuais dos comandantes, ali, tudo era otimizado para eficiência. Cada detalhe existia para poupar tempo e maximizar a praticidade.

    No centro, sobre uma gigantesca mesa triangular, um mapa tridimensional flutuava no ar, projetando com precisão absoluta toda Áurea, incluindo rotas subterrâneas, ruas secundárias, as cinco zonas e áreas classificadas por nível de risco.

    Ao redor do mapa, estruturas metálicas formavam um anel, repletas de painéis que exibiam dados em fluxo contínuo. Códigos, relatórios, atualizações em tempo real.

    O ar era gélido, tão denso que chegava a dificultar a respiração.

    Em cada uma das três extremidades da mesa, uma grande cadeira se destacava, iluminada por feixes de luz direcionados.

    E em uma delas, já sentado, estava Veltor Dragan, com as pupilas fixas na mulher parada à entrada.

    Após observá-lo por alguns segundos, Aura entrou, avançando em passos firmes pelo interior da sala. O som leve de seus calçados rompeu o silêncio que dominava o ambiente.

    Parou diante de uma das cadeiras e, mantendo a postura impecável, sentou-se sem alterar a expressão.

    — Boa noite, Aura. Obrigado por comparecer. — disse Veltor, o Pináculo da Estratégia. Sua pele morena contrastava com o terno elegante, enquanto a cabeça completamente calva refletia a luz com exatidão. — E o Kael? Vai demorar?

    — Boa noite. — respondeu Aura, com sua voz rouca e firme. — Infelizmente, soube que Kael não poderá comparecer.

    Um leve sorriso surgiu nos lábios de Veltor.

    — Entendo. Há algum motivo em especial para sua ausência?

    Aura repousou as mãos sobre o colo. Seus dedos se pressionaram firmemente.

    “Não posso mencionar o sequestro nem a ida de Kael ao Hexacúpula. Mas também não posso mentir. Veltor tem recursos suficientes para descobrir qualquer mentira improvisada.”

    Seu maxilar se contraiu, ainda que sua expressão permanecesse inalterada.

    — Não que eu saiba…

    — Certo. — respondeu Veltor, recostando-se na cadeira. — Nesse caso, seguindo o protocolo, as decisões desta reunião dependerão apenas de nós dois, correto?

    Aura estalou a língua.

    — Sim. — fitou para baixou por um instante. — “Ele parece satisfeito com a ausência de Kael. O que você está tramando, Veltor?”

    — Muito bem. Serei direto quanto ao motivo desta reunião. — o velho comandante apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos. — Por que vocês designaram uma missão tão importante quanto o reconhecimento da Fracture sem a minha participação?

    Aura engoliu seco.

    “Droga. Escolhemos essa missão como a primeira do Louie e da Aya por ser apenas um reconhecimento. Ao analisarmos a cela onde Louie foi mantido, encontramos estruturas semelhantes na Zona Leste, uma área sob opressão da Fracture. Parecia o mais lógico agir sem alarde.”

    Ela ajustou sutilmente a posição na cadeira, descruzando as pernas com calma.

    — Pedimos desculpas, Veltor. Não pensamos que havia necessidade de convocar uma reunião apenas para um reconhecimento. — suspirou, relaxando levemente os ombros. — Mas isso me intriga, por que tanto interesse nisso?

    O homem riu de leve, os olhos confiantes cravados nela.

    — Fico feliz que Kael não esteja aqui. Caso estivesse, não poderíamos falar com tanta liberdade. Afinal, por algum motivo você prefere manter isso em segredo dele. — ele aproximou um pouco mais a cadeira da mesa. — Estava relembrando a nossa última conversa, e me recordo de você comentar que pretende se aposentar, não foi?

    A mulher suspirou.

    — Sim. — respondeu ela. — É verdade que penso sobre me aposentar em breve.

    Suas pupilas, antes firmes mesmo sob tensão, agora se abaixaram, carregadas de um pesar solitário.

    — O mundo Kaelum é um lugar perigoso, cheio de perdas. Em todos esses anos, aprendi isso da pior forma. Perdi amigos, irmãos, meu aprendiz, meu marido e até mesmo… meu filho.

    Ela abriu a mão lentamente diante de si, observando a própria pele marcada pelo tempo.

    — Kael foi o único que restou. E, mesmo sabendo que ele me apoiaria independentemente da minha decisão, eu ainda me sentiria uma covarde. Como se estivesse apenas fugindo do que ainda está por vir. Da chance de vingar meu pupilo desaparecido. — sua voz saiu baixa, porém, mais pesada do que nunca. — Por isso, pretendo manter isso oculto dele até ter certeza. Até sentir que posso, de fato, deixá-lo assumir tudo. Inclusive meu lugar como Pináculo da Experiência.

    — Entendo. — disse ele, com um leve aceno de cabeça. — É uma decisão nobre. Tenho certeza de que meus falecidos pais, Odrik Dragan e Lysandra Dragan, ficariam orgulhosos de você por ter cuidado tão bem de Kael.

    — Certo… acabei me desviando do assunto principal. — Aura inclinou levemente a cabeça, a visão estreitando com atenção. — Em que exatamente a minha aposentadoria interfere no desenrolar disso?

    O sorriso de Veltor surgiu devagar, quase calculado, refletindo na superfície lisa de sua cabeça sob a luz fria.

    — Em tudo. — ele se recostou, unindo as mãos sobre o colo. — Se Kael assumir o seu posto, o cargo dele ficará vago.

    Aura levou os dedos ao queixo, pensativa.

    — Então você está planejando ir preparando o próximo Pináculo da Força… — Aura ajustou calmamente a cabeça, encarando ele. — mesmo sem eu ter decidido me aposentar ainda? Pretende me tirar do cargo antes da hora?

    Veltor não recuou. O semblante confiante permaneceu no rosto.

    — Nunca faria isso. — sua voz saiu estável. — Estou apenas preparando o terreno. Quando a decisão vier, Áurea não pode ser pega desprevenida.

    Ele fez uma breve pausa, então continuou:

    — Há três principais nomes: Arin, a Tempestade. Elian, o Névoa Invernal. E Jax, o Escudo de Áurea. — sua expressão se manteve firme. — Vê algum problema?

    Aura negou de leve.

    — Não. — cruzou as pernas com precisão. — Arin é o maior poder destrutivo entre os Vigilantes. Jax, considerado o mais forte de sua geração, domina o combate direto como ninguém. E Elian… é capaz de mudar o rumo de uma guerra sozinho. Os três são, sem dúvida, as armas mais letais que Áurea tem à disposição atualmente.

    Veltor assentiu, satisfeito.

    — Ainda assim, somente poder bruto não é o suficiente para sustentar uma posição tão elevada quanto a de Pináculo. — inclinou-se à frente, sua voz saindo mais baixa. — Infelizmente, percebo a falta de algo em Arin, que sobra nos outros dois.

    — Confiança e tomada de decisões. — completou Aura, sem hesitar.

    As palavras trocadas entre eles permaneceram suspensas na sala por longos segundos.

    — Então ficamos com Jax e Elian. — Veltor voltou a se apoiar na mesa. — Assim como todos os membros anteriores da Trion, vamos decidir o próximo Pináculo da Força com base em feitos reais.

    Aura ergueu a cabeça.

    — Agora entendi o motivo de ter requisitado essa reunião.

    O sorriso dele voltou, ainda mais nítido.

    — Vamos transformar o reconhecimento da Fracture, em um extermínio definitivo. — disse, como se fosse algo já planejado a muito tempo. — Jax vai nessa. Elian terá suas oportunidades em missões futuras. O que acha?

    Os dedos de Aura se contraíram levemente sobre o braço da cadeira.

    — Louie e Aya ainda são jovens e instáveis. Pode ser arriscado. Principalmente quando a quantidade se torna desvantagem para nós. — cravou a velha mulher. — A teia de informações da Fracture, assim como sua influência cresceu demais. Mandar mais gente apenas vai servir para alertar nossa chegada, e colocar os cidadãos da Zona Leste em risco.

    — Por isso, acredito que a melhor decisão seja retirar Louie e Aya dessa operação e, no lugar deles, enviar Jax, Mira, Lila e Zara. — Veltor fez um gesto breve com a mão. — Ou, se preferir, algum comandante do exército. Embora… não tenhamos nenhum que se destaque em especial.

    Aura observou o homem por alguns segundos, avaliando cada nuance.

    — Quatro Vigilantes… considerando a possível relação entre a Fracture e a Sacrificium Sanguínis, essa decisão parece sensata. — sua voz saiu mais firme. — Porém, me diga, por que Jax, e não Elian? Há algum motivo específico ou é apenas uma escolha estratégica?

    Veltor descruzou as mãos, apoiando-as sobre a mesa.

    — Ele conhece bem a Zona Leste. Além disso, é quem mais tem nos questionado sobre a postergação dessa missão, que já deveria ter sido realizada há tempos. Acredito que ele carregue certos traumas de infância daquele lugar… e tema que o que lhe aconteceu volte a se repetir.

    Aura sustentou o olhar, como se tentasse atravessá-lo. Então suspirou, enfim cedendo à proposta de Veltor.

    — Não vejo motivo para me opor. — disse, por fim. — Apoio a mudança da operação reconhecimento para uma de infiltração e extermínio da Fracture.

    Veltor assentiu, satisfeito.

    — Ótimo.

    Aura se voltou levemente à frente, a expressão agora mais dura.

    — Mas essa missão não vai acontecer agora.

    A frase caiu pesada no recinto.

    — Quero adiá-la por tempo indeterminado… até que eu converse com Kael e explique tudo a ele.

    — Sem problemas.

    — Bom, com isso, acredito que esta reunião tenha chegado ao fim, certo? — perguntou a comandante, já se erguendo da cadeira.

    — Sim. Não tenho mais nenhum assunto a tratar.

    — Sendo assim, vou me retirar. — disse, caminhando com perfeição até a grande porta. Porém, ao chegar diante dela, parou bruscamente e virou o pescoço. — Ah, Veltor. Uma última coisa.

    — O que seria?

    — Na próxima… tente aceitar a solicitação de reunião do Kael. Ele realmente queria falar com você sobre Lyra. Você não imagina o quanto sua presença faz falta para ele.

    — …certo… vou pensar sobre. — murmurou, abaixando o rosto, como se tentasse escondê-lo.

    Assim, Aura desapareceu pelo corredor pálido, e o silêncio voltou a dominar a sala.

    Por alguns instantes, nada se moveu.

    Veltor permaneceu imóvel na cadeira, o olhar fixo para baixo, como se buscasse a calma no vazio a sua frente. Mas, sua expressão, antes controlada, começou a se desfazer aos poucos. Os olhos, tomados pelo mais puro ódio, junto da tensão crescente ao redor da mandíbula.

    Seus dedos, cruzados a frente da cabeça, se contraíram lentamente, apertando firmemente a própria mão.

    A sala tinha uma pressão imensurável. Segundos se arrastavam, tentando correr no tempo normal.

    Mas tudo foi impedido pelo simples—

    BOOM!

    O impacto ecoou.

    Seu punho tinha avançado com violência ao lado, atingindo uma das estantes metálicas com força brutal. O aço cedeu como se fosse frágil, retorcendo-se sob o choque. A estrutura inteira colapsou em um rangido enferrujado, espalhando painéis, fragmentos e uma chuva de papéis pelo chão.

    As folhas giravam no ar, cortando a calmaria como lâminas leves.

    Veltor permaneceu sentado, a mão ainda cerrada, os músculos do braço tensionados ao extremo. Sua respiração saía pesada e lenta, em uma tentativa falha de controlá-la à força.

    Os olhos, agora sombreados, queimavam em uma fúria. Por alguns segundos, ele não disse nada. Apenas encarou o vácuo, como se esmagasse pensamentos que insistiam em retornar.

    Então, por entre os dentes—

    Ele não tem esse direito

    A voz falhou por um breve instante.

    — …nem mesmo o mínimo direito de citar esse nome.

    A gravidade voltou a cair, junto do tempo, que agora seguia seu ciclo normal.

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