Índice de Capítulo

    — Mãe! — disse Lua, com lágrimas nos olhos, antes que Nevasca saísse da sala. — Você ia mesmo… ia mesmo me casar com um monstro?

    Os olhos de rubi da marquesa elemental mudaram. A nobreza sublime deu lugar a um olhar afável e gentil. Ela se aproximou de sua filha e tocou seu rosto com os dedos.

    — Ah, minha filha, sabe muito bem que eu jamais faria algo para te machucar. Todas as minhas ações tiveram o objetivo de te colocar exatamente onde você queria estar. — Nevasca olhou para Renato. — E deu certo, não foi?

    — Ah, você… — Lua enrubesceu. A pele branca cintilou como os olhos de sua mãe.

    — E você, Soll — continuou a marquesa —, não repreenda sua irmã por ela ter esse espírito indomado e desobediente. — Os lábios de Nevasca exibiram um sorriso bonito. Os dentes dela eram como pedrinhas de gelo brilhantes. — Eu conheço sua irmã. Conheço bem vocês duas. Por isso, eu tomo minhas ações com base no comportamento que prevejo de vocês. É justamente por sua irmã ser como é, que eu consigo colocar ela no melhor dos caminhos.

    — Senhora Nevasca… — Soll baixou o rosto. — Não… Mãe! Eu não sou tão esperta quanto você. Não entendo bem suas palavras, mas… vou tentar entender! Eu prometo!

    — É o suficiente, minha filha. — Nevasca também tocou seu rosto, e fumaça saiu do contato das duas. — Sabe disso, não sabe? Não importa se não saiu de mim. Você é minha filha!

    — Eu sei, mãe.

    — Agora, se me dão licença, vou procurar Aerin. Ele tem estado esquisito nos últimos dias, mas agora pareceu muito pior. Ele deve estar com problemas. Por favor, aproveitem para pôr a conversa em dia enquanto estou ausente.

    E, com passos graciosos, Nevasca saiu da sala.

    — Então, Lua, — Clara foi a primeira a quebrar o silêncio. — Que conversa era aquela? Quer explicar?

    — Clara… — Soll se levantou, tomando a frente de sua irmã. — Nós somos amigas, não somos?

    A súcubo riu e fez uma expressão dúvidas.

    — Não sei. Somos?

    — Droga! Se esqueceu daquela vez em…

    — Daquela vez em que eu pedi ajuda e vocês negaram? Lembro.

    — Droga! Foi mal, tá? O Mercenário Possuído me dava arrepios!

    — Ela quer se casar com o Renato — disse Lírica, tão sem expressões que até parecia um robô. Seus olhos cor de cobre cintilavam como olhos de gato. — Ela usou a cultura do povo dela, se aproveitou da boa vontade do Renato, para tentar se aproximar. É uma… qual é mesmo a palavra? Uma destruidora de lares. Uma rapariga.

    — Me chamou de que, sua gata vira-latas?! — Lua apontou o dedo para a demi-humana, enquanto o ar em volta se tornava mais gelado. — E logo você falando isso? Usei a cultura do meu povo para casar? Que piada! Isso não torna você a rainha da hipocrisia?! Afinal, até onde eu sei, foi você mesma quem fez algo parecido! Lírica, a mais hipócrita das criaturas!

    — É diferente. — O rosto da demi-humana quase esboçou uma emoção, mas era difícil dizer qual. — Eu e o Renato somos almas gêmeas. Ele me tirou do Inferno e me deu um nome. Foi coisa do destino. Na verdade, nós fomos feitos um para o outro, tenho certeza. As outras garotas são apenas… anexos.

    — Coisa do destino uma ova! Você se atirou pra cima dele na primeira oportunidade!

    — Se você fosse um sorvete, seria um sorvete do sabor vagabunda.

    — Esse sorvete nem existe, se quer saber! E se você fosse uma gata de verdade, seria da raça Gata de Rua Pobretona e Sem Nenhum Charme!

    — Isso não é uma raça.

    — Perai, ela chamou a gente de anexos? — Irina levantou a questão.

    — Eu acho que chamou! — respondeu Jéssica.

    Renato suspirou, cansado.

    — Eu devia ter trazido um chocolate. Isso costuma acalmá-las…

    Ele fez uma nota mental. Sempre sair com uma barra de chocolate no bolso!

    A marquesa Nevasca subiu as escadas e seguiu por um corredor longo. A luz do sol reluzia, azulada, através das paredes.

    Ela seguiu a presença de Aerin. Precisava falar com ele, perguntar o que havia de errado. O comportamento dele estava levemente destoante do padrão, e piorou quando chegaram junto de Lua.

    Nevasca percebeu os olhares que ele deu para Renato. Não era um olhar simpático, típico de seu mordomo.

    Havia um problema. Sua intuição não falhava.

    Nevasca sentia que tinha a obrigação de ajudar todos os seus súditos em suas questões particulares. Essa era a obrigação de um nobre, e um nobre feérico sempre leva suas obrigações muito a sério.

    Ela sorriu, pensando em seus convidados. Sua filha ficará bem com eles, tinha certeza.

    Como mãe, ela acreditava que os filhos eram criados para o mundo. Deixá-los voar como passarinhos era uma coisa importante, embora doesse um bocadinho no fundo do coração.

    — Meu maior tesouro não pertence a mim… — murmurou ela.

    Abriu a porta.

    Seu sorriso desmanchou feito um castelo de areia atingido pelas ondas.

    — Você não é Aerin!

    — Ah, que pena… — respondeu A Besta que Subiu da Terra. — Eu gostava de extrair informações de você.

    — Onde está Aerin?! — A marquesa se aproximou. Uma espada de gelo se formou em sua mão.

    — O mordomo? — A Besta deu de ombros. — Vai saber. Talvez sendo digerido dentro do estômago de alguma fera infernal.

    — Amaldiçoado seja por…

    A Besta pulou sobre ela, tentando atingi-la com uma adaga formada de escuridão.

    Nevasca se moveu rápido. Era ágil como ninguém.

    A adaga perfurou apenas o ar frio.

    A Besta que Subiu da Terra tentou girar no próprio eixo para atacar novamente, mas o gelo sob seus pés se ergueu e envolveu completamente suas pernas, petrificando-as, prendendo-o no mesmo local e impedindo os movimentos.

    A marquesa, por trás da Besta, moveu a espada.

    A lâmina gelada penetrou as costas do invasor, atravessando o corpo. A ponta emergiu no peito, brilhante feito vidro.

    Sangue preto igual óleo diesel manchou o chão cristalino.

    — Diga! Responda! Quem é você e o que faz aqui?

    A Besta cambaleou e quase caiu quando a marquesa girou a espada dentro dele, revirando seus órgãos internos.

    Um sorriso animalesco brotou em seus lábios manchados de sangue.

    — Você é forte.

    — Fale! Quem é…

    — Sobrescrever!

    Os lábios da marquesa se moveram novamente, mas o som que emitiram foi confuso e não compreensível.

    Na verdade, ela estava dizendo as palavras de trás pra frente.

    Em seguida, ela removeu a lâmina do corpo de seu algoz. O sangue, que tinha caído sobre o chão, flutuou no ar até voltar para seu peito e recobrar o lugar dentro dos vasos sanguíneos.

    Todo o mundo começou a fluir como um filme ao contrário, uma fita sendo rebobinada.

    Tudo o que, há pouco, tinha acontecido, estava sendo desfeito.

    A realidade estava sendo sobrescrita.

    E novamente A Besta estava com sua adaga na mão pronto para atacar.

    Mas dessa vez ele sabia quais seriam as ações da marquesa.

    A Besta interrompeu seu movimento no meio e parou o próprio golpe. Com um salto, pulou para o lado.

    O gelo se ergueu onde ele deveria estar, mas dessa vez não congelou suas pernas.

    E, quando a lâmina da marquesa buscou suas costas, encontrou nada.

    Nessa segunda rodada, foi A Besta quem conseguiu a vantagem.

    E, com um movimento certeiro, a adaga de escuridão afundou no pescoço da marquesa.

    E o sangue que manchou o chão cristalino, dessa vez era vermelho vivo.

    Enquanto lutava para respirar, engasgando, com o sangue descendo pela garganta até os pulmões, a marquesa conseguiu reunir toda a força que tinha e segurou a lâmina daquela adaga com a mão, e a adaga congelou completamente no mesmo instante.

    E, com um aperto de sua mão, a adaga se quebrou em pedaços.

    E, numa última tentativa desesperada, Nevasca tentou evocar toda a força que tinha para mais um golpe com a espada. Seus músculos quase não se moveram. A espada de gelo nunca pareceu tão pesada.

    — Sobrescrever! — disse A Besta.

    E os pedaços de sua lâmina flutuaram de volta até o pescoço da marquesa, e a adaga se reconstruiu inteira.

    A Besta achou engraçado, e até sorriu, quando olhou diretamente nos olhos desesperados da marquesa. Ela estava tentando entender o que acontecia, enquanto era obrigada a retornar à posição inicial, antes de ter quebrado a lâmina.

    Poucos seres conseguiriam ter essa consciência enquanto o Sobrescrever acontece. Era algo raro, só possível com criaturas extremamente poderosas. Mas não importava. Quando terminasse e a linha do tempo voltasse a fluir para frente, a marquesa se esqueceria disso e tomaria as exatas mesmas ações de antes, acreditando ser a primeira tentativa.

    Mesmo assim, era divertido ver aquele olhar perdido, os olhos se movendo loucamente, o cérebro tentando entender.

    Quando terminou, a Besta puxou sua adaga de volta, evitando que a marquesa pudesse pegá-la e a congelar, e então, com movimentos repetitivos, a Besta desferiu inúmeros golpes com a adaga, perfurando o corpo da marquesa em diferentes lugares: rosto, peito, abdome…

    O mordomo finalmente voltou para a sala onde estavam os convidados.

    — Desculpem-me pela ausência — disse ele. — A marquesa Nevasca disse que eu deveria lhes fazer companhia por um momento, enquanto ela não retorna. Sejamos pacientes.

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