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    Ponto de Vista de Shin

    A manhã do primeiro dia do ano era fria. Bem fria mesmo.

    O ar parecia mais limpo do que o usual, com cada respiração formando pequenas fumaças brancas diante dos rostos de cada pessoa que caminhava, lentamente, pelo caminho de pedra do santuário.

    Ainda que fosse bem cedo, o templo estava praticamente cheio.

    Alguns chegavam animados, conversando sobre a virada da noite anterior, outros pareciam mais silenciosos, com as mãos nos bolsos do casaco enquanto aguardavam a vez para rezar, como eu.

    Eu encolhi levemente os ombros por causa do frio, e o vapor da minha respiração subiu e se desfez.

    Meus olhos pareciam presos no caminho de pedra à minha frente. 

    Foi… bem naquele lugar, no dia anterior. Justamente na virada do ano.

    Caminhando, de mãos dadas com ela.

    Eu desviei o olhar, soltando um pequeno suspiro, enquanto Seiji parecia ter finalmente avistado eles.

    — Ei! Aqui! — a voz dele tirou aquele silêncio, enquanto levantava a mão e acenava alegremente. — Que demora, hein!

    Virei um pouco o rosto, me deparando com Takeshi e Aiko que rapidamente se aproximavam do nosso grupo.

    — Que frio… — Takeshi murmurou, esfregando as mãos.

    — Se tivessem avisado antes, eu teria chegado primeiro! — ela completou, brava enquanto ajeitava o cachecol. — No próximo ano eu não perco!

    Parecia que aquilo tinha virado uma competição pra ela.

    — Tá, mas cadê o resto do pessoal? — Akira disse, cruzando os braços.

    — Alguns disseram que viriam mais tarde, e outros amanhã — Rintarou respondeu, com a calma de sempre dele.

    O grupo assentiu, e então começamos a caminhar lentamente em direção da escadaria principal do santuário.

    Mesmo depois da virada do ano, a fila para a primeira oração ainda era longa.

    Como sempre foi… não fazia tanto sentido assim, mas não me importava muito.

    Pessoas avançavam de pouco em pouco pelo caminho, com alguns segurando amuletos de boa sorte e outros conversando.

    — Isso vai demorar pra caramba…! — Seiji murmurou, totalmente impaciente.

    Eu apenas observava as pessoas na minha frente, enquanto o nosso grupo conversava de leve.

    O ritual era sempre o mesmo. Primeiro vinha a moeda, depois o sino, as palmas, e então a reza.

    Depois de vários minutos esperando naquele frio congelante e a fila andando lentamente, finalmente tinha chegado a nossa vez.

    “Ainda bem.”

    — Não tava aguentando mais isso! Vamos logo! — Akira disse, já sorrindo.

    Eu subi os pequenos degraus de madeira, peguei uma moeda da minha carteira e joguei dentro da grande caixa de oferendas, fazendo com que o som ecoasse junto das outras.

    Segurei a corda grossa e bati o sino.

    Bati as duas palmas, e fechei os olhos.

    “…..”

    O ano novo tinha começado. 

    Aquela era a minha primeira oração do ano. Um momento onde eu deveria pedir coisas para os céus… no entanto, nada aparecia na minha cabeça.

    Apenas… um silêncio. 

    Claro, cortado apenas pelas conversas das pessoas na fila atrás de mim.

    No escuro das minhas pálpebras, várias memórias diferentes surgiram na minha mente.

    O ano anterior tinha sido estranho, de alguma forma. Mas também bom. Muito bom.

    Eu pensei em como, um ano atrás, eu provavelmente estaria em casa jogando. A não ser que Seiji e Rintarou me arrastassem para fora do quarto.

    Mas, naquele momento, eu não estava fazendo aquilo.

    Talvez eu tinha começado a mudar?

    Bem devagar, quase sem perceber.

    Sim?

    Olhando por alto, eu realmente tinha conseguido sair da minha zona de conforto.

    Eu comecei a falar mais com as pessoas. E, em especial, com ela.

    Eu realmente nunca imaginei que falaria com ela, no entanto, o nome dela tinha escapado da minha boca quando acordei naquela sala vazia depois de passar a madrugada jogando.

    E a partir daí, tudo na minha vida começou a mudar.

    Eu realmente conseguia me lembrar direito de como tudo era tão difícil no começo. 

    De como eu tinha uma vontade gigante de querer falar mais com ela, saber mais quem ela era, do que ela gostava.

    E então, aos poucos, tudo ficou tão natural.

    Além disso, no dia anterior, eu tinha segurado a mão dela.

    Não foi por apenas alguns segundos, mas pela noite inteira.

    Mesmo ali, no santuário frio, lembrar daquilo fazia meu coração aquecer.

    E pensando naquilo… era realmente algo de outro mundo. Algo que antes eu apenas sonharia no meu quarto, sabendo muito bem que eram apenas cenários irrealistas criados pela minha mente solitária.

    No entanto, aquilo não foi sonho algum.

    Era a realidade.

    Fora isso, eu ainda consegui encontrar algo que eu realmente me interessava. 

    A escrita.

    Desde criança que eu nunca me interessava em algo. Além dos jogos, claro.

    Mas nem sabia se era interesse de verdade, ou apenas um escape da realidade.

    E nesse caminho, encontrei um rival que me fez querer melhorar e mudar. E no fim desse mesmo caminho, estava um concurso nacional renomado. Um concurso onde diversos escritores por todo o país participaram.

    Concurso esse que eu ganhei.

    Eu também comecei a trabalhar em uma biblioteca tranquila de meio período.

    E também tinha as pessoas ao meu redor que comecei a conhecer de verdade.

    “…..”

    Eu respirei fundo.

    Tinha sido um ano incrível.

    Talvez… eu não devesse pedir mais nada. Talvez, só talvez, eu já tivesse recebido mais que o suficiente.

    — Ah.

    Mas então algo surgiu na minha mente.

    Aquele sorriso, com um cachecol por perto que eu mesmo dei de presente.

    Meu peito apertou de leve enquanto eu me lembrava daquele olhar quando os fogos foram ao ar na virada.

    Eu hesitei por alguns segundos, enquanto me dava conta que já havia tomado muito tempo de oração e algumas pessoas poderiam começar a ficar impacientes na fila.

    “Por favor…”

    Eu olhei para o alto, e então comecei a pensar em silêncio.

    — Me dê coragem.

    Coragem para confessar meus sentimentos. Coragem para dizer tudo. Tudo.

    Apenas isso.

    Eu então abri os olhos, me virei e desci as escadas. Akira ainda terminava a oração dele, enquanto Seiji já estava quase indo na direção de alguma barraca. Rintarou estava de olhos fechados, tranquilo, enquanto Aiko dava um sorriso assustador enquanto terminava de orar. 

    Muito provavelmente pedia algo em relação à alguma competição…

    Enquanto o grupo terminava de se reunir e começar a perguntar o que cada um pediu, antes de seguirmos para a loja de madeira onde os bilhetes da sorte nos esperavam, eu conseguia ouvir as palavras de Kaito ecoando novamente.

    Era certeiro, e eu sentia que não havia mais dúvidas em mim.

    Naquele ano, eu realmente iria confessar.

    Mesmo que demorasse, eu faria aquilo.

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