Capítulo 128: O Outro Lado da Moeda
Os fogos já haviam quase chegado no seu fim. Ainda surgia, vez ou outra, algumas luzes coloridas no céu. Mas começava a dar espaço à fumaça no céu escuro, enquanto a multidão começava a se movimentar novamente.
Alguns voltavam para as barracas, procurando algo para se aquecer na noite fria. Outros seguiam direto para o santuário, para fazerem a primeira oração do ano. O resto… simplesmente voltavam para casa.
Enquanto eu e ela caminhávamos de volta, junto das pessoas, ainda notei que nossas mãos continuavam coladas. Elas tinham ficado assim… e em nenhum momento nós soltamos, ou sugerimos soltar.
— A gente deveria procurar o pessoal — murmurei, olhando em volta, tentando pensar em algo que não fosse em como nós continuávamos de mãos dadas.
— É verdade — ela respondeu, ajeitando o cachecol com a outra mão, com um pequeno sorriso. — Devem ter achado que a gente se perdeu.
Eu ri de leve também.
— Mas a gente se perdeu mesmo…
Continuamos caminhando, atravessando as barracas e desviando de ombros ao nosso redor. O frio tinha voltado a ser mais forte, no entanto, minha mão continuava quente.
“…..”
Depois de alguns minutos procurando alguém em rostos desconhecidos, eu avistei Seiji mais na minha frente. Ele estava junto do grupo principal, e logo eu soltei um pequeno suspiro de alívio.
— Ali! — eu disse, olhando na direção deles.
— Ah! Ainda bem! — ela sorriu, e nos aproximamos.
Conforme caminhávamos para eles, o grupo nos notou e acenou.
Mas só foi nos aproximarmos perto que eles pareciam terem… travado?
Quase congelado?
“Hein?”
Akira tava com aquele sorriso suspeito de sempre no rosto, e Seiji parecia orgulhoso demais? O que tinha acontecido?
Mina parecia esconder algo também, mesmo que a cara dela não denunciasse aquilo. Yumi parecia surpresa, com as sobrancelhas erguidas, como se não acreditasse em algo… e Aiko parecia vermelha? Era o frio?
E por que Rintarou tava sorrindo?
O que tinha acontecido com eles?
“Que esquisito”
— …O que foi, pessoal? — Yuki perguntou, olhando de um para o outro. — Vocês tão bem?
— Que caras são essas? — completei, franzindo a testa.
Eu esperei alguma resposta, e Yuki também, mas nada veio. Apenas um silêncio meio estranho, que só era interrompido pelas conversas e risadas da multidão ao nosso lado.
Mas depois de mais alguns segundos, Aiko parecia não ter conseguido segurar mais e simplesmente explodiu.
— V-vocês tão de mãos dadas!
Hein?
“…..”
Era como se o mundo tivesse congelado. Como se, naquele momento, fosse eu que tivesse travado.
Eu olhei para baixo, forçadamente, quase como se eu não tivesse ideia de que aquilo tava acontecendo.
— …Ah!
Ela também olhou, e no mesmo segundo, nossas mãos ficaram rígidas. Ao mesmo tempo, soltamos as mãos em pânico.
— N-não é o que vocês tão pensando! — eu falei rápido demais, enquanto minha cara começava a queimar.
— A gente só tava… — Yuki começou, também apressadamente.
— Só pra não se perder! — eu adicionei, esperando que eles entendessem.
Houve um pequeno silêncio, e Yuki completou.
— Isso! — ela finalizou, com uma voz mais… suave e baixa. — …Só para não se perder.
Não dissemos mais nada após isso. Eu encarava um lado do chão, e Yuki outro, completamente envergonhado com aquela situação.
Mas aquilo logo foi quebrado pelas risadas do grupo.
“Fala sério…”
— Sim, sim — Ele cruzou os braços, acenando a cabeça de olhos fechados. — Ouviu essa, Seiji?
— Sim, né! Que multidão perigosa! Ainda bem que eles seguraram as mãos…! — Seiji completou, com aquele sorriso idiota que sempre me irritava, enquanto passava o braço no pescoço de Akira.
“Tsk.”
— Eu tô falando sério! — tentei falar, mas minha voz falhava levemente. — A gente se perdeu mesmo! Quando alguém esbarrou em mim, eu comecei a…
— Sim, tá, tá. A gente já entendeu — Yumi me cortou, e então o grupo riu enquanto começavam a andar de volta para o santuário. — A gente já entendeu!
Aquela não era a cara de alguém que tinha entendido.
Mas decidi ignorar. Mesmo se eu tentasse explicar tudo, eles iriam ignorar e apenas focariam no fato de que estávamos de mãos dadas.
Enquanto o grupo caminhava, depois de falar algo sobre a Kaori, eu olhei de canto para quem estava do meu lado. Eu fiquei alguns passos atrás, junto da Yuki. Ela olhava para o chão, segurando a própria mão, e com um leve rubor no rosto que era perceptível por causa das lanternas das barracas.
— Desculpa… — murmurei, baixo o suficiente para ela ouvir, mas para que ninguém do grupo escutasse. — Eu deveria só ter soltado antes. Desculpa.
Ela finalmente desviou o olhar do chão, me olhando com uma surpresa no olhar.
— Por que você tá se desculpando?
— É só que… — cocei a nuca, desviando o olhar. — Eu devo ter deixado você desconfortável com isso, e…
Ela apenas balançou a cabeça suavemente, com aquele pequeno sorriso no rosto que sempre me acalmava.
— Nada disso. Eu não fiquei desconfortável, você só estava me ajudando.
“…..”
Eu assenti, enquanto seguíamos atrás do grupo.
Quando coloquei as mãos de volta no bolso, eu comecei a perceber algo.
Elas estavam frias.
De algum jeito, mais frias do que antes…?
Eu fechei os dedos devagar, ainda me lembrando daquela sensação na minha palma e dedos.
Eu não iria me esquecer daquela sensação.
E, mesmo que eu não tivesse reunido a coragem que deveria, uma parte de mim queria sentir aquilo de novo.
Eu queria segurar a mão dela novamente.
Ponto de Vista de Kaori
O polvo frito era divinal! Sério, muito bom!
Era tipo crocante por fora e macio por dentro. Eu deveria ter comprado logo dois. Ou três. Talvez cinco?
— Isso aqui é perfeito — eu comentei, animada enquanto dava outra mordida naquela delícia.
Akira falava qualquer baboseira, como sempre, e Seiji parecia inquieto. Talvez tivesse doente. A Mina olhava para o relógio e Yumi cochichava algo pra Aiko.
— Hm…
Eles pareciam tar esperando alguém. Mas quem?
Eu olhei ao redor, checando cada pessoa.
Ah, claro! O Shin.
Onde ele tava? Será que tinha se atrasado logo no Ano Novo? Que idiota!
Se bem que ele poderia tar ocupado com aquele novo manuscrito dele… Mas ele não devia faltar no Ano Novo pra poder escrever… né?
“Sem chance!”
Que tipo de idiota faria isso?
— Ah, olha ele ali! — Akira falou, acenando no ar.
Ali? Onde?
Eu ergui a cabeça, meia curiosa, mas o Rin me bloqueava com aquela altura estúpida dele.
Fui pro outro lado, enquanto mordia mais uma vez o polvo frito.
Hã?
Não era um “ele”. Eram “eles”.
Ele vinha andando e rindo, mas não era para nós do grupo. Era pra pessoa ao lado dele.
A Yuki.
Eles pareciam próximos demais. E meu coração parecia ter parado quando acabei olhando mais pra baixo.
Por quê?
Por que eles tavam de mãos dadas?
Por quê?
Não sei o que tinha dado em mim, mas meu peito começou a doer.
Eu tinha comido demais?
Ah, não. Eu nem tava cheia ainda.
Então por quê?
— Lá vem eles.
Eu fiquei parada, só olhando. A maneira que ele inclinava a cabeça pra ouvir o que ele dizia. Ou como sorria pra ela. Como ambos estavam tão próximos.
Ah.
Parei de mastigar o pedaço de polvo frito. Meio que tinha perdido o sabor. Não queria mais ele.
Na verdade, não queria mais tar ali. Eu não queria continuar vendo aquilo.
— Eu… — minha voz acabou saindo mais baixa do que o normal. — Acho que vou rezar agora! Tá frio aqui, né?
Seiji virou pra mim, com aquela cara idiota de confuso.
— Hein? Agora, Kaori? A gente não ia deixar isso pra de manhã?
Eu abri a boca, mas nada saia. Eu não sabia o que responder, eu só queria sair dali!
— …..
— Em alguns lugares, faz parte da tradição rezar logo após a virada — Rin falou calmamente, antes que o silêncio que eu tinha criado ficasse esquisito.
— Ah, é? Não sabia dessa.
— É bem mais comum do que você pensa.
Eu só consegui olhar para ele, através daqueles óculos. Ele então tinha percebido?
Claro que tinha. O Rin sempre percebia tudo.
— É isso mesmo! Agora vou indo! — falei, forçando um sorriso enquanto acenava e andava antes que eles dois chegassem ao grupo. — Feliz ano novo, gente!
— Feliz ano novo! — eles responderam.
Eu me afastei rapidamente. Acho que não tinha dado tempo para eles terem percebido que eu tava ali.
Eu andei sem uma direção clara, só passando pelas barracas. Minutos antes, eu pararia em todas, mas naquele momento, toda minha fome tinha sumido.
Eu só parei de andar quando encontrei uma parte mais afastada do santuária, onde tinha alguns bancos vazios e uns postes ao redor. Eu sentei, e respirei fundo.
A vista daquele lugar era muito bonita. Tinha aquelas lanternas, gente caminhando… e sorrindo.
Era bonito… mas também meio borrado?
“Hein?”
Eu tava precisando começar a usar óculos?
Que estranho. Eu sempre comia bastante cenouras, não era pra isso acontecer assim…
Passei a mão no rosto, tentando recuperar a visão, mas tudo continuava embaçado. E molhado.
Uma pequena lágrima quente caiu antes que eu pudesse impedir.
— O que é isso? — murmurei. — Não desce.
Mas outra veio. E outra. E outra. E outra. E outra.
E de repente, eu já não conseguia controlar.
— Para.
Meu peito doía. Doía tanto!
Por quê?
Fazer aquela pergunta era idiota, eu já sabia. Na verdade, sempre soube.
Ele sempre gostou dela, e aquilo não era surpresa pra ninguém.
Então por que doeu tanto ver aquilo?
Se eu já sabia que o Shin amava ela, por que meu peito apertou tanto quando vi ambos de mãos dadas e rindo?
Por quê?
— Que droga!
A imagem dele sorrindo surgiu na minha cabeça, enquanto eu continuava chorando com as mãos nos olhos.
Não era qualquer sorrisinho que ele dava. Não era os sorrisos que eu via diariamente. Era um sorriso diferente.
Um sorriso que eu queria que fosse pra mim.
Por quê?
Patética.
Eu era patética!
Por que eu achei que talvez, só talvez, pudesse ser diferente?
Eu não tinha chance. Nunca tive!
Eu cheguei atrasada, mais uma vez.
Então por que eu continuei com esperanças de ser aquela garota!?
Aquela que caminharia ao lado dele.
A que ele olharia daquele jeito.
A que seguraria a mão dele.
Mas, no fundo, bem no fundo mesmo, eu já sabia que seria impossível pra mim.
— Que idiota — murmurei com a voz falhando.
O coração dele nunca seria meu.
Então por que doía tanto assim?
Eu tentei limpar as lágrimas e segurar o choro, mas elas continuavam descendo descontroladamente.
Enquanto todo mundo caminhava pelas barracas, eu fiquei ali naquele canto.
Sozinha… e chorando por algo que nunca seria meu.

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