Capítulo 127: Guardado no Coração
Ponto de Vista de Shin
A multidão ali já tinha parado de caminhar. Quase todos estavam parados, reunidos naquele grande espaço aberto perto do santuário.
As lanternas penduradas iluminavam os rostos ansiosos, enquanto uns pegavam seus celulares e outros ainda conversavam alto.
Eu olhei para o relógio, e faltava cerca de um minuto.
Quando me dei conta disso, meu coração bateu mais forte que o normal.
Não por ainda… estarmos de mãos dadas, nem por nenhum de nós ter soltado nem afrouxado. Não, não.
Mas porque… os próximos instantes talvez fossem algo decisivo.
Eu precisava de coragem.
Apenas isso.
Yuki apertou levemente meus dedos, enquanto olhava ao nosso redor, sem se dar conta do que aquilo causava em mim.
“Muita coragem.”
— Tá todo mundo tão animado — ela comentou, com um sorriso leve.
Eu olhei em volta também.
Pessoas rindo, algumas já começando a contagem antes da hora, crianças nos ombros dos pais… casais próximos demais.
— Pois é.
Então as vozes começaram a ficar mais altas.
— Só mais um pouco! — alguém gritou perto de nós.
— Quinze segundos!
E então, quase que ensaiado, a multidão inteira ali começou a contagem regressiva no mesmo segundo.
— Dez!
— Nove!
— Oito!
Meu coração acelerava, e não tinha como parar.
— Sete!
— Seis!
— Cinco!
Eu deveria dizer. Certo? Eu devia, não devia?
— Quatro!
— Três!
— Dois!
Eu precisava falar a verdade.
— Um!
O som alto do sino do santuário ecoou pelo local.
E então, o céu explodiu cheio de cores.
Vários fogos subiram, criando várias luzes claras no céu escuro da noite. Vermelho, amarelo, azul, branco. Todas as cores refletiam nos rostos sorridentes das pessoas ao redor, enquanto as pessoas riam e abraçavam os outros.
Por um instante, eu apenas olhei para o céu.
Era bonito.
Mas então, eu desviei o olhar para algo mais ainda.
Yuki estava olhando também para cima, com um sorriso que parecia simplesmente maior do que qualquer fogo de artifício. Os seus olhos refletiam aquelas lindas cores.
Ah.

Ela então tinha percebido meu olhar, e virou lentamente o seu rosto na minha direção.
Quando sua cabeça se inclinou levemente para o meu lado e sorriu, eu apenas senti meu peito travar.
Por quê?
Eu precisava dizer.
“Rápido!”
— Lá se vai mais um ano… — ela começou, ainda com aquela expressão leve de sempre. — Adeus ano velho! Feliz Ano Novo!
As palavras que eu deveria falar ficaram presas na minha garganta.
Eu precisava responder, de dizer mais do que aquilo. Mas, no fim, tudo que eu consegui responder foi algo que não importava.
— Feliz Ano Novo, Yuki.
Os fogos ainda continuavam subindo, a multidão ainda continuava agitada e pessoas conversavam alto ao nosso redor.
Ela voltou a olhar para o céu, ainda… segurando minha mão.
— Você foi a primeira pessoa que eu vi nesse ano novo — ela disse do nada, meio distraída. — Então, eu conto com você para mais um, tá?
Ela sorriu de novo. Aquele mesmo sorriso que me deixava sem palavras, apenas completamente cativado.
E eu senti que era ali. Aquele exato momento que eu deveria falar.
“Diz!”
Eu abri a boca levemente.
“Diz agora!”
Mas nada saiu.
As palavras simplesmente não iam. Eu não conseguia dizer nada.
E, no meio disso, apenas algo passou na minha mente. Uma única palavra, ecoando sem fim.
Covarde.
— …..
Talvez as coisas pudessem continuar assim por mais um tempo. Talvez eu não precisasse mudar nada.
Eu ainda poderia continuar por mais algum tempo do lado dela.
Ou talvez, eu apenas estivesse arrumando uma desculpa. Uma desculpa para justificar minha falta de coragem.
Eu queria dizer, de verdade. Mas o medo era maior, muito maior que eu.
O medo de perder ela.
O medo de mudar algo que, mesmo sem ser definido, era precioso demais para mim.
O medo de repetir aquele meu erro antigo, e acabar afastando a pessoa que eu amava.
“Desculpa, Kaito.”
Eu não tinha conseguido.
Foi nesse momento que senti o calor na palma aumentar, quando ela apertou com firmeza, mas delicadamente, minha mão.
— Shin? — ela me chamou, inclinando a cabeça. — Tá tudo bem?
— Ah!? — pisquei, sendo puxado para fora dos meus pensamentos. — Sim! Tá tudo sim!
Forcei um pequeno sorriso, enquanto coçava a bochecha com a outra mão.
— É só que… ainda pensando que mais um ano começou. — Olhei para o céu. — Parece que o tempo tá passando rápido demais.
Eu não desviei o olhar, mas parecia que ela me olhava antes de assentir.
— Passa mesmo… — concordou, olhando de volta para cima. — Mas acho que, mesmo passando rápido, a gente devia aproveitar cada instante ao máximo.
Eu fiquei levemente surpreso por um segundo, como se ela tivesse respondido algo que eu nem tinha dito, mas em voz alta.
— É… acho que você tem razão. — acabei rindo de leve.
A multidão começou a se dispersar aos poucos. Alguns voltavam para as barracas, procurando algo para se aquecer, e outros seguiam em direção ao templo para rezar.
O barulho continuava a diminuir lentamente, mas o céu ainda era iluminado pelos últimos fogos da noite.
Enquanto caminhava com ela ao meu lado, ela olhou para a frente por um instante.
— …E mesmo que o ano voe, certos momentos ficam guardados no coração para sempre.
Ela desviou o olhar, parecendo… levemente corada?
Eu senti o rosto, e minha palma esquentar, enquanto pensava no que ela havia dito.
— É… — respondi baixo, praticamente murmurando para mim. — Ficam mesmo.
Aquele olhar dela, o seu sorriso… eram coisas de que eu nunca iria me esquecer.
Após algum tempo caminhando juntos com o resto das pessoas, apenas seguindo o fluxo da multidão que seguia na direção contrária, ela riu de algo trivial que falamos no meio do caminho, com a mão na boca.
E então, meus pensamentos voltaram para aquele momento.
Eu ainda não tinha conseguido dizer.
Eu ainda não tinha a coragem necessária para me levar a dizer aquilo.
“Eu te amo.”
Mas talvez…
…Apenas talvez, fosse bom esperar apenas mais um pouco. Só mais um pouco. E então, talvez eu conseguiria deixar de sentir medo, e de contar a verdade.
Ou talvez fosse apenas mais desculpas.
Mas parei de pensar naquilo, enquanto procurávamos o nosso grupo, antes que pensamentos negativos começassem a me dominar.
E apenas aproveitei, como ela havia falado, aqueles instantes entre nós ao máximo. Instantes quentes em meio ao frio, compartilhados pelas nossas mãos ainda juntas.

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