Capítulo 13: A honra de um pai
Aftí e Matí, impossibilitados de adiar o tratamento com Ada e Adira, seguiram ao centro do acampamento. O rastro púrpuro de Sagol marca a alma como sangue marca o tecido. O cheiro de carne podre escorre de seus espíritos. Sagol marcou cada pessoa com sua essência. A finalidade é desconhecida. Porém isso confirma o relato de Aharon sobre o verme púrpuro viver.
Para Séfora, o odor lembra a carniça exposta ao Sol. Tampar o nariz não fará o desconforto sumir, afinal o cheiro não é físico.
Com exceção da visão que está completamente mergulhada no plano espiritual, os demais sentidos estão parcialmente submersos. Ela não pode controlar qual dos planos prefere sentir. “Deve aceitar e ser forte” como seu pai sempre diz. Em partes se culpa por não arrancar o fio púrpuro de Aftí e Matí, precisaria de poucos minutos. Extrairia e transferiria esse verme para uma caixa para nunca mais ter contato com a luz.
“Toque somente na alma de Moshe, evite se desgastar com qualquer outra pessoa.”
Foram as palavras de Yitro, seu pai. Raramente a restringia. Delegava os piores casos para sua responsabilidade e as curas mais simples poderiam ser feitas pelas outras irmãs. Porém Moshe é uma exceção. Alguém cuja alma foi intimamente contaminada. Alguém com uma afinidade natural aos espíritos, podendo usar os dons daqueles que morreram como se fossem seus.
Sagol o chamou de aberração.
Yitro sente sua presença ameaçadora.
Séfora o vê como extraordinário
Sim, extraordinário. Seu corpo é o receptáculo perfeito para os espíritos. Poderia canalizar dons de heróis ancestrais. Por isso quer ser digna de estar ao seu lado. Essas pessoas, Aftí e Matí, são importantes para Moshe. Então ele ficará mais feliz se eles estiverem bem. Não. Não irá desobedecer seu pai. Seu dever é somente com Moshe, não irá usar seu dom em mais ninguém.
Mas…
— Obrigado por cuidar deles — Moshe acaricia seus cabelos.
Como ele reagiria se soubesse que ela poderia curar seus amigos tão facilmente? A perdoaria? Ficaria com raiva? Se afastaria? Não. Não. Não pode voltar a solidão. Não…
— Como são as almas dos pássaros? — ele aponta para os céus.
Seu tom é leviano, quase letárgico. Séfora olha para os céus, os olhos não se incomodam com a luz. As nuvens não existem para si. Mas as pequenas aves têm o brilho da vida dentro de si.
— São leves e vivas, douradas — “como a sua” queria ter dito. — Não carregam angústia ou ódio.
As linhas de sofrimento presentes em seu rosto se afrouxaram. A falta e cor nos olhos transforma-se em um singelo azul celeste que absorve a vida ao redor. As árvores que tanto sofrem para sobreviver nessas areias, emitem o dourado. Suas flores emitem o dourado. Os animais agarrando-se a carne, emitem o dourado. O coração que pulsa o amor que tanto quer conquistar, é dourado.
— A vida é… — Moshe a observa relaxar. — Bela.
O ivrit manteve-se próximo a ela. As mãos também e o coração dispara. Morde a língua, não pode transparecer agitação. Séfora precisa estar calma e próxima a si. Não quer que o tormento causado pelas vozes retorne. Mesmo que tenha escutado um sussurro gentil… não, foi sua imaginação. Impossível as vozes demonstrarem qualquer sentimento antagônico ao ódio.
Talvez…
— Você não é…
As dúvidas permeando o subconsciente somem ao perceber as pessoas vindo em sua direção, os moradores sobreviventes. O ivrit agarrou a mão de Séfora e se preparou para sofrer represálias, afinal os feriu. Se não fosse Ainateb muitos estariam em estado grave ou pior… mortos…
— Sim, é ele.
— É o príncipe.
— Louvado seja nosso príncipe — não pode disfarçar a surpresa vendo o homem com o braço imobilizado sorrindo.
Por quê o chamaram de príncipe? É um homem renegado de seu reino, fugitivo. Um assassino amaldiçoado com o ódio de milhares.
— Obrigado, muito obrigado — o senhor exibindo somente dois dentes o abraçou.
Sua alma é impregnada com a escuridão. Um abismo.
— Muito obrigada, abençoado pelas águas — uma mulher o abraça.
Porta voz da peste. Responsável por adoecer a terra.
— Obrigado moço — a criança cheia de hematomas oferece um pouco da própria comida. — Isso é por nos ter salvado.
E ainda assim essa gente é gentil. Contém as lágrimas mordendo o pão seco. Tem gosto de açúcar, culpa do mofo.
— Seu esforço não foi em vão — Séfora sorri ao ver tantos espíritos resplandecerem a sua frente.
Mais pessoas surgiram, todas carregando algum ferimento. Todos têm fragmentos de memória, principalmente dos momentos de dor. Mas beijavam a face do agressor e seguravam a mão que os golpeou.
O que é isso?
Admiração…
Respeito…
Futuro…
— Observe Moshe — Séfora toma a frente esbarrando nos objetos sobre o chão — Há uma alma muito gentil junto as crianças.
— Ei — o ivrit a puxou antes que se chocasse com uma tenda — não corra assim.
A pressiona contra seu peito. Escutou as vozes mesmo com Séfora próxima. Teme o descontrole, não há quem o impeça. Não, há Séfora e sua família. Não. Não, pode largar esse fardo neles. Caso se descontrole, precisa fugir. Não. Não. Não. O que está passando? Tentar fugir resultou no encontro com Sagol. Precisa se controlar, não há outra escolha.
— Certo… — Séfora sentiu o calor a envolver.
Esqueceu as preocupações. Deixou o ar entrar nos pulmões. Agarrada a quem dedica o coração, a euqone ignora qualquer alma a rodeando. O acelerado coração a impede de ver a agonia se formar no cerne de Moshe.
— Então as águas se levantaram e curvaram-se a ele o… — crianças cercam o homem, todas hipnotizadas. — Espera. Espera…
Aharon está sentado. O rosto e o braço exibem cicatrizes pálidas. Acima do joelho esquerdo há outra marca esbranquiçada, abaixo ficava sua perna. Antes de Sagol. Aharon agora é um inválido. Impossibilitado de realizar qualquer trabalho braçal.
— Aí está o grande príncipe, o homem que nos libertará — ele aparenta calma. — Certo, Moshe?
De repente dezenas de olhos pousaram sobre o ivrit, sobre o príncipe exilado. A ânsia pela esperança transborda aos olhos. As crianças de olhos dourados, verdes, azuis e vermelhos aguardam uma resposta.
— I… isso e… eu sou o príncipe — droga, não consegue decepcionar esses pequenos. — O grande libertador.
— Então essa é a princesa — a frase da garota tinge o rosto de Séfora de vermelho.As outras crianças concordaram e circularam ela e Moshe como pequenos felinos. — Príncipe e princesa da libertação — cantavam.
Moshe não teve forças para negar. Como poderia parar esses pequenos se cantam junto ao seu coração? Séfora é sua musa. O título de princesa não alcança seus calcanhares. Ergueria templos em seu nome.
— É… eu… eu… não….— Não se preocupe, são só crianças — Moshe a mantém entre seus braços.
— Vamos preservar a esperança inocente que corre entre elas.
A ansiedade da euqone esvai, dá lugar ao conforto. A alma dele é quente como uma fogueira. Um sorriso se forma. Moshe não se irritou com o que as crianças cantam.
— O príncipe virá nos libertar e com sua amada nos levará a terra onde jorra pão e mel.
— É leite e mel! — uma pequena garota corrige os mais novos.
— Terra que mana leite e mel!
— Mas eu quero pão! — esperneia o mais novo. — E sem mofo!
A dança continua sem perder os contornos alegres. A esperança transborda junto a culpa. Moshe reconhece sua posição. O único ivrit a frequentar o palácio de Otige como mestre. O único ivrit a ter servos. No entanto, não é quem eles idealizam. Não pode ser. Eles precisam de um herói poderoso. Eles merecem alguém melhor. Não um monstro.
— Princesa, né? — a voz áspera vem logo após a mão pesada.
Moshe sentiu o estômago se revirar. Dedos grossos e calos esculpidos com décadas de trabalho afundam sobre o ombro desprotegido. Séfora observa sua alma vacilar entre a luz e o abismo.
— Vejo que se recuperou bem — reconhece perfeitamente a voz. — Bem, até demais.
— Yitro… eu… eu já… sinto as forças voltando para mim… — o homem que detém a guarda de sua amada. — Eu queria falar com… você…
— Ótimo — o rosto se contorce a fim de manter o sorriso amarelo.
— Percebi a pouco que também quero falar com você.
Aharon permaneceu como seu sorriso sarcástico, inalterado. Não há modo de fugir sorrateiramente. Colocou seu amigo em apuros, porém não se arrepende das palavras ditas. Acredita que Moshe é quem libertará os ivrits da escravidão. Ele é o homem que os guiará a luz. E, claro, Moshe teria que pedir a mão de Séfora cedo ou tarde.
— Pai, ele…
— Filha, não se preocupe. Resolverei tudo— Yitro deposita um beijo na sua testa após retirá-la dos braços de Moshe. — Nunca farei algo que que lhe machuque.
Então o patriarca a deixou ali, rodeado por crianças em silêncio. Séfora nada fez. Seu egoísmo venceu a voz entalada na garganta. Sabe o que ele fará. É o que faz a todos os homens que se instalam no acampamento parte receber tratamento, também é o motivo de todos saírem o mais rápido possível. Agora pode orar e somente orar.
O caminho a tenda do patriarca é longo. Cada passo alguém o exalta. Moshe se limita a monossílabas e gestos com a cabeça. Não evita os abraços ou as breves orações. Essas pessoas melhoram ao tocá-lo. Sente-se sujo por espalhar essa falsa esperança.
Isso…
Respeito…
As crianças entregam comida retirada da própria refeição, e cantavam como o príncipe traria prosperidade. Quando queriam citar a “princesa”, Yitro as espantava.
Teu…
Povo…
— Não fique em silêncio, grite em agradecimento. Ferva o coração. Demonstre respeito quando alguém deposita a esperança em ti.
— Mas… eu não sou o liber…
Moshe é jogado dentro da tenda. A face arde ao deslizar sobre a areia. O sangue escorre da testa. Caído, Moshe observa os músculos atrofiados de Yitro incharem.
— Sua opinião é irrelevante — a força do patriarca equivale a de dez homens. — Um homem deve aceitar todo dever imposto sobre ele.
As lendas dizem que os euqones são os mais abençoados pelos céus. E Moshe presencia o poder espiritual de um deles. Com a sola de sua sandália, Yitro afunda suas costelas. Os estalos secos ecoam pelo acampamento junto ao gemido de dor.
Acorde…
— Quando foi permitido ter intimidade com a minha filha? — é um mal necessário. — Está doente. Infectado. Possuído pelo próprio mal. Tua presença causa dor e morte. É isso que oferecerá a ela.
Seu dom é o aprimoramento do corpo através do espírito. Controlando a respiração, pode usar sua alma direto nos músculos. Eles inflam de acordo com seu espírito. Em seu auge desafiaria cinquenta homens sem preocupação, hoje mal pode intimidar alguns bandidos.
Destrua…
— Entendeu sua aberração? Fique longe. Ela está com você como curandeira — o nariz é quebrado por outro chute. — Unicamente para tratar esse desgosto dentro de si.
Alguns dentes caem quando geme de dor. O sangue, denso e escuro, bate contra a areia ao invés de fluir sobre ela. Falha ao tentar se levantar. O mundo cai ao seu redor
Dilacere-o…
— Yi… tro… o que… o… você… — tem dificuldade em se manter acordado.
Levante-se…
Lute…
A dor desperta cada nervo. As unhas raspam os antebraços até o sangue denso cair para fora. Em sua mente ordena a cada voz: “não me cure”.
Aceite…
Revide…
— Imaginei que esses ferimentos se fechariam.— Eu… eu… eu posso não ser o salvador dos ivrits. Está correto ao me acusar de carregar essas vozes comigo — o sangue amarga a boca. — Mas eu nunca machucaria Séfora. Não derramarei uma gota de seu sangue ou de sua família. Eu prometo pela minha vida.
— Promessas vazias — a palma da mão golpeia o queixo — não me interessam!
O sangue euqone é desejado e temido, um povo destinado a cumprir profecias. Todos são exímios manipuladores do plano espiritual. Nunca faltou pretendentes para as sete filhas de Yitro, indignos. Sem exceção, todos buscando meios de glorificar a própria linhagem.
Mate-o…
Mate-o…
Mate-o…
— Siga essas simples regras e prometo não lhe causar mal: Não ouse ser casual com minha filha. Não a toque sem ser estritamente necessário. Não a olhe com luxúria. Não converse. Não durma com ela. Não ande com ela.
Chega…
Revide….
“Não me curem. Não me curem. Não me curem”
Moshe continua recitando em sua mente. Se recusa a usar de novo a repugnante regeneração. A boca, preenchida pelo carmesim amargo, recusa soltar o pedido de clemência.
Mate…
Lute…
— Obedeça e permitirei sua estadia conosco o tempo que julgar necessário.
O ivrit segura a língua decepada. Não pode aceitar os termos de Yitro. Não tem forças para falar. As costelas perfuravam os pulmões a cada inspiração. Ama Séfora e sabe que ela o ama. O sangue entra nas vias aéreas. Não quer ser o monstro.
Aceite-nos…
Proteja-a…
Salve-a…
O patriarca vira-se a saída. Seu sangue é arma. Não pode aceitar ser humilhado. Como pode esse maldito euqone ser ingrato ao homem que salvou sua família? Ingrato só homem que salvou centenas? Aja como o rei que está destinado a ser…
— Não me obrigue a matá-lo — Yitro o vê agarrar-se ao seu tornozelo.
Moshe autoriza as vozes a curá-lo. Ligando a língua decepada há um fio negro. Fios e fios surgem até conseguirem conectar o pedaço a boca. Vomita sangue esvaziando os pulmões. As costelas são deslocadas e coladas. A escuridão devora a luz dos olhos. A chama está trêmula no abismo.
— Yitro… — sob os dois joelhos — me observe e provarei ser digno da mão de sua filha.
O euqone cospe no chão e segue até a saída. Gostaria de retrucar a insolência do garoto. Alguém deve educar aquele ivrit de olhos abissais. Deveria o prender, mas… mas…
Sangue
Sim. Ao suspender o dom não tardou para o licor da vida escorrer entre seus dedos. Todo euqone sabe quando virá uma vida. Todo euqone sabe quando partiu uma vida. E, claro, todo euqone sabe quando deverá abandonar o mundo físico.
Yitro sabe que está morrendo.

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