Capítulo 35 - O começo da fagulha
[ Campo de Treinamento 1 da Academia Shihai de Asahi, fim da tarde ]
Finalizando uma corrida, Akemi levou uma mão ao joelho e passou a outra no suor da testa. Pela primeira vez, ele sobreviveu as horas de exercícios que pareciam inventados apenas para tortura humana e prazer de Major Yura. “Eu consegui!” pensou ele, incrédulo, porém satisfeito.
Seus músculos latejavam, implorando por descanso, mas aquela era a dor da conquista: pequena, talvez insignificante para os outros, mas para ele, era monumental.
Akemi relembrou os ensinamentos de Nikko durante o treino. A respiração áurica, o controle do ritmo, a percepção dos sinais do corpo antes do desmaio e limite nos exercícios certos. Tudo fez diferença. Ele encheu os pulmões de forma mais controlada do que faria dias atrás.
Ao redor, os outros alunos que terminaram a corrida estavam dispersos em grupos. Alguns seguiam em direção aos dormitórios, outros permaneciam no pátio conversando, e uma parcela menor caminhava em direção ao prédio principal com passos determinados. Entretanto, novamente, os Miyazaki e os Yamamoto não participaram das sessões de treino, o que deixou Akemi curioso sobre os seus paradeiros.
“Fico pensando onde os dispensados estão fazendo agora”, observando em volta, Akemi encontrou Nikko conversando animadamente com Kyoko e Mayumi, gesticulando e rindo de forma descontraída diante das feições neutras das outras. “O que elas tão planejando?”
A curiosidade bateu mais forte que o cansaço.
Discretamente, Akemi aproximou-se, mantendo distância suficiente para que não fosse notado, mas perto o bastante para que escutasse.
— …dizem que a Comandante Simonna é decente em técnicas de combate corpo a corpo — comentou Kyoko, fornecendo dicas com sua “simpatia” de sempre.
— Planejo conhecer as instruções do Major Hasegawa — comentou Mayumi — ouvi dizer que ele ensina sobre estratégia militar e análise de terreno.
Já Nikko, como na maioria das vezes, extravasava sua alegria. — Já eu mal espero pelas PAAs1! Sei que elas dão desafios bem legais! Mas nada me impede de correr atrás dessas aulas abertas que vocês duas estão falando, he hii!
“Aulas abertas?” analisava Akemi, “instrutores oferecem aulas físicas ou teóricas para qualquer aluno?”
— Desculpe perguntar, mas vocês viram onde estão os irmãos Yamamoto? — questionou Mayumi.
— Ah! A Arunizinha me disse que iriam para uma instrução teórica com seu irmão — relatou Nikko — pelo visto, eles não são muito fãs de infantaria, he hii!
— E os Miyazaki? — perguntou Kyoko.
— Provavelmente estão com instrutores especializados em combate de alta intensidade. Eles nunca perdem tempo — respondeu Mayumi.
“Então é por isso…” Akemi entendeu. “Esse tempo livre pode ser uma oportunidade de buscar conhecimento com outros instrutores!”
A ideia era tentadora: visitar outras instruções, aprender técnicas diferentes, explorar as possibilidades que a ASA oferecia.
Mas outra voz ecoou em sua mente — a voz de Miya, calma e confiante: “fale com o seu conselheiro.” Akemi pesou as opções. “Eu poderia explorar as outras aulas depois, só que se o instrutor Masaru realmente pode me ajudar a entender minha aura, eu terei as aulas perfeitas.”
A decisão foi tomada.
“Mas lógico, vou tomar um banho primeiro.”
Akemi, vestido em seu gakuran e satisfeito pelo banho que tomou no banheiro vazio da turma, caminhava devagar pelo corredor silencioso do térreo, antecipando a expectativa de finalmente ter respostas sobre sua aura.
Quando parou diante da porta, murmurou os números na placa: — Sala 0909.
Era uma porta de correr simples, de madeira escura e polida. Nada de especial, nada intimidador, e mesmo assim, Akemi sentiu o coração acelerando.
“Será mesmo que minha presença não seria incômoda?” O rapaz sentiu o suor nas mãos. “Calma. Você só vai conversar!” Quando respirou fundo, organizou os pensamentos. Depois, com toda a determinação que reuniu, bateu na porta.
Toc, toc, toc.
— Entre — disse uma voz masculina, despreocupada.
Akemi empurrou a porta lentamente, e um feixe de luz alaranjada vazou pela fresta, revelando o interior.
A sala pequena era surpreendentemente aconchegante, ostentando paredes de madeira escura, estantes repletas de livros e tubos de ensaio, e uma lareira crepitante que aquecia o ambiente.
No centro, uma poltrona marrom giratória estava ocupada por uma figura de costas:
Masaru Miyazaki.
Com coragem, Akemi deu um passo para dentro e fechou a porta atrás de si. — Com licença, Subtenente Masaru, Zero Um da Turma 1F. Gostaria de saber se, como meu conselheiro, teria um tempo para conversar agora.
Masaru tragou o cigarro lentamente, soltando a fumaça com calma. — Quanta formalidade — comentou, ainda de costas. — Confesso que, com base em todas as vezes que o observei, Aburaya, nunca o imaginei falando assim. Gostei do tom. Continue.
— Gostaria de fazer algumas perguntas.
— Sobre a academia?
— Não… não só sobre ela.
— Então, o que mais te incomoda?
Akemi hesitou por um breve segundo, mas foi direto. — Primeiramente, com todo o respeito, gostaria de entender exatamente quais são as funções do senhor como meu conselheiro.
Masaru deu outra tragada. — Nesta academia, conselheiro é aquele que, munido de habilidades inerentes adquiridas por meio de treinamentos e estudos, se propõe a instruir e ajudar seus pupilos, seja como profissional militar ou figura de liderança.
— Por que o senhor se tornou meu conselheiro? Não que eu ache ruim, mas queria saber como foi feita a escolha.
— Atribuições como essa não partem dos conselheiros. A designação de cada um é uma decisão exclusiva da diretoria da academia. Todavia, com um devido azar, ou talvez ironia do destino, você acabou vinculado a um dos conselheiros de menor graduação hierárquica. Francamente, esta é a primeira vez que assumo a mentoria de alguém. Normalmente, recuso esse tipo de cargo… a menos, é claro, que venha acompanhada de uma ordem incontestável.
“Ele foi obrigado a ser meu mentor? Por quê?” Akemi estava intrigado pela dúvida, mas o tempo estava correndo. Era preciso outras respostas. — Entendo. O senhor poderá me dar instruções sobre como posso controlar a minha aura?
Masaru soltou um riso contido. — Ha, diz sobre aquela energia amarelada que lançou meu sobrinho contra o casco anti-aura da arena desta academia?
“Ele está falando do Nihara… Talvez eu precise tomar cuidado com as palavras”, Akemi engoliu seco. — Sim, acho que o senhor pôde perceber que eu não conseguia executar bem o uso da-
— Da sua aura? Claro que não conseguiria. Como alguém poderia participar de um combate áurico dias depois de adquirir capacidades áuricas? — Masaru girou a cadeira e finalmente se mostrou para Akemi:
Seus óculos foscos refletiam a luz da lareira, tão refinados quanto o gel no cabelo penteado. No tronco, um colete preto e justo, preso por dois pares de botões amarelos, encobria parte da camisa branca de mangas dobradas. A gola alta, envolta por uma gravata estreita, reforçava o ar cerimonial prolongado pelas calças ajustadas acima das botas escuras de cano médio.
Akemi manteve a postura. — O que o senhor sabe sobre mim?
— Acredita que eu seria mentor de alguém sobre o qual nada sei? Por favor. Investiguei cada passo da sua vida, garoto. Conheço sua residência, instituição onde estudou, cargos que ocupou, e até mesmo o responsável por sua criação está devidamente registrado em meus arquivos… Contudo, admito com certo incômodo que há lacunas nesses dados. Seu local de nascimento permanece um enigma, e com ele, qualquer vestígio concreto sobre seus progenitores. Mas vejamos, algo me diz que nem você próprio é capaz de responder sobre sua origem. Estou errado, Aburaya?
— Não — Akemi abaixou a cabeça por um breve instante. A ausência de informações sobre seus pais sempre foi uma dor silenciosa.
— Como imaginei — Masaru sorriu levemente, satisfeito com a confirmação. — Não me leve a mal, jovem. Sua resposta diminui o meu desconforto em não achar porquês sobre o sumiço de seus pais.
Akemi ergueu o rosto novamente. — Está tudo bem, é algo que já está no passado.
— Passado… — repetiu Masaru, pensativo durante mais uma tragada. — Falando em passado, voltarei a comentar sobre o seu combate contra o meu sobrinho.
— Antes, senhor! — alertou Akemi, determinado — por favor, entenda que nunca tive o intuito de ferir alguém daquela forma. Eu não esperava que poderia chegar àquele ponto, mas Nihara não estava nem um pouco disposto a me escutar.
— Lutar contra qualquer um dos Miyazaki exige boa experiência ou força sobrenatural. Nossa família é orgulhosa, impulsiva, difícil de parar — Masaru caminhou para perto da lareira. — Entretanto, naquela batalha, todos nós que assistimos presenciamos um acontecimento um tanto quanto… inesperado.
— Inesperado? O que ele quer dizer?
— Me permitiria demonstrar?
Akemi repensou por um segundo, mas a curiosidade venceu. — Claro, senhor.
Masaru jogou a bituca do cigarro diretamente nas brasas da lareira. O brilho alaranjado refletiu nos óculos foscos.
Então, o inferno se manifestou:
O Miyazaki moveu a perna direita à frente, firmando a base. Sua mão esquerda estendeu-se em direção às chamas, e a direita, recuada, abriu-se, como se puxasse algo invisível no ar.
Fuuushhh!
Brasas da lareira viraram labaredas violentas e dispararam em direção à palma de Masaru, envolvendo o braço em um redemoinho de fogo no formato de um dragão sem asas.
Akemi arregalou os olhos. “Ele vai-“
O homem girou o tronco e avançou o punho direito cerrado e inflamado. O soco atingiu o espaço à frente com brutalidade, sequenciando uma devastação.
Fu-woof!
Uma torrente de fogo disparou em linha reta, engolindo tudo no trajeto como um dragão faminto. O calor era esmagador, a luz, cegante.
Akemi sequer teve tempo para esquivas: a onda o atingiu em cheio.
FWOOOSHHH!
O estrondo de calor invadiu a sala inteira. Onde antes havia um jovem, sobrou apenas um vórtice flamejante, uma cortina de luz viva e abrasiva que lambia o teto em um incêndio descontrolado.
Masaru mantinha o punho à frente, disparando incessantemente o fogo de suas mãos.
As chamas rugiram, multiplicaram, engrossaram, e enfim, acabaram.
Com o calor do fogo permeado no ambiente,
Curiosamente, mesmo sem vestígios de material queimado, Masaru aguardava pelas cinzas de seu alvo. Ainda assim, apesar da intenção assassina, tudo transcorreu exatamente como esperado:
Em meio à fumaça que se dispersava, estava Akemi Aburaya, intacto, porém chocado, pois novamente, aquela sensação de energia voltava ao seu corpo.
“Eu senti o calor… mas não doeu.” O garoto contemplou as próprias mãos, sentindo a energia percorrendo seu corpo e devolvendo o sorriso à sua boca. “Foi como antes, bem quando a aura do Nihara me atingiu.”
A menos de dois passos de distância, Masaru analisava o jovem com um olhar superior. — Interessante, nenhum ferimento, nenhum desgaste externo, mas seus olhos… ah, eles contam uma história diferente. Está sentindo algo diferente, não está?
Akemi assentiu.
— Isso confirma o que eu teorizava — afirmou o instrutor,, analítico — seu corpo absorve energia áurica, mas não a anula. Ela passa por você e é armazenada. Como um capacitor.
E foi naquele momento que algo se acendeu nos olhos de Akemi. — Um capacitor!? Como em circuitos elétricos!?
Masaru ergueu uma sobrancelha. — Exatamente. Você acumulou todo o meu golpe como um recipiente. Porém, ainda não é capaz de entender como manipular essa energia.
Akemi deu um passo à frente, ignorando completamente a formalidade. — Mas se funciona como um capacitor, a energia armazenada precisa ser descarregada, correto? Senão, eu… sobrecarro?
Masaru renovou sua atenção diante das questões do rapaz. — Continue.
— Eu fazia estágio numa usina hidrelétrica. Meu avô, além de diretor, era meu supervisor lá. Ele me ensinou sobre geração, transmissão, distribuição e armazenamento de energia. Senhor, se meu corpo funciona como um capacitor áurico, isso significa que eu posso tanto absorver energia quanto liberá-la!
— Vá com calma. Apenas usei esta comparação pois um capacitor é a forma mais prática de explicar como os áuricos retratores funcionam, e pelas suas características, você claramente é um deles. Por isso, precisa entender os limites do seu corpo: quanto você pode armazenar, quanto pode liberar, e principalmente, como controlar o fluxo.
Akemi sentiu algo que não sentia há dias: esperança. — O senhor realmente vai me ajudar?
Masaru o encarou por um longo momento. Então, com um aceno sutil de cabeça, respondeu: — Não posso garantir que irei sanar todos os seus problemas, Aburaya. Mas se o seu objetivo é controlar sua aura, devemos entender exatamente o porquê de você ter sobrevivido a isso — ele apontou para a lareira. — E se você realmente tem conhecimento sobre física e energia, talvez isso não seja tão impossível quanto parece.
Akemi fechou os olhos por um breve instante, deixando as palavras assentarem. “Que alívio, há mais daqueles que possam me ajudar…” Quando os abriu novamente, renasceu a determinação. — Então, quando começamos?
— Agora.
- Prova de Aptidão Física[↩]

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