Capítulo 87 - A Prova de Guerra
A fragata asahiana surgiu inteira diante de Huo’ying com o auxílio do binóculo.
O convés branco estava tomado por fogo e movimento. Soldados corriam entre mastros rachados e velas queimadas, enquanto os shihais meilianos avançavam em formação agressiva, espalhando labaredas que consumiam madeira, cordas e homens com a mesma indiferença.
Um asahiano atravessou o convés com uma lança curta, mas uma rajada ígnea o atingiu no torso e o jogou contra o mastro quebrado; seu corpo caído ao chão deixou um rastro escuro na madeira.
Outro foi fechado por cinco meilianos. Ele lutou bravamente, disparando rajadas de vento que empurravam os atacantes, mas acabou superado. Uma lâmina de fogo atravessou o peito.
Mais adiante, dois combatentes se enfrentavam em luta direta. A mão ígnea da Terra do Fogo rompeu a defesa de pedra do adversário em um único golpe, manchando-o em sangue.
Era tudo muito rápido.
Huo’ying prendeu a respiração; o binóculo pesou entre suas mãos, mas não caiu.
Explosões menores sacudiram a proa inimiga, estilhaços e pedaços de vela voaram ao mar. Entre a fumaça, um grupo de incertos trinta jovens asahianos de jalecos brancos recuava em desespero, enquanto três shihais de fogo avançavam em linha com as mãos acesas, encurralando-os ao centro do convés como animais.
Dentre os indefesos, uma mulher asahiana, shihai de água de talvez trinta anos, protegia os estudantes. Ataques ígneos eram refletidos por chicotes d’água, mas eram muitos. A defesa falhou, e os meilianos subjugaram a protetora.
Os estudantes gritaram.
Entretanto, um jovem tomou a frente do grupo, sua espada empunhada tremia; seus passos erráticos sobre a madeira chamuscada avançavam lentamente, e seus lábios se movendo em um pedido calado temiam a ação dos inimigos.
Um soldado de fogo aplicou investida, e seu corte flamejante derrubou o jovem no chão.
A espada escapou e deslizou pelo convés; seu dono caído ergueu o braço em busca de proteção ou qualquer coisa que o salvasse, mas o golpe derradeiro o finalizou sem pausa.
Huo’ying afastou o binóculo do rosto como se tivesse sido queimada; sua respiração caiu na irregularidade, e seu mundo ao redor perdeu o som por um instante. O mar, o navio e os soldados foram engolidos por um silêncio traumatizante, e a carnificina, continuava.
Wei segurou o binóculo antes que ele escorregasse completamente das mãos da garota.
— Chega — murmurou.
Huo’ying deu um passo atrás, a madeira sob seus pés pareceu instável. O estômago se contraiu, a garganta fechou, e a visão da fragata em chamas continuava gravada em sua mente com uma nitidez cruel. — Eles… estão executando todos…
Wei apoiou o binóculo contra o próprio peito e lamentou o choque da inexperiente. — Em batalha naval não há prisioneiros fáceis. Um navio mas tomado vira risco. A ordem é neutralizar qualquer um que minimamente se oponha.
A princesa levou a mão ao peito após uma fisgada, segurando algo imaterial que se partia dentro dela. Os desvios do rosto em direção ao mar não adiantavam, a imagem do jovem caído insistia em retornos. A mão erguida, o pedido silencioso, o golpe final. O corpo imóvel.
Os ensinamentos do Dançarino das Chamas ecoaram dentro de uma memória confusa com uma clareza dolorosa. A honra, a proteção dos inocentes, o valor da vida e a responsabilidade do poder, tudo foi esmagado por uma realidade que jamais havia sido mostrada dentro dos muros do palácio.
O peito apertou, e por um instante a garota sentiu que perderia o equilíbrio.
Wei permaneceu ao seu lado, sem toques, sabendo que naquela reação, nenhuma palavra aliviaria o impacto.
Ao longe, a fragata asahiana ardia sob as chamas. Os gritos não chegavam mais até eles.
Somente o som do mar, do vento, e o crepitar distante do fogo consumindo o que restava.
Huo’ying fechou os olhos por um instante, buscando algum ponto de estabilidade dentro de si, mas o que encontrou foi a certeza de que o mundo além do palácio era muito mais cruel do que qualquer história já contada nos salões imperiais.
Quando retornou os olhos ao horizonte, o brilho do entardecer já não parecia belo, e sim, manchado.
Dali, ela compreendeu:
A guerra não era feita de bandeiras, discursos ou glória: era feita de vidas interrompidas.
A partir daquele momento, a princesa oculta jamais enxergaria o mundo da mesma forma…
— EXCELENTE! — gritou General Li’ang, atravessando os tripulantes com empolgação. — Eles não têm chance! Nunca tiveram! Avante, princesa, terminaremos o serviço!
A fragata meiliana se moveu rumo aos escombros asahianos, lenta, mas inexorável.
Simpatizante ao desespero iminente da novata, Wei esclareceu: — Vamos. É pra isso que você está aqui, não é? Pra mostrar sua força?
— Mostrar minha força? — Huo’ying pensava alto, a náusea do terror a consumia. — Contra pessoas que só tentam sobreviver?
A fragata meiliana chegou perto e mais perto, até que Huo’ying finalmente viu algo que gelou seu sangue:
No convés inimigo, os soldados de fogo haviam vencido. Os poucos shihais asahianos sobreviventes estavam rendidos, ajoelhados com as mãos na cabeça ou algemas de fogo que queimavam a pele.
Em um canto, os meilianos invasores estavam separando os prisioneiros.
Homens de um lado. Mulheres e jovens de outro.
Huo’ying se perguntava sobre o que estavam fazendo, já Wei seguiu seu olhar assustado.
— Ah, aqueles são os homens que serão executados. Não servem pra nada. Mas as mulheres e os jovens… eles são valiosos demais para a Santa Mãe. Talvez serão forçadamente convertidos, ou nos destinos mais drásticos, vendidos para uso próprio.
— V-vendidos?
— Claro — confirmou Wei, óbvio — Meilí paga muito bem por asahianos domados. Especialmente mulheres bonitas e jovens saudáveis. É uma das melhores partes dessas missões: lucro extra!
“Vão transformar essas pessoas em escravos, e… e usá-las como marionetes”, pensou, enjoada.
O convés asahiano retomou seu foco.
Um casal de jovens chorava entre um abraço acorrentado em chamas.
Um homem ensanguentado era arrastado pelo braço enquanto gritava.
Soldados meilianos examinavam uma mulher rendida como se fosse mercadoria.
Por fim, o massacre, a escravidão, e a crueldade pura, quebraram a princesa.
— ÚLTIMA ONDA! PREPAREM-SE!
Wei tocou o ombro da jovem que escondia sua ira com a cabeça baixa. — Vamos, princesa. Hora de brilhar.
Huo’ying não se moveu.
— Princesa? Ei, você deve vir se não-
Wei recuou imediatamente.
Os olhos da garota estavam em chamas. Literalmente.
— Princesa, o que-
FWOOOSH!!!
O fogo explodiu do corpo dela. A forma humana desapareceu. No lugar, surgiu uma figura de chamas, alta, imponente, pulsando com calor um que distorcia o ar.
— QUE DIABOS!? PRINCES-! — O comandante rapidamente foi impulsionado para longe do navio em uma palma de fogo.
Os outros cem meilianos a bordo entraram em alerta, mas nenhum era páreo. Todos foram jogados ao mar entre impactos poderosos de socos e chutes alternados por movimentos fluidos e ferozes.
Paralisado e amedrontado, Wei sobrou como o último sobrevivente. A forma ígnea o percebeu e o agarrou pelo pescoço.
Os olhos incandescentes leram toda a vida do soldado rendido, julgando-o como pecador perante todos os relatos de morte que causou.
Analisada sua sentença final, Wei foi jogado ao mar, gritando antes do baque contra a água.
Em seguida, como meteoro de fogo, a forma cruzou o espaço entre as duas fragatas, e quando aterrissou no convés da fragata meiliana, no meio dos soldados que esperavam para serem lançados, outro massacre começou…

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