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    O rapaz correu e parou de braços protetoramente abertos entre Huo’ying e os asahianos.

    — Ela nos salvou! — ressaltou, encarando a militar de cicatriz — todos viram! Ela destruiu os invasores! Derrotou os próprios compatriotas! Nos protegeu quando ninguém mais podia!

    A veterana não comprava a ideia. — Garoto, saia da frente. Ela é meiliana, e aparentemente filha de nobres poderosos. Já cansamos de sofrer truques de infiltração em nosso território, não será agora que isso ocorrerá novamente.

    — Truque? — replicou o jovem num riso irônico — que tipo de truque envolve destruir seu próprio exército? Ela queimou a fragata meiliana! Derrubou trezentos soldados de sua própria nação! Se isso é truque, declaro-me tão poderoso quanto a minha matriarca!

    Alguns estudantes se entreolharam com desdém da comparação sarcástica, os soldados permaneceram sérios.

    A militar desconfiada enfim agiu, aproximando-se com seus cabelos longos combinando perfeitamente à cor da lâmina vermelha de sua katana sacada. — Chega dessas falcatruas, Miyazaki. Você é estagiário, não tens autoridade para atravessar diretrizes do Exército — a espadachim atravessou o garoto e inclinou o queixo diante da garota de olhar caído e estatelado. — Ela pode ter derrubado meilianos, sim, mas e se houver algo por trás? Uma rixa escondida, um pedido oculto… não temos resposta, só um indício. Veja, ela está em colapso, pois sabe exatamente o caos que fez e causará — a voz endureceu — e é agora que agimos, antes que isso saia do controle.

    A katana foi erguida para execução, a luz do sol batendo na lâmina emitia um feixe avermelhado cegante que pré-anunciava a morte.

    Porém Masaru Miyazaki — eis o nome do jovem protetor — levantou a cabeça com os óculos rachados refletindo a luz do entardecer. Sua paciência estava no fim. — Como gostam de teorizar… Olhem para ela! Mal consegue ficar de pé! Está destruída! Se quisesse nos controlar, por que estaria assim? Por que arrancou o brasão imperial? Vimos com nossos próprios olhos, ela o jogou fora como lixo! Isso é ato de alguém leal à sua terra?

    Huo’ying controlou o tremor nos olhos; as lágrimas embaçavam sua visão, mas a expressão do rapaz lhe foi capturada. Por baixo daqueles óculos, via-se compromisso com a proteção junta de uma compaixão raramente dirigida a ela.

    Ninguém respondeu. O impasse se estendeu.

    Masaru procurava apoio nos arredores. A minoria de estudantes insinuava concordância enquanto os soldados permaneciam fechados e inflexíveis.

    Mas alguém optou pela intervenção.

    — Capitã Sanada, por favor, abaixe a arma! — suplicou uma mulher de longos cabelos negros molhados e uniforme de oficial da ASA rasgado. Ela se levantou entre o grupo de alunos ex-rendidos. Era a shihai de água que Huo’ying vira protegendo os estudantes, recuperada, mas com o braço esquerdo enfaixado improvisadamente com fluxos d’água cristalinos.

    — Instrutora Yoshida, está ferida demais! — alertou uma aluna, preocupada.

    — Estou ferida, não surda. Eu ouvi tudo, e o garoto está certo — a oficial caminhou até o semicírculo em volta da meiliana, claudicando1 levemente. — Vi o que esta jovem fez. Ela atacou os próprios compatriotas quando poderia ter nos deixado morrer, e acima de tudo, chorava enquanto lutava.

    — Emoção não é evidência de humanidade, Tenente — ressaltou a tenente, cética.

    — É exatamente sobre isso. Soldados meilianos não choram, não duvidam, não traem. Eles seguem ordens até a morte, e essa garota as quebrou e acabou de certa forma nos protegendo. Se não conseguimos reconhecer coragem quando a vemos, então somos piores do que os inimigos contra quem lutamos!

    A espadachim estudou os rostos dos asahianos ao redor. Alguns assentiram, convencidos. Outros mantiveram a guarda alta, presos à dúvida.

    O silêncio continuou por longos segundos.

    — … Está bem — A Sanada suspirou e retornou a lâmina de volta à bainha com um clique metálico. — Não vamos executá-la, mas ela ficará sob custódia militar. Algemas anti-aura e vigilância constante. Quando chegarmos ao porto, os superiores decidem o destino dela. Todos de acordo!?

    Masaru encheu o peito, a contestação estava na ponta da língua, mas foi interrompido. A mão da Tenente Yoshida pousou em seu ombro com uma pressão leve e maternal. Quando o jovem virou o rosto, encontrou no olhar cansado e compreensivo da oficial um pedido de aceitação sem palavras. Eles fizeram o melhor possível, a garota estava viva, e era aquilo o que importava.

    Masaru apertou os punhos, a frustração queimava na garganta, mas não reagiu.

    Sanada fez um gesto sutil e um soldado ferido avançou com algemas feitas de um material áurico translúcido forte e eficiente para a imobilização indolor. O propósito em seu uso, era a capacidade de inibição de poder áurico do indivíduo que as usasse. 

    Huo’ying estendeu os pulsos sem resistência, o clique suave das algemas ecoou no silêncio tenso. Dois guardas a ergueram pelos braços, conduzindo-a em direção às escadas que levavam ao interior escuro da fragata.


    A cela era pequena, úmida, e cheirava a ferrugem velha misturada com sal do mar.

    Uma única janela gradeada no alto dava acesso ao fio de luz dourada do entardecer. Huo’ying escorou-se ajoelhada no canto oposto à porta e encostou a cabeça contra a grade fria. As algemas translúcidas pesavam nos pulsos, mas não machucavam.

    O balanço gentil da fragata iniciando a viagem de volta e os sons distantes da tripulação organizando o convés pareciam um pesadelo solitário.

    Mas os sentimentos ruins pouco duraram.

    Passos ecoaram no corredor. Naomi abriu os olhos, alerta.

    A porta rangeu, e uma silhueta apareceu na soleira, iluminada por trás pela luz fraca de uma lanterna.

    Era Masaru Miyazaki, aproximando-se com confiança. — Perdoe-me por não ter falado diretamente com você antes. Como está? — perguntou Masaru, calmo e gentil.

    Naomi endireitou o corpo ajoelhado, confusa pela gentileza inesperada diante de si. Ela pensava no que falaria, entretanto, nada vinha por conta do trauma que esvaziava sua mente.

    — Desculpe-me, poderia me dizer qual o seu nome? — solicitou Masaru.

    — E-eu… meu nome…? — A resposta ficou presa na garganta. O nome “Huo’ying” pertencia à princesa, filha da Imperatriz e herdeira do trono de fogo, mas que a partir daquela tarde, não era mais parte daquele império.

    As memórias do pai dançarino voltaram, histórias sobre liberdade, sobre a dança fora dos muros do palácio, sobre a vida que mudaria a qualquer momento em prol da busca pela paz.

    — Por acaso você não tem um nome? — indagou o Miyazaki, curioso.

    Embora a pura verdade fosse outra, a quietude e rosto curioso da jovem dizia sim.

    Masaru esboçou um sorriso. — Bom, vamos precisar de um nome em você para facilitarmos nossa comunicação. Que tal Naomi? “Beleza” e “retidão”. Pode soar estranho considerando que você traiu sua terra natal, mas por ser um nome asahiano somado aos seus atos heróicos pela nossa pátria, o significado muda.

    A jovem encantou-se.

    Masaru atravessou o braço no vão das barras da cela e ofecereu a mão.

    A garota para a mão estendida e o sorriso do jovem com uma sinceridade que ela nunca experimentara, não havia segundas intenções, cálculos ou medo, apenas bondade pura e simples.

    A ajuda foi aceita. As mãos algemadas receberam o toque e a jovem foi erguida com cuidado, certificando-se de que ficaria de pé.

    — Meu nome é Masaru Miyazaki, estagiário científico da Academia Shihai de Asahi, e você, Naomi, não precisa ter medo. Eu vou te proteger assim como fez conosco.

    As lágrimas voltaram diferentes. Não tinham desespero ou pressa, mas estavam calmas, carregadas de esperança e alívio pela garantia de que a solidão não existiria.


    Quando o sol se pôs completamente sobre o Mar do Poente, as águas púrpuras refletiam a noite estrelada.

    A fragata asahiana, danificada mas navegável, seguia lentamente em direção ao leste.

    Naomi ficou sentada no canto da cela com as costas contra a grade fria, observando a pequena janela gradeada onde as estrelas apareciam.

    Contraditoriamente, ela se sentia livre.

    Pela primeira vez, alguém diferente viu-a de verdade, não como princesa ou arma, muito menos como uma ferramenta da Imperatriz: viu-a como pessoa.

    E naquela pequena cela, sob o balanço suave do mar e o brilho distante das estrelas pela janela, entre a traição e a esperança, entre a antiga Huo’ying e a recém nascida Naomi, a garota aprisionada finalmente descansou.

    O passado ficara para trás: o palácio em chamas, a mãe tirana, o brasão da Terra do Fogo abandonado num convés distante. Todavia, o futuro permanecia incerto: interrogatório, julgamento, prisão perpétua, ou o pior…

    1. caminhando com dificuldade física de locomoção[]
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