Capítulo 86 - A Interceptação
[ 1902, Palácio ZhuRong, Capital Vermelha, Meilí ]
Quatro meses se passaram desde a morte do Dançarino das Chamas.
Meses de silêncio, treino e solidão para a Princesa do Palácio ZhuRong.
No trono negro cercado por biombos rubros e incensórios, a Imperatriz Viúva Ci’xi governava com a mesma mão de ferro.
Naquela noite, os ministros foram dispensados. A sala estava vazia, exceto por duas figuras:
A soberana batia as unhas vermelhas no encosto do assento enquanto sua filha, Huo’ying, esperava de joelhos.
A jovem completara dezesseis anos na semana anterior.
Os cabelos negros e escarlates até a cintura estavam presos no coque alto de guerra. O uniforme militar vermelho-escuro, bordado com detalhes dourados nas bordas, cobria o corpo esguio mas musculoso pelos quatro anos de treinamentos intensos. No peito, um colar de topázio brilhante pendia sobre o tecido, dito como símbolo da família imperial e marca que carregava o sangue da soberana.
— Levante a cabeça — quando a filha a obedeceu, um sorriso satisfeito apareceu na mãe. — Você cresceu. Os mestres me relatam que já domina técnicas que assustam até os generais, e que seu fogo queima mais quente do que qualquer chama que já viram. Também soube que desenvolveu uma arte marcial única… Hoho, parece que tens um dom além do que lhe fora herdado… isso me enaltece — o sorriso cresceu.
Huo’ying permaneceu calada.
— Fale — ordenou a tirana, importunada.
— … Agradeço os elogios, Santa Mãe Imperatriz… mas sei que eles nunca vêm sem propósito — respondeu, controlada.
— Esperta. Muito bem — Ci’xi se recostou no trono. — Está certa, há um propósito… Uma fragata de Asahi irá em território neutro, perto aos icebergs do norte. Estão buscando um material áurico raro: gemas glaciais que segundo relatos dão vida a estruturas gélidas. Francamente, uma descoberta intrigante e valiosa, mas também vejo como algo que não deve cair nas mãos daqueles invasores… A extração do minério demora horas, então há tempo para enviarmos interceptadores. A missão é simples: eliminar inimigos, capturar sobreviventes úteis e trazer as gemas. Mas acima de tudo… — a soberana inclinou-se à frente, demonstrando interesse ampliado à jovem — quero que você vá junto.
Huo’ying não pestanejou.
— Será seu teste final. Se voltar viva e provar que é digna da força que carrega, receberei você de braços abertos com uma surpresa que mudará nossas vidas.
Qualquer promessa de “surpresa” era desconfiada pela Princesa, afinal, a Imperatriz jamais concederia nada sem segundas intenções.
— Aceitas a missão? — A proposta foi franca, mas negação nunca foi opção.
A jovem curvou-se com a testa no chão. — Aceito, Santa Mãe.
— Ótimo — Ci’xi bateu uma palma, e dois eunucos entraram pela porta lateral. — Preparem a guerreira até o partir da fragata ao amanhecer. Temos uma doce vingança preparada aos poltrões1 do leste…
Esperando o dia seguinte, Huo’ying ficou sozinha em seu quarto.
O calor da lava entrava junto com a brisa noturna pela janela aberta. Ela olhava para o céu estrelado, emparelhada com pensamentos distantes.
“O que vou encontrar lá fora? Guerra? Morte?”
Os questionamentos a faziam salivar de dor emocional. Os relatos, os treinamentos, os castigos, a violência… a maioria da sua rotina foi regrada para que ela fosse algo que detestava: uma tirana sem piedade assim como a mãe.
“Provavelmente tudo que me disseram sobre a tristeza dos conflitos e inúmeras covardias era verdade, mas o que tenho a fazer para provar que sou digna de algo que não quero ser?” O colar de topázio foi tocado. “Ó, pai, ajude-me a atravessar aquele mar em paz, e acima de tudo, não me permita retirar uma vida como tanto querem.”
[ Dois dias depois, Porto de HuoZhong, Costa Oeste de Meilí ]
A fragata imperial era imensa.
Construída em madeira vermelha reforçada com placas de metal escuro, o navio tinha três mastros altíssimos com velas abertas. No proa, um dragão negro esculpido rugia silenciosamente, e acima da gávea, a bandeira de Meilí, rubra com uma folha ígnea dourada no meio, ondulava orgulhosa.
O sol nascente pintava o Mar do Poente em ouro, encantando Huo’ying que subia a prancha junto à fila dos combatentes de preto. Era a primeira vez que a jovem pisava fora do palácio desde que nascera.
Tudo era muito diferente…
— Princesa? — chamou uma voz imponente.
De pés no convés principal, Huo’ying virou-se atenta, somente subordinados da Imparetriz a chamavam daquela forma.
Um homem de meia-idade, trajado num uniforme vermelho sangue distinto dos demais oficiais, inclinou o corpo em reverência diante dela. O rosto trazia cicatrizes antigas, e os olhos castanhos carregavam a confiança de incontáveis batalhas, acostumados com o que poucos suportariam. — Sou o General Li’ang, à seu dispor. Como comandante desta fragata, dou-lhe as boas-vindas a bordo.
A jovem devolveu a reverência como protocolo.
Li’ang a analisou por um breve momento. O estreitar de seus olhos escondia sentimentos… Dúvida? Desconfiança? Somente ele sabia.
— A tripulação já conhece sua presença. Somamos trezentos shihais ígneos, todos veteranos de pelo menos três campanhas. Mas você, de longe, se destaca como a única inexperiente e a mais jovem.
— Não se preocupe, General. Garanto não ser um fardo.
— De forma alguma. Temos fé em suas capacidades — confortou o militar — descanse nos aposentos que preparamos. Partimos em poucas horas… — distanciando-se rumo às escadarias da cabine de comando, pensamentos risonhos e maléficos o invadiram: “Hum, veremos como se sairá diante das expectativas…”
A viagem partiu ainda pela manhã, e duraria horas navegando pelo Mar do Poente, onde as águas douradas tomavam os olhos calmos de Huo’ying na amurada2.
O horizonte das cidades costeiras de Meilí desaparecia ao longe, e em uma última contemplada, a Princesa pensava nas vilas de telhados curvos e lanternas vermelhas, templos com seres míticos detalhados nas colunas, e no pescador em um pequeno bote que acenara para a fragata imperial no momento da ida.
O país era lindo, muito distinto do que imaginava. Mas eram apenas belezas visuais, pois por dentro, assim como todas as nações envolvidas em guerra, existia a impureza.
— Primeira vez no mar? — perguntaram nas proximidades, mas Huo’ying não concedia atenção.
Um jovem Soldado de Fogo por volta de vinte e poucos anos encostou-se na amurada. A falta de respostas não desmaiava seu sorriso amigável.
— Hm, pelo jeito, parece que sim. Enfim, sou Wei, Shihai de Fogo da Quarta Divisão, e você deve ser a filha da Imperatriz.
O desconforto desviou o rosto da Princesa.
Wei rendeu as mãos. — Ei, ei, falei demais? Relaxe, só estou conversando. Não vou te tratar diferente por causa da sua linhagem. Aqui no mar, somos todos iguais.
Huo’ying deu duas espiadas e baixou os olhos, relaxada.
Convencido, Wei voltou ao encosto da amurada. — Então, animada pro combate?
— Só espero que ninguém se machuque.
— Vamos interceptar uma fragata asahiana. Destruir ela. Capturar os sobreviventes. Como quer que não tenha feridos?
Ambos se encararam finalmente, a confiança do rapaz bateu de frente com a insegurança da jovem.
— Você já lutou antes? — balbuciou Huo’ying.
— Três campanhas. Fronteira norte contra Medved, costa oeste contra piratas de Valmont, e uma missão de resgate em Seorim — Wei olhou para o céu. — Já matei mais gente do que consigo contar.
— Isso não te incomoda?
— Incomodar? — refletiu — no começo sim, mas você se acostuma. É matar ou morrer, essa é a realidade da guerra.
Huo’ying sentiu a pressão no peito crescendo; se um dia se transformasse naquele militar ao seu lado, jamais se perdoaria. A brutalidade ia contra os valores compartilhados pelo seu primo, e principalmente, aos ensinamentos de vida entregues pelo seu falecido pai.
Entretanto, aquilo só existia em sua mente consciente, ou seja, se a situação dependesse somente de sua jovem alma, o destino estaria envolto em mistério…
Ao meio-dia, o gajeiro3 ranzinza que mantinha o telescópio de mão firme contra o olho animou-se quando viu a fragata asahiana de frente com o iceberg de extração no horizonte.
Menor do que a embarcação da Terra do Fogo, ela tinha o casco pintado de branco com detalhes vermelhos, dois mastros com velas brancas, e a bandeira de Asahi: um sol liso sobre um fundo carmesim e bordas laterais pretas.
A manobra apressada das velas e o desalinho da fragata inimiga se mostraram um sinal claro de retirada.
— INIMIGO À VISTA — alertou com satisfação, sentindo o cheiro de sangue criado em sua mente.
Li’ang observou com um binóculo, e pernóstico, agiu: — Pff, tolos. Acham que podem escapar só por terem uma carcaça menor? Covardes — ele jogou o binóculo no peito de Wei na amurada como se o objeto fosse lixo, e autoritário, caminhou diante dos Soldados de Fogo para o brado definitivo: — A POSTOS!
Os serviços começaram de imediato: os trezentos shihais de fogo se moveram como um organismo único. A ancora foi solta, velas foram preparadas, o manche foi levemente virado, e em meio aos homens que se espalhavam para a lateralização da fragata, flagrou-se uma tripulante perdida próxima ao parapeito.
— O que foi, Princesa!? Nunca participou de um lançamento!? — alfinetou o General, que logo apontou para os canhões massivos na guarda do convés. — Saiba que não disparamos projéteis comuns, disparamos nossos próprios guerreiros!
Soldados meilianos entravam no interior dos canhões com seus corpos envoltos por chamas protetoras, mas o que escapava aos sentidos de quem estava no convés era o costado4 a bombordo, onde novos compartimentos se abriam em sequência e revelavam mais bocas de fogo. Ao todo, três fileiras alinhavam dez canhões cada.
Com a fragata meiliana lateralizada, a interceptação foi iniciada.
— FOGO!
Os canhões explodiram em sequência de explosões entrecortadas umas às outras.
Várias bolas de fogo rasgaram o céu, deixando rastros de chamas no ar enquanto voavam em arco rumo à fragata asahiana.
Huo’ying ficou hipnotizada com uma fagulha de horror.
Os meteoros rasgaram velas, estilhaçaram madeiras, e então, os shihais envolvidos em chamas aterrissaram sobre o convés inimigo em posição de combate.
Na fragata encouraçada, as ordens não paravam.
— SEGUNDA ONDA! FOGO!
Em mais estrondos, outros trinta shihais foram lançados.
E mais trinta.
E mais trinta.
Em questão de minutos, duzentos Soldados de Fogo haviam invadido.
O cenário do massacre estava preparado…
À distância, tudo o que chegava à vista da embarcação meiliana eram ecos metálicos e clarões que piscavam sobre o convés inimigo, onde a massa indistinta de vultos e explosões abafadas definiam confronto.
Huo’ying não enxergava o que realmente acontecia. O medo era grande, mas a curiosidade era maior.
Wei apareceu ao lado, frio, isento do sorriso leve que demonstrara durante a viagem. Ele observava o esforço silencioso que a Princesa fazia para que enxergasse além do que os sentidos permitiam. — Quer ver de perto? — perguntou sem provocação. Embora no fundo ele tivesse ideia das sensações que aquilo traria, seu intuito de ajuda era nobre.
Huo’ying ponderou se aceitaria, mas Wei retirou o binóculo preso ao cinto e o colocou diante dela.
— Use logo. Assim vai entender melhor.
O objeto momentaneamente suspenso entre os dois refletia no metal a luz do entardecer, chamando pela jovem, que prontamente, o sacou.
Os dedos envolveram o binóculo como se tocassem algo desconhecido e perigoso, e quando levaram-no ao rosto, o mundo distante se aproximou de forma brutal…
- associados à agressão contra quem não pode revidar[↩]
- parapeito ou muro baixo pelas extremidades do navio, servindo como proteção da tripulação e ponto de apoio para observação do mar[↩]
- soldado que fica na gávea[↩]
- toda a lateral da embarcação, estendendo-se da proa até a popa e protegendo a estrutura externa do casco em que ficam posicionadas as escotilhas e aberturas do navio.[↩]

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