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    “Case-se comigo…! comigo…! comigo…!” As palavras de Akemi ecoaram na mente confusa da instrutora.

    E não teve outra, o rosto descrente de todos, incluindo os derrotados pelo gelo, causava um silêncio ensurdecedor; ou talvez o melhor adjetivo fosse: “constrangedor”.

    Não eram apenas os alunos que tomavam a maior atenção, na verdade, o rosto da instrutora… nem se juntassem o coro de incredulidade ao redor, seria possível uma expressão tão tomada pelo espanto.

    A reação em sequência então…

    Aaaah… — Hisako cedeu a um desmaio, sua cabeça tombou para trás, rendida à uma declaração que com certeza era uma baita armação de jovens espertos.

    Akemi recuou um passo. Se aquilo era encenação ou realidade, era uma dúvida que o assustava. — Ai, caramba! Ela tá bem!? E-eu matei ela?! 

    — Muito bem, garoto! — comemorou Kyoko, socando o ar.

    — Ei! — Miya levou as mãos na cintura e inclinou-se diante da mentora de todo o plano. — Eu tinha visto um anel de ouro na mão esquerda dela! Ela não é casada!?

    — E é, com dez homens. Mas a dura realidade pra minha tataravó é que nenhum é tão novinho assim. Aquela velha gosta.

    — E-e-e sua família aceita coisas assim!? — indagou Aruni, chocada.

    — Somos de uma tribo com culturas diferentes. Respeito evita preconceito, sabia?

    A lealdade de Mayumi se embaralhou com a vontade de avançar. — Shimizu, será que a vaga ainda está em jogo?

    — Humpf, quem pegar, leva.

    Perto de Hisako, Akemi desacreditava da oportunidade diante de seus olhos. “Ela… desmaiou mesmo?” Entretanto, o ocorrido penetrou sua moral. “E eu… eu… EU ME DECLAREI PRA UMA VELHA?!”

    Mãos pararam na cabeça.

    “O que essa mulher tem na cabeça?! É uma tarada pelos mais novos?! Que inconveniente…! Mas calma, não posso pensar nisso agora.” 

    Após um forte suspiro, o foco voltou.

    “Beleza, Akemi! Já tem muito caminho andado! Agora você só precisa tocá-la!”

    O rapaz esticou a mão, quase tocando nos dedos de Hisako.

    Estava quase lá…

    “Mas… espera aí. Talvez pra mim não seja uma boa ideia pular de turma agora. Isso pode ser desvantajoso pra mim. Com certeza eu não tenho experiência necessária.”

    — Ai, caramba! Por que isso tem que ser tão difíci-!?

    Zziumm!

    Subitamente, uma rajada amarela rasgou o ar.

    Em uma investida de luz, Hikaru, usando sua velocidade imperceptível, concentrou seus olhos límpidos em Hisako inerte na cadeira. Entre flashes amarelos, ele esticou o braço, buscando o símbolo de sua vitória inevitável.

    Já Akemi, perto do ataque, viu o tempo desacelerando enquanto a silhueta nítida e dourada de Hikaru em movimento remetia uma flecha disparada por um arco divino.

    “O que é isso? Por que tudo tá tão lento?” Akemi procurava a resposta no que via. “Ele atinge a velocidade da luz, mas agora consigo vê-lo claramente, consigo entender o movimento dele. Mesmo assim, não era pra isso acontecer, ele tá rápido demais! Como tô acompanhando isso!?” A trajetória do sangue em suas veias esquentou, cada célula de seu corpo alertava um perigo iminente. Mas qual perigo?

    Akemi compreendeu quando olhou para Hisako.

    A figura da militar, mesmo desmaiada, exalava uma manifestação jamais ignorável: uma aura azul, forte e levemente escura, vibrava ao redor dela com uma intensidade crescente.

    Os estalagmites de gelo ao redor estavam sendo afetados, pequenos estalos ecoavam o prelúdio de um desastre…

    A poucos centímetros da instrutora, o prodígio da luz esticou os dedos, pronto para a conquista do desafio.

    “Tenho que parar ele antes que seja tarde!” Akemi pensou em segurar Hikaru pela camisa, mas era impossível. Suas mãos sequer saíam do lugar. Seus olhos e mente acompanhavam, mas o corpo? Definitivamente não. “Não consigo. É a mesma sensação da minha luta contra o Nihara… Essa não.”

    No momento em que a ponta dos dedos de Hikaru quase tocou a pele de Hisako, a atmosfera mudou.

    CCRRRRRRSSSSSSHHHHHH…!!!

    Uma explosão gélida irrompeu, seguindo uma frente tirana partida da militar. O próprio inverno agiu sobre o campo, disparando uma violenta tempestade de neve em 360°, engolindo o ambiente com uma névoa cristalina.

    A visão de todos foi dominada pela névoa azulada por um instante tão breve quanto uma respiração. Quando o friorento manto se dissipou, uma paisagem impressionante surgiu: o campo de batalha inteiro, da terra no chão até as distantes paredes ao redor, estavam envoltos por uma grossa camada de gelo.

    Os estalagmites de gelo ganharam tamanho, e fortalecidos pelo poder desmedida, aprisionaram impiedosamente suas presas mais próximas. Hikaru e Akemi foram os primeiros abraçados pelo frio mortífero em suas peles e tiveram seus corpos totalmente inabilitados.

    Mas nem tudo estava cem por cento entregue.

    QUE DROGA FOI ESSA!? — Histérica, Nikko mostrou que pelo menos alguns “sobreviveram”. Antes presa por algemas que zombavam de sua força, mostrou-se engolida até o pescoço por um formato gélido que lembrava um vulcão em miniatura. Ironicamente apropriado.

    E ela não era a única; o gelo, em um segundo, atingiu vários alunos em diferentes intensidades.

    Kentaro e Nihara, já derrotados no chão, nem tiveram chance, totalmente congelados por uma camada fina porém resistente; e Minoru, mesmo um pouco mais afastado, não escapou do estado completamente estático e frio.

    Mais adiante, Sho arregalou os olhos quando notou suas mãos trêmulas e pés completamente imobilizados, sem qualquer possibilidade de fuga, um entendimento fora de questão para sua irmã, que perdida em um emaranhado de confusão, não tinha a mesma clareza da prisão que cobria suas pernas. Os óculos dela foram levados pela brisa da tempestade gelada, deixando-a à mercê de suas péssimas vistas.

    — Que saco — reclamou Rin — não tive nada a ver com isso e meus pés ainda foram congelados?

    Adiante, Kinyou movia apenas a cabeça. Pelo visto, seu corpo coincidentemente bloqueou a passagem congelante do frio que atingiria a garota. — Isso não tira o fato de que eu tenho a ver. Ninguém te disse pra ficar perto.

    Rin foi pega desprevenida em uma reação inesperada e cruzou os braços, ato essencial para que compensasse o rubor nas bochechas. — Agora vai dizer que a culpa é minha? O que você queria que eu fizesse?

    Kinyoku ignorou.

    — Com licença — solicitou Teruo, por perto, preso até o tronco pelo gelo — tu não é a ilustre dona daquelas habilidades mirabolantes? Que tal demonstrar um pouco do seu glorioso talento e nos libertar dessa situação lamentável?

    Rin também ignorou.

    Por outro lado, Mayumi, apesar de toda sua disciplina, não continha o tremor do corpo; o frio que sentia a irritava, fazendo-a esfregar os ombros. — Ngh…  Sh-Shimizu, v-v-você não di-disse que ela… n-não teria reações?

    Apesar da altura, a baixinha exalava superioridade, o frio que segurava seus pés já era de costume. — Pois saiba que ela não reagiu. É tudo trabalho isolado de uma aura do clã Mizu.

    Diante da instrutora, Akemi, com um filtro azulado nas vistas, não se moveria nem se quisesse. “Não consigo respirar! Não sinto o meu corpo! Como ainda estou vivo? Meus pulmões não se contraem, está tudo paralisado, mas ainda sim consigo mexer os olhos… Que sensação horrível!” Definitivamente, um estalagmite o congelou, mas não o impediu de ouvir os arredores.

    — Vocês são jovens muito astutos — Hisako lentamente endireitou a postura e estalou o pescoço duas vezes, um lado depois o outro. Em seu rosto, não havia confiança ou sequer gentileza, havia uma frieza que penetrava a alma.

    Para os alunos distantes, a voz da militar aumentava gradualmente enquanto ela se aproximava, girando as rodas da cadeira de forma lenta e deliberada.

    Para Akemi, era como se ela estivesse sussurrando ao lado dele, o gelo transferia as palavras de sua dona para o interior das prisões de congelamento total.

    — Em toda a minha vida lidando com jovens, nunca esperaria tal façanha. Nunca soube a sensação de ter a guarda abaixada por alunos das turmas iniciais… — Calmamente, seus olhos prateados pousaram em outros de mesma característica. — Isso só poderia vir de você, não é, Kyo?

    Kyoko, que até então evitava contato, encarou sua parente. — Urg… Não me leve a mal, seria interessante a minha turma sendo a primeira a passar do seu primeiro desafio ridículo.

    Hisako avançou mais um pouco e parou a cadeira próxima de sua descendente. — Não posso reclamar, até porque em uma guerra, qualquer meio de vitória é válido. Mas cabe a você decidir se isso será moral ou não.

    — E o que você tem a dizer sobre moral?

    — Não fale assim, você sabe que não é do meu feitio cometer crimes de guerra ou ferir culturas.

    — Será mesmo?

    Uma pausa pensativa antecedeu o sorriso enviesado da militar.

    — … Pelo visto você é tão fria quanto eu, Kyo. Que garotinha maldosa — Hisako virou o rosto para que contemplasse o ambiente. — Fazia tempo desde a última vez que perdi o controle e proporcionei tanto estrago. Só que… poderia ser muito pior, não? — A tentativa de entender o que aconteceu com a potência de sua aura se tornava mais difícil. “Mesmo que tudo à volta esteja congelado, um cataclisma áurico provido de mim seria capaz de causar problemas além deste campo de treinamento…”

    Hikaru foi lembrado. 

    “Aquele garoto dos olhos amarelos devia estar prestes a me encostar, e minha aura, sabendo da minha breve inconsciência, tomou a situação como ameaça e agiu rápido. Mas embora a velocidade, ele não era um perigo tão preocupante, foi congelado facilmente… Há outra coisa.”

    Hisako analisou o chão azul com os olhos atentos de quem já viu dezenas de padrões de batalha se desenharem sob seus pés.

    Algo estranho chamou sua atenção.

    Rachaduras no solo, finas e sutis, estavam espalhadas à direita. Provavelmente, o gelo fora tocado por uma força avassaladora.

    “Não… Nunca vi o meu gelo rachar… Isso não é normal.”

    Aos olhos vagarosos da instrutora, a extensão das rachaduras pareciam infinitas, mas na realidade, não iriam muito longe. O que gerou elas não fora tão eficaz, pelo menos não para que destruísse todo aquele reino gelado.

    “Parece que minha aura realocou todo o foco para um alvo mais… ‘insistente’.” Intrigada, Hisako percebeu que as marcas se afunilaram até um ponto à sua esquerda. Quando buscou o ponto de origem, um sentimento de surpresa embaralhado com a dúvida veio à tona. — Hmmm…

    Ali, no centro de um espaço vazio,  de rosto neutro e postura atenta, estava Hiromi Miyazaki. O detalhe principal ia para os tênis de couro, que pisavam sobre uma pequena área de terra molhada, onde o gelo que dominava tudo — ou quase tudo — havia sido sucumbido:

    Em um raio de vinte metros, o campo congelado estava marcado pelas rachaduras, mas sob Miya, um pedaço da terra respirava, livre da friaca que tomou os arredores.

    Hisako notou que seu gelo foi neutralizado pela jovem. “Entendo…” O respeito se esboçou no semblante da instrutora, mas foi reprimido rapidamente.

    De fato, Miya não era somente uma simples aluna: era algo a mais…

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