A noite estava quieta, com o templo iluminado apenas pela luz prateada da lua e o brilho suave de algumas lamparinas espalhadas pelas colunas externas. As portas de madeira rangiam levemente enquanto Nix as empurrava, saindo com passos decididos, embora sua mente ainda estivesse agitada pela conversa com Fallon.

    Do lado de fora, a cavaleira aguardava em posição de alerta, encostada em uma das estátuas de mármore que guardavam a entrada. Seus cabelos negros, curtos e alongados, caíam com um contraste acentuado à sua postura. A armadura prateada da paladina reluzia sob o brilho da lua, como uma extensão de sua determinação inabalável. Seus olhos carmim, como rubis sob a luz noturna, eram penetrantes e fixos, sempre avaliando o que acontecia ao redor. A boca, de linhas retas e quadradas, parecia marcada pela tensão, como se nunca fosse capaz de relaxar completamente.

    Sua expressão, imperturbável e neutra, refletia uma calma calculada, mas havia uma força silenciosa em cada movimento que fazia, como se estivesse sempre pronta para agir a qualquer momento. Assim que Nix apareceu, ela descruzou os braços e a observou com atenção.

    — Kaelena…

    — Como ela está? — perguntou Kaelena, direta, sem rodeios.

    Nix suspirou, passando a mão pelos cabelos desalinhados, um gesto que misturava cansaço e frustração.

    — Confusa, com medo… mas ainda é a Fall. Ela sempre foi boa em esconder o que sente, mas eu a conheço. — Um sorriso pequeno, quase melancólico, surgiu em seus lábios. — Ela quer fugir, mas ainda não sabe se tem coragem para isso.

    Kaelena franziu levemente o cenho, seu olhar mais analítico do que preocupado.

    — E ela aceitou sua ideia?

    — Ainda não. — Nix parou a alguns passos de Kaelena, inclinando a cabeça para o céu, como se buscasse respostas entre as estrelas. — Estou apostando no que sei dela, mas… se Fallon decidir ficar, nada do que eu fizer vai adiantar.

    Kaelena ponderou em silêncio, os olhos fixos em Nix, avaliando cada nuance de sua postura. A pirata sempre parecia confiante, mas naquele momento, havia algo diferente: uma hesitação quase imperceptível.

    — E o plano? — Ainda estou pensando. Talvez invada o castelo, cause um pouco de caos, roube uma ou duas coisas valiosas… você sabe, o básico. — Nix deu de ombros, com um sorriso travesso que parecia surgir como um escudo. Kaelena arqueou uma sobrancelha, a expressão fria e ligeiramente incrédula.

    — E depois?

    — Depois, veremos. Tudo depende de Fallon. — Nix riu baixo, mas a leveza na risada não alcançou seus olhos. Kaelena deu um passo à frente, olhando firme como o de uma verdadeira cavaleira. Com um movimento rápido, levou a mão ao peito e inclinou ligeiramente a cabeça.

    — Minha lealdade é sua, capitã. Protegi Fallon até agora porque acreditei que esse era meu dever. — Ela fez uma pausa, sua voz mais suave. — Mas você sabe a quem realmente sirvo.

    Nix piscou, surpresa pela sinceridade inesperada, antes de abrir um sorriso genuíno, algo raro em momentos como aquele.

    — Você fez um bom trabalho, Kaelena. Obrigada por proteger minha irmã.Kaelena retirou a espada da bainha, segurando-a diante de si enquanto se ajoelhava.

    — Renovo meu juramento, não à Santa da Lua ou ao templo, mas à Filha do Caos. Meu escudo será seu, minha espada será sua, e minha vida será dedicada ao caminho que você traçar.

    Nix ergueu uma sobrancelha, claramente desconfortável com o gesto solene. Mesmo assim, estendeu a mão, tocando o ombro da cavaleira com firmeza.

    — Levante-se, Kaelena. Eu não sou uma rainha, nem uma santa. Sou só alguém tentando consertar o que nunca deveria ter sido quebrado.Kaelena se levantou com a mesma graça que demonstrava em combate, embainhando a espada novamente. As duas trocaram um olhar cúmplice antes de se abraçarem rapidamente, mas com sinceridade.

    — Cuide dela enquanto estou fora — disse Nix, sua voz suave, mas carregada de um peso que apenas as duas entendiam.

    — Sempre.

    Nix deu alguns passos para trás, respirando fundo antes de abrir os braços. A transformação começou lentamente, com suas roupas se dissolvendo em penas escuras que surgiam como sombras vivas. Suas asas se abriram, negras e majestosas, brilhando sob a luz da lua como um reflexo polido da própria noite. asas de dragão.

    Kaelena deu um passo atrás, observando com reverência enquanto Nix alçava voo, subindo rapidamente até desaparecer entre as nuvens.

    A cavaleira permaneceu ali, olhando para o céu por mais alguns instantes. Então, com um pequeno sorriso, murmurou para si mesma:

    — Caos em forma de asas…

    Com isso, ela se virou, retornando ao templo, pronta para continuar sua vigília e proteger Fallon com a mesma determinação de sempre.

    A brisa fria da madrugada cortava as penas de Nix enquanto ela voava em direção ao Semente do Caos. A cidade de Spades se estendia abaixo dela como um labirinto de ruas estreitas e telhados irregulares. Ao longe, além das muralhas do templo e das torres de mármore, a estátua do Espírito da Lua se erguia sobre uma colina isolada, imponente e solene, segurando uma pedra brilhante servindo de farol para os navios à noite.

    Nix desacelerou, suas asas batendo suavemente enquanto pairava no ar, encarando a estátua. A silhueta prateada parecia brilhar sob a luz lunar, e a memória veio como uma maré incontrolável, puxando-a de volta para um tempo em que tudo parecia mais simples — e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complicado.O pátio do templo estava em sua habitual calmaria, o vento sussurrando pelas folhas das árvores e o som distante das ondas do mar chegando até ali. Fallon e Nix brincavam sob a sombra de uma grande figueira, rindo enquanto giravam em círculos com um cavaleiro negro imaginário, que sempre aparecia nos momentos em que estavam mais tristes.

    — Vamos, Cavaleiro Negro! — Nix exclamou, apontando para o céu como se liderasse uma tropa. — Vamos salvar o mundo!

    Fallon riu, seus cabelos castanhos balançando suavemente enquanto imitava o som de espadas sendo desembainhadas.

    — E se eu quiser salvar o mundo com um pouco menos de barulho? — brincou Fallon, o sorriso travesso refletindo a cumplicidade entre as duas… que não durou muito tempo.

    Uma pequena luz prateada piscou no ar, chamando a atenção de Fallon. Era um vaga-lume, ele possuía um brilho intenso, quase sobrenatural. A criatura voou em círculos ao redor das crianças, como se tentasse falar, como se pedisse algo. Fallon, curiosa, estendeu a mão, e o inseto pousou delicadamente em seu dedo.

    — O que é isso? — Nix perguntou, inclinando-se para olhar mais de perto.

    Antes que Fallon pudesse responder, uma voz suave, como o eco de uma canção antiga, sussurrou em sua mente.

    “Por favor, ajude-me.”

    Fallon arregalou os olhos, surpresa. Ela sentia a súplica como um peso no peito.

    — Você consegue ouvi-lo? — perguntou Fallon, olhando para Nix.

    — Ouvir quem? — respondeu Nix, confusa.

    A luz do vaga-lume se intensificou, envolvendo Fallon em um brilho fosco que parecia ecoar o próprio luar. Ela sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, como se algo muito maior que ela mesma estivesse entrando em sua alma.

    — Sim. Eu ajudo você — Fallon murmurou, sua voz trêmula, mas firme.

    O vaga-lume desapareceu em um flash, e naquele instante, os cabelos castanhos de Fallon se tornaram prateados como a lua. Sua pele parecia refletir a luz, e seus olhos brilharam como duas estrelas. Nix deu um passo para trás, sentindo uma pontada de algo que ela não conseguia nomear. Era admiração, mas também medo.

    — Fallon…?

    Antes que pudesse dizer mais, o pátio foi inundado por acólitos e o mestre do templo, atraídos pela luz. Eles pararam ao ver Fallon, suas expressões oscilando entre reverência e espanto.

    — A Santa da Lua… — sussurrou o mestre, caindo de joelhos. Os outros acólitos seguiram seu exemplo, curvando-se diante de Fallon.

    Nix olhou ao redor, confusa e assustada. Ninguém olhava para ela, ninguém sequer parecia notar sua presença.

    — Fallon é a Santa da Lua? — murmurou Nix, dando um passo à frente, mas um dos acólitos ergueu a mão, impedindo-a.

    — Não toque nela. Ela agora é sagrada.

    — O quê? — Nix exclamou, indignada. — Ela é minha irmã!

    — Ela não é mais apenas sua irmã, Nixoria! — respondeu o mestre, levantando-se e encarando Nix com uma expressão dura. — Ela pertence ao Espírito da Lua agora. E você…

    Seus olhos se estreitaram ao olhar para Nix. As sombras ao redor da garota pareciam mais densas, como se algo as agitasse.

    — Você não deveria estar aqui. Essa escuridão que a segue… não pode permanecer.

    Antes que Nix pudesse protestar, Fallon tentou correr até ela, mas foi segurada por dois acólitos.

    — Não! — Fallon gritou, sua voz carregada de desespero. — Não a levem! Ela é minha irmã!

    Mas ninguém a ouviu.Enquanto os acólitos afastavam Nix, uma presença surgiu das sombras ao lado da garota. O Cavaleiro Negro, que sempre estivera com elas nos momentos difíceis, observava tudo em silêncio enquanto a garota era empurrada para fora do templo.Do lado de fora, enquanto Nix soluçava de joelhos no chão, o Cavaleiro Negro se aproximou. Sua armadura brilhava com um tom opaco, e seus olhos, escondidos pelo elmo, pareciam observar a alma da garota.

    — Você chora por sua irmã? — perguntou ele, a voz profunda, mas cheia de curiosidade.— Eles a tiraram de mim… — Nix murmurou, os punhos cerrados. — Eles a chamaram de sagrada e disseram que eu era má.

    O Cavaleiro ajoelhou-se ao lado dela, tirando o elmo lentamente. Por baixo, revelou-se um rosto humano de pele retinta, com olhos que refletiam um infinito de caos e possibilidades.

    — Eu sou Morfeus, o Senhor do Caos. — Sua voz era firme, mas não ameaçadora. — Vejo em você algo que o mundo teme, mas que pode mudar tudo.Nix o encarou, confusa, mas não recuou.— E o que isso significa?— Significa que você tem escolha. — Morfeus estendeu a mão para ela. — Deseja ser minha filha? Deseja ser forte o suficiente para libertar sua irmã e nunca mais ser separada dela?

    Os olhos de Nix brilharam com determinação. Sem hesitar, ela segurou a mão dele.

    — Sim.

    Morfeus sorriu, um sorriso paterno que parecia prometer tanto caos quanto liberdade. Ele a pegou no colo, como se ela fosse uma criança pequena novamente, e envolveu-os em sombras que os levaram para longe do templo.

    — Minha filha. — a criatura disse, depositando um beijo sobre a testa de Nixoria, seus cabelos agora se tornando negros ao contrário dos da irmã.

    Nix pairava no ar, suas asas negras batendo suavemente enquanto encarava a estátua do Espírito da Lua.

    — Você não me queria aqui — murmurou, com um toque de amargura na voz. — Mas adivinha? Eu fiz mais por este mundo sendo o caos que vocês tanto temiam do que sua luz jamais faria.

    Com um último olhar para a estátua, ela voltou a bater as asas com força, subindo para o céu e deixando para trás as lembranças que tanto tentavam prendê-la. O Semente do Caos a aguardava, e com ele, a liberdade que ela mesma havia conquistado.

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