Capítulo 12
Panacéia atravessava os corredores de pedra escura da mansão com a confiança de alguém que já havia caminhado por ali incontáveis vezes. Criados e guardas a cumprimentavam com acenos rápidos, alguns visivelmente nervosos diante de sua presença. Apesar de suas roupas simples e o cigarro pendurado nos lábios, Panacéia carregava um peso natural de autoridade que ninguém ousava desafiar.
Quando chegou à sala de estar, encontrou Andréa sentada em sua poltrona habitual, cercada por documentos e uma taça de vinho. A Marquesa parecia mais imponente do que nunca, mesmo em sua postura relaxada. Seus olhos escuros que pareciam roubar a luz sem nunca refleti-la, ergueram-se para encontrar os de Panacéia.
— Você foi rápida. — Andréa comentou, pousando a taça na mesa ao lado.
Panacéia deu de ombros, jogando o casaco em uma cadeira próxima antes de se acomodar no sofá em frente à irmã.
— Bem, eu soube que sua porta está mais fechada que o inferno hoje. Não podia perder a oportunidade de entrar enquanto deixava minha querida sobrinha do lado de fora.
O sorriso de Andréa foi breve, mas havia algo sombrio nele.
— Nix tem um talento especial para causar confusão. Estou apenas garantindo que ela entenda as consequências antes de tentar barganhar comigo.
Panacéia inclinou a cabeça, cruzando os braços.
— Certo, então vamos direto ao ponto. Não estou aqui só para te provocar. É sobre Zander.
A reação de Andréa foi instantânea. Sua expressão endureceu, a respiração tornou-se visivelmente mais curta, as asas peroladas balançaram irritadas e suas mãos tremeram levemente antes de serem firmemente apertadas no colo.
— Deixe os mortos morrerem, irmã. — Sua voz era firme, carregada de emoções reprimidas.
Panacéia soltou um suspiro pesado, jogando as pernas para cima do braço do sofá.
— Ele está vivo. Morfeu o trouxe de volta. Nix está cuidando dele agora.
Andréa parou, as mãos fechadas em punhos tão firmes que os nós dos dedos estavam brancos.
— Irmã, eu segurei o corpo de Zander sem vida em meus braços, senti sua última respiração! — Sua voz cortava o silêncio, afiada como uma lâmina. — acha mesmo que isso vai me convencer? Que ele, meu filho, está vivo e bem?
Panacéia revirou os olhos, esticando os braços no encosto do sofá como se estivesse entediada.
— Não estou pedindo para você acreditar nas minhas palavras. Você é muito cabeça dura pra isso mas… — Ela puxou algo do bolso de sua jaqueta, uma pequena tira de tecido que envolvia um objeto fino e delicado. Ela jogou o embrulho em direção a Andréa, que o pegou instintivamente. — Talvez isso ajude.
Andréa hesitou por um momento antes de desdobrar o tecido. Dentro estava um bracelete intricado, composto de fios entrelaçados com detalhes minuciosos, semelhantes aos padrões que Zander costumava fazer quando criança. Suas mãos tremiam enquanto ela o segurava, os olhos incapazes de desviar da peça.
— Isso… — Sua voz vacilou, a máscara de indiferença finalmente começando a rachar. — Não pode ser.
— Pode sim. — Panacéia finalmente se levantou, caminhando até Andréa com uma expressão séria. — Ele fez isso para a tripulação do Semente do Caos. São braceletes encantados, com as pérolas negras de Nix, para que eles possam se disfarçar. Ele é o médico do navio agora. Eles o chamam de Chaga, mas ainda é o Zander.
Andréa olhou para a irmã, a confusão e a esperança lutando em seu rosto.
— Você está me dizendo que meu filho, meu Zander, está vivo, navegando com Nix e vivendo como um criminoso, por 10 anos?
Panacéia deu de ombros, um sorriso leve nos lábios.
— Por 5 anos. Ele pode ter mudado muito nesse tempo, mas ainda é ele. E, apesar de tudo, ainda pensa em você.
As palavras acertaram Andréa como um golpe. Ela apertou o bracelete contra o peito, as lágrimas finalmente escapando de seus olhos.
— Ele pensa em mim? Depois de tudo… depois do que fiz?
Panacéia suspirou, colocando uma mão no ombro da irmã.
— Ele não culpa você. Você fez o que achou certo na época. E, honestamente, ele entende mais do que você imagina.
Andréa deixou escapar um soluço, sua postura rígida finalmente se desmanchando enquanto ela afundava em uma poltrona próxima.
— Eu… eu preciso vê-lo. Preciso dizer a ele que sinto muito.
— Você vai. — Panacéia apertou o ombro de Andréa antes de voltar ao sofá. — Mas, antes disso, precisamos resolver a bagunça que Nix está tramando.
Andréa levantou o olhar, ainda brilhando com lágrimas, mas agora havia algo mais ali: determinação.
— O que exatamente ela está planejando?
Panacéia deu um sorriso travesso.
— Algo tão caótico que só poderia vir dela.
Andréa enxugou o rosto, respirando fundo para se recompor.
— Claro que é, qual é o plano?
Panacéia soltou uma gargalhada.
— invadir o castelo, criar caos e salvar a irmã… E, claro, se disfarçar de você.
Andréa ergueu uma sobrancelha, a indignação substituindo a tristeza.
— primeiro esconde de mim que meu filho está vivo e agora quer se disfarçar de mim? Essa menina realmente não conhece limites.
— É por isso que estou aqui. — Panacéia respondeu, pegando a taça de vinho de Andréa e dando um gole antes de devolvê-la. — Porque achei que talvez fosse hora de você participar disso. Nix acha que precisa bancar a heroína sozinha, mas ela precisa de você mais do que admite.
Andréa ficou em silêncio por um momento, processando tudo. Finalmente, ela se levantou, ajeitando o vestido com determinação.
— Não importa o quão impossível seja o plano de Nix, estarei ao lado dela.— Sabia que diria isso. Agora, vamos lá. Tenho certeza de que Nix vai adorar ouvir que não precisará usar suas pérolas para se passar por você. — Panacéia sorriu, satisfeita.
Andréa riu, enxugando as últimas lágrimas enquanto seguia a irmã para fora da sala.

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