Capitulo 10
A noite seguia animada, com o festival ainda vivo nas ruas de Spades. No entanto, longe do barulho e da luz, o templo da Santa da Lua permanecia imponente e silencioso. Nix e Draven observavam a estrutura de um ponto escondido na escuridão.
— Isso é loucura — comentou Draven, encarando a torre da santa que se erguia acima do templo.
— Sim, é a minha especialidade. — Nix abriu um sorriso travesso, entregando a ele uma corda com um gancho. — Sabe usar isso, príncipe encantado ?
— Melhor do que você imagina. — Draven revirou os olhos, ajustando o gancho em sua mão.
— Ótimo. — Nix apontou para uma janela no topo da torre. — Ela estará lá. Só não faça muito barulho.
Draven olhou para ela com desconfiança.
— E você?
— Vou garantir que ninguém nos atrapalhe. Volto à meia-noite para te buscar, cinderela. — Ela deu um passo para trás, se fundindo com a sombra da parede, e, em um piscar de olhos, evaporou no ar.
Draven balançou a cabeça. Caos puro. Ele ajustou o gancho novamente e o lançou, prendendo-o firmemente na borda da janela.
Fallon estava sentada perto da janela, os olhos fixos nas estrelas. A luz da lua refletia em seus cabelos prateados, dando-lhe uma aparência quase etérea.O som de algo raspando na pedra a fez virar bruscamente. Antes que pudesse gritar, Draven subiu pela janela e pulou para dentro do quarto, erguendo as mãos em um gesto de rendição.
— Sou eu! Sou eu! Não grite!
— Draven! O que está fazendo aqui? — Fallon colocou a mão no peito, tentando acalmar o coração.
— Vim trazer isso para você. — Ele tirou o colar de pérolas do bolso, mostrando-o.
Fallon piscou, surpresa. Ele deu alguns passos à frente, entregando o colar em suas mãos.
— É lindo!
— Me lembra você. — Draven desviou o olhar, tentando esconder o leve rubor em seu rosto.
Fallon riu suavemente, seu riso quebrando a tensão no ar. Virou de costas para ele, afastando os cabelos para que ele colocasse o colar. Draven se aproximou lentamente, cada passo um desafio ao próprio controle. Ele estava mais perto do que deveria, mais perto do que sabia ser seguro. O calor que emanava dela o envolveu, e por um breve momento, o mundo ao redor desapareceu. Fallon, sentindo a respiração quente dele contra sua pele, sorriu com um misto de nervosismo e expectativa.
Havia algo quase hipnótico em sua presença, uma tensão pulsante que vibrava no espaço entre eles. Draven, incapaz de se conter, inclinou-se e roçou os lábios na curva de sua nuca. As presas de cobra tocaram a pele delicada com uma suavidade que contradizia o perigo que ele representava.
Fallon fechou os olhos, o arrepio que percorreu seu corpo era tanto de alerta quanto de desejo. O toque era uma promessa não dita, um lembrete do perigo que ele carregava. E, ainda assim, em um canto profundo e escondido de sua alma, ela secretamente desejava se perder naquele abismo. O contraste entre o frio da ameaça e o calor do momento a fez estremecer, uma luta silenciosa entre o certo e o irresistível.
— Como ficou? — a voz saiu baixa e sedutora.
Draven a encarou, os olhos cheios de algo que ele nunca conseguia expressar em palavras.
— Perfeita…
Por um momento, o silêncio pairou entre eles, olhares cheios de desejo, que jamais poderiam alcançar a superfície. Eles continuaram se olhando até que a música do festival, vinda de longe, invadiu o quarto através da janela.
— Quer dançar? — perguntou ele, estendendo a mão.
Fallon hesitou, mas acabou segurando a mão dele.
— Aqui?
— Por que não? — respondeu ele com um pequeno sorriso.
Fallon ergueu os braços com delicadeza, pousando-os sobre os ombros do naga. O movimento diminuiu ainda mais a distância entre eles, e Draven sentiu sua respiração vacilar. O calor do toque dela parecia intensificar a frieza de sua própria pele, criando um contraste que o deixou ainda mais tenso.
O sangue subiu em um rubor visível pelo rosto pálido do albino, tingindo suas bochechas com um tom delicado que o deixava ainda mais vulnerável. Ele ficou estático, preso entre a vontade de se afastar e o desejo de permanecer ali, tão perto. Seu coração martelava com tanta força que ele tinha certeza de que Fallon podia ouvir, cada batida uma confissão silenciosa do desejo que ela havia despertado nele.
— Suas mãos deveriam estar na minha cintura — ela falou com um sorriso travesso.
Se em algum momento Draven teve dúvidas agora ele tinha certeza que Fallon definitivamente era irmã de Nixoria. Eles começaram a girar lentamente pelo quarto, seus movimentos desajeitados, mas cheios de emoção. Fallon riu quando Draven quase tropeçou em uma almofada, e ele riu junto, relaxando aos poucos.
— Faz tempo que não faço isso — admitiu ele.
— Dançar?
— Relaxar…
Fallon não respondeu, mas deitou a cabeça sobre seu ombro, como se dissesse que entendia. Deixando Draven na Torre da Santa, Nix se lançou da torre em forma de ave, mergulhando na escuridão com um sorriso travesso nos lábios. O jardim ao lado do templo estava banhado por uma luz suave de lanternas suspensas nos galhos das árvores, enquanto o perfume de flores noturnas impregnava o ar. Nix estava ali, escondida entre as sombras de uma figueira, quando ouviu passos leves na grama.
— Pontual como sempre, capitã. — Lucius surgiu com uma garrafa de vinho em uma das mãos e dois copos de vidro na outra.
— E você, sempre com uma desculpa para beber. — Ela respondeu, saindo do esconderijo.
Ambos desceram o morro indo até uma praça que havia perto. Lucius acomodou-se em um banco de pedra, estendendo um copo para ela. Por um momento, ambos ficaram em silêncio, ouvindo o som distante de risadas e música que escapava do mercado. Nix sentou-se ao lado dele, tomando um gole do vinho.
— Não vai perguntar por que trouxe você aqui? — Ele quebrou o silêncio, observando-a de canto de olho.
— Você gosta de surpresas, não é? — Nix arqueou uma sobrancelha, inclinando-se contra o encosto do banco. — Achei que fosse mais uma daquelas tentativas de me impressionar.
Lucius soltou uma risada baixa, sem negar. Ele colocou a garrafa no chão e tirou um baralho de cartas do bolso.
— Apenas pensei que podíamos jogar enquanto esperamos. — Ele embaralhou as cartas com habilidade. — Faz tempo desde a última vez que ganhei de você.
— Ganhar de mim? — Nix riu, pegando as cartas que ele distribuiu. — Você sonha muito, Lucius.
O jogo era conhecido como “Véu da Verdade”, era uma variação de blackjack, mas com uma reviravolta que tornava tudo mais interessante — e perigoso. As regras eram simples: cada jogador recebia duas cartas e podia pedir mais para se aproximar de 21 sem ultrapassar. O jogador com a pontuação mais próxima de 21 ganhava a rodada, e o perdedor era obrigado a responder uma pergunta, sem rodeios.
— Pronta para jogar? — Ele perguntou, distribuindo as primeiras cartas.
— Sempre. — Nix respondeu, tomando um gole de vinho antes de pegar as suas cartas.
A primeira rodada foi rápida. Nix olhou para suas cartas, um 10 de copas e um 9 de espadas. Ela optou por não pedir outra carta, confiante de que sua pontuação era suficiente.
— Devo dizer que fico surpresa com sua audácia, Lucius. — Ela provocou enquanto ele decidia seu próximo movimento.
Lucius pediu uma terceira carta, revelando um 5 que somou 20. Ele sorriu, satisfeito.
— Parece que ganhei esta. — Ele inclinou-se para frente, descansando os cotovelos nos joelhos enquanto a olhava com intensidade. — Minha pergunta: por que você confia tanto em Draven?
Nix não hesitou, mas sua resposta veio com um tom mais sério do que ele esperava.
— Porque ele é leal. Mesmo quando o mundo desaba, Draven sempre cumpre suas promessas. Isso é raro.
A próxima rodada começou. Ambos mantinham o foco, mas as perguntas pareciam pairar no ar como uma ameaça silenciosa. Desta vez, Nix venceu com 18 contra 17 de Lucius.
— Minha vez. — Ela sorriu, satisfeita. — Quem é a pessoa que você mais teme?
Lucius riu, mas seu sorriso não chegou aos olhos. Ele pegou a garrafa de vinho e encheu seu copo antes de responder.
— Meu irmão mais velho. Ele sempre foi… maior, mais forte, e mais cruel do que qualquer inimigo que já enfrentei…
O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado de uma compreensão mútua que ambos fingiram ignorar.
Conforme as rodadas avançavam, as perguntas ficavam mais pessoais, mais perigosas.
— Qual foi sua maior traição? — Lucius perguntou, depois de mais uma vitória.
— Um comandante. Eu menti para ele, deixei que acreditasse que podia confiar em mim. — A resposta de Nix foi seca, mas seus olhos carregavam um peso da culpa que sentia, e Lucius percebeu.
Quando Nix venceu novamente, sua pergunta foi mais direta:
— Por que você ainda está aqui, Lucius?
Ele hesitou por um instante, sua mão segurando o copo.
— Porque quero entender você. — Ele respondeu, finalmente. — Você é um mistério, Nix, e eu odeio mistérios.
A última rodada terminou com uma vitória apertada de Lucius. Ele inclinou-se mais perto, seus olhos, brilhando com algo que era ao mesmo tempo desafiador e vulnerável, encontraram os de Nix.
— Minha última pergunta… — Ele começou, a voz baixa, quase um sussurro, mas carregada de intensidade. — Se eu te beijar agora, você me afastaria?
A pergunta pairou no ar, pesada, carregada de algo que eles vinham dançando ao redor a noite toda. Nix sentiu o coração acelerar, e sua mão segurando o copo de vinho ficou imóvel. Ela prendeu a respiração, os olhos fixos nele. Lucius não desviava, esperando, lendo cada nuance de sua reação como se o jogo ainda não tivesse terminado.
Ela sorriu, mas era um sorriso pequeno, quase melancólico, como se estivesse testando o peso da resposta antes de dá-la.
— Não afastaria. — As palavras saíram em um sussurro, mas estavam firmes.
Lucius se inclinou mais, até que os rostos estavam a poucos centímetros de distância. Ele não fez nenhum movimento imediato, esperando, permitindo que ela tivesse o controle.
— Mas também não confio em você. — Nix completou, um toque de ironia em sua voz, embora a verdade ainda estivesse lá.
Ele riu suavemente, um som mais grave do que o normal.
— Talvez seja o suficiente… por enquanto.
Os dois permaneceram ali por alguns segundos, a tensão entre eles quase palpável, antes que Nix se afastasse primeiro, quebrando o momento com uma risada leve e levantando o copo.
— Você faz perguntas perigosas, imediato.Lucius recostou-se, pegando a garrafa para encher o próprio copo, mas seus olhos não deixaram os dela.— E você dá respostas ainda mais perigosas, capitã.
Eles brindaram em silêncio, o som do vinho tilintando entre eles ecoando como um pacto tácito. Quando a meia-noite se aproximou, eles recolheram o baralho e a garrafa vazia, prontos para seguir com o plano. Lucius ofereceu a mão para ajudá-la a se levantar, e, por um instante, ela segurou sua mão, o contato breve, mas carregado de algo que nenhum dos dois estava disposto a admitir.
Quando a meia-noite se aproximou, Draven se afastou, ainda segurando a mão dela.
— Eu devia ir. Nix disse que voltaria para me buscar.
Fallon suspirou, relutante, mas assentiu.
— Obrigada por vir — disse ela. — Por me lembrar de como é… ser normal.
Draven deu um pequeno sorriso, inclinando-se para beijar sua mão.
— Você nunca foi normal, Fallon. E isso é uma coisa boa.
Ela sorriu, seus olhos brilhando com emoção, enquanto o via subir na janela.
— Até a próxima? — perguntou ela.
Draven parou, olhando para trás.
— Sempre.
E com isso, ele desapareceu na noite, o som distante do festival ainda ecoando nas ruas de Spades. Fallon ficou na janela por um momento, segurando o colar em suas mãos e sentindo o coração leve como há muito não sentia.

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