Capitulo 8
O céu noturno estava claro, com estrelas brilhando acima do convés do Semente do Caos. Draven, ainda se ajustando à dinâmica do navio e à dimensão espelhada chamada de mar de caos, estava sentado em um barril próximo à proa. O cheiro de sal misturava-se com o de madeira antiga e o ocasional aroma das especiarias que Vênus usava na cozinha.
Mathew estava empoleirado no mastro principal, ajustando suas penas com movimentos precisos. Ele observava Draven com um olhar curioso e travesso.
— Então, nosso ilustre Escama de prata está apaixonado pela irmã da capitã, hein? — provocou Mathew, descendo de forma ágil e pousando ao lado de Draven. Seu sorriso era amplo e cheio de malícia. — Eu diria que isso é corajoso… ou estupidez pura.
— E quem disse que eu preciso da sua aprovação? — Draven ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Gosto disso. Um pouco de fogo. Mas, deixe-me te dizer algo: a capitã é imprevisível. Se você pisar na bola, vai desejar nunca ter nascido. — Mathew soltou uma risada alta, claramente se divertindo.
Ele se alongou, as asas se abrindo parcialmente num espreguiçar relaxado, mas seu olhar se perdeu por um instante no horizonte estelar, ficando mais pensativo.
— Você estava lá conosco quando fomos derrotados, naquela época… — disse ele, a voz perdendo um pouco da afetação brincalhona. — Não esqueço um rosto. Por isso te digo: cuide bem dessa chance. Aqui, as coisas podem mudar rápido.
Antes que Draven pudesse responder, o tom de Mathew mudou novamente, como se ele mesmo se censurasse por falar sério demais. Ele balançou a cabeça, um sorriso voltando ao rosto.
— Mas olha só pra mim, soando como um velho rabugento. Ignora esse blá-blá-blá. O importante é que você está aqui agora.
Mathew deu um salto de volta para a base do mastro, preparando-se para subir.
— Só não me faça arrepender de ter dado uma de bom moço, Escama de Prata. — Ele apontou um dedo para Draven, mas o gesto era mais amigável do que ameaçador. — E se eu ficar mais um minuto aqui enrolando, a Vênus realmente vai fazer aquela sopa de galinha que tanto ameaça. Melhor voltar ao meu posto!
Com um último aceno, Mathew escalou o mastro com agilidade, retornando à sua posição de vigia, deixando Draven sozinho com seus pensamentos e o vasto céu noturno de Nixoria.
A cabine da capitã estava mais cheia de papéis do que ideias concretas. Mapas e rascunhos estavam espalhados pela mesa de madeira, compondo um cenário caótico que refletia a mente inquieta de Nix e Lucius. Ambos trocavam olhares entre frustração e provocação, como se o peso da responsabilidade fosse uma corda que puxavam de lados opostos.
Ren, o navegador da tripulação, já havia abandonado a tentativa de colocar juízo na cabeça de Nix. Sua pele escura reluzia sob a luz fraca da lamparina, destacando traços suaves que contrastavam com sua expressão exausta.
As longas orelhas de coelho, cobertas por uma fina camada de pelo aveludado, caíam preguiçosamente para trás, denunciando o cansaço acumulado. Os olhos vermelhos, normalmente astutos e atentos, agora estavam semicerrados, uma mistura de resignação e fadiga. Depois de horas discutindo sobre rotas, Ren suspirou profundamente e cruzou os braços, caminhando até a cama da capitã com passos lentos e medidos.
— Nix, posso dormir aqui? — Ele perguntou, apontando com o queixo para a cama desarrumada. Sua voz, normalmente carregada de um humor sarcástico, agora soava genuinamente cansada. — Passei o dia inteiro tentando te convencer a não fazer algo louco, e, sinceramente, estou prestes a cair em qualquer canto.
Nix, encostada na beirada da mesa parecia distante, girava uma pérola negra entre os dedos, o olhar fixo no movimento repetitivo. Ao ouvir a pergunta, ela ergueu os olhos, e por um momento, sua expressão endurecida vacilou.
— Claro, Ren. — Ela respondeu, hesitante. Depois de uma pausa desconfortável, acrescentou: — Desculpa por… ser tão teimosa. Eu sei que é frustrante.
Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso com a rara admissão.
— Agradeço pelo reconhecimento, mas a sua teimosia ainda é o que mantém esse navio em movimento. — Com um pequeno sorriso, ele se jogou na cama, virando-se de lado como se estivesse em sua própria cabine.
Ren afundou na cama, deixando escapar um suspiro de alívio enquanto se acomodava. As orelhas relaxaram, caindo de lado como se finalmente permitissem ao corpo descansar.
Enquanto o coelho mergulhava em um sono profundo, Lucius continuava andando de um lado para o outro, sua postura rígida refletindo uma preocupação que parecia pesar mais a cada passo. Nix, por sua vez, voltou a girar a pérola nos dedos, mas agora havia algo diferente em sua expressão além da melancolia.
— Você realmente acha que isso vai funcionar? — Lucius parou, inclinando-se sobre a mesa, seu olhar fixo nos mapas. — Infiltrar piratas em um castelo cheio de guardas treinados e nobres paranoicos? Estamos implorando para sermos pegos.
— Ah, querido, se não quisermos correr riscos, podemos simplesmente ficar aqui e jogar cartas. — Nix lançou a pérola negra para o alto, pegando-a no ar com um sorriso desafiador. — O conselheiro Lafaiete quer matá-la e logo depois dessa maldita festa ela terá que ficar no palácio para o casamento.
— E o templo?
— Invadir o templo está fora de questão, mal consigo usar meus poderes lá dentro, quanto mais manter os nossos disfarces.
Do lado de fora, Mathew estava agachado próximo à porta, ouvindo cada palavra com suas penas arrepiadas de animação.
— Aposto duas moedas de prata que eles começam a brigar de verdade. — Ele cochichou para Draven, que estava ao lado, fingindo organizar uma pilha de cordas.
— E aposto doze que a Nix o manda calar a boca antes disso. — Vênus apareceu com um barril de vinho, interrompendo a conversa e lançando um olhar divertido para os dois. — Fofoqueiros.
Dentro da cabine, Lucius bufou.
— Marquesa Andréa? Seu plano envolve um nobre que nem mesmo está na cidade!
— Ah, mas eu tenho o suficiente para me passar por ela. — Nix colocou a pérola negra no centro da mesa. — Com essas belezinhas, podemos ser quem eu quiser. E não é como se fosse minha primeira atuação.
— Você acha que essa ilusão vai durar durante toda a festa? — Ele estreitou os olhos.
Nix deu de ombros, casual.
— Depende. Você já viu um nobre não acreditar em algo conveniente?
Do lado de fora, os sussurros continuavam.
— Isso é genial ou completamente idiota? — Mathew perguntou, cutucando Vênus com o cotovelo.
— As duas coisas, como sempre. — a cozinheira por sua vez suspirou, revirando os olhos.
Finalmente, a porta da cabine se abriu. Nix saiu primeiro, segurando o pote de pérolas negras em uma das mãos e o mapa na outra. Lucius a seguiu, seu rosto demonstrando uma exasperação contida.
— Certo, pessoal! — Nix bateu as mãos, chamando a atenção da tripulação. — Temos um plano. Não é perfeito, mas quando é que já trabalhamos com algo perfeito?
— Nunca! — gritou Mathew, fazendo Vênus soltar uma risada.
— Isso mesmo. — Nix sorriu, apontando para o grupo. — Vamos invadir o anexo do castelo onde ocorrerá a festa, daqui cinco dias! Vênus, você será a cozinheira infiltrada. Panacéia, você ficará responsáveis pela limpeza, ou seja, encher os nobres de vinho até que esqueçam os próprios nomes.
— Porque isso nunca dá errado… — Panacéia murmurou, ajustando a faca em seu cinto.
— Mathew e Draven, vocês serão meus guardas pessoais. — Nix apontou para o vigia, que imediatamente levantou uma mão.
— Eu? Sério? Você confia em mim para ser sério por mais de dez minutos?
— Não, mas você vai usar pérolas para parecer ameaçador, e isso é o suficiente. — Nix jogou uma pérola para ele, que pegou com destreza.
— Isso é ridículo. Vocês realmente acham que isso vai funcionar? — Draven, que estava mais sério do que o resto, finalmente encontrou sua voz.
— É claro que não. Mas estamos aqui, não estamos? — Astéria, a carpinteira, ergueu o olhar de suas ferramentas.
— Exatamente. — Nix ergueu o pote de pérolas, o sorriso confiante no rosto. — Vocês sabem como é. Vamos improvisar no momento… Como sempre.
A tripulação explodiu em risadas, mesmo que as reclamações continuassem entre elas.
— Isso vai ser um desastre — disse Draven, balançando a cabeça.
— Um desastre divertido. — Mathew riu, observando Nix enquanto ela se inclinava para Draven.
— Vamos morrer! Isso sim.
— Relaxe, príncipe encantado. — Nix murmurou para ele, jogando uma pérola em sua mão. — Você está conosco agora. Caos é nossa especialidade.
Enquanto a tripulação se dispersava para começar os preparativos, Lucius se aproximou de Nix.
— E o que acontece se falharmos?
— Então, Lucius, — Nix sorriu para ele, seu tom leve, mas com uma ponta de seriedade.
— Nós inventamos algo ainda mais estúpido para resolver o problema.
Lucius balançou a cabeça, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
— Vocês são todos loucos.
— E você adora isso. — Nix piscou para ele antes de se virar para ajudar Panacéia com os disfarces.
No fundo, Draven observava a tripulação. Ele ainda não entendia completamente o que significava fazer parte do Semente do Caos, mas, naquele momento, percebeu que talvez estivesse começando a gostar dessa loucura.

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