Capitulo 13
Nix olhou para Morfeus, fazia tempo que Panacéia havia entrado. Ela parecia inquieta, algo raro para alguém com sua confiança natural.
— Ela vai me matar. — Nix começou, a voz carregada de sarcasmo, mas havia um toque de vulnerabilidade em suas palavras.
— Duvido. Panacéia é quem sempre quis te bater. Andréa só quer te controlar, o que, sejamos honestos, é quase a mesma coisa.
Morfeus inclinou a cabeça, as raízes em sua armadura se movendo como se tivessem vida própria. Nix soltou uma risada curta, mas rapidamente ficou séria. Ela se aproximou dele retirando os óculos, os olhos brilhando com algo que era difícil de identificar: medo.
— Pai… — Ela hesitou, como se a palavra fosse um peso que ela não usava com frequência.
— E se eu não conseguir? E se tudo der errado?
Morfeus ficou em silêncio, mas a intensidade de seu olhar parecia envolvê-la completamente. Ele não era bom com palavras de conforto; nunca fora. Mas conhecia Nix melhor do que qualquer um, e sabia que o que ela precisava não era de respostas perfeitas, mas de verdade.
— Nix, você é a pessoa mais teimosa que eu conheço. — Ele disse finalmente, a voz grave, mas com uma leveza incomum. — Se alguém pode transformar um desastre em algo brilhante, é você..
— Isso é seu jeito de dizer que vai ficar tudo bem? — Ela soltou uma risada fraca, mas os olhos começaram a brilhar com lágrimas não derramadas.
— Não. É meu jeito de dizer que, mesmo se não ficar, você vai achar uma forma de lidar com isso. — Morfeus deu um passo à frente, colocando uma mão pesada e protetora sobre o ombro dela. — independente do que aconteça, eu sempre estarei por perto para juntar os pedaços, mesmo que sejam só as sobras de uma grande bagunça.
Nix finalmente cedeu, envolvendo os braços em volta dele em um abraço apertado. Não era algo que ela fazia com frequência, mas naquele momento, precisava da presença sólida dele.
— Eu estou com medo, pai. — Ela admitiu, a voz baixa e quase um sussurro.
Morfeus relaxou os braços ao redor dela, passando a mão de leve em seus cabelos, bagunçando-os de propósito.
— Medo é bom, Nix. Significa que você se importa. Mas não deixe isso te paralisar. Lembre-se, você não precisa fazer tudo sozinha. Tem uma tripulação inteira atrás de você. E, por mais irritante que Panacéia seja, ela também está do seu lado.
— Você é péssimo nisso de consolar. — Nix sorriu contra a armadura dele, a respiração começando a se estabilizar.
— Eu sei. — Ele respondeu, sem um pingo de vergonha. — Mas você sobreviveu até agora, então devo estar fazendo algo certo.
— Obrigada… Morfeus. — Ela se afastou, enxugando os olhos rapidamente para que ninguém percebesse.
— Pai. — Ele ergueu uma sobrancelha invisível por trás do elmo.
— Obrigada, pai. — Ela revirou os olhos, mas um sorriso genuíno surgiu em seu rosto.
Antes que Morfeu pudesse responder, os portões da mansão se abriram. Andréa e Panacéia surgiram quebrando o clima, pai e filha voltaram às expressões estoicas de sempre.
— Nixoria. Irmão. — Andréa chamou a voz firme, mas sem a frieza habitual.
— Andréa… Panacéia. – respondeu Morfeus.
— Estamos brincando de chamar nomes agora? Então, o que decidiu? — Nix se levantou, ajeitando a roupa, colocou um sorriso travesso como se fosse uma máscara de coragem.
— Decidi que não vou ficar de fora. Vou com vocês, e você não vai precisar se passar por mim. — Andréa aproximou-se, colocando as mãos nos ombros da sobrinha.
Nix piscou, surpresa pela resposta direta. Mas então, um sorriso lento e genuíno se espalhou por seu rosto. Panacéia cruzou os braços, rindo.
— Espero que você consiga acompanhar, Marquesa. — Então permita que eu participe também. — Morfeus tocou o muro criando um portal direto para o Semente do Caos.
A enfermaria do navio estava silenciosa, exceto pelo som das ondas batendo contra o casco do navio. Chaga estava sentado em sua mesa, reorganizando frascos e instrumentos com uma precisão quase obsessiva. Ele parecia absorto em seu trabalho, mas a tensão em seus ombros denunciava que algo o incomodava.
A porta se abriu lentamente, e Vênus entrou com uma garrafa de rum na mão. Ela não disse nada de imediato, apenas colocou a garrafa sobre a mesa e se recostou na parede com um sorriso casual.
— Achei que você poderia usar isso. — Disse ela, o tom leve.
— Não bebo quando estou trabalhando. — Chaga olhou para ela de relance antes de voltar ao que fazia.
— Você nunca para de trabalhar, então pensei em te forçar a uma pausa. — Vênus abriu a garrafa e serviu dois copos antes de empurrar um para ele.
— Certo, mas só porque você vai insistir até eu aceitar. — Ele suspirou, finalmente parando o que fazia e pegando o copo.
Os passos no convés interromperam a tranquilidade. Vênus ergueu a sobrancelha, já em alerta, enquanto Zander suspirava com desgosto, colocando o copo de rum na mesa improvisada. Não deveria haver ninguém no navio.
— Quem quer que seja, espero que tenha uma boa desculpa para invadir nosso momento de paz — ele murmurou, levantando-se preguiçosamente. — Vamos acabar logo com isso. — respondeu Vênus, já se movendo em direção à escada.
Quando subiram para o convés, ambos pararam abruptamente. Sob a luz prateada da lua, Andréa estava parada junto de Morfeus no convés ambos em silêncio. Chaga sentiu o coração parar por um instante. Sua mãe, asas brancas de pérola brilhavam como um farol, mas foram os olhos escuros, carregados de um misto de expectativa e emoção, que o prenderam.
Ela deu um pequeno passo à frente, observando-o como se tentasse se certificar de que ele era real.
— Então é assim que você me recebe? — disse apontando para a faca nas mãos de chaga.
A voz dela soou suave, mas havia um leve tom de provocação escondido sob a emoção evidente. Chaga tentou falar, mas as palavras não saíam.
— Você… como… — Ele balançou a cabeça, a confusão estampada em seu rosto.
Andréa caminhou até ele, ignorando Morfeus e até mesmo Vênus, que cruzou os braços e observava de longe. Quando estava perto o suficiente, ela levantou a mão e tocou a máscara, um gesto hesitante, mas cheio de ternura.
— Você cresceu. — Sua voz quase se quebrou, mas ela continuou, olhando-o com intensidade. — Mas ainda vejo o menino que passava horas tentando moldar o ferro como eu fazia.
Ele riu nervosamente, quase sem acreditar no que ouvia.
— E você ainda acha que eu era um idiota por isso, não é?
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas cheio de afeto.
— Nunca achei. Sempre achei adorável.
Chaga finalmente relaxou, deixando o sorriso surgir no rosto.
— Não acredito que você está aqui… Achei que nunca mais… — Ele hesitou, a voz falhando.
— Nunca ia deixar você. Nem você, nem Vênus. — Andréa olhou para a filha adotiva rapidamente, reconhecendo o olhar desconfiado, mas sem rancor, da garota. — Mas às vezes, precisamos de tempo para encontrar o caminho de volta.
— Você demorou o suficiente — comentou Vênus, cortante, mas havia uma suavidade subjacente em suas palavras.
Andréa riu baixinho e voltou a olhar para o filho.
— Você me perdoa por demorar tanto?
Chaga hesitou por um instante, mas o peso que carregava há anos parecia se dissipar quando ele deu um passo à frente e a abraçou. O gesto começou desajeitado, o bico da máscara bateu contra o ombro de Andréa uma, duas vezes antes que ele inclinasse a cabeça para ajustar o abraço, mas logo se tornou firme.
Andréa sorriu suavemente, envolvendo-o com suas asas, cada movimento carregando uma ternura protetora, como se quisesse guardá-lo do mundo.
— Não vou perguntar por que você está aqui, porque sei que tem algo grande por trás disso — ele murmurou, ainda abraçando-a. — Mas, por enquanto, só quero aproveitar isso.
Andréa se afastou apenas o suficiente para olhar para ele nos olhos.
— É grande, sim. E vou contar tudo. Mas, antes disso, quero que saiba que estou aqui para você. Sempre estive.
Vênus finalmente se aproximou, cruzando os braços e olhando para ambos com um sorriso irônico.
— Se ele não vai perguntar, eu vou! Agora que tivemos o grande momento de reunião de família, por que você realmente está aqui?
Andréa soltou um leve riso e deu um passo para trás, recuperando sua compostura.
— Vim ajudar. Seja qual for o plano para invadir o castelo, quero fazer parte dele.
Vênus arqueou uma sobrancelha, surpresa com a declaração.
— Você? Quer invadir um castelo? Pensei que isso fosse contra o seu estilo.
— Talvez seja. — Andréa deu de ombros com um sorriso travesso. — Mas é exatamente o estilo de vocês. E, às vezes, vale a pena sair da nossa zona de conforto.
Chaga riu baixinho, balançando a cabeça.
— Acho que nunca estive tão feliz por você aparecer sem ser convidada.
Por um breve momento, o peso do caos foi esquecido. A presença de Andréa trouxe algo que eles não tinham percebido que precisavam: esperança. E juntos, pela primeira vez em anos, eles sentiram que podiam enfrentar o que quer que viesse.

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