Capitulo 7
A decisão da noite anterior, selada com o sorriso de Fallon, queimava dentro dele como um farol. O plano estava em movimento, e seu próximo passo era claro: encontrar Nix a bordo do Semente do Caos. Ele não precisou juntar muitas coisas, apenas itens essenciais e suas armas.
Não era a primeira vez que tinha pensava em procurá-la, em pedir sua ajuda, mas agora, pela primeira vez, sentia que sabia onde encontrá-la. O Semente do Caos, o navio que Nixoria chamava de lar, estava escondido em uma gruta distante, um lugar onde poucos ousavam ir por ser amaldiçoado.
O sol mal começava a despontar no horizonte quando ele deixou sua pequena moradia. O ar da manhã era fresco, e o som das primeiras carroças e barracas sendo montadas no porto ecoava pela cidade. Os mercadores, com suas vozes animadas, eram um contraste gritante ao silêncio que Draven carregava consigo.
O caminho até a gruta era deserto, quase solitário. Ele sentia o peso da expectativa em seus ombros, mas também a determinação. Quando finalmente chegou, o ambiente era tão sombrio quanto esperava. A entrada da gruta era ampla, mas mergulhada na escuridão, com o som do mar ecoando nas paredes úmidas.
No entanto, algo estava errado. O Semente do Caos não estava lá. Não havia sequer sinais de atividade recente: nenhuma corda, barril ou rastro que indicasse que alguém estivera ali. Ele se aproximou da água, a frustração crescendo a cada passo.
De repente, algo se moveu. Dois tentáculos enormes emergiram do mar com uma velocidade impressionante, envolvendo-o antes que pudesse reagir. Draven tentou lutar, mas era inútil; a força era esmagadora. Em um único movimento, ele foi arrastado para dentro da água, o som abafado de sua queda ecoando pela caverna.
A transição foi instantânea e surreal. A escuridão fria da gruta desapareceu, dando lugar a uma visão impossível. O que deveria ser água agora brilhava como um espelho repleto de estrelas, cada gota refletindo constelações infinitas. O ar vibrava com uma energia pulsante, como se o próprio espaço estivesse vivo.
E ali, flutuando majestosamente sobre aquele mar de constelações, estava o Semente do Caos. O navio parecia mais uma entidade do que uma embarcação, com velas que brilhavam como nebulosas e um casco que refletia o infinito.
Draven ficou imóvel por um momento, o coração batendo rápido enquanto tentava processar o que via. Ele não estava mais em um lugar comum. Ele estava no domínio de Nixoria, um lugar onde as regras do mundo mortal não se aplicavam.
— Sempre tão sério, garoto. Relaxa, você está entre amigos agora. — A voz de Astéria era suave, mas carregada de uma energia brincalhona, refletindo sua presença marcante. Com quase um metro e oitenta de altura, ela era uma figura imponente, uma mulher-polvo de pele lisa e delicadamente perolada, que parecia capturar a luz ao seu redor de maneira encantadora.
Seus tentáculos, longos e elegantes, eram um espetáculo à parte. Mesclavam tons de roxo profundo e azul-marinho, movendo-se com uma graça fluida que beirava o hipnotizante. As ventosas, perfeitamente alinhadas, brilhavam levemente sob a luz, como pérolas em um colar de movimento constante. Seus olhos grandes, de um verde cintilante, eram expressivos e carregados de um misto de travessura e sagacidade.
Astéria riu alto, sua voz ressoando como o eco de ondas quebrando suavemente. Com um movimento ágil, ela ergueu Draven com um de seus tentáculos, segurando-o com firmeza, mas sem qualquer sinal de esforço.
— Vamos lá, sorria um pouco. — Ela o colocou de pé sob o convés do navio, ainda rindo.
Draven tossiu, sacudindo a água e ajeitando a roupa enquanto os outros tripulantes gargalhavam. Mas foi Nix quem roubou a cena. Sentada na escadaria que levava à popa, ela ria abertamente, as asas de dragão dobradas contra as costas não precisavam mais ser escondidas sob a pele. O sorriso era travesso, e os olhos brilhavam com uma satisfação inegável.
— Que bom que veio, príncipe encantado. — Ela desceu os degraus, cada passo parecendo ecoar no mar estelar ao redor.
— Precisa sempre fazer uma entrada tão… teatral? — Draven suspirou, secando o rosto com a manga da camisa.
— Claro. — Nix abriu os braços, girando levemente. — Bem-vindo ao meu reino. Gostou da decoração?
— Brilhante demais para o meu gosto. — Draven resmungou, mas não conseguiu evitar um leve sorriso.
— Você demorou. Estava achando que não amava mais a minha irmã.
— Amo mais do que pode imaginar. Tenho algo para te contar. — Draven desviou o olhar, mas sua expressão era séria.
— Vamos, meninos. As conversas sérias ficam para lá. — Astéria interrompeu, apontando para a cabine do capitão.
Nix deu de ombros e acenou para Draven segui-la. Ele a acompanhou, passando pela tripulação que ainda os observava com sorrisos curiosos e sussurros divertidos.
O camarote de Nix era uma extensão de sua personalidade: caótico, mas funcional. Mapas estavam espalhados sobre a mesa central, e objetos variados, como conchas, instrumentos náuticos e um pequeno baú de tesouro, enchiam as prateleiras.
— Você precisa de um faxineiro — comentou o albino horrorizado.
— Está se oferecendo pro serviço? — perguntou a morena olhando pelo canto dos olhos.
— Não.
— Foi o que eu imaginei. Então, o que é tão importante que te fez atravessar a cidade e vir até aqui? — Nix se jogou em uma cadeira com um suspiro, indicando que Draven fizesse o mesmo.
— Fallon me pediu para fugir com ela, iremos para o mar de caos juntos.
— Ora que boa notícia, então por que a cara de defunto?
— Lafaiete me deu uma nova ordem. — Draven sentou-se, os olhos fixos na mesa enquanto escolhia cuidadosamente as palavras.
Nix inclinou-se para frente, a expressão mudando de diversão para concentração.
— Continue.
— Ele quer que eu mate Fallon no dia do casamento.
A reação de Nix foi imediata. Seus olhos se estreitaram, e uma aura de energia quase palpável parecia emanar dela. Mas, em vez de explodir, como Draven esperava, ela riu.
— Claro que quer. — Ela se levantou, andando de um lado para o outro. — O conselheiro Lafaiete não consegue admitir que algo saia do controle dele. Não… Fallon é uma ameaça para a estrutura que ele quer manter.
Draven observou-a em silêncio. Finalmente, perguntou:
— O que você vai fazer?
— Vou sequestrar Fallon antes que ele tenha a chance. — Nix parou, apoiando as mãos na mesa.
— Durante o casamento?
— Durante a festa de noivado. — Nix sorriu, mas havia um brilho perigoso nos olhos dela. — Vamos causar um pouco de caos.
— Você acha que vai funcionar?
— Não acho. Sei. — Ela se aproximou dele, colocando uma mão firme em seu ombro. — Draven, eu preciso que você esteja comigo nessa. Não apenas por Fallon, mas por nós dois. Você sabe o que Lafaiete faz com quem o trai.
— Estou dentro. — Draven segurou o olhar dela por um momento antes de assentir.
— Bom. Então, prepare-se. Porque quando o caos começa, não há como voltar atrás. — O sorriso de Nix suavizou-se um pouco.
Enquanto saíam do camarote, Draven não pôde deixar de sentir que, pela primeira vez em muito tempo, estava no lugar certo, mesmo que esse lugar fosse o olho de uma tempestade prestes a explodir.

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