O Semente do Caos flutuava sobre o mar negro como uma sombra viva. Sua proa, esculpida em forma de um dragão rugindo, refletia a luz escassa da lua em suas garras metálicas. Era uma embarcação que inspirava medo em qualquer um que a avistasse — uma verdadeira extensão da capitã que a comandava.

    Nix havia deixado as asas para trás há muito tempo, pois seria difícil chegar voando até a gruta que esconderam o navio. Para ser mais furtiva, ela estava deitada sozinha em um pequeno bote que levaria de volta à sua tripulação. Suas mãos tocavam levemente a superfície da água, mas era o suficiente para formar a forte correnteza que carregava o bote.

    Sua magia deixava para trás pequenos redemoinhos confirmando sua presença, como se estivesse perturbando algo maior e mais profundo, vez ou outra uma onda mais forte tentava virar o barco.O vento salgado trazia consigo um cheiro de liberdade. Quando finalmente alcançou o navio, as vozes familiares de seus tripulantes ecoaram no convés.

    — Capitã a bordo! — gritou o vigia, acendendo uma lanterna para iluminá-la.

    — Quietos, seus idiotas! — respondeu Nix, em tom de comando. — Estão querendo atrair a marinha inteira?

    Os tripulantes, por sua vez, riram e murmuraram desculpas enquanto ajudavam Nix a subir. Eram um grupo de figuras desalinhadas e cheias de cicatrizes, muito similares à própria capitã. Não eram filhos do caos de forma alguma, mas pessoas que assim como Nix haviam sido marginalizados e agora dividiam o mesmo ideal: Liberdade!

    Assim que pisou no convés, ela sentiu a familiar vibração do navio sob seus pés, como se estivesse finalmente voltando para casa. Sorriu sendo recebida por abraços e sorrisos felizes. Entre os rostos conhecidos, um homem se destacou na sombra do mastro principal.

    Ele estava encostado casualmente, os braços cruzados sobre o peito, observando Nix com olhos que brilhavam à luz da lua. Sua pele escamosa, de um tom esverdeado suave, parecia relembrar a luz das estrelas, como se cada escama fosse uma parte do próprio mar.

    Seus longos cabelos azuis, trançados delicadamente, dançavam com o vento, caindo suavemente sobre seus ombros e acentuando sua postura imponente. Seus olhos, brilhando como joias amarelas, cintilavam com uma intensidade que parecia carregar séculos de sabedoria e poder. A visão dele, ali na penumbra, era tão majestosa quanto intimidadora, uma figura singular e imponente.

    — Demorou mais do que o esperado, Capitã. Algum problema no templo? — perguntou ele, sua voz suave, mas com uma ponta de provocação.

    Nix revirou os olhos ao reconhecê-lo. Lucius, vice-capitão do Semente do Caos, tinha um talento irritante para parecer calmo em qualquer situação. Seus cabelos azuis passavam dos ombros, e um sorriso discreto brincava em seus lábios, como se ele sempre soubesse algo que os outros não sabiam.

    “Convencido.” Nix pensou.

    — Nada que eu não pudesse lidar — respondeu ela, entregando seu casaco a um dos tripulantes. — Você deveria se preocupar menos comigo e mais com o trabalho que deixei para você. O navio está pronto para partir, ou você ficou brincando de marinheiro o dia inteiro?

    — O navio está pronto. A tripulação está pronta. A única coisa que faltava era você, como sempre. — Lucius arqueou uma sobrancelha, mas não perdeu o sorriso.

    Nix bufou, mas não pôde evitar um leve sorriso. Com todos reunidos no convés, Nix deu dois passos à frente, colocando-se em uma posição de destaque. Ela olhou para os rostos familiares da tripulação: ladrões, assassinos, ex-soldados e renegados de todos os cantos do reino. Eram a família que ela escolheu, mas também sabia que segredos eram raramente bem recebidos por eles.

    — Tenho algo importante para dizer — começou, sua voz cortando o murmúrio da multidão, ansiedade rasgando a garganta. — Algo que não compartilhei antes, porque não achei que importasse. Mas agora, talvez importe.

    Lucius, que estava encostado no mastro, pareceu inclinar-se levemente para frente, com os olhos fixos nela.

    — Sou irmã da santa da lua. Fallon é minha gêmea.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto. Era raro a tripulação do Semente do Caos ficar sem palavras, mas aquela revelação foi como uma tempestade inesperada. Finalmente, um dos marujos, Mathew, um homem robusto com asas enormes, soltou uma risada curta e incrédula.

    — Você? Irmã da santa? Essa é boa, Capitã. Vai nos dizer agora que é uma enviada divina? — Nix lançou-lhe um olhar mortal, e ele imediatamente se calou.

    — Sei que não acreditam em mim e tem todo o direito — continuou ela, seu tom mais duro. — Mas eu tenho um pedido para vocês. Um que pode custar suas vidas.

    — E qual seria esse pedido? — perguntou Lucius, a suavidade em sua voz mascarando o interesse genuíno.

    Nix retirou os óculos, um sorriso lento curvando seus lábios.

    — Vamos invadir o palácio durante a festa de noivado da minha irmã e roubar tudo o que pudermos… Incluído a noiva!

    O convés explodiu entre murmúrios, risadas e também alguns protestos, mas quando Nix ergueu uma mão, o silêncio foi instantâneo.

    — Como vocês podem imaginar, não é apenas um saque comum — explicou ela, andando pelo convés como um predador em uma gaiola. — Isso é pessoal. Minha irmã está presa a um casamento que ela não quer, e eu pretendo dar a ela uma chance de fugir. Enquanto isso, vamos pegar o máximo de ouro e artefatos que conseguirmos.

    — E se formos pegos? — perguntou Vênus, a cozinheira do navio, segurando um cutelo com dedos inquietos. — Estamos falando do palácio real, não de uma aldeia qualquer.— Se formos pegos, enfrentaremos como sempre enfrentamos — respondeu Nix, sua voz firme. — Com dentes, garras e caos.

    Lucius riu suavemente, chamando a atenção dela.

    — Parece mais perigoso do que o normal, até mesmo para você. Está certa de que é só para salvar sua irmã?

    Por um momento, Nix hesitou, mas apenas por um momento, colocando os óculos novamente admitiu:

    — Não é só por ela. É por mim também. E por todos nós. Será minha última vingança contra o reino, por tudo que ele nos fez passar.

    Enquanto a tripulação se dispersava para preparar os detalhes do plano, Nix permaneceu na cabine do capitão, com seus olhos fixos no mapa do palácio. A luz oscilante da lanterna projetava sombras dançantes sobre os papéis, enquanto o som das ondas batendo no casco preenchia o silêncio. Lucius entrou sem bater, como de costume, fechando a porta atrás de si com um leve rangido.

    — Você está quieta demais para alguém que acabou de lançar um plano tão ousado — comentou ele, recostando-se contra a parede.

    Nix não respondeu de imediato. Seus dedos traçaram as linhas no mapa como se buscassem respostas em meio às anotações.

    — Lembra-se da primeira vez que você pisou neste navio? — perguntou ela, sem levantar o olhar.Lucius ergueu uma sobrancelha, um leve sorriso surgindo em seus lábios.— Como poderia esquecer? Você me deixou amarrado ao mastro por três dias porque não confiava em mim.

    Nix soltou uma risada curta, finalmente olhando para ele.

    — E, honestamente, eu não estava errada. Você sempre teve segredos demais para um marinheiro comum.

    Lucius cruzou os braços, seu sorriso se tornando mais enigmático.

    — E ainda assim estou aqui.

    — Sim, e isso continua me intrigando — retrucou Nix, inclinando-se contra a mesa. — Você não é o típico marinheiro. Não tem o olhar de alguém que pertence ao mar.

    — E você tem? — rebateu Lucius, o tom provocativo.— Eu pertenço ao caos, Lucius. — Ela sorriu, um sorriso cheio de autoconfiança. — O mar é apenas parte dele.

    Ele riu suavemente, aproximando-se da mesa.

    — E o que isso tem a ver com sua súbita introspecção?

    Nix hesitou por um momento, o brilho em seus olhos turquesa parecia mais sombrio.

    — Este plano… — começou ela, gesticulando para o mapa. — É diferente de tudo que já fizemos. Não é apenas um roubo. Não é apenas uma fuga. É uma invasão no coração do reino.

    Lucius inclinou-se sobre a mesa, observando-a com atenção.

    — E isso te preocupa?

    Ela balançou a cabeça, rindo baixinho.

    — Não por mim. Mas Fallon… ela não está pronta para o que vem depois.

    Lucius ficou em silêncio por um momento, antes de falar em um tom mais sério.

    — Você está fazendo isso por ela. Isso é o suficiente.

    Nix o encarou, seu olhar avaliando-o como sempre fazia. Lucius tinha o dom de dizer coisas que pareciam simples, mas carregavam camadas de significados.

    — Você fala como alguém que sabe demais sobre sacrifícios — disse ela, inclinando-se mais perto.

    Ele não respondeu de imediato, mas sua expressão mudou, tornando-se ligeiramente mais fechada.

    — Talvez eu saiba — respondeu ele, desviando o olhar para o mapa.

    Nix o observou, o silêncio entre eles ficando mais pesado. Ela sabia quem ele era. Desde o momento em que o vira pela primeira vez no cais, com suas roupas simples, mas a postura altiva e os olhos que nunca abaixavam diante de ninguém, ela soubera. Mas falar sobre isso agora? Não. Ainda não era o momento.

    — Você tem um talento especial para falar sem dizer nada, sabia? — disse ela finalmente, quebrando o silêncio com um tom brincalhão.

    Lucius riu, voltando a encará-la.

    — E você tem um talento especial para esconder o que realmente está pensando, capitã.

    Nix inclinou a cabeça, um sorriso malicioso surgindo.

    — Faz parte do trabalho.

    Os dois ficaram em silêncio novamente, mas desta vez havia algo mais leve no ar, como se ambos reconhecessem o jogo que estavam jogando sem nunca nomeá-lo. Finalmente, Lucius apontou para o mapa.

    — Então, qual é o próximo passo?

    — Primeiro, precisamos nos infiltrar durante a troca de turnos. — Nix pegou uma caneta e começou a marcar os horários. — Isso nos dá uma janela de dez minutos antes que os guardas percebam qualquer coisa.

    — E depois?

    — Depois… o caos faz o resto.

    Lucius sorriu, balançando a cabeça.

    — Isso soa exatamente como você.

    Nix levantou-se, enrolando o mapa.

    — Claro que sim. Agora vá fazer o que você faz melhor. Seja misterioso, mas útil.

    Lucius riu novamente, mas não disse mais nada. Ele virou-se para sair, mas parou na porta, olhando para trás por sobre o ombro.

    — Nix…Ela parou, olhando para ele com curiosidade.— Não se perca nisso.

    Ela piscou, surpresa pelo tom sério.

    — Eu nunca me perco, Lucius.Ele sorriu levemente antes de sair, deixando-a sozinha com seus pensamentos e a luz tremeluzente da lanterna.Nix soltou um suspiro, olhando para o mapa em suas mãos.

    — Só mais um pouco, Fallon, eu vou te salvar — disse em tom de prece. — Se ela quiser ser salva, é claro — corrigiu Nix, com um tom amargo.

    Ela guardou o mapa e saiu da cabine, arrumando os óculos, estava pronta para comandar o caos que vinha pela frente.

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