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    [ Campo de Treinamento 3, às 20h ]

    Quando Akemi chegou à frente da escadaria do dojô, encontrou-se com aquele calor.

    A base de mármore esquentaram sob seus pés, a mesma vibração morna subiu das solas até os joelhos.

    No centro do dojô, a encarnação do fogo meditava como antes, tornando seu corpo um manto inquieto.

    Do laranja incandescente que ampliava sua silhueta até o carmesim das pupilas atentas, a chama ainda ardia com uma presença hipnótica, contudo, Akemi, esperando pacientemente, acostumou-se com a visão.

    A figura de fogo virou o rosto, as pupilas carmesins cravaram-se no rapaz.

    Por um breve instante, nenhum dos dois se moveu.

    Vagarosamente, as labaredas recuaram, revelando mechas negras e escarlates. O corpo de brasas deu lugar à pele clara, e os olhos de fogo voltaram ao jade familiar.

    Miya retornou ao seu estado normal, vestindo o kimono alaranjado. No dedo médio esquerdo: o reluzente anel alaranjado.

    Ela se levantou, cruzou os braços, e com uma leve impaciência, inclinou a cabeça. — Vai ficar aí parado ou vai entrar? Temos algumas coisinhas pra conversar.

    Akemi caminhou até o centro do dojô, onde o calor ainda permanecia no ar, como se as chamas nunca tivessem desaparecido completamente. No fundo, uma dúvida o consumia. — Você estava naquela forma de novo. Isso é… uma aura eterna? — Com a confirmação da garota, ele continuou. — Eu já li sobre isso. Shihais lendários que possuem auras que não podem ser anuladas. Mas… nunca entendi direito o que isso significa. E já que passaremos um tempo treinando juntos, você… poderia me dizer sobre as suas habilidades?

    Miya caminhou até uma das tochas na parede e estendeu a mão. A chama da tocha saltou para sua palma, dançando entre seus dedos como se fosse parte dela. — Aura Eterna é exatamente o que o nome diz. Uma aura que não pode sofrer anulação de outra.

    Akemi observava a chama dançando na mão dela. — Anulação você diz sobre água contra fogo, fogo contra terra, terra contra vento…?

    Miya fechou a mão, e a chama desapareceu. — Sim, mas saliento que as auras eternas possuem um nível diferente. Além de apenas manifestações de energia, elas são o elemento. Como você sabe, Jin Ichikawa é o próprio vento, e eu, herdei a forma da chama.

    — E como isso funciona? Você simplesmente queima com fogo?

    Miya sorriu levemente. — Quer ver?

    Antes que Akemi respondesse, Miya estendeu ambas as mãos para os lados.

    Fwoooosh!

    Chamas explodiram de suas palmas, disparando em todas as direções. As labaredas intensas varreram o chão de madeira, subiram pelas paredes e iluminaram os dragões dourados nas colunas esverdeadas.

    Akemi protegeu o rosto com os braços. — Miya! Você vai- — Quando abriu os olhos, percebeu algo impossível:

    O dojô estava intacto.

    As chamas vibravam por todo o chão de madeira, brilhavam nas colunas, e curiosamente, envolviam os pés do garoto que se desejassem abraçá-los — mas nada queimava.

    Nem uma marca, nem um cheiro de fumaça.

    Miya abaixou as mãos, e as chamas desapareceram. — Eu controlo o que queima e o que não queima. Se eu quiser, posso atear fogo em você e não te machucar. Ou posso tocar sua pele com um único dedo e te incinerar, independente se você é resistente ou não ao fogo.

    Akemi engoliu seco. “Isso é… assustador. Porém…” Ele relembrou-se de detalhes, mas a garota seguiu com seus esclarecimentos.

    — É fascinante, não? Auras eternas exigem controle absoluto. Se eu perder o foco, o fogo pode sair do meu comando, e… bem, você viu o que pode acontecer baseado no que a instrutora Hisako causou.

    Akemi recordou a sensação que a forma ígnea de Miya despertava nele. — Quando fico perto da sua forma de fogo… você percebeu que eu fico mais energizado. Agora eu me pergunto: mesmo agora que sinto muita energia áurica acumulada, se a gente continuasse próximo, você poderia servir como… uma espécie de bateria pra mim?

    Miya pensou por um instante maior que o normal. — … Se o seu núcleo áurico suportar a minha fonte, sim… Quando entro na forma de fogo, o ambiente se aquece, e como você é um retrator, isso exige cautela. Certas fontes acabam forçando o armazenamento além do limite, e o resultado costuma ser destrutivo. Embora sejam ramificações próximas do fogo, auras elétricas são raras, e quase sempre vêm acompanhadas de particularidades: velocidade elevada, uso intenso, e muitas vezes, descarregam mais rápido do que acumulam… Por acaso você já sentiu alguma dessas características se destacar?

    Akemi caçou palavras, mas uma dúvida que o incomodava desde o desafio de Hisako surgiu. — Bom… isso é uma coisa que eu queria perguntar há tempos. Às vezes, quando algo muito rápido passa perto de mim, ou quando eu estou em perigo… o mundo fica lento.

    — Lento? — repetiu Miya, um espanto se formava.

    — Sim. É como se eu estivesse vendo tudo em câmera lenta. Consigo acompanhar movimentos que deveriam ser impossíveis de ver. Só que, apesar disso, meu corpo não consegue reagir. Sinto que meus olhos são mais rápidos que o resto de mim.

    Miya paralisou.

    — Aconteceu hoje com Hikaru Sasaki — prosseguia Akemi — ele se move na velocidade da luz, mas por uns segundos, eu consegui vê-lo claramente. E durante as suas demonstrações de agora, Miya… vi você sumindo e aparecendo. Vi cada movimento, mesmo sendo aparentemente impossível de se acompanhar sem treinamento.

    A garota deu um passo à frente, receosa. — Você… tem certeza disso?

    — Sim. Por quê? Isso não é normal?

    Miya soltou uma risada curta. — Akemi, essa é uma das características mais raras que um áurico pode ter — o relato deixou o rapaz incrédulo. — O que você está descrevendo é parte da percepção áurica, uma habilidade que surge em áuricos com potencial extremo. Normalmente você enxerga o mundo arrastado quando se está sob um perigo extremo e imperceptível aos seus olhos, então sua aura age em defesa. Ou seja, tudo isso significa que suas habilidades estão evoluindo em uma velocidade anormal, tanto que um detalhe da sua percepção já ultrapassou os limites humanos.

    — P-por que isso aconteceria comigo!?

    — Auras são adaptativas. Você disse que absorve energias ao seu redor, e cada vez que absorve, sua aura aprende, e quanto mais aprende, melhor você vê o mundo.

    — Isso… ainda é meio confuso pra mim. Você aprendeu tudo isso em institutos áuricos?

    — Aprendi mais vivendo.

    — Hm, então você também vê o mundo lento?

    — Tenho a percepção áurica aprimorada, observar minuciosamente é só um detalhe. Também posso sentir, localizar e medir energias áuricas a certa distância, coisas que você provavelmente demorará pra aprender. Contudo, Akemi, dado essas características, creio que se você desenvolver direito, pode se tornar um dos áuricos mais poderosos da nossa geração.

    O coração de Akemi acelerou. “Eu… posso mesmo?”

    Miya ergueu um dedo. — Mas, nada será fácil. Você precisa treinar, e não estou falando de treinos comuns.

    — O que quer dizer?

    — Os instrutores te dão desafios, te jogam em situações extremas, mas não te ensinam a controlar sua aura. Mas eu estou aqui pra te ajudar nisso, com uma condição! Você precisa ter um corpo apto para o serviço.

    — Corpo apto? Mas eu já treino com o Major Yura. Meus músculos estão… bem, eles estão melhorando apesar da dor. Só que… não faço ideia de quando ficarão prontos…

    — Nós áuricos possuímos um condicionamento acelerado — declarou Miya, pontuando que a aura impulsionava a regeneração muscular, o adensamento ósseo e a adaptação cardiovascular. Um trivial em bom estado levaria entre doze e dezesseis semanas para que alcançasse o preparo militar básico; um áurico, quatro… seis caso cedesse à indolência. — Ganhamos massa três vezes mais rápido que os triviais, por isso, nossa recuperação ocorre em quase metade do tempo deles. Portanto, seu tempo para condicionamento físico não será problema, mas mente e alma, essas não têm atalho e dependem amplamente da pessoa em si… Mas eu confio que você vai aprender rápido! 

    Ela tinha plena ciência de que Akemi entrou na ASA alheio ao prestígio individual, poder ou legado familiar. O impulso que o trouxe até ali foi a proteção dos outros, e Miya desejava que aquele propósito fosse enxergado como a fonte mais potente de energia.

    “Isso soa… complicado. Mas se ela acredita em mim…” Akemi ganhou confiança. — Então, quando começamos?

    — Amanhã. Prepare-se, pois o que vem pela frente vai ser pior do que qualquer coisa que o Major Yura te fez passar, hihi — alertou Miya, saltitando para que saísse do dojo.

    “P-pior que o Major Yura!?” O rapaz encarou a de rostinho meigo. “Pelo menos ela vai ser compreensiva com minhas dificuldades, certo?”

    — Ah, Akemi! — Miya virou-se, lembrando-se de algo.

    — Sim?

    — Eu tô falando sério, tá? Se quer ser forte, terá que sangrar por isso. Aliás, tenho alguns afazeres com a minha família, então não estarei nos treinamentos de amanhã. Lembre-se de manter proximidade com a Nikko se sentir que precisa de ajuda. Tchau, tchaaau~ — cantarolou Miya, desaparecendo pela entrada do dojô e deixando apenas o calor residual das chamas.

    Akemi permaneceu parado no centro do dojô, olhando para as próprias mãos. “Sangrar por isso…”

    Os punhos se apertaram.

    “Tudo bem, se é isso que preciso fazer… Então, vou sangrar.”

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