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Capítulo 104 — Espelho Partido
As duas tempestades colidiram com um estrondo que fez o coliseu inteiro estremecer. O impacto gerou uma explosão de vento e luz que ofuscou os olhos de todos, e por um momento, só o som — agudo, furioso, como mil lâminas cantando — preenchia o espaço.
E então… o silêncio.
Fragmentos de vento giravam em lentas espirais sobre a arena, como cacos de vidro suspensos no ar. A poeira assentava devagar, revelando as duas figuras pairando no céu.
Marco ainda segurava sua espada espelhada, agora envolta por um brilho esverdeado. A expressão serena, quase tranquila, contrastava com a devastação ao redor.
Stronger flutuava mais acima, os olhos semicerrados. O sangue escorria de um pequeno corte em sua têmpora — o primeiro sinal de que fora, de fato, atingido.
Ele passou os dedos pelo sangue com lentidão, e então olhou para Marco com uma mistura de desdém e incredulidade.
— Refletida…? — repetiu, num tom que beirava o sarcasmo. — Você ousa… reproduzir minha técnica? Com esse truque de espelho barato?
Marco não respondeu, mas seus olhos sustentavam o olhar de Stronger, firmes, sem medo.
Stronger deu uma leve risada — seca, arrogante, inflada de ego ferido.
— É isso que você é, então? Um reflexo? Uma sombra pálida dos verdadeiros guerreiros de Ossuia? — Sua voz carregava veneno. — Pode até imitar os movimentos, Marco…, mas jamais compreenderá a essência.
Ele desceu lentamente no ar, as vestes esvoaçando com raiva contida.
— Você me insulta ao colocar minha técnica diante de mim como um truque de circo. Como se bastasse segurar uma espada e se olhar num espelho para entender o que significa canalizar a Fúria Celeste!
Stronger girou a espada, e comandou a corrente de vento que se ergueu em espiral ao redor de seu corpo. Os olhos voltaram a brilhar, mas agora havia mais do que fúria ali — havia ego ferido.
— Eu sou a tempestade original, Marco do Espelho. Você é só o eco… um reflexo trêmulo na água. Vamos ver quanto tempo mais esse seu reflexo consegue resistir à luz real!
Hermes, ainda em choque com o que presenciara, gritou no alto da arquibancada:
— STRONGER ESTÁ FURIOSO! O EGO FERIDO! MAS SUA RAIVA NÃO O DESFOCA — ELE ESTÁ CANALIZANDO OUTRO ATAQUE! MARCO PODE TER ENTRADO EM UM JOGO QUE NÃO DEVERIA TER COMEÇADO!
Marco observava em silêncio. A armadura ainda vibrava com ecos da magia. Ele apertou o cabo da espada com mais firmeza.
— Você realmente não entendeu nada, Stronger.
A afirmação foi calma. Sólida como uma rocha no meio do furacão.
Stronger piscou. A cabeça se inclinou levemente para o lado, como se tivesse escutado algo absurdo demais para ser compreendido.
— O que você quer dizer com isso?! — rugiu, a voz ressoando como trovão cortando o céu. O tom arrogante agora misturava-se a uma nota de incerteza.
Marco ergueu os olhos e, por um instante, o silêncio retornou ao coliseu.
— Eu não sou uma simples cópia vazia, sem alma. Quando minha mana leu a sua magia… ela entendeu.
Stronger arregalou os olhos, mas Marco continuou, com a mesma calma firme de quem está diante de um quadro já pintado.
— Ela entendeu cada gota da essência e da vontade que guiavam aquele poder. Orgulho. Raiva. A necessidade sufocante de provar algo ao mundo. E até mesmo… uma pitada de frustração.
Marco avançou um passo no ar, sereno como se andasse sobre uma superfície invisível.
— Eu vi tudo isso. Vi o que te faz conjurar a Fúria Celeste com tanta fúria. Por isso, Stronger… a minha técnica não é uma imitação.
Ele ergueu a espada.
— É a mesma técnica.
O rosto de Stronger estremeceu. O sangue lhe subiu à face, e ele gritou, com a voz rachando:
— ISSO NÃO PODE SER VERDADE!!!
Com um urro animalesco, ele lançou-se contra Marco. O céu pareceu ruir. Ventos cortantes como lâminas dispararam com violência assassina, rasgando o ar na direção de Marco. Não havia mais estilo, nem arte — era ódio, era ego ferido tentando sobreviver.
Mas Marco não se moveu com desespero. Ele girou a espada como da primeira vez — simples, direto, eficiente — e cada mínima rajada foi refletida por completo. Os ventos de Stronger colidiam com seus próprios espelhos invisíveis, explodindo ao redor de Marco sem sequer desalinhar o fio de seu cabelo.
Stronger grunhia, atacava, girava, trocava ângulos, conjurava com as duas mãos, mudava padrões — mas era inútil. Cada golpe era perfeitamente interceptado, como se Marco estivesse lendo o ataque antes mesmo de ele ser executado.
Hermes quase deixava o microfone cair.
— ELE… ELE ESTÁ LENDO TUDO?! ISSO É— ELE ESTÁ… SUPERANDO STRONGER COM A PRÓPRIA MAGIA DO STRONGER?!
E então, no meio da dança perfeita, Marco falou:
— Mas sabe o que é o mais legal de realmente entender e compreender a sua magia?
Stronger, arfando, hesitava por um instante. A dúvida finalmente havia chegado.
Marco apontou a lâmina para o céu.
— É que agora eu posso reconhecer seus pontos fracos… E supri-los com meu próprio estilo.
O céu tremeu de novo. Mas não era Stronger quem conjurava.
Marco girou o braço e bradou, com a voz reverberando como um trovão sereno:
— Magia de Vento: FÚRIA CELESTE DOS DOIS MIL CORTES!
O mundo pareceu prender a respiração.
E então, tudo desabou.
Do alto, rajadas de vento translúcidas tomaram forma — finas como fios de aço, mas carregadas de uma precisão sobre-humana. Elas desceram sobre o coliseu em ondas sucessivas, como se cada uma obedecesse a um compasso invisível. Não havia caos — havia ordem cruel. A tempestade de Marco era metódica, fria, implacável.
Stronger mal teve tempo de levantar a espada. A primeira rajada já o havia atingido.
E depois a segunda.
A terceira.
A décima.
A centésima.
Seu corpo foi sendo empurrado, cortado, erguido e despido de qualquer controle. Cada lâmina de vento rasgava sua carne com precisão cirúrgica, deixando linhas vermelhas finas em sua pele. Não havia cortes profundos — mas havia milhares deles. Era como se cada vento conhecesse o limite exato entre dor e mutilação, entre punição e morte.
Mil cortes.
Mil e quinhentos.
Dois mil.
Stronger foi lançado para o chão como um boneco de pano, a velocidade de sua queda esmagando o solo abaixo. Uma nuvem de poeira ergueu-se como um lamento dos deuses.
Quando a tempestade cessou, o silêncio era absoluto.
O coliseu parecia em ruínas. O chão da arena estava completamente dilacerado, coberto de cortes que se entrelaçavam em padrões violentos, como uma tapeçaria de destruição tecida por mãos invisíveis. A luz do sol refletia nos sulcos como se espelhos estilhaçados tivessem se espalhado pelo campo de batalha.
Hermes, do alto, não conseguia dizer nada. Seus olhos estavam arregalados.
E então… o corpo de Stronger moveu-se.
Ele respirava. O peito subia e descia com dificuldade, mas nenhum dos cortes era mortal. Dois mil cortes. Dois mil avisos. Marco o havia atingido em toda sua extensão — pernas, braços, tórax, costas, rosto — e ainda assim… o havia poupado.
Stronger arregalou os olhos, olhando para o céu.
E lá estava ele.
Marco pairava acima, sereno. A espada apontava para baixo, mas seus olhos não carregavam ódio. Nem mesmo triunfo. Apenas uma calma certeza. Como se tudo aquilo já estivesse resolvido muito antes da luta começar.
Foi naquele instante que Stronger entendeu.
Ele podia se levantar.
Ele podia continuar lutando.
Mas por quê?
O que restava nele — aquela chama de orgulho que sempre o impulsionou — havia sido apagada. Marco não o havia derrotado com força… mas com compreensão. Ele o viu, leu sua alma, absorveu sua magia… e a aperfeiçoou.
Stronger sentiu um vazio.
Como um espelho estilhaçado em dois mil pedaços.
Não restava mais nada a provar.
Hermes, enfim, respirou fundo. Levantou-se lentamente e ergueu a voz, que ressoou por toda a arena ainda silenciada pelo impacto.
— O vencedor… é Marco!
A multidão explodiu num rugido que demorou a alcançar Stronger, perdido dentro de si mesmo.
E Marco continuava ali, observando-o, não como inimigo. Mas como alguém que havia superado sem destruir.
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