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    O som nas arquibancadas era de puro entusiasmo e ânsia. A plateia que observava tudo nas arenas de ascensão estava a loucura e boquiaberta com o que viam.
    No alto de seu palanque flutuante, Sue estava em êxtase enquanto narrava os acontecimentos impressionantes que os olhos de todos testemunharam.
    — Os príncipes de Lyberion foram interceptados por Rossander, o desafiado de Cassian! Mas o mais impressionante, senhoras e senhores, é como o príncipe mais novo, Helick, foi capaz de aprisionar e conter a temível e brutal Pantera-Chicote! Isso jamais foi visto em toda a história centenária dessas arenas!
    Em meio a plateia Blando observava tudo atentamente.
    “Uma Besta Mítica sendo detida com essa mana inacabada que clama por lapidação… Que potencial…” — Os pensamentos de Blando refletiam em seu olhar heterocromático vibrante e mais animado do que ele já estampara em seu rosto pela última década. — Finalmente vou ver o que eu quero. — Ele deixou escapar para si mesmo.
    Lá embaixo, onde a umidade e calor ensopava a pele de Cassian que fazia frente a Ross, as trocas de golpes se intensificavam.
    Para a sorte de Cassian, os Cortes Fantasmas de Rossander eram praticamente inúteis quando perdiam o elemento surpresa da invisibilidade que ele conseguia burlar com sua aguçada percepção mágica.
    Mas mesmo assim o homem era habilidoso e estava pressionando Cassian na pura habilidade de esgrima.
    Cassian se defendia e atacava, mas sentia que não estavam saindo do lugar. Com um breve olhar para o lado ele viu Helick concentrado enquanto apontava a lâmina para a Pantera-Chicote que não parava de se debater contraindo os músculos e rugindo ferozmente.
    RWWWWAAAAAAA!!!
    As correntes de gelo que a seguravam e prendiam suas cinco caudas trincavam e se reconstruíram a uma velocidade altíssima enquanto drenavam a mana de Helick.
    — Para onde está olhando, príncipe? — Ross se pôs em seu campo de visão que levava a Helick enquanto atacava conjurando — Corte Fantasma!
    Os cortes invisíveis a olho nu, mas facilmente detectáveis por Cassian não acertaram enquanto o príncipe se desviava perfeitamente deles.
    — Droga! — Cassian rosnou. — Não tenho tempo para isso!
    E realmente ele não tinha. A qualquer momento Helick poderia vacilar e a Pantera estaria livre para ataca-los. Sem contar as presenças dos desafiados que cercavam o grupo de Marco, Redgar e Isaac.
    Cassian não iria mais se segurar.
    Enquanto se defendia de mais uma investida de Rossander ele rugiu enquanto o afastava com um empurrão com a lâmina.
    — Já chega! — Cassian esbravejou.
    Seus olhos se fecharam por um breve momento no mundo exterior, mas eu seu interior ele fez uma viagem.
    ***
    Alguns dias antes do início da corrida de ascensão.
    Faltavam poucos dias para o início da Corrida de Ascensão. Nos gramados rasos do Casarão, o som do aço ecoava seco. Helick e Cassian trocavam golpes rápidos, contendo a energia em seus corpos e liberando lampejos de mana apenas no instante exato em que as lâminas se chocavam.
    Exatamente como Rhyssara, a Imperatriz de Ossuia, havia exigido.
    — Que tipo de treino é esse? — rosnou Cassian, rangendo os dentes ao bloquear um ataque descendente de Helick. — Como vamos evoluir se não podemos usar nem metade do que temos?
    Helick saltou para trás, esquivando-se de uma rasteira veloz, e girou o corpo no ar para escapar de um corte que deixou um rastro chamuscado na grama.
    — Cass! Você liberou mana antes do contato!
    — Ah, que saco! — Cassian bateu o pé, frustrado como uma criança. — Eu carrego um poder instável e perigoso aqui dentro, e quando finalmente acho que aquela mulher vai nos ensinar a dominá-lo para a Ascensão, ela manda a gente brincar de se segurar? Que merda!
    — É isso que você pensa, Príncipe Cassian?
    A voz feminina surgiu como um sussurro gelado logo atrás dele. Cassian deu um salto, o coração disparado.
    — Imp… Imperatriz?
    Rhyssara caminhou entre eles, seu olhar safira pesando mais que qualquer palavra.
    — Escutem bem. Vocês possuem reservas de mana absurdas, típico sangue dos Havillfort. Mas a energia de vocês é volátil, e a forma como lidam com ela são opostos problemáticos. Helick, você é cauteloso demais, restringe o fluxo por medo de perder o controle. Cassian, você transborda; não sabe se conter e acaba consumido pelo próprio fogo.
    Ela parou, encarando-os com severidade.
    — No entanto, eu já vi lampejos de maestria em ambos. Helick, você provou isso contra Brann ao criar as Correntes do Lobo Branco. Cassian, você fez o mesmo contra Sanur, ao domar o calor para atingir aquela forma semi-alada. Naqueles momentos, Helick teve que se permitir “vazar”, e Cassian teve que se obrigar a “focar”.
    A Imperatriz cruzou os braços, a autoridade emanando de sua postura.
    — Este treino é sobre o instante. Até agora, vocês só liberaram migalhas. Quero que mudem a abordagem: liberem tudo o que têm, mas apenas no milésimo de segundo em que o metal se tocar. Conheçam a si mesmos e o ritmo do seu poder. Garanto que, sem esse controle, nenhum de vocês sobreviverá ao próximo nível.
    ***
    Cassian lembrou-se do treinamento com o irmão sob a tutela de Rhyssara e fechou os olhos, buscando a centelha de fogo que residia em seu âmago. A sala branca de sua consciência foi subitamente tomada por chamas descontroladas e famintas, vindas do mais profundo de sua mana.
    Rossander recuou ao ver a aura de chamas moldar o contorno de Cassian. A blusa vermelha bordada do príncipe foi incinerada no instante em que uma única asa de fogo rompeu de suas costas, à esquerda.
    — Aí está… — sussurrou Rossander. — A forma que sobrepujou Sanur, o líder da Guilda da Fornalha Proibida das Montanhas de Patrock.
    Helick, que se concentrava em manter as correntes de gelo firmes ao redor da Pantera-Chicote, olhou para trás. Viu, mais uma vez, aquela forma avassaladora tomar conta do irmão.
    Não, Helick percebia analisando o comportamento daquela gigante fonte de mana não era isso. Aquela forma não tomava Cassian, ele a mantinha com sua própria concentração, assim como havia feito nas montanhas.
    — Se não quiser ser incinerado, apenas desista, Rossander — avisou Cassian, a voz reverberando com o calor.
    — Não fale como se já tivesse vencido, príncipe convencido — rebateu Rossander, com um sorriso de canto. — O Corte Fantasma não é a única técnica que domino. Pelo contrário… eu a uso apenas quando quero me poupar.
    — Então, creio que você já tomou sua decisão.
    Rossander respondeu elevando a própria mana. O nível de poder subiu de forma avassaladora, ultrapassando tudo o que Cassian vira nas arenas anteriores, ficando abaixo apenas de Celsio Fahrenheit.
    Naquele instante, a ficha caiu: se Rossander quisesse ter acabado com os irmãos na invasão de meses atrás, ele realmente o teria feito.
    “Esse nível de mana… beira o do Capitão Haras!”, Cassian pensou, incrédulo. “Não… é exatamente o mesmo nível!”
    — Prepare-se, Cassian Havillfort — Rossander firmou a postura, a pressão de sua mana rachando o chão. — Veremos se você tem o que é necessário para ser rei algum dia.

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