Capítulo 59 - A dor que reconstrói, parte 1
[ 7 de maio de 1922 — em diante ]
Os primeiros dias após a limpeza do Salão de Fogo foram os mais difíceis de quantificar.
Akemi identificou a dor que surgia ao longo das semanas de treino contínuo não apenas como indício de desgaste, mas como prenúncio de reconstrução que inclusive separava quem desistia de quem continuava…
O Major Yura seguia implacável.
Na segunda semana, o instrutor introduziu um novo circuito de força: dois blocos de pedra amarrados por correntes nas costas dos alunos. Enquanto os jovens realizavam os exercícios com suas respectivas capacidades, percebia-se que os pesos foram calibrados individualmente por Yura, e o de Akemi, era sempre um pouco maior do que parecia justo.
A lógica era clara: o instrutor punia aquele que insistia em continuar mesmo aparentemente sendo incapaz. Era uma filosofia cruel, mas que funcionava perfeitamente para o aluno Zero Um.
O que Yura não esperava era o que acontecia com o corpo daquele que desafiava seus pedidos de desistência. A aura elétrica, treinada noite após noite no Salão de Fogo, adaptava-se cada vez mais aos desafios, não importava o quão torturantes fossem: o peso excessivo gerava contração muscular extrema, contração extrema gerava calor, calor ativava o fluxo elétrico, e o fluxo elétrico, presente embora rudimentar, distribuía a carga pelo corpo com uma eficiência que o músculo bruto não tinha.
Nikko percebia aquilo antes que o próprio Akemi soubesse nomear. Nos intervalos entre os exercícios, quando os dois ficavam lado a lado no chão batido regularizando a respiração, ela apontava o que o garoto necessitava de melhora: fosse ombro que cedia cedo demais, os pés que falhavam nas escaladas, ou a tendência de prender o ar quando a carga dobrava.
Como uma verdadeira parceira de treino, Nikko ensinava sem formalidade, como se corrigisse um irmão mais novo prestes ao acerto, mas que ainda não percebia onde errava. Akemi absorvia as dicas com a seriedade de quem sabia que recusá-las seria desperdício…
O placar de Yura mudava toda tarde.
Na segunda semana, Akemi seguia na décima posição. A zona de corte — aquela linha que destacava abaixo os nomes daqueles com os piores rendimentos — já não parecia tão ameaçadora, embora aqueles quatro na qual estavam na zona, pelo número de treinamentos, melhorassem seus limites dia após dia.
O condicionamento áurico acelerado que Miya havia descrito meses atrás estava se tornando observável na carne daqueles que não tinham esperança de evolução física, aliás, “observável” era a palavra menos exagerada possível:
Sob o uniforme colado da ASA, os músculos que levavam semanas para que aparecessem nos braços de Akemi surgiram de maneira discretamente inegável: sem volume, mas com densidade.
Diferente da massa natural conquistada vagarosamente pelos triviais por meio de repetições exaustivas, a fibra que Akemi destruía com cargas exageradas era amplamente restaurada pela aura, transformando aquele corpo frágil e raquítico em um modelo atlético e revestido de resistência áurica a cada treino…
Nas aulas teóricas, onde o Instrutor Masaru propositalmente usou uma manhã para que dissertasse sobre termodinâmica áurica, bioeletricidade e transferência de energia entre sistemas vivos, Akemi passou de participante silencioso à fonte de hipóteses. Masaru tinha o hábito de lançar perguntas abertas à turma no meio de uma explanação, especificamente questões que esperavam silêncio como resposta e seguiam adiante, todavia, Akemi respondia a todas elas com entusiasmo:
A primeira vez foi sobre absorção cinética; a segunda, sobre condução elétrica; a terceira vez, Masaru cancelou o restante da aula e passou os quarenta minutos seguintes extraindo do garoto tudo que havia aplicado empiricamente1 no estágio e nos treinamentos.
Os outros alunos olhavam com reações que ocupavam o espectro completo entre admiração e absoluta desconfiança de que aquilo fosse real…
Naquelas horas vagas entre o término dos treinos formais e o início do período noturno, Akemi havia adotado um hábito que a maioria da turma observava com fascínio, e às vezes, perplexidade:
Havia uma fila de árvores ao leste do Campo de Treinamento 3, castanheiras velhas de tronco grosso que ninguém usava para nada funcional.
Akemi batia nelas.
Logicamente, a única técnica utilizada não era somente com o punho fechado, muito menos com força exacerbada, pois tal repetição quebraria os nós dos dedos em poucos minutos, portanto, os golpes eram revezados de forma leve, apenas encostando: palma aberta, borda da mão, dorso, antebraços, cotovelos, canelas, pés, todos esses métodos eram reproduzidos mantendo as posições marciais aprendidas sob correções dolorosas e diárias de uma jovem mestra que maquiava sua rigorosidade por trás de um rosto bonito.
No início, alguns alunos ignorantes do mundo marcial observavam aquele jovem como um maluco agredindo a natureza, entretanto, quando os impactos contra a casca rugosa se intensificaram após dias de memorização muscular, começaram a despertar a pele de um modo que o tatame jamais conseguiria. Causadas por socos, espalmadas e chutes rápidos e condensados, as microrrupturas sucessivas nos tecidos superficiais, recompostas noite a noite pela aura elétrica nutrida nos tratamentos ígneos de Miya, forjavam aquela particular dureza óssea e muscular que os lutadores antigos nomeavam “mão de ferro” e os instrutores modernos definiam como “condicionamento por impacto”.
Os irmãos Yamamoto inclinaram a cabeça enquanto passavam pelos caminhos de brita, atônitos diante do espetáculo de alguém que se oferecia o próprio ferimento à vegetação. Momentos depois, Nihara deteve o passo por dois segundos: para ele, soava inconcebível que aquele a quem julgara indigno executasse o mesmo ritual que marcara sua própria ascensão como lutador áurico na Família Miyazaki. Restou-lhe apenas uma inveja velada sob a máscara de indiferença.
Já no fim de tarde de outro dia, Nikko simplesmente apareceu um dia com os próprios antebraços enrolados em faixas e começou a bater na árvore ao lado. Quando Akemi olhou para ela, viu-a sorrindo com a inocência de quem invadia um espaço sem que precisasse de um convite…
Quando a noite chegava, o Salão de Fogo, como de costume, recebia os mesmos jovens intitulados como mestra e discípulo.
Praticando ao lado de Akemi, Miya não aliviava os treinos de equilíbrio. A postura do cavalo continuava como fundação, mas o tempo em que era mantido se estendia silenciosamente. A cada sessão, os joelhos cediam menos, e o core encontrava seu ponto de sustentação natural sem que o buscasse com esforço consciente. As trocas de posturas não eram mais uma tortura de dez minutos e se transformaram em exercício de vinte, depois trinta, posteriormente, horas…
Em outras ocasiões, os katas orientados pela música ocorriam diante do portão duplo.
A flauta de bambu escuro que Miya tocava naquelas sessões ainda contava com a mesma qualidade que Akemi havia sentido na primeira vez em que a ouviu, ressoando as melodias que excediam o som e ensinavam o corpo de dentro para fora com chamas direcionais. As notas longas insinuavam para onde se deveria ir, as pausas diziam onde parar, e os trechos rápidos sugeriam onde o gesto precisava de velocidade e firmeza.
Com os olhos fechados e corpo energizado, Akemi seguia os movimentos; a sensação acumulada de que o corpo estava respondendo mais perto da própria intenção do que da alheia sugestão lhe presenteava com o sentimento de liberdade, demonstrando que o intervalo entre o calor da música e a execução do movimento ia se estreitando como dois lados de uma costura sendo puxados e fechados juntos.
Em outra noite estrelada, Miya trocou a flauta para uma menor de material convencional, Akemi percebeu a mudança, mas não a questionou, esperando de pé a retomada dos treinos. Quando a música se iniciou, um calor único e instintivo floresceu; não vinha da flauta, nem da aura ígnea da mestra: vinha da própria eletricidade.
Embora seguisse direcional, tratava-se de uma sensação única, menos densa e invasiva, mas familiar na essência. As faíscas que percorriam Akemi aprenderam a forma das melodias, internalizando o idioma do fogo traduzido à língua da eletricidade, que naquele momento, recitava em sua própria vontade os movimentos que seriam seguidos.
Compreendendo a transformação, Akemi completou o kata sem desvios e reconheceu que a prática seria possível mesmo na ausência da música.
No final da melodia, três notas breves equivalentes a uma ovação foram tocadas antes que o instrumento retornasse ao pano.
Akemi finalizou o kata em uma pose extravagante sobre uma perna; apesar da concentração, era notável uma grande satisfação pelo que foi realizado. Mas o que escapava da sua percepção e também se via encoberto pelos próprios ecos do Salão de Fogo, era a presença constante que surgia ao término de cada treino noturno, sempre transparecida nos recantos sombreados das paredes: Kurogatsuyori Kurosawa, a áurica molecular.
A doutora ficava parada, sem o menor sinal de intervenção apesar da curiosidade disfarçada de catalogação.
Masaru queria um sentinela para sua filha, e Kurori ainda sonhava com a companhia de um homem que a agradasse, então, aquelas vigias discretas aconteceriam em várias outras ocasiões…
Nos dias seguintes, os katas noturnos traziam experiências únicas:
Executando cada gesto ao lado do discípulo, Miya conduzia as formas de cada animal e as fracionava em cadências poderosas, incisivas, explosivas, velozes e suaves.
Akemi acompanhava com a mesma atenção que desenvolvera diante do calor das chamas, alinhando seus movimentos aos da jovem mestra.
O Dragão, a despeito do repertório amplamente complexo de chutes altos golpes de mão variados, revelou-se a forma em que Akemi assimilou-se em maior nitidez desde os primeiros contatos. A lógica de aplicação assemelhava-se ao percurso do garoto pelos desafios de Yura e treinos marciais, experiências em que a resiliência e leitura do momento substituíram qualquer impulso de confronto direto, conduzindo-o às respostas nascidas de um ponto mais profundo comparado ao simples vigor físico.
A Serpente surgiu rápida, esguia, e ajustada ao corpo dos jovens como uma segunda pele.
Sequencialmente, o Tigre em plena compatibilidade com a mestra mostrou-se incerto ao garoto. A ferocidade que a forma exigia, existia em um, e sumia em outro, soterrada sob estágios de treino que levariam tempo até os resultados.
A Pantera era a velocidade em ascensão nas patas simuladas. Para o iniciante, a forma carecia do refinamento da Serpente, mas facilmente ultrapassa a coesão do Tigre.
E a Garça, como de costume, encerrava a sequência com a elegância e fluidez que acalmava o espírito após tantas formas intensas que compunham o Estilo dos Três Mestres…
— CURIOSIDADES DO MUNDO ÁURICO — O ESTILO DOS TRÊS MESTRES E SUA APLICAÇÃO NO COMBATE ÁURICO Entre as artes marciais tradicionais aprimoradas pela integração com técnicas áuricas, o Estilo dos Três Mestres, originário das regiões sul de Meilí, destacava-se como uma das metodologias mais completas do combate elemental. Criado pelo mestre ChanHeung no século XIX, o estilo fundia três escolas distintas de combate, homenageando seus professores ChoyFook e LeiYau, que lhe ofereceram décadas absorvendo seus ensinamentos antes de sintetizá-los em um sistema unificado. O fundamento do estilo residia na observação e imitação de cinco animais: tigre, pantera, serpente, garça e dragão, cujo os comportamentos se alinharam naturalmente aos princípios do combate e inspiraram uma forma dramática de combate. O Tigre representava força bruta e determinação nas garras, acalmando a postura antes dos ataques devastadores. A Pantera representava velocidade e agilidade nas patas, direcionando golpes a pontos frágeis. A Garça simbolizava a estratégia defensiva nas asas, bloqueando, esquivando e contra-atacando com movimentos harmônicos. A Serpente exibia astúcia e fluidez nos botes, transformando a força inimiga em vulnerabilidade. Por fim, o Dragão ensinava a união perfeita entre corpo, mente e aura em golpes esféricos que canalizavam poder. Praticantes do Estilo dos Três Mestres que incorporavam manipulação áurica relatavam transformações profundas em sua eficácia combativa. A teoria predominante entre estudiosos meilianos era que cada animal continha técnicas físicas e estados mentais únicos que otimizavam o fluxo áurico de maneiras distintas, mostrando a genialidade do estilo na transição fluida entre as cinco naturezas durante o confronto: Um lutador experiente poderia iniciar com a paciência da garça, identificar fraquezas com a astúcia da serpente, explorar as aberturas com a velocidade da pantera, agravar as feridas com a ferocidade do tigre, e finalizar o oponente através da sabedoria do dragão… Apesar das virtudes da técnica, após o fim de guerras, os usuários do Estilo dos Três Mestres, que acreditavam nos seus métodos para a pacificação do mundo, sumiram, residindo séculos de conhecimento marcial na mente dos poucos que restavam. A família Miyazaki foi uma das primeiras a reconhecer o valor estratégico daquela arte, mas nenhum de seus integrantes conseguia replicar aquelas técnicas tão complexas… exceto por uma matriarca de origem misteriosa e sua filha. Por meio de bençãos hereditárias, elas executavam as variações híbridas com uma perfeição invejável aos próprios integrantes da família, causando admirações abrangentes, dúvidas insanáveis, e inclusive, intrigas internas que resultariam no destronado de uma, e na desconfiança póstuma da outra.
- feito ou baseado na experiência prática, observação direta ou experimentação[↩]

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