Capítulo 66 - Aquela que vê além
Akemi inclinou a cabeça, o que ele via certamente não era esperado. “De onde ela veio?”
Elegantemente recostada na borda de uma mesa rente à parede, uma mulher, de cabelo preto curto e delineado turquesa nos olhos escuros, estava envolta pela penumbra da sala.
Apenas o brilho alaranjado da lareira ao fundo iluminava parte do vestido tradicional, revelando as sutis estampas de folhagens em meio ao preto profundo da peça que era comprimida por uma faixa estampada com paisagens montanhosas. Um jaleco negro de mangas dobradas combinava com as luvas de latéx escuro.
Toda a vestimenta insinuava excelência em medicina, porém, outros detalhes poderiam contradizer.
Enquanto um batom verde vívido ampliava a beleza venenosa dos lábios, a mão esquerda sustentava um cigarro aceso. No cabelo, fios encurtados à altura do maxilar estavam caídos somente pela esquerda.
Entretanto, o rosto era só a introdução.
O verdadeiro diferencial vinha logo abaixo, onde o queixo erguido de plena confiança revelava o lado direito do pescoço. Ali, exposta e sem qualquer disfarce, uma carpa tatuada representava um salto parado no tempo; suas cores, tons de prata e verde-água entre um fundo preto, entravam em harmonia com o gótico moderno que vestia a mulher.
Mas aquilo não era só estética, era herança, uma marca cravada na carne como juramento de clãs oriundos do país do sol nascente.
“Essa mulher é suspeita. Não é tão alta e nem tão baixa. Mas… aqueles olhos… tem um brilho branco neles?”
As íris escuras dos olhos delineados acrescentavam nas anormalidades: bem no centro de cada uma, um minúsculo ponto branco, ou melhor, pupilas desbotadas e pálidas como se tivessem a vida drenada, encaravam Masaru.
Naquele semblante feminino, podia-se dizer que havia uma sedução perigosa.
— Não sou ao menos digna de um cumprimento, Mestre Masaru? — A voz era charmosa, madura, mas no fundo, maliciosa como uma víbora. Ela sabia exatamente onde cutucar.
“Mestre…? Ele… conhece ela?” perguntou-se Akemi.
Mas Masaru nem virou o rosto. — Não me recordo de ter dado permissão para que uma pessoa marcada pelo delito me chamasse desta forma.
— Huhu… Tão rígido… tão nobre… — O cigarro encontrou os lábios, a familiaridade de um vício antigo ocasionava uma tragada calma e profunda. O alívio durante o escape das breves fumaças espirais rumo ao teto arrepiaram os ombros da misteriosa, animando-a. — Uuuh, que homem de princípios! — exaltou, levantando-se da mesa.
A silhueta feminina se aperfeiçoou nos olhos do rapaz, mas o que deveria ser um sentimento de fascínio, transformou-se em desconfiança. “Essa tatuagem… é um desenho proibido.”
Saltos contra a madeira tilintavam com charme: a mulher se aproximava com o olhar fixado ao instrutor.
— Venho te analisando a tempos. Você é do tipo que se prende ao certo, ao puro, ao imaculado, e claramente não está disposto a variar. Que pena… — Passando por trás daquele que encurtava interações, o caminhar delicado reduzia-se. — Eu já provei todos os sabores do mundo, sabia? Fortes, frágeis, melosos, sujinhos. Cada coração era uma experiência diferente e única. Mas o seu, Sr. Masaru Miyazaki… — Os passos pararam. As pupilas brancas em meio à escuridão observavam as costas do homem, atravessando a carne e tocando a alma. — Este coração de fogo é o único que me faz querer conquistar alguém por completo…
— Você é apenas uma funcionária, não uma colega.
A mulher avançou um passo, mas estar lado a lado daquele de seu interesse não a presenteou com uma troca de olhares. O perfil estoico e impenetrável de Masaru a deixava ainda mais curiosa. — Nossa… sempre tão gelado assim ou é só charme mesmo? — Com um sorriso enviesado, ela apoiou-se levemente no ombro dele. — Mas compreendo, talvez eu não seja tão letal quanto as mulheres da sua família… Maaas… — Um achego tendencioso levou seu rosto a quase tocar o dele — posso te garantir que possuo outras habilidades que também requerem um bom domínio anatômico. Tenho certeza de que elas seriam muito úteis para você…
Amplamente preocupado, Akemi só observava.
Estava claro que Masaru, cercado por elogios melosos e pela presença sufocante daquela mulher que quase o tirava do sério, estava no limite. — Tire suas mãos imundas de mim antes que eu a incinere naquela lareira.
Perto de alguém prestes a perder a paciência, a esperta soube recuar com classe. — Tá bom, tá bom… Mas não pense que vim só pra me divertir… embora você torne isso bem tentador.
— Algo mais? — provocou Masaru, com certeza, ele a jogaria nas chamas se o atentasse mais uma única vez.
— Ei, acalme-se. No fundo, Masaru, você adora minhas habilidades. E pelo seu tom agora pouco, era óbvio que você implorou pela minha presença.
O instrutor suspirou. — … Dizer que você está parcialmente certa é uma lástima — sua mão passou a mão pela gravata, limpando o incômodo — felizmente, não vamos perder tempo com esse caso. Quanto antes acabarmos, mais cedo você volta pro seu canto.
— Huhu, e qual é o problema da vez?
— Este garoto.
Ver um dedo apontado em sua direção fez Akemi logo notar que transformou-se no centro das atenções. A mulher o viu, e com um olhar surpreendido e fascinado, aproximou-se.
— Ah, sim… Você é Akemi Aburaya, certo?
— C-como sabe o meu nome!?
— Huhuu, eu sei de tudo desta academia, garotinho. Principalmente os detalhes de jovens bonitos como você.
Não teve jeito, como um vulcão em erupção, o rapaz corou-se pelo comentário. — A-ah… O que você quer dizer com isso!? O que sabe sobre mim!?
— Não se lembra? Ontem eu cuidei de você.
— Ontem?
— Oh, é mesmo, você esteve inconsciente o tempo todo. Nunca imaginaria que alguém ficaria tão exausto a ponto de desmaiar logo no primeiro dia.
“… É ela…”
— Você é a médica do primeiro setor?
— Praticamente sim.
“Então deve ser ela quem trocou as minhas roupas enquanto eu estava desacordado… Que vexame!”
— P-perdão, mas… Quem é você?
A mulher estendeu a mão livre do cigarro aceso para um cumprimento. — Especialista em Medicina Áurica e chefe de todos os setores de enfermagem da Academia Shihai de Asahi, me chamo Kurogatsuyori Kurosawa, mas pode me chamar por Dra. Kurori.
“Kurosawa?” Mesmo atônito, Akemi respondeu ao aperto de mãos. — Prazer em… conhecê-la — seus olhares se perderam nos pensamentos. “Ela não parece ser uma má pessoa, só tem uma energia extravagante embora seja meramente obscura.”
— Algum problema, garotinho?
— Não! E-eu só nunca tinha visto alguém tão… diferente.
— Hm, está envergonhado por eu te ver despido, é?
“A-ela nem tem vergonha!”
— É… não é nada disso! Você é uma médica, afinal!
— Huhu… não me leve a mal, mas eu sou extremamente acostumada a ver coisas que os outros não veem, até porque, é impossível que meus olhos deixem de captar a todo instante todos os detalhes de corpos alheios.
— … Como assim?
— Sabe, rapazinho, tudo o que você esconde dentro de si, estou vendo neste exato momento. Nada em seu interior escapa de mim. Artérias, veias, vísceras, ossos…
— Quer dizer que você tem uma visão raio-X?
— Basicamente. Apenas acostume-se com o fato de que tudo dentro de você está bem claro em minhas retinas, especialmente, o seu núcleo áurico, que por sinal… — Kurori agachou-se e estendeu a mão para tocar a região bem acima do umbigo do jovem. — Seu núcleo não mudou quase nada desde a última vez em que o analisei… Estranho.
Masaru soltou a voz. — Aburaya é o meu primeiro e único pupilo. Ele foi vítima de um acidente que resultou no despertar de suas habilidades áuricas mesmo após a idade prevista. Resumindo, o que temos diante de nós é um raro áurico elétrico marcado por um evento anômalo que forjou uma aura igualmente incomum, mas que não pode ser utilizada por alguém tão inexperiente.
“Após a idade prevista? Já ouvi casos antes”, pensou Kurori. — Entendido, e com a minha companhia, você espera desvendar o que realmente há no corpo deste garotinho?
— Podemos concluir isso ainda hoje?
— Claro que sim. Mas, para isso, exijo uma única condição.
O silêncio de Masaru foi a aceitação mais expressiva que ele poderia dar.
A moça levantou-se, e olhando de canto, abusou do tom maroto. — Você vai tirar um tempinho pra queimar um cigarro comigo quando tudo acabar.
O homem cruzou os braços. — É uma bela aproveitadora, não?
— Estrategicamente charmosa — corrigiu — pessoas espertas dominam o mundo, sabia?
Um suspiro serviu de assinatura para o contrato imaginário. — Está bem. Farei como deseja.
A resposta surtiu palmas rápidas e delicadas.
— Maravilha! Agora, vamos sair desse ninho abafado. Preciso de um espaço mais digno da minha genialidade. A minha clínica nos espera. — Com um giro gracioso, a doutora caminhou até a parede da direita — e foi direto nela, sem hesitar.
Akemi levantou uma sobrancelha, confuso. — Ei… A porta é por aqui, né? Não deveriamos passar por ela? — Ele apontou com o polegar para trás, duvidando da própria sanidade.
Kurori jogou a cabeça para trás numa risada elegante. — Ha-hahaa! E perder a chance de impressionar vocês? Nem pensar. Cheguem mais perto, vai.
Os dois a seguiram com receio: no caso de Masaru, quase imperceptível; no de Akemi, bem visível.
Kurori colocou a palma aberta na madeira da parede, e então, disse com a naturalidade de quem oferecesse um chá. — Prontinho. Podem atravessar.
Akemi deu um passo pra trás. — Isso é sério?
Masaru não recuou. Ele foi. — Vamos logo.
O garoto observou a parede engolir Masaru até que não sobrasse nada.
Ao lado dele, Kurori inclinou-se novamente: um segredo proibido parecia estar prestes a ser contado. — Vai me dizer que vai desistir justo agora? Não seja tímido… a parede é mais gentil do que muita gente.
“… Realmente, concordar com ela é estranho demais.” Akemi concordou com a cabeça, inspirou, fechou os olhos, e atravessou.
Assim que seus pés tocaram o outro lado, uma sala imensa o recebeu; era fria, limpa, com paredes de aço e luz branca refletida em vidros e metais. Equipamentos médicos ocupavam fileiras inteiras. No centro, uma maca rodeada por aparelhos esperava por uso.
Era um laboratório… de outro século…
Akemi não acreditava. — Isso aqui tava atrás daquela parede fina?
Kurori surgiu logo atrás, e com seu sorriso tendencioso, encostou-se a uma bancada clara. — Bem-vindo à minha realidade, docinho.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.