capitulo 23
O calor era outro tipo de mar. Um que não podia ser navegado, apenas suportado. Vapores densos subiam das rochas negras ao redor, transformando o ar em algo viscoso, pesado. A cada passo, a madeira da Semente do Caos rangia como se estivesse sendo cozida por dentro.
Os Escaldados os guiaram por uma trilha estreita entre colinas fumegantes. As pedras pareciam pulsar sob os pés. Havia poucas palavras — e todas ditas em uma língua gutural, que se dobrava como o estalo de lenha em brasa.
Eles chegaram a um platô circular, onde estacas de pedra marcavam os limites de algo sagrado.
Ali, os estrangeiros foram cercados.
Os Escaldados se aproximaram um por um. Tinham máscaras de couro seco, costuradas com fios minerais, e usavam espelhos curvos pendurados no peito — instrumentos que, Nix logo entendeu, serviam não para ver, mas para os julgar.
O mais velho, o mesmo que os recebera na praia, ergueu uma das mãos deformadas pelo calor.
— Antes de tocarem o Berço, devem tocar a própria essência.
Ele olhou para Nix.
— O caminho exige verdade. E verdade tem cheiro.
Um dos Escaldados — jovem, olhos dourados, máscara rachada — se aproximou de Madoc. Pairou diante dele como fera farejando presa. O silêncio foi absoluto.
— Você já esteve aqui — disse.
Madoc engoliu seco.
— Nunca.
— Mentira — respondeu o Escaldado. Mas não o atacou. Apenas recuou com um som abafado de desgosto.
Vênus franziu o cenho e segurou o braço de Madoc, desconfiada.
O velho girou na direção de todos.
— A travessia pelo Berço exige pagamento. Não de ouro. Não de sangue. Mas de alma.
Ele apontou para os espelhos pendurados no próprio peito.— Cada um de vocês deve entregar uma lembrança feliz. Algo que os defina. Algo que amem. Nós a guardaremos. E, se sobreviverem… devolvemos.
Ninguém se mexeu.
— Se recusarem — completou —, afundam antes de ver o fogo.
Lucius foi o primeiro a dar um passo. Surgira na trilha vindo da praia, os ombros cobertos por sombras que pareciam agarrar-se a ele como musgo enraizado. Seu rosto era uma máscara contida — mas os olhos, opacos como vidro embaçado, traíam a tormenta por dentro.
Um dos Escaldados se aproximou em silêncio. O espelho pendurado no peito tremeluzia, como se soubesse o que viria.
Lucius ergueu o queixo, os olhos fixos em algum ponto invisível à frente.
O Escaldado ergueu o espelho até o peito dele.A luz ao redor pareceu baixar. O vapor silenciou.
Então, a lembrança tomou forma.
No reflexo convexo do espelho, uma mulher com cabelos desgrenhados segurava um menino nos braços. Ela corria por entre árvores — folhas úmidas, cheiro de chuva e medo. Atrás dela, vozes e passos apressados. Lucius, menor e sem cicatrizes, chorava baixinho, apertando um colar quebrado entre os dedos.
Eles chegaram a uma clareira. A mulher parou, os olhos vidrados, e ajoelhou-se. Seus lábios se moveram sem som, como se pedissem desculpas.Um clarão. Um corte seco de som.
E então, apenas o menino, caído de joelhos, olhando para o corpo da mãe entre as raízes, o grito preso no fundo da garganta. Nunca saíra.
No presente, Lucius arfou. As sombras ao seu redor dissiparam por um instante, como se tivessem sugado o que o prendia.
O espelho apagou.
Ele recuou um passo. E por dentro, parecia oco.
Madoc foi o próximo.
Não precisava de ninguém o empurrando. Caminhou como quem entra em um campo de batalha — tenso, pronto para sangrar.
Mas não houve bravura em seu silêncio. Só o cansaço de quem já perdera tudo muitas vezes.
O Escaldado diante dele levou o espelho ao seu peito.
Desta vez, a imagem surgiu como fumaça tingida de dourado.
Madoc, mais jovem, coberto de farrapos, dormia entre dois tonéis de vinho apodrecido. Um rato passava por seus pés sem pressa. O céu chovia em tons escuros, e os ossos do menino pareciam duros demais para a pouca carne que o cobria.
Então, um vulto se aproximou. Silencioso. Longo. De olhos que não refletiam luz alguma.
Madoc acordou, os olhos arregalados, e ergueu uma faca quebrada em gesto inútil.
Mas a sombra apenas estendeu uma mão.
Não falou.
Apenas tocou o peito do menino — e nele, como em brasas, brilhou um símbolo invisível, feito de fumaça e tinta negra.
No mesmo instante, os ratos fugiram. As sombras ao redor se aquietaram. E o menino… sorriu.
Não de alegria. Mas de alívio. Pela primeira vez, não estava sozinho.
O reflexo se apagou.
No presente, Madoc fitava o chão. A mão sobre o peito, onde o toque havia deixado um rastro fantasma.
O dourado do espelho se extinguiu.
Ele pareceu menor. E seus olhos, mais vazios.
Os Escaldados estavam mudos. Observavam cada memória como se queimasse suas próprias retinas.
E choravam.
Mas não com piedade.
Choravam como quem reconhece a dor — como quem a carrega também.
Matthew hesitou. Seu corpo alto e firme parecia descompassado com o jeito que seus dedos tremiam. Ele deu um passo adiante, relutante, como se cada pegada pesasse mais que a anterior.
O Escaldado o observou com olhos sem julgamento — mas não sem dor. Levantou o espelho.
Matthew fechou os olhos. O vidro brilhou em cinza-prateado, como lâmina recém-afiada.
E então, a lembrança se desenrolou.
Chovia do lado de dentro. A casa era pequena, mal iluminada, com o teto vazando em várias direções. Um menino — cabelos molhados, as costas cheias de hematomas — arrastava-se por entre móveis tombados. O som de vidro quebrando ainda ecoava. Um homem gritava no cômodo ao lado, bêbado, com os punhos vermelhos de sangue.Matthew segurava uma faca de cozinha com as duas mãos. Seus braços tremiam. O chão tremia. Tudo tremia.
O grito veio antes do corte.
Um único golpe. O silêncio que seguiu foi absoluto.
O menino caiu de joelhos, suando, ofegante. Mas… sorria. Tinha os olhos inchados, a boca cortada — e mesmo assim sorria. Pela primeira vez, não havia medo.
No reflexo, ele respirava como se pudesse, enfim, ser dono do próprio corpo.
O espelho escureceu. No presente, Matthew não se moveu por longos segundos. E quando se afastou, parecia mais velho. Como se aquela lembrança o sustentasse — e agora, sem ela, estivesse à beira de ruir.
Vênus não olhava para os Escaldados. Seus olhos estavam fixos na bandana em suas mãos — um pano encardido e gasto pelo tempo, sempre presente em seu pescoço. Quando a retirou, seus ombros pareceram mais vulneráveis.
Caminhou até o espelho como quem se aproxima de um altar.
O Escaldado estendeu o braço com uma solenidade silenciosa.
A luz surgiu em verde musgo, profunda e terrosa, como raízes antigas.
A memória floresceu devagar.
Um ninho no meio da floresta. Musgo crescendo nas pedras, folhas caídas formando um tapete fofo sob um céu entreaberto por galhos altos. Um filhote de dragão-de-komodo, pequena demais para ser assustadora, arrastava uma sacola de couro. Seus olhos, vívidos e confiantes, giravam à procura de algo — ou alguém.
Ela soltava sons curtos, quase gargalhadas. Estava brincando.Mas ninguém respondia.
O dia virou tarde. A tarde virou noite.E a clareira ficou fria.O filhote chorou por horas, até a garganta falhar. Depois só esperou. Os olhos se fixaram no céu estrelado, como se buscassem um sinal.
Ninguém voltou.Quando o reflexo se desfez, Vênus já tinha os olhos fechados, os punhos cerrados ao lado do corpo.
A lembrança foi arrancada com delicadeza — mas mesmo assim doeu.Nix foi a última.
Ela não se moveu de imediato. Estava de pé, ligeiramente atrás dos outros, com os olhos semicerrados e a boca firme — uma estátua de carne e caos.
Por dentro, o mundo girava.
A árvore no coração do navio ainda pulsava em sua mente. Suas raízes dançavam em seus sonhos, e os galhos pareciam enroscar na espinha quando ela dormia. Era como se o Semente a tivesse tragado por inteiro… e ela não tivesse lutado.
Um Escaldado se aproximou, espelho em mãos. Havia respeito em seu gesto. Talvez até medo.
Nix tirou as luvas. A pele de seus dedos estava fria. Por fora, o calor do vulcão a fazia suar. Por dentro, era inverno.
Ela encostou as mãos no espelho. Ele tremeu.
A luz que se acendeu foi um roxo profundo, como um céu antes da tempestade.
E então a lembrança explodiu.
Duas meninas de mãos dadas, escondidas atrás de tapeçarias do templo, tentando não rir alto. A menor, de cabelos bagunçados e olhos dourados, fazia caretas para as sombras. A outra, com um brilho suave em torno do corpo, desenhava estrelas no chão com a ponta dos dedos.
— Nada pode nos separar —dissera a menor.
— Nunca — a outra jurara, tocando sua testa.
E naquela inocência, algo foi selado. Algo que o mundo, os deuses e o tempo tentariam destruir.
Mas por um instante… havia amor.
Certeza.
Fé.
E Nix o perdera.
Quando a memória se foi, um som escapou de sua garganta — um soluço seco, rápido, contido como ela.
Ela não chorou. Não tremia. Mas algo dentro dela havia cedido. Um vazio novo, tão específico, que se encaixava como ausência moldada.
O espelho apagou.
Aquele que o segurava caiu de joelhos.Os Escaldados recolheram os espelhos com mãos que tremiam. Nenhuma palavra foi dita — apenas lágrimas escorrendo pelas faces pintadas. Não pela violência ou solidão que viram, mas pela beleza trágica de cada sobrevivência.
Eles se afastaram lentamente, como monges após um ritual sagrado.
O velho se virou, o rosto enrugado como rocha antiga. A brisa quente do vulcão soprava entre eles, levantando poeira de enxofre e promessas velhas.
Ergueu novamente a voz. Ela soou como rocha se partindo:
— O Berço aceita. Vocês sangraram o suficiente.
Houve uma pausa. Seus olhos — brancos e cegos — pareciam ver mais do que os outros. E quando falou de novo, sua pergunta ficou suspensa no ar, como fumaça.
— Agora que não sabem de onde são… saberão pra onde vão?

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