📌 Aviso importante sobre Um Toque de Caos 📌
Oi, leitores do caos. ✨
Preciso dividir algo com vocês com muita honestidade e carinho: Um Toque de Caos vai entrar em hiato por um mês.
Esse não foi um anúncio fácil de fazer, mas é necessário.
Nos últimos tempos, minha vida pessoal e acadêmica mudou bastante. Voltei ao cursinho para lutar por um sonho antigo — passar em Letras na USP — e, ao mesmo tempo, continuo cuidando da casa e dos meus irmãos, incluindo o mais novo, que é surdo e faz fono toda semana. Também tenho conciliado essas responsabilidades com a escrita, e, para ser sincera, o corpo e a mente começaram a pedir uma pausa.
Durante esse hiato, não estarei parada. Vou aproveitar para reescrever com mais calma os capítulos que foram feitos às pressas, reconstruir cenas com mais profundidade, revisar diálogos e deixar a narrativa à altura do mundo que quero entregar pra vocês.
💭 A pausa é temporária, mas o cuidado com essa história é eterno.
Obrigada a cada pessoa que tem lido, comentado, sonhado junto. Vocês são parte fundamental desse projeto. Prometo que Nix, Lucius, Cheshire e todo o coração do navio voltarão com ainda mais força.
Até já.
Com carinho,
Eloisa S.R.
Por quem sonha entre o caos.
CAPÍTULO 24 — O VALE DAS CINZAS
O calor não vinha apenas do solo — ele se infiltrava pelas roupas, subia pelos ossos, repousava sob as pálpebras. A aldeia dos Escaldados parecia esculpida da própria terra, erguida entre colinas fumegantes e rochas vivas que exalavam vapor. As casas, se é que podiam ser chamadas assim, eram cavadas em placas de basalto e cobertas por teias de vidro vulcânico, refletindo o céu rubro do entardecer como olhos imóveis.
A entrada foi silenciosa. Não havia crianças correndo, nem idosos nas portas. Tudo parecia suspenso no tempo, como se a aldeia apenas esperasse — parada, atenta, alerta. O único som vinha do borbulhar dos gêiseres ao redor, respirando como feras subterrâneas.
Nix caminhava na frente, os olhos fixos nas chamas distantes que ardiam em pequenos altares de pedra. Cada altar era cercado por espelhos quebrados e pedras coloridas, dispostas em espiral. Ao se aproximarem, notou que os fragmentos refletiam apenas o céu — nunca os rostos.
— É como se evitassem se ver — sussurrou Vênus, também observando.
Elena tocou um dos espelhos com cuidado. Ele tremeu sob seus dedos, mas não refletiu nada além do fogo.
— Talvez eles acreditem que a alma pode escapar por um reflexo — disse ela.
— Ou que já escapou — murmurou Matthew, olhando para os pés. O solo sob ele era quente, mas estranhamente firme, como se pisassem sobre um corpo adormecido.
Foram guiados por dois Escaldados armados até uma praça circular. No centro, uma piscina natural de águas verdes fervilhava suavemente, envolta por pilares negros de obsidiana. Ali, o ancião os esperava, acompanhado de outros sete. Todos usavam máscaras esculpidas — nenhuma igual à outra — e cordões com pequenas lâminas penduradas no pescoço.
— Este é o Vale das Cinzas — disse ele. — Aqui, os nomes antigos morrem. Aqui, as promessas são forjadas.
Ninguém falou. A aldeia ficava numa falha ativa, cercada por crateras e escarpas, onde a terra chorava fogo e a chuva evaporava antes de tocar o chão.
O velho apontou para a piscina.
— A água do ventre. Aqueles que a atravessam, renascem. Mas é preciso estar vazio.
Lucius desviou o olhar. Madoc recuou meio passo. Vênus apenas cruzou os braços, contendo o tremor nas mãos.
— Vocês já deixaram o que eram — continuou o ancião. — Agora podem ver onde os esquecidos repousam.
A Semente do Caos, ancorada à distância, parecia inquieta. Suas velas rangiam mesmo sem vento. Um som baixo ecoava de seu coração vivo — como se sentisse que algo sombrio se aproximava.
Nix olhou para o horizonte, onde o vulcão crescia como uma divindade de pedra e fumaça.
— Quanto tempo temos antes que ele acorde?
O ancião ergueu as mãos — dedos finos, queimados, manchados de terra.
— Já acordou. Mas ainda não está com fome.
A resposta não trouxe alívio, apenas urgência. Vênus apertou os punhos. Matthew encarou a água, talvez imaginando se ela poderia ferver mais do que seu passado.
— Vocês poderão descansar esta noite. Amanhã, verão o Caminho dos Ossos. Só ele leva ao Berço.
— E o que encontramos lá? — perguntou Elena, a voz firme.
O velho olhou para ela por trás da máscara. E sorriu.
— Aquilo que resta quando não há mais o que queimar.
A noite caiu como um lençol velho, abafando o céu. As estrelas estavam turvas, engolidas pela fumaça vulcânica, e o ar cheirava a enxofre e mineral molhado. A aldeia dos Escaldados ganhava um tom quase fantasmagórico sob a luz âmbar das pedras incandescentes cravadas nas paredes.
Madoc sentara-se num degrau de basalto, afastado dos outros, com as mãos nos bolsos do casaco. O cabelo ainda molhado do suor grudava na testa. Não falava. Só observava a sombra do próprio corpo se mover com o brilho do fogo.
Matthew se aproximou, devagar. Trazia um cantil e duas folhas largas de algo parecido com chá.
— Aqui — disse, estendendo uma das folhas a ele.
Madoc aceitou sem olhar. Ficaram um tempo em silêncio, mastigando devagar o gosto amargo da planta. Era calmante, disseram os Escaldados.
— Você lembra de como era antes? — perguntou Matthew, sem encará-lo. — Antes das Sombras.
Madoc pensou. Os olhos fixos nas pedras sob seus pés.
— Eu me lembro do frio. E do silêncio. — Engoliu seco. — E agora… não me lembro mais da mão que me puxou de lá.
Matthew assentiu. Não precisava dizer nada. Também perdera algo. Algo que talvez nunca devesse ter deixado. Mas, ao mesmo tempo, algo que pesava mais do que podia carregar.
Do outro lado da praça, perto de um altar baixo enfeitado com dentes de vidro e ramos secos, Echo acendia uma pequena lamparina com óleo fervente. Seus olhos dançavam à luz, mas estavam mais opacos que o normal. Ele soprava algo num tubo de bambu — a mesma kriya que dera a Nix. O som era fino, irregular, como se a alma do instrumento estivesse ferida.
Ninguém o interrompeu. Deitou-se sobre o chão quente parando a melodia, os braços cruzados atrás da cabeça. Observava o céu escuro, mesmo sem estrelas.
— Essa aldeia fede — murmurou. — Mas é honesta.
Madoc olhou para ele, uma sobrancelha erguida.
— Honesta?
— Sim. Aqui todo mundo sabe o que deixou pra trás. Não tentam fingir que ainda são inteiros.
Matthew fechou os olhos por um momento. As palavras se alojaram fundo.
— E a gente é?
Echo riu, sem humor.
— Nem de longe. Mas estamos vivos. E isso já é mais do que alguns conseguem dizer.
Silêncio outra vez. O tipo que não doía — apenas preenchia. E, juntos, os três homens ficaram ali, sentindo o chão respirar sob eles.
O dia amanheceu sem cor.
Nem céu, nem sol — apenas uma luz branca, difusa, como se o mundo estivesse dentro de uma garrafa de leite fervido.
Os Escaldados estavam prontos antes mesmo que a primeira brisa quente soprasse das crateras. Marchavam em silêncio, os pés descalços habituados ao solo cortante. Usavam mantos de fibra escura e óleos protetores na pele. Seus olhos, pintados com minerais e sombras, refletiam o caminho adiante.
A tripulação e os Jïa vieram atrás. Havia pouco espaço para conversa — só o som das botas sobre o cascalho quente e o estalar das bolsas de vapor sob a terra.
Nix liderava o grupo com o cenho franzido. Ao seu lado, Vênus carregava uma lança dos Escaldados, usava para se apoiar nas subidas ingrimes. Elena mantinha-se perto dos Jïa, o rosto iluminado por uma curiosidade contida — e uma sombra de nervosismo.
O Caminho dos Ossos começava com um arco de pedra, partido ao meio. Pendurados em cordas grossas, havia crânios marcados com inscrições. Humanos, animais, criaturas que pareciam nunca terem vivido fora daquele lugar. Cada um parecia olhar para quem passava com olhos vazios demais.
— Isso é só a entrada? — sussurrou Madoc, mas ninguém respondeu.
O primeiro desafio veio rápido.
Um campo de pedras negras, irregulares como crânios empilhados, estendia-se à frente. O calor que emanava da terra fazia o ar tremeluzir, criando miragens inquietantes que dançavam no horizonte. Era como atravessar o próprio fôlego de um vulcão — úmido, pesado, prestes a explodir.
O solo era um mosaico de morte: ossos fossilizados emergiam entre as fendas, alguns ainda com traços de carne petrificada. O cheiro era de enxofre antigo e algo doce, apodrecido. Para cruzar aquele inferno, era preciso seguir um padrão quase invisível — símbolos desenhados com cinza branca e pó vulcânico, como marcas deixadas por deuses esquecidos. Seriam letras? Oráculos? Ninguém soube dizer.
Os Escaldados foram à frente, os pés descalços movendo-se com precisão quase ritual. Eles caminhavam em fila, dançando por entre as pedras, respeitando cada curva, cada pausa. Era uma coreografia ancestral, um compasso sagrado. Não se falava. Cada passo era uma promessa de silêncio e dor.
Quem errasse… o chão reagia.
Um Jïa mais jovem, cansado demais ou distraído pelo próprio medo, pisou fora da linha. O som que veio a seguir foi um assobio rouco, como uma serpente gigante despertando. Vapor branco irrompeu sob seus pés, envolvendo suas pernas em uma névoa fervente. Ele caiu de joelhos com um gemido abafado, a pele se queimando aos poucos — mas não gritou. Não chorou. Não pediu ajuda.
Porque ninguém podia ajudar. A travessia era solitária, mesmo em grupo. A dor, intransferível.
Matthew cerrou os punhos. Seus olhos passaram pelas marcas à frente, como se as lesse em silêncio. Inspirou profundamente, e então seguiu. Cada símbolo sob seus pés parecia uma nota musical, vibrando em suas costelas. Ele moveu-se com um tipo de reverência feroz — não a de um crente, mas de alguém que sobreviveu ao inferno e sabia reconhecê-lo quando o via.
Vênus foi logo atrás, com os pés leves, mas o coração apertado. As marcas pareciam brilhar um pouco sob sua passagem, como se reagissem ao vínculo que ela carregava com a natureza e com o tempo. Elena, por sua vez, andava com os olhos fechados, como se guiada por algo mais antigo que os Escaldados. Os símbolos sussurravam para ela. E ela os ouvia.
Echo passou com passos mecânicos, protegendo o próprio corpo como quem teme se despedaçar a qualquer momento. Havia sombras em seus olhos, mas também uma vontade endurecida. Madoc cambaleou, suando profusamente. Cada pisada era uma oração muda — e uma lembrança do que havia deixado para trás.
Nix veio por último.
Ela se abaixou uma vez antes de entrar. Tocou a terra. Estava viva. Palpitava como o coração do mundo.
Caminhou.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Mas ela não hesitou. O vento sussurrava antigas promessas, e a Semente do Caos pulsava dentro de si, como se a própria embarcação a acompanhasse, invisível, sobre as cinzas.
Ao final da travessia, todos estavam exaustos — não pelo esforço físico, mas pela tensão, pela dor que viram e não puderam evitar. O caminho não cobrava pressa. Ele exigia presença.
E quando cruzaram o último símbolo, um vento frio soprou entre os ossos do campo — como se o vulcão os tivesse aprovado. Ou poupado. Por ora.
Depois das pedras, vieram os ventos.
Um corredor natural se abria adiante, esculpido por eras de erupções e desastres. As paredes de rocha vulcânica fechavam-se como as mandíbulas de um predador adormecido. O calor ali não era apenas sufocante — era denso. O ar parecia ter peso. Soprava em redemoinhos secos, cinzentos, trazendo consigo cinza fina como poeira de ossos e um odor agridoce de lava antiga e promessas quebradas.
A cada passo, o som dos pés era abafado pelo zumbido crescente que vibrava entre as paredes. Primeiro, o vento sibilava como uma canção sem letra. Depois, vieram as vozes.
Elas nasciam do próprio vento, mas soavam próximas demais. Íntimas demais.
— Echo…
O nome foi sussurrado com a entonação exata que sua mãe usava antes de colocá-lo para dormir, muitos anos antes da queda. Echo tropeçou, os olhos arregalados. O som que ouvira não deveria existir naquele lugar, naquele tempo. Era impossível. E ainda assim… ali estava.
— Eu… ouvi errado — tentou dizer, mas nem ele acreditava nisso.
Logo depois, outra voz se ergueu, doce como o veneno de uma memória: a de um irmão que ele perdera antes mesmo de conhecer direito. Sussurrava segredos de infância que ninguém vivo deveria guardar. Echo cambaleou como se tivesse sido empurrado. Só continuou por pura teimosia — e porque Elena segurou seu cotovelo com dedos firmes e olhos marejados.
Ela também ouvia. Mas não falava.
As lágrimas corriam em silêncio por seu rosto. Vinham ao som de uma canção que o pai dela cantarolava quando costurava redes nas noites de lua cheia. Uma música que ela jurara ter esquecido, mas que agora a envolvia como uma mortalha feita de vento e lamento.
Vênus fechou os olhos ao entrar. As vozes a tocaram também — risadas de crianças com as quais caçava nos bosques, o timbre grave de Andréa lendo em voz alta, o estalo seco do momento em que ficou sozinha.
Mas Vênus seguiu com os olhos cerrados, confiando nos pés, na vibração da terra, no instinto que a guiava desde sempre. O chão ainda pulsava sob ela, como se o próprio mundo quisesse ajudá-la a passar.
Matthew manteve-se de olhos baixos. Quando escutou a voz do pai, não parou. Quando escutou a própria — criança, chorando por socorro — apenas apertou o punho até as unhas abrirem a pele da palma. Ele aprendera cedo que certas dores são labirintos sem saída. E sabia que se ouvisse demais, se acreditasse demais, não sairia dali inteiro.
Madoc ria.
Baixo, quase um ronco desesperado. Como se aquilo tudo — a voz de Érebo sussurrando segredos, os sons de ruas que ele conhecia demais — fosse uma piada de mau gosto. Mas ele ria, e ria, até que seu corpo inteiro tremesse. Só parou quando passou a não ouvir mais nada. O vento finalmente o ignorava. Talvez por pena.
E então veio Nix.
Ela entrou no corredor com os ombros rígidos, a mandíbula travada. O calor apertava contra a pele como mãos sujas, e cada rajada de vento vinha cheia de pequenos grãos de cinza, cortando como agulhas invisíveis. Mas não era isso que a machucava.
— Nix…
O sussurro chegou suave, familiar, carregado de um carinho terrível.
— Irmãzinha, volta. Você não precisa fazer isso.
Fallon.
A voz não tremia. Não implorava. Só dizia.
— Desiste, Nix. Por favor. Só dessa vez.
Ela parou.
O coração disparava dentro do peito. As pernas doíam — mas era um peso mais antigo do que a travessia. Era a culpa, a dúvida, o eco de uma promessa quebrada. Por um segundo, por um segundo apenas, a capitã do caos duvidou.
E então a brisa trouxe consigo um som distante: o estalo de cordas no mastro do navio, o sussurro vivo da Semente.
Nix respirou.
Ela ergueu os olhos. O céu lá em cima não existia — só rochas fechadas e vento. Mas ela enxergou além. Porque a Bruma não a tomara. Nem as sombras. E tampouco as vozes.
Ela deu o próximo passo.
E os ventos cessaram.
O corredor abriu-se num platô de lava fria e sombras trêmulas, onde todos puderam, enfim, parar.
Mas não falaram. Ainda não.
Havia silêncios que não deviam ser quebrados.
A passagem final era o coração do Caminho dos Ossos.
Um vale silencioso, coberto de cinzas tão brancas que cegavam sob a luz tímida do céu vulcânico. O chão afundava sutilmente a cada passo, como se caminhassem sobre a pele frágil de um gigante adormecido. A poeira agarrava-se aos tornozelos, entrava pelos sapatos, subia pelo ar como névoa de velório.
O calor não vinha mais de cima — agora surgia das fendas abertas que cortavam o solo em linhas irregulares. Dali se erguia um vapor espesso, misturado a um som abafado e úmido, como um suspiro de algo enterrado e vivo.
E havia ossos.
Não jogados, mas organizados — em pontes, colunas, caminhos improvisados. Ossadas antigas, de guerreiros e errantes, de caídos que ousaram atravessar e falharam. Alguns esqueletos ainda estavam vestidos: um capacete corroído, uma capa desfiada pelo tempo, uma bota meio enterrada na cinza. Os crânios espreitavam como sentinelas, os olhos vazios voltados para o céu. Os mortos observavam.
Foi então que os Escaldados começaram a cantar.
Não havia palavras. O som era um lamento grave, profundo, que vibrava como o tambor de um coração ancestral. Uma canção feita para os que jamais voltaram. Uma despedida eterna, dada antes mesmo da partida.
Os Jïa acompanharam.
As vozes, diferentes entre si, encontraram uma harmonia instintiva, selvagem, quase divina. Uma prece sem religião. Uma mistura de luto, promessa e reverência. Era como se os vivos pedissem permissão aos mortos para atravessar — e, ao mesmo tempo, prometessem honrá-los caso também caíssem ali.
O velho Escaldado — o ancião de olhos brancos — ergueu a mão e falou com a solenidade de um deus menor:
— Deixem algo para trás. Algo que pese. Algo que prenda.
Suas palavras se perderam no canto, mas cada um compreendeu. O gesto não era superstição, era ritual. Uma âncora para a alma, para que pudessem voltar, caso o caminho permitisse. Mas se morressem ali, o objeto deixado tornaria-se uma oferenda ao sol. Um sinal de que viveram e tentaram.
Um por um, os membros do grupo obedeceram.
Zander tirou um anel de bronze esverdeado, simples, gasto — mas antigo. O fincou na terra com a ponta do polegar.
Elena desprendeu de seu colar uma lasca de âmbar, presa ali desde a infância. Tocou-a nos lábios antes de enterrá-la.
Vênus arrancou um fio de cabelo, envolveu-o com uma folha seca que tirou da bolsa e depositou ao lado de uma costela esquecida.
Madoc, em silêncio, tirou um nome da boca. Literalmente. Cuspiu algo invisível sobre as cinzas e sussurrou tão baixo que nem o vento escutou.
Nix tirou do cinto um projétil de prata, um que havia guardado desde sua primeira batalha. Enterrou-o sem cerimônia, mas seu olhar demorou-se ali por longos segundos.
Matthew, sem que ninguém visse, ajoelhou-se ao lado de uma rachadura e enterrou uma adaga curva das Sombras de Érebo. Era pequena, cerimonial, feita para cortar pactos. Quando a soltou, respirou como quem finalmente larga um pecado.
Echo caminhou devagar. No centro do vale, parou diante de uma espinha fossilizada que ligava dois pilares. Com mãos firmes, retirou sua kriya — o bastão ritual de seu povo — e a quebrou em duas metades. Encaixou-as entre duas vértebras como se devolvesse algo ao mundo.
Por fim, o próprio velho Escaldado aproximou-se de uma abertura no chão. De sua túnica, tirou uma pedra vermelha, brilhante, do tamanho de um olho. Tocou-a na testa antes de deixá-la cair nas sombras.
— Agora — disse, virando-se — o Berço os observa.
E então, sem olhar para trás, ele começou a descer o último trecho da trilha.
A lava ressoava embaixo, como o som de tambores distantes.
O inferno estava logo à frente.
O velho Escaldado parou e ergueu o bastão feito de osso de baleia. A ponta tocou a rocha incandescente com um estalo seco.
— O Caminho exige o que não pode ser recuperado — disse, com a voz embargada pela fuligem. — Agora, a entrada para o Berço está próxima.
À frente, o céu se desfazia.
Não era apenas o calor ou a pressão atmosférica — as nuvens rasgavam-se como carne, abertas por uma força que não pertencia ao mundo dos vivos. A luz que surgia dali não era solar: era vermelha, viva, ondulante. Um brilho que pulsava com o ritmo de algo que respirava abaixo da terra.
O som da lava correndo ressoava por todos os lados, como sangue se movendo com raiva pelas veias abertas de um deus enterrado.
O vulcão esperava.
Mas o primeiro passo não foi dado. Foi arrancado.
Era como se a terra exigisse, como se puxasse — como se dissesse: agora ou jamais.
O medo se infiltrava nos músculos. Tornava os dedos lentos, os olhos alertas demais, o ar pesado demais para respirar com calma. Ninguém se olhou. Ninguém falou. Não havia mais espaço para palavras.
Quando cruzaram a última garganta de rocha — ladeada por chamas líquidas e colunas de basalto que exalavam fumaça como narinas de uma criatura adormecida — o mundo pareceu segurar a respiração. Era um corredor estreito, sagrado e profano. E cada passo ecoava como um tambor de guerra em câmara fechada.
Ali dentro, o ar não era ar.
Era poeira de ossos.
Era vapor de tempos antigos.
Era murmúrio fossilizado de quem nunca voltou.
E calor.
Um calor vivo, pulsante, que arranhava a pele como unhas de fogo. Penetrava os poros, dissolvia a saliva, apagava os pensamentos. Era o tipo de calor que te fazia esquecer seu nome. Que transformava a pele em argila prestes a trincar.
Echo tropeçou — não por fraqueza, mas por reverência.
Zander manteve os olhos fixos à frente, com a mandíbula tensa como pedra.
Vênus tocava o peito com a palma da mão, como se marcasse o próprio ritmo cardíaco para não perder o compasso.
Madoc andava em silêncio, mas as cicatrizes antigas de seu corpo brilhavam sob o suor como marcas vivas.
Nix tinha as mãos firmes no cinturão de armas, os olhos varrendo cada sombra com precisão cirúrgica. Era o tipo de silêncio que ela conhecia bem: o silêncio antes de um disparo. Ou antes de uma morte.
E então ouviram.
Não o som da lava.
Mas o som de aço raspando contra aço.
Som de marchas.
De fé.
De julgamento.
Os Cavaleiros da Lua surgiram como miragens invertidas, recortando-se contra a fumaça e a luz vermelha como estátuas em movimento. Vestiam armaduras prateadas, adornadas com símbolos lunares e véus de linho branco que dançavam no calor como chamas de papel. Seus olhos brilhavam com fé cega — fé feita de pedra e gelo.
No centro, um deles erguia o cálice.
Sim, aquele que vieram destruir.
A relíquia reluzia, intacta, viva. Como se tivesse resistido a tudo. Ou como se tivesse sido feita para aquilo.
O som cessou.
O vulcão escutava.
E o Berço dos Dragões se fechava atrás deles.
Nix foi a primeira a entrar. Os pés afundaram levemente em um solo negro e esfarelado, cheio de cascas de vidro vulcânico e fragmentos de ossos antigos, brancos como marfim. Ela não disse nada. Não havia palavras naquele lugar. A garganta queimava mesmo sem falar.
Atrás dela, os outros avançaram em silêncio: Madoc com os olhos semicerrados, como se pudesse farejar armadilhas no ar; Matthew com os dedos tensos ao redor do punho de sua adaga; Elena caminhando como se dançasse em um funeral — leve, mas com reverência; Vênus com o corpo em alerta, a lança pronta. Os Jïa vieram logo depois, guiados pelos Escaldados, que seguiam à frente com seus corpos cobertos por tinta e suor, como sacerdotes de um culto antigo.
O caminho se estreitava.
Em cada lateral da trilha, desfilavam esculturas derretidas de seres que pareciam meio humanos, meio criaturas. Algumas pareciam gritar, os rostos petrificados em agonia. Outras se ajoelhavam com olhos vazados, em oferenda. Ninguém sabia se eram reais ou feitas por mãos humanas. Nenhum dos Escaldados ousou explicar.
Ninguém respondeu.
Logo adiante, o caminho se abriu numa cratera colossal. No centro, um lago de lava borbulhava, iluminando tudo em tons de âmbar e escarlate. O ar vibrava com uma melodia grave, quase inaudível, como o som de um tambor ancestral ecoando desde o centro do mundo.
Ali, no coração do Berço, havia um altar.
Feito de ossos, escamas negras e pedras fundidas, ele se erguia como uma cicatriz no centro do vulcão. Os Escaldados pararam ali. O velho de olhos brancos, agora descalço, aproximou-se do altar. Quando falou, sua voz parecia sair de todas as bocas mortas ao redor.
— Aqui é onde se nasce. Ou se morre.
Ele estendeu a mão para Nix.
— Sua presença despertou o Berço. Ele lembra de você. Lembra da semente.
O coração dela bateu mais forte.
A árvore no centro da Semente do Caos havia pulsado pouco antes da travessia. Ela sabia. O espírito dentro do navio estava ligado a esse lugar. A esse altar.
— O que você quer de nós? — perguntou ela, a voz rouca, queimada pelo ar.
— O Berço não quer. Ele oferece. A escolha é sua.
O altar começou a brilhar por dentro, como se houvesse um núcleo vivo escondido nas profundezas. Fissuras de luz se abriram em suas laterais. Então… ele falou.
Não com palavras, mas com imagens, sensações, memórias que não pertenciam a ninguém, mas se infiltravam como veneno sutil. Cada um dos presentes viu algo diferente — um reflexo do que mais desejava ou temia.
Matthew viu seu pai de pé, sorrindo. O rosto que nunca conheceu. Uma mentira perfeita.
Elena viu sua mãe, e depois, nada. Apenas o som de uma música esquecida.
Vênus… viu Andréa.
Nix viu a si mesma. Mas não como era. Viu-se criança, antes de tudo, antes da dor, antes dos deuses. E ao seu lado, a árvore viva no coração do navio florescendo como se estivesse em primavera.
— Isso é um teste — murmurou Elena, os olhos marejados. — Não é real. Ele quer ver se voltamos atrás.
— Ou se somos dignos de continuar — completou Vênus.
O velho Escaldado ergueu um bastão de pedra e o cravou no chão. O altar estremeceu.
— A chama está acesa. A porta abriu. O que for preciso, será pedido agora.
Um estrondo ecoou do fundo do Berço. Uma rachadura surgiu na parede da cratera, e um novo caminho apareceu: escadas fundidas em rocha viva, descendo para as entranhas da terra. Um cheiro de enxofre e tempo invadiu o ar.
— Vocês podem parar aqui — disse o velho. — Ou continuar e pagar o preço final.
Nix olhou para os outros.
O fogo refletia nos rostos da tripulação e da tribo Jïa, criando sombras longas, distorcidas, como se o passado ainda tentasse segurá-los pelos tornozelos. Mas ninguém recuou.
— Vamos — disse Nix, enfim.
E então, um a um, começaram a descer.
O caminho descia em espiral, esculpido na própria rocha há séculos, talvez milênios. Cada passo rangia sob os pés, não pela madeira — ali, não havia nada de orgânico —, mas por causa do calor, do peso, da sensação opressiva que brotava das entranhas do vulcão como uma respiração antiga. A cada curva, os sons da superfície ficavam mais distantes, até que só restava o escorrer do suor, o tilintar de equipamentos e a pulsação ritmada da própria terra.
A luz diminuía, engolida por paredes íngremes cobertas de cristais negros e vermelhos, que absorviam qualquer claridade e a devolviam em reflexos quebradiços, como olhos espreitando. A umidade grudava nos ossos. O ar parecia feito de ferrugem quente. E ainda assim, havia beleza.
O Berço dos Dragões se revelou aos poucos.
Primeiro, uma brisa inesperada — morna, mas viva. Depois, o som de água fervendo em piscinas naturais, borbulhantes, dispostas como oferendas ao redor de um lago de pedra líquida. No centro, uma ilha negra, coberta por estátuas sem rosto, todas voltadas para o céu fechado do interior do vulcão. Havia ossos nas bordas do lago. Ossos de criaturas que jamais tocaram o mar.
— Estamos dentro de uma ferida do mundo — murmurou Vênus, a voz baixa, como se temesse acordar alguma coisa.
Os Escaldados se dispersaram ao redor, depositando pequenas pedras coloridas sobre os crânios espalhados — um rito silencioso de passagem. Panacéia fechou os olhos, sussurrando algo em uma língua ancestral que até Elena não compreendia. O som reverberava nas paredes de forma irregular. Como um eco… ou um aviso.
Foi então que a temperatura caiu.
De súbito, como se o vulcão tivesse perdido o fôlego. O vapor cessou, os gêiseres pararam de espirrar, e uma quietude absurda caiu sobre todos. O lago, antes em ebulição, estava estático. Nenhum reflexo. Nenhuma chama.
— Isso não é natural — disse Madoc, com a mão no cabo da espada. Os olhos varriam as sombras entre as estátuas.
Nix deu um passo à frente. O chão sob seus pés estalou.
Do teto da caverna, algo se soltou.
Não houve grito.
Apenas o som de uma armadura batendo contra a rocha e o brilho prateado de uma lança curva rasgando o ar — direto na direção de Matthew, que se esquivou por instinto. Outro vulto caiu, então outro. Formas altas, vestidas com placas de metal negro decoradas com símbolos lunares: luas crescentes, luas cheias, luas partidas.
Cavaleiros.
Mas não como os de fábulas. Eram silenciosos, como se tivessem esquecido como falar. Seus rostos estavam cobertos por elmos rituais com fendas finas nos olhos. Cada um trazia consigo uma aura fria, cortante, como luz refletida em gelo.
Um deles ergueu a mão. Na palma, um medalhão com a efígie da deusa lunar. A mesma que aparecia nas tapeçarias do templo destruído por Nix alguns anos atrás.
— Fiquem atrás de mim — disse Elena, instintivamente. Seu dragão tremia sob o tecido da bolsa, como se pressentisse a profanação à frente.
Vênus já estava com uma adaga em punho. Nix, por sua vez, não se mexia. Os olhos encaravam um dos cavaleiros mais altos — não porque o reconhecesse, mas porque algo nele a chamava. Um símbolo no peito, talvez. Ou a forma como a figura inclinava a cabeça para o lado, como se perguntasse “por que demorou tanto?”
A batalha ainda não tinha começado.
Mas o Berço agora respirava com eles. A terra pulsava. E algo lá embaixo — bem abaixo do lago, talvez dentro da própria lava — parecia querer acordar e ebulir novamente, mas alguma bênção lunar repelia o calor e a esperança.
Nix foi a primeira a se mover.
— CUIDADO! — gritou, as pistolas já em mãos, disparando antes que o som da própria voz desaparecesse.
As balas ecoaram, cortando o calor e o tempo. Uma atingiu o elmo de um dos cavaleiros — mas ricocheteou, como se tivesse acertado uma estátua. O impacto nem o fez recuar.
— NÃO FUNCIONA — gritou ela para ninguém, ou para todos.
— São paladinos do Templo — rosnou Madoc. — Esses… esses não respiram.
Madoc partiu pra frente, espada desembainhada, ao lado de Matthew. A estratégia dos cavaleiros era clara: dividir e sufocar. Avançavam em pinças, com precisão cruel. Não gritavam. Não hesitavam.
A primeira linha da tribo Jïa caiu rápido. Os escudos improvisados, ainda enfeitados de fitas e cores, foram esmagados como papel sob a força das lanças lunares.
Vênus tropeçou para trás, procurando um lugar para se esconder. O chão era instável, quente demais, coberto de fragmentos de pedra fervente.
— Eu… não consigo! — arfou, encostando-se numa rocha.
Uma das montarias passou por ela, o cavaleiro sequer a encarando. Ela não era ameaça. E mesmo assim, chorava como se fosse alvo.
Nix correu até ela, os olhos arregalados, o corpo ferido por estilhaços. Sangue descia da têmpora.
— Fica aqui. Não se mexe. — largou sua segunda pistola nas mãos de Vênus. — Se alguém chegar perto… atira. Mesmo se for eu.
— Nix…
— Promete!
Vênus assentiu. Mas as mãos tremiam.
Enquanto isso, Echo tentava levar Elena para longe, puxando-a por um braço. Mas ela resistia.
— O cálice! Eles vão levar! — gritava a garota, os olhos marejados.
— Já levaram — respondeu Echo, seco, sem crueldade, mas com a dor de quem já soube quando uma batalha está perdida.
Madoc foi o último a cair. Três cavaleiros o cercaram. Um golpe nas costas, outro na perna. O terceiro apenas o encarou antes de desferir um soco que o lançou contra a encosta.
Nix tentou correr até ele. Foi interrompida por um som. Um som baixo, pulsante, vindo do centro da formação inimiga.
O cálice estava nas mãos do comandante dos Cavaleiros. Um homem pálido como a lua nova, com olhos sem íris, e uma cicatriz em forma de cruz invertida no queixo.
Ele ergueu o objeto com as duas mãos.
Um raio de luz azul cortou o céu.
A batalha cessou.
Por um instante, a fumaça baixou, as pedras pararam de ranger. E o mundo inteiro assistiu — impotente — ao Cálice da Profecia ser reclamado pela fé lunar.
O comandante dos Cavaleiros da Lua guardou o Cálice sob um tecido negro. Era pequeno, dourado como o primeiro sol do mundo, e exalava uma luz fraca, mas constante, como o batimento de um coração antigo.
Ele fez um gesto. Os demais recuaram.
Sem palavras, como surgiram, os cavaleiros recuaram montando suas bestas pálidas. Subiram pelas encostas como sombras disformes contra o céu branco de calor. O som de seus cascos desapareceu aos poucos — até restar apenas o cheiro de sangue, cinza, e derrota.
O silêncio que se seguiu era mais cruel do que a batalha.
Vênus chorava em silêncio, abraçada ao próprio corpo. Elena sangrava da testa. Echo tremia, com o braço esquerdo deslocado. Matthew estava inconsciente, caído ao lado de uma pedra marcada por cortes profundos. Madoc respirava, mas cada suspiro soava como uma prece falha.
Nix se ergueu com esforço. Um dos joelhos falhava, a visão turva. O mundo girava, mas ela não cedeu. Nunca cedia.
— Eles levaram o Cálice — murmurou. E cada sílaba era uma faca contra a garganta.
Então, o céu rugiu.
Primeiro foi uma sombra escura, como uma nuvem que não devia estar ali. Depois, veio o som: o estrondo de asas cortando o ar, como trovões repetidos.
Dragões.
Do céu rubro como lava fresca, dezenas deles mergulharam em formação. Escamas vermelhas, douradas, escuras como vinho e bronze. E sobre eles, cavaleiros com armaduras marcadas pelo brasão de um coração partido ao meio: o exército de Hearts.
— Recuem! — bradou uma voz feminina, montada sobre um dragão de três caudas.
A voz ecoou como comando e consolo. Soldados começaram a descer em cordas, outros permaneciam montados, formando um escudo de asas em torno dos feridos.
— Afastem-se! Cuidem dos caídos!
Mãos firmes ergueram Madoc. Elena foi acolhida por braços fortes e coberta com um manto vermelho. Echo tentou resistir, mas cambaleou antes de aceitar ajuda. Vênus não soltava a arma que Nix lhe dera — mesmo quando desabou no colo de uma curandeira.
Nix permaneceu de pé por mais tempo do que devia. Quis ver com os próprios olhos: os Cavaleiros da Lua desaparecendo entre as pedras do Berço com o Cálice em mãos… e seus amigos sendo recolhidos como relíquias humanas, quebradas, salvas por pouco.
Ela finalmente caiu de joelhos. Um dragão aterrissou ao seu lado, a força do impacto levantando poeira e brasas.
— Capitã Nix? — chamou uma voz próxima. — Você está segura agora. Eles se foram.
Ela não respondeu.
Olhos fixos no horizonte, onde a luz lunar desaparecia entre as colinas, engolindo o objeto que prometeram destruir.
Segurou-se ao último fio de consciência, com os punhos cravados na terra quente.
“Perdemos.”
Mas ainda respiravam.
Ainda estavam vivos.
E o caos… ainda era uma semente.

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