Capítulo 113 - Busca Gélida
O céu estava como um escudo cerrado de nuvens cinzentas; nem uma fresta deixava a luz dourada do sol passar. A neve caía em flocos lentos, aumentando o peso da carroça a cada instante. A floresta inteira estava pacífica, totalmente em silêncio, sem qualquer vestígio de animais ou sapiens — e o grande rastro que vinham seguindo já começava a sumir, engolido pelo branco absoluto da neve.
— Ainda bem que essa trilha é bastante larga e aparente. — disse Evelyn, segurando as rédeas. — Se não fosse por isso, a gente tava ferrado.
O branco era tão intenso que a égua fantasma de Evelyn, quase translúcida no meio da nevasca, se camuflava quase que por completo no branco. Niko mal via os contornos do animal. Até pensou em comentar sobre isso com Evelyn, uma piada sobre o ambiente ser perfeito para o animal se camuflar. Mas no fim não disse nada.
O silêncio era ensurdecedor, do tipo de silêncio que fazia até os próprios pensamentos parecerem altos demais. Niko estava na parte de trás da carroça, enrolado em um cobertor grosso até o pescoço. Já tinha lido todos os livros que trouxe. Não sobrou nada além do tédio.
Deu um suspiro de repente, com o ar quente dos pulmões se condensando no ambiente. Olhou para a capa do último livro lido e então deixou-o de lado. Se arrastou para frente da carroça, saindo do conforto do cobertor e se juntando a Evelyn no assento da frente.
O frio ali era ainda mais forte, mas pelo menos havia alguém para dividir o espaço. Mesmo assim, não disse nada. Tentou pensar em algo que quebrasse o silêncio, algo que eles poderiam conversar durante horas, mas nenhuma ideia parecia boa o suficiente. No fim, foi Evelyn quem falou primeiro.
— O tempo fechou de novo… — disse, olhando para o céu. — Acho que a nevasca vai piorar.
Ele acompanhou o olhar. O céu estava ainda mais escuro e parecia ter ainda mais nuvens, como se a qualquer momento o mundo fosse cair sob suas cabeças.
— Isso é ruim…. A carroça pode atolar. Se isso acontecer a gente vai ter que parar as buscas… Que saco.
— E sua Alma? — arriscou ele. — Você não pode usar ela pra despistar a neve ou algo assim?
— A minha Alma só consegue criar gelo e neve, Niko. Não consigo mandar no clima. Se eu tentar ajudar, posso piorar as coisas.
— Entendi…
O silêncio voltou a reinar. Somente os cascos abafados da égua batendo no chão, o rangido das rodas de madeira e o vento varrendo a estrada restaram. Evelyn puxou o ar para os pulmões e deu um grande suspiro, inquieta.
— Já se passaram dois dias — disse, sem olhar para ele. — E se… e se a gente não encontrar ela?
Niko fixou o olhar no rastro, já metade apagado pelos flocos. Queria responder sem hesitar. Queria falar que eles iriam encontrá-la e tudo iria acabar bem. Queria acreditar nisso. Precisava acreditar. Mas com aquela nevasca e tudo ficando cada vez mais branco, era difícil manter certeza de qualquer coisa.
Mesmo que encontrassem Brigitte, ainda não teria como saber do seu estado. Ela poderia estar viva e bem, mas também poderia estar machucada e, no pior dos casos, morta. Só de pensar nessa realidade, Niko sofreu um arrepio na espinha e a ansiedade o consumiu. Brigitte foi uma ótima companheira, se ela realmente estivesse morta seria… doloroso.
Porém sabia que sua esperança não podia morrer. Precisava acreditar que Brigitte estava bem e que iriam encontrar ela. Afinal, era isso que movia as pessoas, esperança, sem ela todos se tornaram seres vazios movidos por impulsos animais. Esperança era o motor da consciência, não podia, nem queria se abdicar dela.
Niko ergueu a postura e deu um olhar que transmitia toda a sua força e determinação para Evelyn, como forma de encorajá-la.
— Vamos encontrá-la, eu sei que vamos.
Evelyn assentiu devagar, mas as mãos falaram outra coisa: apertaram as rédeas até os nós dos dedos ficarem pálidos. O vento assobiou nos galhos secos. A égua fantasma continuou no passo certo, com certa rapidez.
— Eu devia ter vencido ele… — disse ela de repente, olhando para o chão e com a voz rouca, como se a fala tivesse subido pela garganta a força. — Aquele ghoul… desgraçado.
Sua voz possuía uma raiva quente, mas sim, uma amargura fria. Um peso na garganta, como se fosse uma corda que a sufocava, onde cada palavra fazia Evelyn engasgar e ela tivesse se recusado a tossir — pelo menos até agora. A elfa inspirou, falhou, tentou de novo.
— Eu dei tudo de mim naquela luta. Tudo mesmo. Tudo o que eu aprendi. Tudo que fiz na minha vida com os que lutei funcionou… mas com ele não foi assim… — ela mordeu o lábio, olhando qualquer coisa menos a frente. — Ele arrancou a minha prótese como se fosse nada. E depois… disse que só me deixou viva por nojo. Nojo. — a palavra ficou presa no dente e ela voltou a segurar as cordas com menos força. — Eu… eu preferia ter morrido do que ouvir aquilo.
Niko abriu a boca para responder, mas ela não tinha terminado. O fio que a mantinha sufocada arrebentou ao mesmo tempo em que um grito saiu por inteiro:
— AHH, QUE ÓDIO!
As rédeas cederam um dedo e a carroça chacoalhou. Niko agarrou a beirada do banco por reflexo. Evelyn fechou os olhos por um segundo, apoiou a testa nas mãos e manteve os ombros duros como pedra.
— Eu devia ter sido mais rápida… devia ter previsto o… ataque dele… eu devia… — a frase murchou, substituída por um sopro longo e áspero.
Niko olhou para ela calado. Era estranho ver Evelyn daquele jeito. Mesmo depois de tudo que passaram juntos, raramente se mostrava tão irritada assim. Era alguém com bom humor. Que transformava qualquer dor em sarcasmo ou ânimo, seja para mascarar seus sentimentos ou para levar as coisas de maneira mais leve. Mas agora não. Agora ela estava colocando tudo o que sentia para fora.
Ele não suportava vê-la assim. Ver a mulher que deu tudo de si para ajudar um completo desconhecido a procurar pelo seu passado, tão frustrada e confusa deixava-o mais do que triste. Mesmo que ele não fosse bom em consolar ninguém, sabia que precisava dizer algo. Porque, se estivesse no lugar dela, era o que gostaria de ouvir. Um consolo.
— Ei — começou, a voz mais baixa que o costume. — Olha pra mim um segundo.
Ela não olhou, mas relaxou um pouco a mão, o suficiente para a égua retomar o ritmo.
— Você não é sua derrota. — disse ele, não sabendo como continuar, somente que precisava falar algo. — Nem o que aquele psicopata disse… Você pode não aceitar agora, mas você é forte, Evelyn. É uma das pessoas mais fortes que eu conheço.
As palavras penetraram nos ouvidos de Evelyn, fazendo levantar um pouco a cabeça e abrir mais os olhos estreitados.
— Você derrotou a Clementine, a Hyandra e tenho certeza que também derrotou inimigos muito fortes antes da gente se conhecer. A questão é que você só não estava preparada para esse último. Só isso… E não fala que preferiria morrer do que ele ter te vencido. Eu… eu preciso de você aqui. Não queria que você me deixasse.
As palavras saíram antes de ele raciocinar. Havia em sua voz uma fragilidade que nunca demonstrou tão abertamente para ninguém. Um arrependimento veio logo depois de dizer isso. Se mostrar tão frágil para alguém era desconcertante, mas, ainda sim, estranhamente reconfortante.
Evelyn voltou a baixar o olhar, soltou um suspiro, cansado e mais calmo. Então, deu um pequeno sorriso de canto, sincero e íntimo.
— …É. Eu falei besteira mesmo. — murmurou. — Eu não queria que aquilo tivesse acontecido mesmo. Só… tava irritada com tudo o que aconteceu. Desculpa por ter jogado tudo isso no seu colo.
— Tudo bem…
Os dois voltaram a olhar para frente. O foco do objetivo voltava aos poucos.
— E… obrigada, Niko. Por ter me acalmado. — terminou ela dando um grande sorriso em sua direção.
O albocerno apenas assentiu devagar, com um leve sorriso que Evelyn talvez nem tivesse notado. O silêncio retornou entre eles, mas dessa vez não parecia pesado. Não era mais o tipo que sufocava, era um silêncio leve, como a paz depois de uma tempestade.
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