Capítulo 148.5 - O Colosso
O trem avançava pelos trilhos de Arvallia — entre Clairmont, Rochebrune —, sacudindo de leve a cada curva fechada. No momento, estavam passando por um túnel estreito, bem no interior de uma montanha. O lado externo do trem era um breu total, somente havia paredes de rochas artificialmente cortadas, o trilho largo e a locomotiva a vapor. Já no interno, as luzes tremiam levemente a cada irregularidade dos trilhos.
Brigitte estava sentada, no lado da janela, observando o breu, com os braços cruzados e o batendo os pés rápidos demais no chão. Evelyn também permanecia sentada, de frente para a luminar, e com o olhar fixo no vidro, atenta demais para alguém apenas observando a paisagem inexistente. Nenhuma das duas dizia nada mas pareciam esperavam pela mesma coisa.
Niko, ao lado de Evelyn, estranhou isso, afinal, o que havia no lado de fora além de um borrão escuro?
— O que tem aí fora? — perguntou, quebrando o silêncio.
— Espera um pouquinho. — respondeu Brigitte, direta e sem tirar os olhos da janela.
O trem continuou avançando pelo túnel durante alguns segundos, segundos inteiros somente com o som das rodas ecoando alto entre as paredes de pedra, nada além disso. Nenhum dos três, ou qualquer outra alma viva presente no vagão, ousou dizer uma única palavra. Foi o mais puro silêncio.
Então uma claridade surgiu na frente e o túnel acabou. O branco de fora entrou de uma vez, tão forte que fez os três piscarem algumas vezes, e logo um vale foi revelado a Niko, Evelyn e Brigitte.
O vale era amplo e inesperadamente belo. Campos verdes com curvas suaves e pequenos cursos d’água refletiam no céu azul. Fileiras de árvores acompanhavam o relevo natural do terreno, e ao fundo, uma extensa cadeia de montanhas se erguia como uma muralha natural. O vento ali balançava de leve as copas e o gramado vivo, dando à paisagem uma sensação estranha de calma intocada.
O trem diminuiu levemente a velocidade ao contornar a curva da montanha, permitindo uma visão mais longa daquele cenário. Foi então que Niko percebeu uma sombra enorme no centro do vale. Ela não pertencia às montanhas e não seguia a lógica do vale. No centro da paisagem, rompendo a harmonia do vale impecável, erguia-se o colosso.
Era enorme, maior do que qualquer construção que Niko já tivesse visto, maior do que o Castelo Imperial, até maior que a altura dos dirigíveis que viu. Um corpo humanoide de pedra cinzenta, bruto e irregular, com marcas profundas do tempo e do clima. O ser não possuía rosto. Onde deveria existir uma face, havia apenas uma superfície lisa, inclinada, sem olhos, sem boca, sem expressão alguma, apenas rugas petrificadas.
Estava sentado, com o braço direito estendido fracamente em direção aos céus. Entre a cabeça e o ombro esquerdo, uma árvore gigantesca crescia a partir do próprio corpo do colosso. Suas raízes rasgavam a pedra como se ela fosse solo fértil, descendo pelo torso quebrado em fissuras largas. O tronco era espesso, antigo, e os galhos se espalhavam para o céu, carregados de douradas que balançavam lentamente com o vento do vale.
Niko sentiu o estômago afundar ao ver aquela cena. Ele conhecia aquilo, aquele ser grotesco e sem vida. Não pessoalmente, mas dos livros que leu sobre a Guerra Incompleta. As ilustrações, comparadas aquela visão de agora, pareciam mal feitas, sempre pequenas demais para transmitir qualquer noção real de escala. Nenhuma delas chegava perto… daquilo.
— Pelos… Anjos… — murmurou o albocerno, sem perceber que tinha falado em voz alta. — Aquilo é…
— O Colosso de Ares. — disse ela, sem cerimônia.
Niko piscou algumas vezes, como se o nome dito em voz alta ajudasse a encaixar os sentimentos presos em sua mente.
— Eu sabia que ele existia… — disse, baixo. — Sabia que tinha encerrado a guerra. Mas achei que fosse só… — fez um gesto vago com a mão. — Uma coisa distante. Um símbolo.
— Não é símbolo nenhum. — respondeu Evelyn, com certa repulsa na fala. — É um mistério que ninguém conseguiu resolver.
O trem reduziu um pouco a velocidade ao contornar o vale, oferecendo alguns segundos a mais daquela visão épica e de outro mundo. A sombra do colosso se projetava sobre o campo inteiro.
— Ele surgiu no meio da guerra. — continuou Evelyn, ainda olhando pela janela. — Não foi invocado por nenhum país em específico. Não teve aviso, nem nada do tipo, ele só… apareceu. Foi Bruxaria pura.
Niko já tinha ouvido aquele termo antes em livros e conversas casuais. Bruxaria. Diferente da Alma — que obedecia regras, limites e custos claros — a Bruxaria era tratada como algo instável e desconhecido, quase um erro na própria estrutura do mundo. Não vinha de dentro das pessoas, não era concedida por relações sanguíneas, não seguia sistemas reconhecíveis. Era o tipo de coisa que não devia existir.
Brigitte cruzou os braços, com o olhar fixo na árvore que crescia sobre a pedra, suas raízes se espalhavam como cicatrizes abertas.
— Sim. Quase todos os países fizeram um “cessar-fogo”. — acrescentou de forma casual, como quem comenta um detalhe histórico distante. — Isso porque todo mundo percebeu que, se continuassem brigando entre si, aquilo ia ser o menor dos problemas.
Niko manteve os olhos no colosso, tentando imaginar o caos que aquilo devia ter causado quando surgiu. Exércitos inteiros preparados para lutar entre si, e de repente aquilo. Um inimigo sem consciência, que atacava tudo que era móvel, porém não morria.
— O pior é que ele nem foi derrotado, só contido… — disse Evelyn.
Ela finalmente desviou o olhar da janela, apenas o suficiente para encarar Niko.
— Por um herói de guerra, o maior deles. — continuou. — Aurelian Vaelor. Você deve ter lido o nome.
Niko assentiu lentamente. Tinha lido, sim. Um nome recorrente nos registros finais da Guerra Incompleta, sempre acompanhado de palavras como “sacrifício” e “ato final”.
— Foi ele quem selou o colosso. — disse Evelyn. — Usou sua Alma contra a Bruxaria… Mas acabou morrendo no processo.
Brigitte inclinou um pouco a cabeça e esticou um dedo para o alto por meio segundo.
— Ah, a árvore que cresce nele recebeu o nome dele. — acrescentou. — A Árvore de Vaelor. Dizem que é ela que mantém o poder do colosso adormecido, crescendo conforme absorve seu poder.
O colosso permanecia imóvel, indiferente à conversa, ao trem e ao mundo. Anos inteiros tinham se passado desde o fim da guerra, e ele continuava ali, parado no mesmo lugar, como uma lembrança da guerra.
Niko sentiu um aperto estranho no peito. Um único homem morto para impedir algo que nenhum país inteiro conseguiu enfrentar. E, ainda assim, o problema não tinha sido resolvido — apenas deixado em espera.
O trem entrou de repente em outro túnel. A luz desapareceu, engolida pela escuridão da montanha, e o Colosso de Ares ficou para trás como se nunca tivesse existido. O som metálico das rodas voltou a dominar tudo, abafando pensamentos, imagens e perguntas que não tinham resposta. Niko piscou algumas vezes, vendo o próprio reflexo pálido no vidro da janela.

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