Capítulo 71 - Choque
[ Minutos antes do desfecho do duelo de Mayumi. ]
Akemi mantinha a guarda que Miya gravara nele durante semanas no Salão de Fogo. A eletricidade percorria o corpo como uma corrente inquieta, e junto dela, a sensação de que o tempo ao redor mudava de textura.
As kunoichis seguiram os avanços:
Um veio com uma kunai mirando o pescoço. Akemi viu o movimento da lâmina cortando o espaço devagar demais, e inclinou o tronco pra trás. O metal passou a centímetros da garganta, e quando a ninja passou, o rapaz empurrou-a com a palma firme.
Em sequência, três ninjas vieram ao mesmo tempo.
Akemi esquivou-se de shurikens com uma meia-estrela, agarrou um nunchaku e usou-o para o bloqueio de uma lâmina longa. O fluxo elétrico que percorria seus membros lia os ataques antes da chegada, uma pulsação sutil que indicava de onde vinha o perigo, quanto tempo faltava, e qual parte do corpo se moveria.
Mas contra-ataque? Outra história.
Cada vez que Akemi imaginava um soco ou um chute, o cerco se fechava mais. As kunoichis se adaptavam, atacavam em ângulos que o forçavam à escolha entre defesa ou ataque; claramente, a primeira opção sempre vencia.
Por sorte, Minoru aparecia para a ajuda, derrubando algumas kunoichis enquanto o aliado elétrico se esquivava. Em um momento, seus olhos castanhos-claros acharam Mayumi, que bloqueava um golpe de katana com sua lâmina improvisada. A estátua de Kenshi era colossal, e a força por trás dos ataques era, sem sombras de dúvidas, descomunal para uma jovem daquele tamanho.
“Ela foi mesmo sozinha contra aquela escultura? Aliás, como diabos essa garota consegue bloquear e aguentar a força daquilo sem ser esmagada?! Hum, e pensar que ela se prontificou a enfrentar aquilo sozinha. Nada mais me surpreende.”
Desviando o olhar mais uma vez, avistou-se Nikko no meio da multidão de kunoichis. Diferente da seriedade de Mayumi, a de chiquinhas se divertia tanto com a luta que às vezes parecia sádica.
— He hi-hiii! Ah-ha hihiii! — Turbilhões de vento criados pelo bastão gélido isolavam as estátuas inimigas com uma facilidade absurda.
A vista amargou a boca de Minoru, porém, à medida que desferia socos e chutes, o gosto ruim saía. “Tsc, queria poder usar aura também. Confesso que ver aquela maluca lutar daquele jeito me dá um pouco de inveja. Mas por mais que ela esteja eliminando dezenas ao mesmo tempo, o número daquelas ninjas parece infinito…! Estranho.”
O que antes pareciam cem, transformavam-se em centenas, e talvez, milhares. Mas nada demonstrava problema.
— He hiii! Podem vir na quantidade que quiserem! — Mais kunoichis foram lançadas e despedaçadas. — Meras esculturas não são páreas à mim!
Minoru levantou a guarda diante da leva de estátuas que se aproximavam velozmente. — Vem mais por aí, Akemi, se prepara!
Enfrentando faíscas, os golpes das ninjas eram redirecionados, empurrados pra fora, desviados com a palma ou bloqueados com o dorso da mão; os fios de corte eram somente evitados.
Akemi seguia o fluxo da própria aura como Miya ensinara, sem pensamentos a mais ou questionamentos desnecessários, apenas sentimentos.
Mas o cansaço aparecia.
“Preciso de uma brecha. Só uma.”
Então, de cima, veio o ataque que ele não pressentiu a tempo: duas sais empunhadas desceram rumo a sua cabeça, rápida demais.
A ordem do fluxo áurico elétrico foi clara, e mesmo que desse direito à hesitações, não se responsabilizaria caso fosse desrespeitada.
Akemi entendeu o pedido, e cruzou os antebraços revestidos de eletricidade acima da cabeça, esperando que aquelas armas pontiagudas perfurassem seus ossos.
Ktinnn!
O impacto ocorreu, mas a lâmina não atravessou:
As pontas de gelo eterno encontraram a pele eletrificada e travaram ali mesmo. Faíscas explodiram do ponto de contato, iluminando o rosto oculto da kunoichi.
“Funcionou?” Estatelado, Akemi empurrou os braços pra cima e jogou a ninja pra longe. A guarda logo retornou.
Do outro lado do campo, Minoru destruiu duas kunoichis e parou no meio do movimento, boquiaberto. — Você… você acabou de bloquear uma lâmina de gelo eterno com os braços?! — gritou ele, desviando de um nunchaku e contra-atacando com uma cotovelada lateral que derrubou outra ninja. — COMO!?
— Eu não sei! Só funcionou! — respondia Akemi, protegendo-se das inúmeras armas e golpes.
Minoru avançou e se posicionou ao lado do aliado, formando uma linha defensiva. — Cara, isso não é normal! Esse gelo era pra ser capaz de cortar o nosso uniforme titanizado, mas não cortou o seu braço!
— Foca na luta! — Akemi bloqueou outra lâmina com o antebraço faiscante.
— Eu tô focado! — Minoru desferiu um teep1 no rosto de uma kunoichi, trombando-a com outras três. — Mas isso definitivamente não existe! A menos que… — ele parou, analisando — a menos que sua aura seja eterna também.
Akemi quase perdeu o foco de sua forma marcial. — O quê!?
— Só faz sentido se for isso! — Minoru clinchou uma ninja. — Aura eterna contra gelo eterno! Por isso a lâmina não passou com facilidade! — Uma cotovelada a tonteou.
“Aura… eterna?” O pensamento abriu uma porta na mente de Akemi que ele não sabia que existia, e por um segundo, a concentração vacilou. A eletricidade ao redor dos braços piscou, fraquejada.
Sorrateiramente, a sombra de uma espada cortou seu campo de visão.
Akemi se jogou pra trás num mortal instintivo, e quando os pés tocaram o chão novamente, alertou-se com quem estava adiante.
Uma estátua diferente das outras. Em vez da representação congelada de tecidos simples, seu vestuário continha resistências adicionais: entre as juntas, armaduras tinham lampejos metálicos, já a máscara oni de rosto fino era tão medonha quanto a usada pela escultura viva de Kenshi. Nas mãos, duas wakizashis incorporavam o semblante de uma líder.
— Essa é com você, cara, eu fico com as outras. Divirta-se! — encorajou Minoru, derrotando suas oponentes.
Os primeiros ataques foram estocadas paralelas. Akemi desviou pro lado, mas a ninja já girava o corpo para um corte lateral duplo. As lâminas foram barradas com os antebraços elétricos, as espadas bateram na pele e ricochetearam faíscas.
A líder recuou, reavaliou, e atacou de novo.
Os golpes vieram rápidos em diagonais. Akemi bloqueava, desviava, recuava, mas as respostas ofensivas seguiam inviáveis. Toda vez que imaginava o espaço para socos ou chutes, as wakizashi já cortavam outro ângulo, forçando a defesa.
“Um contra um era pra ser mais difícil. Não tem distração. Só eu e ela.”
Com o tempo, o padrão se escancarou.
A kunoichi atacava sempre em duplas: duas estocadas, dois cortes, intenções iguais. Entre cada sequência, um micro-intervalo onde os pés se reposicionavam.
Akemi viu a primeira brecha.
Quando a próxima sequência foi reiniciada, ele aproveitou.
As lâminas gêmeas passaram lado a lado entre o corpo lateralizado, e o queixo mascarado exposto pela falta de guarda quase recebeu um chute direto.
A ninja jogou a cabeça para o lado e saiu da reta do golpe, mas a abertura estava feita.
A eletricidade saltava na perna erguida como uma rede distorcida de raios faiscantes. A luz amarelada refletiu no gelo da máscara oni.
“Agora.”
Por um segundo, Akemi achou que acertaria um chute de cima a baixo no pescoço desprotegido, conquanto, a ninja desapareceu.
Foi um borrão azul claro, veloz demais para que fosse acompanhado. O calcanhar elétrico desceu no vazio.
Pela direita, a ninja veio como um flash.
Ktinnn!
As wakizashis bateram nos antebraços eletrificados com uma força que recuou o garoto em três passos desequilibrados. Os ataques não pararam.
Bloqueios. Recuos. Desvios.
A velocidade da líder dobrou. Os movimentos que antes eram previsíveis, tornaram-se borrados e sem pausa.
“Ela ficou mais rápida depois que tentei acertá-la. Por quê?”
Akemi bloqueava no limite, redirecionava os cortes com as mãos. A cada ataque intensificado, as esquivas se tornavam inviáveis.
O fluxo elétrico ainda funcionava, sentindo e mostrando onde que o perigo vinha. Entretanto, o estoque de aura armazenada aparentemente chegava ao fiz, pois a resposta do corpo se revelava cada vez mais atrasada.
Os bloqueios ficavam mais fracos, as esquivas ficavam mais lentas, e as brechas para contra-ataques já nem davam sinais.
“Não consigo acompanhar. Se eu continuar só me defendendo…”
As faíscas diminuíram, e um corte rasgou a lateral do uniforme. Não feriu a pele, mas mostrou que a margem de erro estava acabando.
Talvez, a ajuda de seus aliados fosse o essencial, mas os inúmeros menosprezos, descrenças e dores relacionadas ao pobre garoto não permitiam o crescimento de tal ideia.
“Preciso tentar outra coisa. Mas o quê?”
Miya sempre dizia sobre lealdade às ordens da aura. Só que, e se a resposta estivesse além daquele fluxo?
E se ao invés da reação, a chave para o contra-ataque estivesse na antecipação puramente humana? Afinal, naquele momento, Akemi entendeu que, como retrator, a confiança total em suas habilidades áuricas seria um erro grotesco caso o armazenamento acabasse. Seu corpo um dia precisaria da capacidade de ação por conta própria.
“Eu tenho que tentar.”
A kunoichi avançou com as wakizashi cruzadas.
Akemi arriscou e ignorou a pulsação elétrica que pedia um bloqueio alto e, no lugar, girou o corpo duas vezes pra um chute lateral explosivo na têmpora da ninja.
A perna subiu rápida, faíscas saltaram rumo à cabeça da oponente.
Todavia, Miya sempre esteve certa, e era óbvio que toda aquela imprudência resultaria em uma tragédia:
A kunoichi barrou o chute com a lateral da wakizashi e empurrou a perna de Akemi pra fora com uma força que o desequilibrou completamente.
O mundo inclinou.
O garoto tentou a recuperação da base, mas os pés falharam.
Uma wakizashi se aproximou. Reta, horizontal, direto à testa.
Minoru via tudo de longe, seu sangue congelou durante a batalha que travava contra várias estátuas. “Ele não conseguirá reagir!”
Não havia bloqueio, esquiva, ou sequer resposta do fluxo elétrico.
O tempo desacelerou, mas não ajudou.
A ponta da lâmina estava a centímetros do golpe fatal, fechando os olhos diante da morte. “Não…”
Vrash!
O contato foi grotesco: som de carne rasgada.
Entretanto, Akemi não sentiu dor, e quando olhou parra frente, deparou-se com um vulto familiar entre ele e a assassina: Minoru Suzumura, agarrado na guarda da espada para que impedisse o avanço da kunoichi. Porém, não foi o bastante…
A wakizashi atravessou o centro de seu peito, de um lado ao outro.
Sangue escorria pela lâmina, pingando quente e vermelho contra o frio do gelo.
Akemi ficou sem ar, seu corpo inteiro se enrijeceu, um vazio abriu na mente. — Mi-Mino…
Minoru tossiu, um rastro rubro manchou sua mandíbula, pescoço e peito. — Tsc… não esperava que daria nisso… Coff! — Seus dentes vermelhos em seu sorriso torto denunciavam a lesão interna, e com as forças que lhe restaram, agarrou o rosto da estátua imóvel, e subitamente… Crsshh! O gelo cedeu sob a força, traçando veios brilhantes como raios numa tempestade de inverno antes da desfragmentação final.
O corpo da kunoichi desapareceu com as wakizashi. Tudo o que sobrou foi o buraco sangrento no peito.
O ferido olhou para trás. — Que bela hora pra errar, hein? — O sentimento não era raiva, muito menos desdém, havia ali um alívio disfarçado, como se, por mais frustrado que estivesse, encontrasse a felicidade pelo seu companheiro ainda inteiro.
Pernas cederem de joelhos.
Akemi não conteve o tremor nos olhos marejados; um nó se formou na garganta.
Era possível que, por causa dele, um integrante do grupo estivesse morrendo…
- empurrão executado com a sola do pé.[↩]

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