Capítulo 72 - O preço da imprudência
Minoru perdeu força, o ferimento aberto em seu peito jorrava sangue sem controle. Se ele tombasse para trás, não haveria volta.
— N-não! — Akemi ajoelhou e segurou o companheiro pelos ombros, sustentando-o com o máximo que conseguia. Mas quanta firmeza um corpo trêmulo ofereceria? — Minoru! Você tá bem!? Consegue me escutar!?
— Cof. Com você gritando desse jeito, fica difícil não ouvir.
O companheiro à beira da inconsciência preocupava.
— Não faça brincadeiras! Olha o seu estado!
— Eu faço piadas ruins quanto tô em situações adversas, cof, é uma forma de me acalmar. Você deveria experimentar.
— Independente disso! Por que entrou na minha frente!?
— Olha, mano, cof… de onde eu venho, somos criados pra sermos protetores, independente da região, raça ou religião. Somos um grupo, então tenho o dever de ajudar o máximo que posso. Cof… E Não me leve a mal, mas… você me lembra pessoas que não fui capaz de salvar. Depois de certos apertos que passamos na vida, o tanto que você treina pra não errar de novo faz esse furinho não parecer nada, ha ha.
— Minoru…
— Fica em paz, o que eu fiz foi instinto. Além do mais, tu tá sendo muito egoísta por não me deixar sentir como é realmente conseguir proteger alguém.
A culpa golpeou Akemi com uma dor insuportável, mas a urgência das circunstâncias acabou com as lamentações. — Negativo! Não tem haver com ego! Não vou te deixar morrer aqui! — Olhos desesperados procuraram qualquer sinal de escapatória. Nada, somente o cerco de kunoichis se aproximando lentamente e refletindo a luz pálida de armas mortíferas.
Em outra batalha não tão distante, uma barra de gelo zunia em giros e intensificava as ventanias, espalhando partículas gélidas.
— E lá se vai uma! Outra! Eeee… mais uma! He hiii! Eu esperava mais do que só essas poses de “malvadonas”! — menosprezou Nikko, partindo com certo sadismo para cima das oponentes. “Nossa, isso chega a ser terapêutico! Aposto que os outros estão se divertin-”, a concentração no combate se foi quando seus olhos voltaram:
Minoru sangrando tanto quanto a boca e Akemi amparando-o com ânsia por ajuda diante de inúmeras ninjas destruíram a diversão.
O brilho verde nos olhos antes alegres, fraquejou. O sorriso… caiu. “O quê?” As brechas criadas pela distração ocasionaram uma tentativa de corte laminoso, contudo, preencheram-se da mais pura seriedade no bloqueio de Nikko com o bastão.
Akemi aproximou as costas de Minoru contra si, sentindo o calor do sangue alheio. — Aguenta firme, cara…
Tosses escorreram mais sangue e impossibilitaram respostas.
Ambos observaram a proximidade das kunoichis, alertados do perigo.
“Preciso protegê-lo, mas se eu me descuidar de novo, pode ser o fim… Não, não, eu não posso pensar assim! Mesmo que minha energia áurica esteja acabando, tenho que ser útil a todo momento!”
Uma das estátuas preparou o primeiro ataque.
A lâmina avançou e… Fwooshh! Somente o ar encontrou.
Uma explosiva corrente de vento lançou a estátua às kunoichis que cercavam os rapazes. Nikko deslizou baixo e se posicionou na frente dos aliados. — Me desculpem pela demora — Fw-Fwoosh! Com meio giro do bastão para um lado e um completo ao outro, o ar condensado liberou dois tornados à uma trajetória curva até a colisão. O ciclone unificado iniciou um traçado de estraçalho à todas as ninjas restantes, e apesar do tamanho moderado, levantava e tornava as todas formas de gelo em estilhaços azuis.
Surpreso, Akemi nunca imaginara a força de um aluno das turmas iniciais. O perigo das ninjas acabou em instantes, mas a negligência e a falta de experiência do grupo ocasionou um desastre inesperado.
Como dizia Isao às falhas do neto: “Aprendizados vêm com erros…”
O ciclone desvaneceu-se quando todas as estátuas foram destruídas. Os ânimos seguiram à flor da pele, porém, no mau sentido da ocasião.
Nikko largou o bastão e ajoelhou-se ao lado dos companheiros, cuidadosa. — O que aconteceu aqui?
— O Minoru… eu cometi deslizes e… ele me salvou em troca de ser perfurado por uma espada.
— É tudo culpa minha. Me perdi na própria imprudência e esqueci de agir como um grupo. Eu deveria ter protegido vocês…
O desabafo marejou os olhos de Akemi. A saída daquela situação tão delicada parecia o maior desafio para um garoto que nunca tinha experienciado. Mas uma alternativa foi encontrada. — A pior falha foi minha, a confiança me trouxe o ego e o ego me levou ao erro, mas agora não temos tempo pra discutir! — Ele olhou para a canela de Nikko. — Tire os sapatos e me passe esses meiões, rápido!
A premência1 do garoto agilizou a ação involuntariamente.
— Pra quê precisa delas!? — indagou a jovem, entregando o par.
— Eles parecem ser de um material bem elástico, podem ser úteis! — esclareceu, amarrando as extremidades de cada pano.
Com o esforço dos dois, o ferimento foi coberto… mas o sangue continuava descendo.
— Droga, droga, droga! Não vai ter jeito, ele precisa de assistência médica urgente! — concluiu, irritado.
— Mas como conseguiremos essa ajuda-!?
Crsshhhhh…!
O som de mil pedaços de vidro se partindo alcançou os ouvidos dos jovens ao longe. Era Mayumi, a vencedora que passava os dedos ensanguentados no fio de corte vermelho da sua nova katana após a derrota do oponente maior.
Nikko sequer apreciou o semblante da vitoriosa. — RUIVINHA!!!
Mesmo chamada pelo apelido, Mayumi sentiu a veracidade da voz e rapidamente notou a tragédia. Com a katana de gelo em mãos, passos rápidos partiram para o socorro…
— Ruivinha, ele foi perfurado por uma espada e não para de sangrar. Consegue ajudá-lo?
Perto de Minoru, Mayumi flexionou os joelhos para análise. — Precisamos estancar esse sangramento. Consegue me ouvir, Suzumura?
De olhos fechados, o ferido assentiu calado.
— Correto, o que vai acontecer agora pode ser um pouco desconfortável, mas você precisa confiar em mim… Abra a boca.
A ordem foi respeitada, e a mão rasgada parou acima da boca aberta.
— Agora, preciso que você beba isso sem pestanejar.
A palma foi fechada com força, e o sangue áurico escapou entre os dedos como o suco de uma fruta esmagada, sendo bebido com dificuldade.
— Mayumi! Onde ganhou esse corte!? — Preocupou-se Akemi.
— Em certas batalhas, o verdadeiro valor não está em vencer com preservação, às vezes é necessário se sacrificar. Percebi que se eu não usar minha aura, não serei útil nesta academia. A partir de agora, tomarei conhecimento de tudo com novos olhos.
— Ele irá melhorar com isso?
Quando o sangue parou, a mão que o ofereceu foi recuada.
— Irei checar a integridade dos órgãos dele antes. Suzumura, preciso que puxe todo o ar que conseguir.
O pedido foi respeitado.
A ruiva colocou a palma manchada no abdômen do companheiro. — Continue inspirando e expirando devagar… preciso que meu sangue flua com o seu — seu rosto foi retesado2 pela exigência da técnica. “Consigo percorrer seu corpo e analisar o ferimento por dentro. Porém, se algum órgão vital foi atingido, não poderei fazer milagres.”
— Mayumi… e então?
…
— Ruivinha?
— … Ele ficará bem — assegurou Mayumi, confiante.
A notícia acalmou os preocupados. — Ufa…
— Por sorte, a perfuração passou pelo espaço mínimo entre o coração e a ponta do fígado. Nenhum ponto vital foi afetado. Se sente melhor, Suzumura?
— Haaah, sim. As fraquezas diminuíram. Mas diz ai, que magia tu usou, hein?
— Apenas reabasteci o sangue que perdeu. Seu corpo ainda está debilitado, então não force.
— E o seu sangue misturado no meu não me daria problemas?
— Meu sangue não é do tipo universal, mas não precisa se fundir ao seu para cumprir o papel. Ele está circulando seu corpo e levando oxigênio e nutrientes onde é necessário, além de estancar a hemorragia do seu peito com camadas finas e sólidas que substituem os tecidos rasgados. No entanto, essa técnica não passa de uma solução temporária. Assim que sairmos daqui, será crucial que você receba o tratamento adequado de especialistas.
— E onde tá a saída?
— Notei que aquele templo tem uma passagem atrás, talvez seja uma escadaria para o próximo andar. Tenho a impressão de que seja o último.
— Ótimo, não vejo a hora de vazar daqui… argh — desabafou Minoru, levantando-se com tremores nas pernas.
— Ow, pera aí, menino! — alertou a descontraída, recolocando os sapatos. — Nem vem achando que vamos te deixar se arrastar até lá sozinho. Vem cá — ela ofereceu os ombros como suporte…
— Eu não preciso de mais ajuda de vocês- — Minoru perdeu as foças das pernas e viu o chão mais próximo. Nikko agiu de imediato e salvou a queda.
— Tem certeza de que não precisa de ajuda? — perguntou, sarcástica.
O debilitado rendeu o próprio orgulho. — Tá… vamos logo, então.
Discreta e verdadeiramente aliviada, Mayumi observava os dois rumo ao templo. Se havia algo que era reforçado em sua mente era a necessidade do uso da aura sanguínea, sem ela, não haveria salvação.
Mas os pensamentos foram interrompidos por um choramingo entrecortado.
A ruiva franziu a testa; em sua cabeça, o momento havia se acalmado: Minoru foi tratado, Nikko reencontrou a alegria; e ela mesma vencera o um contra um de espadas. Não existia motivo para um choro tão sufocado, típico de quem atravessava o limite da racionalidade e se afundava em desespero.
Ela olhou para trás.
De joelhos, Akemi agarrava os cabelos como se estivesse arrancando um tormento, o olhar baixo necessitava de ajuda tanto quanto Minoru.
A espadachim encarou de cima a baixo. — Levante-se. Precisamos seguir com o desafio.
— Snif… Podem pensar o que for, mas não sei se tenho capacidade de acompanhá-los. Treinei bastante pra dias como hoje, mas ainda me vejo com as mesmas fraquezas, snif… Se posso causar mais desastres em situações de vida ou morte por causa da minha inexperiência… snif, é melhor que eu fique por aqui até o desafio acabar.
O olhar samurai se estreitou. — Compreendo…
Tremendo, o garoto mantinha os olhos vidrados no chão, ignorando tudo à volta. A sensação era de que seu cerne trivial era imutável.
— Não contei a vocês, mas minha energia áurica está acabando. Sou um retrator elétrico que nunca frequentou uma escola áurica, e no momento em que eu precisava agir com calma, fui leviano. Isso quase custou a vida de alguém. Eu prometi… snif… prometi que seguiria em frente, mas a dor que sinto agora é tão debilitante que mal consigo me erguer. Em quanto tempo eu vou mudar? Em quanto tempo eu serei forte o bastante para ajudá-los sem causar problemas?
Mayumi escutou tudo sem uma única interrupção. Mas não esboçou compaixão, só análise.
Ela se agachou adiante do desmotivado. O braço se ergueu, a palma se abriu, e por fim, o estalo seco do tapa ecoou.
Akemi teve a cabeça virada, o choque ficou estampado. A ardência na bochecha era intensa e as lágrimas que caíam pararam. — P-por que? — murmurou, tocando o local atingido.
Mayumi jogou a espada para longe e apontou um dedo na cara. — Porque você é deplorável! — Sua voz se contrariava em raiva medida. — Você se encolheu, reclamou, se afogou em um poço de autopiedade, e ainda tem a audácia de esperar que tudo mude somente com o tempo?
Akemi tremeu a boca, mas a garota recusou espaço para réplica.
— Sabe como você pode mudar? Com atitude! Você acha que precisa de uma aura funcional para isso? Pensa que o que te atrapalha é o fato de ainda não ter bagagem para uma personalidade forte? Seu maior inimigo não é a falta de aura, garoto, seu maior inimigo é você mesmo!
Akemi absorveu calado.
— Do jeito que está, chorando e se queixando de problemas que foram feitos para serem superados por soldados áuricos, seu destino aqui será o fracasso!
Sem palavras a mais, a ruiva deu as costas e caminhou rumo a saída atrás do templo.
Akemi fechou os olhos por um segundo. O tapa ardia, mas algo dentro do coração queimava mais: a vontade de superação após o erro.
A coragem o levantou. O próximo e último desafio… o aguardava…

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