Capítulo 63 - A caverna de incongruências
Analisando as passagens daquela caverna gélida, Nikko pensava no próximo passo. — Ai, eu odeio ter que escolher coisas divididas. Acho melhor algum de nós dizer qual o caminho. Cadê a ruivinha, ela parece ter uma boa intuição pra isso — quando a procurou, deparou-se com uma situação um pouco… inesperada.
— Olha, acho que a Sanada precisa de uma ajudinha aqui — comentou Minoru, de cócoras ao lado de Mayumi, que de uma forma um tanto quanto perturbadora, tremia sentada com o corpo encolhido e abraçando os joelhos, balançando para frente e para trás. O mais puro estado de trauma estava visível.
Nikko tomou a iniciativa. — Ruivinha! — Ela correu em direção ao problema e agarrou as laterais dos braços rígidos da retraída. — Ei, fala comigo! Você tá bem!?
Minoru levantou-se. — Não, claramente ela não tá bem.
Akemi aproximou-se. — Está assustada. Será que não é pela altura de onde caímos?
O outro rapaz reagiu com um riso. — Medo de altura? Ela!? Tsc, isso seria no mínimo engraçado partido de alguém da nobreza.
Suportando Mayumi, Nikko irritou-se com a conversa. — Gente! Para de graça e me ajuda aqui! Ela não pode ficar assim por mais tempo! O grupo precisa dela!
— Difícil saber o que fazer pra tirá-la desse estado.
— Dá um tapa na cara dela.
— COMO É!!!??? — Akemi e Nikko mais que suspeitaram da orientação de Minoru.
— Aí, tomem cuidado com a voz. Essas estalactites acima das nossas cabeças não parecem nada firmes.
— Não importa! Tá achando que sou agressiva como os seus amiguinhos, é?
— Não somos agressivos, apenas… arrojados, haha.
Os outros dois reprovaram tediosamente a colocação de Minoru, que teve de se defender:
— Olha, gente, se vocês acham que essa garota aí vai voltar pra Terra só com palavras, estão muito enganados. Pelo jeito que ela tá, só com uma dose de dor física pra cair na real.
— Argh, esses homens nunca fazem nada direito — resmungou Nikko — enfim, tentarei acordá-la…
Chacoalhadas fizeram com que Mayumi desprendesse as mãos dos joelhos, revelando um rosto inerte acima do pescoço mole. Ela parecia um boneco.
— Ruivinha! A gente precisa de você, para com isso e volta pra gente! — Nikko pegava leve demais. Não era o bastante.
Minoru entendia que a situação não melhorava. — Se realmente quer ajudá-la, a hora é agora.
Impaciente, Nikko apertou os próprios olhos e rendeu-se à ideia arrojada. — Sério, como isso pode ser tão inconveniente… Tudo bem! Vamos, garota! A gente não tem o dia todo! Acorda!
Tap…! O tapa com a mão destra foi executado com perfeição, seco, na medida certa, tirando uma reação instantânea! Porém, inesperada.
Paf! Num ato de reflexo, Mayumi desferiu um soco cruzado de direita bem no queixo de Nikko, derrubando-a na hora.
A cena arregalou os olhos dos garotos, já a ruiva sentada, piscou os olhos várias vezes quando notou a outra garota caída… — O-oh! Pelos senhores! — Ela rapidamente se ajoelhou ao lado de Nikko; embora chocada, a calmaria acompanhou a curvatura em reverência. — Mil perdões, foi um espasmo. Com toda a fé que não faria algo de tão mau grado com um aliado.
— Caraca… Isso foi demais! — Minoru animou-se.
— E isso é momento pra comemorar!? — advertiu Akemi.
Deitada e com uma de suas marias-chiquinhas tampando o rosto, Nikko demonstrou sinais de vida, mesmo que sua voz estivesse sonolenta e abafada. — Tá tudo bem, pelo menos consegui tirá-la daquele transe. Mas se bem que ela podia ter uma mão mais leve, né? Parece uma outra menina que conheço.
— Novamente mil perdões. Se não fosse por você, com certeza eu não sobreviveria àquela queda sozinha, suas habilidades foram cruciais. Aliás, esse meu estado alterado é fruto de problemas de infância. Não fui feita para presenciar alturas tão… exuberantes.
Akemi sabia que aqueles relatos eram verdade. Somente as lembranças já retraíam o rosto da garota, mas a coragem para que dissesse sobre os próprios problemas era digno de respeito.
Nikko finalmente levantou o tronco e ficou sentada massageando a bochecha. — Ai, nossa, isso doeu mais do que eu poderia pensar.
— Tá tudo ok? — perguntou Akemi, preocupado.
Revigorada com toda a energia do mundo, Nikko ficou de pé. — Claro que estou! Agora, temos uma missão pra completar! Vamos salvar a Kyozinha!
Mayumi também ficou de pé. — Excelente ponto, a instrutora informou que Shimizu está no alto deste castelo, e como vimos, o destino nos lançou a andares inferiores, possivelmente no mais profundo deles. Precisamos traçar um caminho até o topo.
— Este lugar em que estamos é obviamente uma caverna, por que teria algo assim em um castelo? — questionou Minoru.
Akemi tinha o mesmo ponto de vista. — Também desconfio daqui. É estranhamente iluminado e misterioso até não dar mais. O que faremos com aquelas duas passagens ali?
Mayumi pensou em uma alternativa. — Pretendem se separar?
— Acho válido primeiro nós refrescarmos na memória o que cada um de nós pode fazer. No caso, nossas capacidades áuricas.
As palavras de Minoru agradaram o grupo unido, principalmente Nikko.
— Certo! Serei a primeira! Como viram, sou uma dobradora do vento! Consigo redirecionar e intensificar todo o ar presente em um certo raio de distância próximo a mim!
Minoru relembrou das habilidades da garota. — Eu vi, salvou a gente, mandou bem!
— É! Só que… tem um probleminha. Eu meio que… não consigo executar bem as minhas dobras usando apenas o meu próprio corpo. A minha arma… eu preciso dela pra potencializar a minha força, mas pelo visto a instrutora não nos fornece os equipamentos. Sem a minha arma, só sei fazer alguns truques com o ar. Eu ter conseguido salvar vocês daquela queda foi uma grande surpresa até pra mim.
— E qual é a sua verdadeira arma? — perguntou Minoru.
— A-ah, bom…
— Não vai responder?
— É que essa é uma coisa difícil de responder…
Mayumi agiu perante o constrangimento alheio. — Tudo bem, entendo sua dor. No meu caso, estou sendo uma espadachim sem uma espada, e as minhas habilidades dependem de uma lâmina, mesmo que não exclusivamente. Não imagino como posso auxiliá-los de forma considerável nesta jornada.
— Hahahaha — riu Minoru, com as mãos na barriga. — Vocês duas falando me fizeram lembrar que sou um dobrador de terra num lugar onde só tem gelo em volta. Ai, ai, isso vai ser divertido. E você, cara? Consegue ajudar a gente nessa?
— E-então… — Akemi buscava a resposta adequada. Embora tenha passado quase um mês preparando-se para situações como aquela, ainda não sabia se lhe cabia colocar-se no mesmo patamar dos demais aliados. Ele refletiu várias vezes, e decidiu sustentar o ânimo que esperavam dele, com humildade. — Eu acredito que sim!
Só de olhar, todos presenciavam a desconfiança em pessoa…
— É melhor que fiquemos juntos — definiu Mayumi.
— É — concordou Minoru — se nos separarmos agora, a chance de dar merda é muito maior.
— Então! Vamos unidos em frente! Para qual desses buracos devemos seguir?
— Essa é uma pergunta difícil, mas os instintos de um Suzumura me levam à direita.
— É certo irmos somente na intuição? — desconfiou Akemi.
— Ambos os caminhos são escuros e desconhecidos — salientou Mayumi — neste momento, a escolha entre eles é insignificante. A verdadeira diferença será revelada apenas quando caminharmos adiante.
— A ruivinha tem razão! Sigam-me os bons porque eu vou na frente! — Nikko tomou a dianteira, seus passos fortes ecoavam pela caverna de pouca luz.
— Espera, Nikko! Cuidado com as estalactites!
Mayumi estranhou o pedido de Akemi. — Qual o sentido de pedir cautela gritando?
Bruumm… Bruumm…
Em meio vazio da caverna, Minoru escutou barulhos que lembraram placas se mexendo, e quando olhou para trás… — Eh, galera, acho melhor a gente correr!
Alheio ao possível desastre que ocorria, Akemi envergonhou-se com a bronca de Mayumi. — Eu sei, eu sei, desculpe pelo barulho. É bom a Nikko gostar de tomar iniciativas, mas temos que cuidar pra não deixá-la se empolgar demais. Vai que ela se mete em encrenca e leva a gente jun-
Minoru passou correndo entre os dois, em pânico. — GALERA, CORRE!!!
Os dois parados viraram-se para trás, e flagraram uma parede azul se aproximando. Ah, sim, e não era qualquer parede: estava coberta de espinhos gélidos letais, submetendo os jovens à uma lição de corrida.
— I-ih! — Akemi deu um passo hesitante para trás, e Mayumi? Já estava correndo. Mesmo não sendo tão rápida, era eficiente, concentrando-se intensamente em evitar tropeços.
Por outro lado, Akemi, embora descoordenado, não tinha tempo para pensar: a hora de correr estava prestes a expirar. Então, largando rastros faiscantes pelo caminho, ele partiu em disparada…
Seguramente apoiada com uma das mãos na parede curva do túnel à direita, Nikko se divertia com a situação. — Vamos, pessoal! Vocês conseguem! Falta só mais um pouco! He hii!
Estalactites caíam do topo da caverna; desviar de mais pontas vindas de cima complementava o desafio.
Mesmo como o mais alto do grupo, Minoru desviou com facilidade e agilidade, e quando acessou a entrada escura, relaxou o corpo. — Uff, a aura daquela instrutora pode fazer uma coisa como essa!? Esse lugar parece estar vivo!
Logo atrás, Mayumi entrou na caverna com uma leveza que indicava alívio. Pelo visto, não foi tão difícil correr ao mesmo tempo que desviava.
Só restou que os três a salvo olhassem para o único que faltava.
Com um último impulso, Akemi saltou para frente, atravessou o buraco seguro, e caiu rolando no chão.
BBRRAAMMMM!!!
A parede de espinhos bateu contra o buraco. O perigo, por ora, foi evitado.
De pé e levemente ofegante pelo susto, Akemi levou as mãos nos joelhos. — Ufa… É curioso imaginar como a instrutora tem controle sobre todas essas estruturas. Talvez eu não saiba explicar isso, mas… antes, senti como se eu estivesse sendo vigiado pelo próprio castelo.
— Suspeita de que a tenente-coronel tenha alguma forma de nos observar sem que percebamos? — questionou Mayumi.
— Ela nos colocou em um grupo de quatro pessoas, só aquela carcereira de gaiola que tava presa — lembrou Minoru, caçoando — aliás, a instrutora provavelmente separou outros alunos em mais grupos, mas onde será que estão? Será que são quartetos como nós?
— Se o padrão de quatro alunos por grupo foi mantido, então os treze poderiam formar apenas três equipes completas… o que deixaria um aluno sem grupo. A questão é: o que a instrutora pretenderia fazer com o que sobrasse?
— Não sei, ruiva, mas isso tá com cara de ser uma PAA.
Akemi se lembrou do significado da sigla dita por Minoru. — Uma Prova de Aptidão Áurica? Valendo pontos, agora?
— Soube que os instrutores raramente avisam PAAs. Eles costumam deixá-las acontecer de forma espontânea, assim como as ocorrências da vida real.
Nikko concordou com Minoru. — Também fiquei sabendo! E se estamos em uma prova, temos que dar o nosso máximo! Mesmo que não possamos usar cem por cento de nossas auras!
— Correto — aprovou Mayumi — dado que a escuridão daqui é intensa, sugiro que sigamos juntos a parede à direita. Dessa forma reduzimos as chances de nos perdermos…

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