Índice de Capítulo

    O topo do castelo, tomado pelo frio, servia como palco para um desafio inesperado.

    Os grupos, exaustos e feridos, encontravam-se em um impasse: Kentaro havia sido derrotado, e mesmo com a chegada de novos integrantes, a situação permanecia instável.

    Rin Kurosawa, a autoproclamada última barreira do desafio, observava-os de cima, entediadamente lidando com um jogo que, em sua cabeça, levava como desnecessário, mas que por motivos ocultos, o prosseguia sem retrocessos.

    Mayumi esperava de joelhos os próximos passos, enquanto Kinyoku mantinha a frieza ao lado de Hikaru em sua meditação. Nenhum dos três ao menos pensava em ações precipitadas.

    Nihara literalmente ardia, suas chamas soltavam-se em baforadas quentes a cada respiração pesada; contudo, seus instintos ofensivos não davam continuidade, não havia intenção de golpe. Ele parecia ferido demais para que confiasse na própria força, uma ideia que seria ridícula para alguém tão convencido.

    A de cabelos e mãos tingidos de roxo seguia como centro  das atenções, tão silenciosa e imóvel que não demonstrava qualquer nervosismo, esperando não só por um Miyazaki enfurecido, mas por todos os outros colegas de classe, que naquele momento, eram seus inimigos. — Tenho a impressão de que irão demorar pra tomar iniciativa, então irei esperar atrás do meu “esconderijo” — disse ela, enquanto caminhava para atrás do trono — me avisem quando tiverem vontade de voltar aos andares de baixo.

    O recado foi dado, mas entre os heróis, existiam aqueles cuja a índole sempre evitava intrigas e atividades dolorosas. Uma em questão, talvez de forma irônica ou potencialmente punitiva, estava no grupo de Nihara Miyazaki.

    Aruni enfrentou a timidez e dirigiu-se ao Grupo Fênix. — Ehm, senhores, o que está acontecendo aqui? O que a Kurosawa falou… é sério? E… o-o que aconteceu com o garoto apoiado em você!?

    — Bem — formulava Akemi — pelo visto realmente teremos que enfrentar aquela garota pra que possamos salvar a Shimizu.

    — Isso mesmo, Arunizinha! E sobre o Minoru, ele tá-

    O ferido fraquejou: durante um curto gemido, seus joelhos dobraram e o corpo empalideceu. 

    — Suzumura?! — Alarmados, Akemi e Nikko se assustaram. A que se servia de apoio segurou com mais força.

    A batalha que ainda nem havia começado entrou em uma encruzilhada desesperadora.

    Eu… tô… sem forças… — o rapaz mal falava.

    Aruni apertou o coração. — O-o que ele tem!?

    Akemi buscava foco apesar da preocupação. — Ele teve uma perfuração grave no peito, cauterizamos o sangue mas agora voltou a jorrar!

    A diversão que sempre acompanhava Nikko não estava mais presente. — Essa não, ele tá perdendo a consciência… Ruivinha! Você sabe o que é isso!?

    Mayumi seguia meditativa, mas não ignorou a pergunta. — Como previsto, o efeito da minha aura está passando.

    — Então faz de novo! Use sua aura de sangue! — exigiu Akemi.

    — Infelizmente não posso — a calmaria continuava alheia à desorientação do pedido — se eu usar mais, há risco do meu sangue se tornar um corpo estranho para ele, o que trará complicações piores. Ele precisa de um médico de verdade.

    Nikko tratou o fato com escárnio. — Argh, quem disse que o mundo ainda precisa contar com samurais… — Uma solução era procurada. “Mesmo sendo uma lutadora de família nobre, não posso ajudar alguém em estado tão grave. Nem todo dinheiro do mundo poderia salvar uma vida em riscos tão complexos… Mas mesmo que eu não tenha habilidades médicas, não vou desistir dele!” Ela mordeu os dentes de ansiedade, esperando qualquer coisa indicasse vestígios de esperança. — Aguenta firme, Minoru! Vamos arrumar um jeito de te ajudar!

    Porém, qual seria a salvação correta ali, no meio daquele tão chamado “inferno congelado”?

    A alternativa correta certamente seriam os médicos da instituição, mas pelo olhar cético de Hisako, nada seria paralisado até que alguém desvendasse o desfecho do desafio.

    A solução, estritamente, estaria em um dos alunos… 

    Combatendo o tremor visível em suas mãos, Aruni ajoelhou-se perto do problema, e quando examinou as ataduras improvisadas amarradas no torso de Minoru, algo dentro de si se concretizou. — Senhorita Ichikawa, por gentileza, sente-o e tire este pano do peito dele. Você, ajude também — sua voz não soou receosa — vou tentar salvá-lo.

    Akemi e Nikko surpreenderam-se com a mudança de semblante da outra, mas não reclamaram.

    Minoru foi deixado sentado, apoiado pelo tronco da áurica do vento. Em sequência, os outros dois de seu grupo cuidadosamente desataram o tecido encharcado de sangue.

    Aruni abriu os olhos quando viu o ferimento. Não de medo: concentração. “Impressionante, nenhum ponto vital foi acertado. Por um milagre, esse garoto teve a maior sorte que poderia. Um centímetro acima ou um centímetro abaixo seria fatal… S… S-será que eu consigo?” Por um momento, a velha insegurança ameaçou o retorno, mas a urgência a esmagou.

    A tímida talvez não nascera para que fosse uma combatente nata, aparentava fragilidade comparada aos outros, entretanto, sabia de uma coisa: assim como os que se importavam, ela não deixaria um colega morrer ali. — Eu consigo!

    — Tem certeza disso? — perguntou Akemi, aflito.

    Aruni estendeu as mãos sobre o peito ensanguentado e inspirou fundo, afastando a sombra da hesitação. “Eu posso fazer isso nessas condições. Sim, eu posso!” Mesmo que o tempo não estivesse a seu favor, manteve-se a calma.

    Minoru resfolegou e sua visão lhe trouxe fendas turvas; segurando-o, Nikko chamava por sua consciência, tocando seu rosto com ternura. — Ei, olha aqui, aguenta firme…

    — Precisamos ser mais rápidos.

    — Só mais um instante! — pediu a jovem concentrada, de maneira mais firme do que esperava. Sorrateiramente, a palma de sua mão ganhou uma luz rosa pálida como pétalas de hibisco1, rodeada por pequenos pontos luminosos como vaga-lumes.

    “Que bonito… é mesmo uma aura de cura!?” pensou Akemi, imaginando as capacidades daquele tipo de habilidade que via pela primeira vez. 

    Nikko brilhou os olhos, impressionada; a inveja saudável foi quem a acalmou. “Que injusto… Eu também queria poder ajudar assim… Não, Nikko, não é hora pra isso! O que importa é que essa técnica funcione!”

    O ferimento visível entre o rasgo da roupa reagiu ao toque brilhante de Aruni: a carne dilacerada pulsou, e com uma lentidão quase mágica, provocou a união dos tecidos pouco a pouco.

    Aruni forçou as sobrancelhas, suando pela testa. “Vamos, feche… feche por favooor…” A aura recebeu mais foco, e então, diante dos olhos perplexos de Nikko, a ferida se fechou por completo.

    A respiração de Minoru retomou o ritmo tranquilo.

    Aliviada, Aruni passou as costas da mão na testa. — Ufa, consegui — seus olhos subiram até Nikko, que ainda permanecia incrédula pelo novo estado do garoto que apoiava. Não sobrou sequer uma cicatriz.

    — Como se sente, Suzumura? — perguntou Aruni, curiosa. 

    Repousando, Minoru apertou os lábios. — Hmmm… sério, me sinto ótimo!

    — Que bom! — Animado, Akemi aproveitou e interrogou: — Mas diz aí, como é a sensação de ser salvo por uma aura de cura!

    O recém-curado se afundou brevemente no suporte confortável que tinha. — Tipo, além de não sentir mais dores, me sinto como se estivesse com um puff gigante atrás da cabeça.

    — … Pera aí… A-ah — Nikko perdeu sua alegria para o rubor nas bochechas e levantou-se bruscamente. — O que tu pensa que tá falando, ô, menino!? 

    — O-opa! — Minoru quase caiu pela repentina falta de apoio, mas se manteve no reflexo. — Coé, isso é jeito de tratar um homem que acabou de escapar da morte?

    — Me poupe! Eu te carreguei esse tempo todo preocupada e você dá uma dessa?!

    — Tá bom, tá bom, foi mal… — o rapaz levantou-se, e sorridente, amparou um braço nos ombros da aliada emburrada que nem lhe olhava nos olhos. — Valeu pelo suporte, hihii.

    — Pessoal… — chamou Aruni — devemos mesmo enfrentar uma aluna agora?

    Animado, Minoru bateu os punhos e olhou para Nihara, a fúria em chamas. — Não sei como posso servir sem poder usar minha aura, mas com certeza tô pronto para ajudar aquele ali a acabar com essa palhaçada!

    — Aposto que ele não vai querer a nossa ajuda.

    — Quem disse isso? — O curado procurou pela voz serena e encontrou Teruo Kenzo.

    — Se tem algo que aprendi nessa jornada é que um Miyazaki jamais precisa de ajuda para sobreviver e evoluir. São mais fortes, mais rápidos, e altamente inteligentes… Ou pelo menos é isso o que o ilustre Senhor Nihara Miyazaki insiste em acreditar.

    — Hum, a sinergia de vocês durante o desafio deve ter sido interessante — ironizou Minoru.

    — Ah, se foi. Inclusive, ele ama me escutar — Teruo empinou o nariz e levantou a voz — e então, caro Miyazaki, meus deperecimentos já não tem chances de surtir efeito em você sem me causar efeitos colaterais. Está ferido e incapacitado de lutar sozinho. Vai aceitar o auxílio de seus companheiros, ou continuará se enxergando como um lobo solitário?

    — Cala a boca…

    — Vejamos! Parece que você reaprendeu a falar.

    Nihara virou-se em chamas e caminhou bravamente até Teruo. — Eu já disse pra ficar calado — a acidez em sua voz era a de alguém farto de tanto estresse. — Como imaginei, você e essa dupla de palermas seriam inúteis pra derrotar todos aqueles monstros e obstáculos ridículos. Vocês deveriam me agradecer por ter aniquilado tudo e carregado vocês até então. 

    Teruo seguia inexpressivo. — Fomos inúteis porque sua brilhante estratégia consistiu em nos relegar ao papel de espectadores enquanto você era derrubado por estruturas de gelo, até que por algum milagre, você escutasse os pontos fracos que eu identificava nos adversários desde o primeiro instante. Se tivesse a humildade de ouvir as minhas observações e principalmente respeitar as minhas habilidades de deperecimentos, já teríamos resolvido isso há muito tempo.

    Nihara mordeu os dentes, o egocentrismo perante tantas verdades contra as suas decisões era esmagado.

    Aruni notou o clima quente e tentou esfriar os ânimos. — S-Senhor Miyazaki, se os métodos do Senhor Kenzo não forem do seu agrado, eu posso tentar te ajudar de novo. E-eu prometo que não será doloroso e nem estranh-

    Ffu-wooff! — EU NÃO PRECISO DE AJUDA! — Labaredas explodiam enquanto dedos indicadores sobravam para todos os lados. — Eu não preciso de você, nem de tu, e nem daquele ali! NÃO PRECISO DE NINGUÉM AQUI! — Ele deu meia volta e preparou um salto. — VOCÊS VERÃO, DAREI UM FIM NISSO, AGORA! — Wooff! Impulsionado pelas chamas, seu corpo voou pelos ares rumo ao trono…

    — Credo — expressou Nikko ao rapaz do lado — por que será que aquele garoto é sempre assim?

    — Pois é, como consegue ficar perto dele? — complementou Akemi.

    — Uma longa história — respondeu Minoru, observando o fogo nos ares — apenas entenda que certas cobranças são tão pesadas que nos fazem agir como um touro cego em uma busca desesperada por reconhecimento, mesmo que o percurso seja um campo minado.

    Akemi estufou o peito e encarou o ígneo que voava ao longe. — Hum, isso sim é egoísmo. Que fique claro: por mais que ele deteste, não o deixaremos curtir toda a festa sozinho…

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