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    Chegando em casa já de madrugada, Kevyn empurrou a porta levemente, sendo recebido apenas pelo som abafado do vento lá fora e o eco do próprio silêncio. A escuridão do ambiente era cortada por um fio tênue de luar que escorria pelas frestas da janela; nenhuma voz, nenhum passo, nenhum cheiro de comida… só vazio…

    “Eu não almocei”, balançou a cabeça. “Não importa.”

    Caminhou lentamente até a cozinha. Sobre a pia, alguns poucos pratos esperavam indiferentes quanto à sua presença. Kevyn os encarou por um instante, depois arregaçou as mangas e começou a lavá-los.

    A água, quente para sua pele, escorria entre seus dedos com suavidade, contrastando com seus pensamentos metodicamente psicóticos. Lavou os pratos com cuidado; ele estava limpando, e limpando, e limpando…

    Enxaguou tudo e organizou sobre o escorredor. Só fim, observou as gotas escorrerem de suas mãos.

    Inspirando fundo, entendeu os dedos e manipulou o líquido que ainda os envolvia. Com um leve gesto, a água se desprendeu e caiu em forma de névoa até desaparecer no ar, deixando suas mãos secas.

    Sem pressa, virou-se e andou em silêncio até a forja.

    Como na última noite, Kevyn se entregou mais uma vez à forja, sem sono, apenas se deixando banhar-se do metal, do que estava por vir.

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    Outro dia amanheceu. Saindo de casa, o garoto encarou o sol e suspirou. “A única coisa que eu consigo ver é a energia, sem minha máscara? Não… um ‘Rei’ sem sua rainha não enxerga a verdade.” Em instantes, um portal de sangue surgiu e, atravessando-o, surgiu de frente ao beco.

    — Aqui mais uma vez, mas vou te fazer esperar um pouco — murmurou para a porta em sua frente e deu as costas, indo até o correio mais próximo.

    Diante do balcão, o garoto fitou o atendente de olhos semicerrados, como quem tenta atravessar a alma do outro com o olhar. Havia em sua postura superioridade, como um grande rei, quebrado, mas inabalável.

    Entretanto, o atendente não temeu seu olho, sustentou o olhar sem vacilar, indiferente a aquela tensão muda. Nenhum temor, sem hesitação.

    Notando a inutilidade de sua expressão severa, o príncipe relaxou levemente os ombros. Algo em sua feição parecia menos sombrio, menos carregado. De face neutra, mais ainda pesada, havia agora um resquício de serenidade em sua voz e gesto.

    Com a calma de quem decide confiar ao destino, ele puxou uma carta do interior do manto e a depositou sobre o balcão com cuidado, como quem deixasse algo sagrado sobre o altar; qualquer gesto em falso causaria um sacrilégio. Um ato simples, como se carregasse significado demais para ser feito com pressa.

    — Aí tem endereço, remetente e recebedor. Selos para prender os lacres e dentro tem uma carta de papel selada pelo… o que você tá vendo. — apontou.

    Juntando as sobrancelhas, o homem respondeu: — Por que você tá descrevendo tudo? Sou eu quem vou analisar, não tem perigo. Ele começou a olhar por todo o envelope.

    — … Ah… sim. — Mana começou a exalar de Kevyn.

    Após um tempinho de análise, o rapaz concordou com a cabeça e perguntou: — Twilight, né? O frete fica 80 centavos de grafo por causa da demanda e taxa.

    — Demanda, é? Pelo que eu saiba, Impel-Sister e Twilight são ligadas pela universidade; por que está tão caro?

    — Caro?

    O ambiente foi contaminado. — Eu sei o que está tentando fazer… apenas me dê o valor real.

    Não conseguindo sentir toda aquela presença, o homem suspirou e disse: — Olha, menino, Impel pode até ser sim ligada, e tals… mas Emerald é uma ilha; precisam transportar de avião ou navio, passar pela alfândega, ser analisado e, aí sim, mandada para a universidade. Eu não posso mentir; esse é o meu trabalho.

    Cerrando seus olhos, Kevyn suspirou de volta e respondeu: — O problema é que não se trata de transporte; a carta pesa menos de 100 gramas e o preço de frete é dado pelo peso, não pela distância, claro… isso é levado em consideração, mas acima disso, o peso do objeto e tamanho da embalagem também fazem diferença.

    Com seu argumento quebrado, o atendente começou a suar e então falou: — Tudo bem… tudo bem…

    — Calado! Eu sei muito bem o que tá acontecendo aqui, de que máfia você é? — Ele apontou para o rosto dele, com seus olhos arregalados.

    — E-eu n-

    — CALADO! Eu não quero ouvir desculpas, caso gaguejar, irei fatiar seu braço no mesmo instante.

    De repente, um silêncio mútuo surgiu. Outros trabalhadores, aos poucos, vieram a se aproximar, observando com curiosidade e desconfiança. Ali observaram aquele tumulto.

    Nervoso vendo que não havia qualquer forma de escapar daqueles olhos tão afiados, o suposto mafioso não se dispôs, mas foi brutalmente obrigado a recuar.

    Abaixando sua cabeça, ele franziu os olhos com força, prestes a chorar por não poder fazer nada; como se fosse morrer caso não fizesse o desvio daquela carta. Mas uma ideia brotou em sua cabeça.

    — Você ganhou… a entrega fica 5 centavos de grafo…

    Vendo-o finalmente se render, o ambiente voltou a se tornar normal, sem toda aquela densidade e tensão. De semblante leve, o príncipe recolheu sua Mana tão sufocante.

    Levando sua mão até sua bolsa dimensional, ele retirou uma nota de cem grafos e olhou para ele com misericórdia. Visando o bem, mas ainda desejando o mal, entregou a nota ao atendente e cerrou os olhos mais uma vez para o responder:

    — Fique com o troco, mas saiba, se fizer isso mais uma vez, seu pescoço rolará. Virou as costas e foi embora.

    Pegando o dinheiro entregue, o rapaz achou estar na maior sorte, e sorriu. Entretanto, no momento que ia guardar o dinheiro, dois de seus dedos não estavam mais lá; cicatrizados, eles não poderiam ser colocados de volta.

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