Capítulo 169 — Parte 2
Pé sobre o solo,
erguer do joelho,
passo à passo,
Night veio a estar,
Aquele ambiente plano, cheio de vida,
vida essa que ela poderia matar, só por existir, alí, uma culpa cercou.
Você deveria se matar de uma vez…
Uma voz ecoou dentro dela, uma vontade?
Aycity tomou-o, o que pretende?
A sua mente, fervendo em aceitação,
ela não tinha perdão.
Pode ser que você pense em vencer,
tomá-lo,
mas Aycity,
ao menos encostar você conseguirá.
Ao longe, um garoto cruzou o horizonte,
um movimento,
de baixo para cima seu braço ergueu,
então moveu,
acenou com um enorme sorriso no rosto.
— HEI! OLHA SÓ, QUEM VAI VENCER CHEGOU! HEHEHEHE!
Junto a ele, três monstros.
Humbra, Dayron e Serasaty.
Assombrada pelo desconhecido,
Night temeu as duas novas criações do garoto.
“Eu não preciso tomá-lo… ele é bobo, fofo e infantil”, ela sorriu.
Night estalou os dedos.
Em um estalo de segundo, um exército surgiu — milhares deles se estenderam pela planície, como um borrão negro que devorava o verde.
Era como se a própria terra tivesse apodrecido de dentro para fora.
A cada piscar, mais e mais corpos brotavam do nada absoluto, simplesmente aparecendo, ocupando o espaço como se estivessem ali o tempo inteiro, apenas esperando o momento exato para serem vistos.
Mas o pior não era a quantidade.
O pior eram os rostos.
Cada soldado de Night tinha o semblante morto e impassível… mas todos — todos — eram pessoas que Kevyn tinha matado.
Velhos, jovens, guerreiros, assassinos que estavam do lado errado,
monstros que mereceram a morte.
Estavam todos ali, repetidos em milhares, multiplicados como um castigo.
Como se a própria realidade tivesse decidido esfregar cada ferida não cicatrizada na cara de Kevyn.
Os olhos vazios encaravam-no com aquela ausência que era pior do que ódio.
Apenas existia um silêncio morto que corroía mais fundo que qualquer lâmina.
Cada rosto que ele reconhecia dava um tranco dentro dele;
cada memória enterrada surgia como se tivesse sido arrancada à força do fundo do peito.
Era como ser cercado por todos os erros cometidos ao longo de uma vida inteira… e Night sabia exatamente o que estava fazendo.
Ao lado da garota — suas armas principais.
De um lado, Absurdness,
do outro, Face Eater.
Ela olhou-o em superioridade, não havia necessidade de temê-lo.
— É só isso que você têm?!
— Humbra, Serasaty, aquelas duas são com vocês, Dayron, mate todos, sem discernimento, você vai ficar mais forte, por isso, mate todos eles, quando terminarem, venham até mim, vou precisar da ajuda de vocês.
— Certo!
Os três disseram ao mesmo tempo. Humbra então, entendeu aquela resposta: “Ele não sabia como seria, não é? Ótimo plano, pai.”
— Não vai me responder?!
De cabeça baixa, os olhos ressoavam, bastou um momento.
Ele então respirou fundo — não era de necessidade — mas brando, e calmo.
Na sua cabeça, um turbilhão, ele iria precisar usar tudo para vencê-la.
Então veio, apoiada em sua cintura, a bolsa.
Um leve balanço.
De maneira sútil, o príncipe abaixou seu corpo, sua mão bem em cima do cabo, o ar veio em ímpeto, carregado de algo maior que uma só reversão.
“Recentemente, eu descobri que não preciso tirar Kind inteira da bainha para usar o Shi no kage, basta um centímetro, então…”
O eco do seu silêncio, ele ergueu a cabeça, arregalou os olhos e gritou com todo seu corpo:
— ESPÚRIO —
Uma subdivisão subespacial quebrou, a matéria fora dividida, moléculas atravessando a Anti-Matéria, a quebra do mundo iniciou o profano.
Como um segundo preso no tempo,
agachado, Kevyn apareceu sem aviso.
O bom senso nunca poderia entender, e somente Night não se surpreendeu.
— Espúrio?
Ela já estava pronta.
Punhos erguidos, calma e muita atenção.
Um semblante melancólico carregou.
Então, o garoto sua espada encaixou.
— Shi n-
Interrompido.
Night avançou com tudo, sua mão reta, pronta para o degolar.
Kevyn defendeu com sua palma e ergueu-se.
Ela recuou.
“Você não pretende deixar usar minhas técnicas”
Após perceber que o garoto não sentiu efeito algum, ela rapidamente amplificou sua força.
O ar em volta dela tremeu.
As veias se iluminaram como pequenos fios elétricos sob a pele.
O mundo pareceu recuar — um segundo apenas — para então ser arrancado para frente.
Então veio, numa fração mínima, menor que um piscar, o impacto.
Um som seco, profundo, que não deveria existir ao ar livre.
A pressão avançou em espiral, curvando o ar como vidro quente, latejando o espaço até virar um funil de energia que se fechou exatamente sobre ele.
Mas…
A força que deveria desintegrar uma parede apenas deslocou o cabelo do garoto para trás.
Em um giro puro, quase dançante,
Kevyn deslizou pelo golpe, não resistiu, não bloqueou; deixou a força passar como vento entre dedos e devolveu o soco com a mesma violência
que ele jamais admitiria ter usado.
O impacto dela era instinto.
O dele, técnica.
Sangue, carga, o chão.
Um estilhaço de vermelho riscou o ar antes que ela percebesse.
Seu corpo foi dobrado em si mesmo e arremessado metros atrás.
A força fora o suficiente para sua mente perder a noção de direção.
A aterrissagem não foi bela.
A grama cedeu sob seu peso,
a terra abriu um pequeno espaço
e o cheiro de ferro encheu sua boca.
Sobre a grama, a garota encarou o céu sem poder compreender… como ele, tão contido,
podia carregar uma força que nem ela
conseguia medir?
E pela primeira vez, o medo veio lento — não pelo golpe que levou, mas pela certeza de que ele não tinha mostrado nada ainda.
“Como ele ficou tão forte? Meu nariz tá sangrando…”
— O que você ficou fazendo enquanto eu estive fora? Pensei que tivesse ficado mais forte.
“Ele sequer me bateu com toda a força dele, eu vi você se contendo, está com pena de mim?”
Do canto de sua boca, o sangue escorreu. Lento, retilíneo e cruel.
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Entre os soldados de Night, uma sombra dançava em um brutal frenesi.
Não havia passos, não havia hesitação — o desenho feroz de um único ser atravessando um mar de corpos putrefatos.
Com o giro latente de sua foice, Humbra avançou.
A lâmina descrevia arcos amplos e girava tão rápidos
que deixavam riscos pálidos no escuro, como se cortassem não apenas carne, mas a própria luz.
De forma dançante, sua arma acompanhava seu corpo.
Cada giro parecia coreografado,
cada inclinação de ombro mudava o ritmo da matança,
e cada avanço marcava o solo com mais um colapso seco.
Os mortos-vivos vinham em ondas, milhares, empurrados por seu próprio peso, caindo uns sobre os outros, uma muralha viva de braços apodrecidos.
Eles gritavam em guerra, arrastavam-se, mordiam o ar, mas Humbra não diminuía. Ele correu.
Corria como se o campo fosse infinito, como se não houvesse fronteiras, como se o próprio chão cedesse para deixá-lo passar.
Sua foice girava com ele, um círculo perfeito que abria espaço na multidão.
Cada giro de quadril gerava um golpe.
Cada salto, uma linha de corpos despedaçados.
Cada rotação, uma floresta de ossos cedendo sob o aço. Em meio ao caos, seu movimento era harmonia.
Livre de limitações, livre de peso, livre do medo que afogava os outros soldados. E com essa ausência de amarras, cada ataque vinha com sua própria liberdade.
E assim, um por um perfurou.
Mas, “um por um” era só uma questão de sequência, porque a contagem se perdeu após os primeiros cinquenta, depois cem, depois duzentos.
Os mortos-vivos caíam como trigo de uma colheita.
Metade nem chegava a tocar seu corpo; eram cortados antes mesmo de entenderem que estavam diante dele.
A terra escureceu a cada passo, empapada, quente, viva pelo sangue.
A névoa densa se misturava ao vapor dos cadáveres rasgados,
e Humbra continuava
girando, correndo, abrindo clareiras improváveis
em meio à maré de carne morta.
No final, sua silhueta já não parecia humana.
Era apenas um movimento, um único fluxo contínuo de velocidade, lâmina e destruição.
Uma dança.
Uma tempestade.
A morte em movimento.
Sua sequência foi interrompida abruptamente por um ser feito de músculos e ossos.
De cima para baixo, um ataque
impiedoso.
Como um trovão seco em dia de tempestade, Face Eater, como Moonside, com o arco impertinente de sua katana, trouxe necessidade.
Necessidade do esqueleto defender.
O impacto do seu colidir foi monstruoso, tão que o chão se partiu em cubos, elevando os mortos ao céu.
Naqueles pedaços de terra empoeirados,uma segunda sombra.
Irradiante, ela caminhou pelos blocos que voavam no céu como se a gravidade não fizesse a menor diferença para ela.
Saltando por eles — um por um — ela matou quem foi arrastado junta sem qualquer remorso.
Como pedido pelo seu rei, Dayron cruzou aqueles pedaços de mundo como um fóton,
matando todas as almas e
compreendendo o motivo de tudo que aprendeu com o treinamento dado pelo seu rei.
“Eles têm uma sinergia tão legal! Mas… não sei se consigo…”
Estagnada no mesmo lugar, Serasaty o chão encarou.
Ainda uma recém nascida, as memórias que seu pai e mãe lhe deram não a faziam sentir sede de sangue, apenas amor…
Coração palpitou.
A cabeça balançou.
Em volta de sua cintura um cinturão de núcleos,
seu cordão umbilical.
Ela o segurou e olhou para seus irmãos mais velhos, percebeu o jeito que Humbra lutava, seus olhos em uma calma absoluta puderam entender e compreender.
Não era o suficiente, mas ela faria ser.
O cinturão flutuante se transformou em uma foice, uma espada, um arco e uma faca.
Assim que percebeu seus poderes,
transformou-o de volta ao padrão.
“Essa é a arma dada pelo meu pai… chamarei de Hydromel enquanto ele não o der um…”
— Eh…
Os soldados de Night perceberam ela ali parada e dispararam em sua direção.
Levando aquilo a sério, ela ergueu o braço na altura do peito.
O movimento foi leve, então seus olhos cerraram. Quebrando sua máscara, um peteleco foi o gatilho para o que viria.
Seu dedo do meio se curvou, cravou no dedão, ela então soltou.
Debaixo dos seus pés um rastro se ergueu — primeiro como um silêncio, depois como um estrondo que rasgou o chão em duas metades.
O solo vibrou,
rachou,
e então o gelo explodiu para fora da terra como uma avalanche invertida, ascendendo em uma estalactite em proporção meteórica,
selvagem e afiada demais para ser natural.
O impacto foi instantâneo.
O ataque disparou em linha reta, impiedosamente atravessando todos os corpos mortos à frente sem a menor resistência.
Cada cadáver foi erguido num único movimento — um arrebentar violento, como madeira quebrando.
A sensação era de um cemitério sendo forjado em tempo real.
Um cemitério forçado, arrancado do chão com raiva.
O rastro continuou avançando, abrindo caminho como um relâmpago sólido.
O gelo se estendia em paredes, espirais, dentes, destruindo tudo o que tocava:
Carne,
pedra,
metal,
poeira,
lembranças.
O solo se partia em ângulos impossíveis, como se estivesse tentando se afastar de sua própria morte iminente.
E o frio… o frio era tão intenso que parecia cortar o ar.
Os mortos empalhados ficaram ali, imóveis.
Transformados em estátuas grotescas, sombras tortas congeladas em uma coleção de fins violentos.
O campo inteiro parecia ter sido tomado por uma floresta de gelo e ossos, todos apontando para o céu como se suplicassem por alguma coisa que nunca viria.
“Quem será essa tal de Absurdness?”
Ela suspirou.
Usando das memórias de sua mãe, ela fechou os olhos e usou algo que Aycity ainda não mostrou, a verdadeira essência de um arcanjo, o poder central do desejo de alguém. Serasáty consolidou sua emoção em uma bomba.
— Baam.
Ela jogou sua mão direita para frente e sorriu cinicamente, o arcar de seus dentes, belo, impassível.
Seu silêncio foi um prelúdio. Ali do lado, Absurdness observava quieta.
Como um sussurro da calma, uma tão suave, que trouxe a pior tempestade.
Antes, o gelo, aquela montanha de 23 quilômetros só de gelo.
Então, um raio caiu como um feixe negro, uma luz caiu — tão clara e forte, que derreteu tudo instantaneamente.
Mas não havia acabado.
Inesperadamente, uma grotesca e hedionda explosão subiu como uma nuvem viva,
uma coisa que não deveria existir,
uma massa pulsante de luz suja, fumaça negra e fogo que se contorcia em camadas.
O impacto não apenas sacudiu o solo.
Ele rasgou a terra.
A superfície abriu uma fissura torta, profunda, como uma boca querendo devorar o mundo.
Raízes arrancadas, rochas partidas, metal retorcido — tudo subiu e caiu ao mesmo tempo,
como se o próprio espaço tivesse perdido a noção de onde deveria estar.
Os soldados que estavam próximos não tiveram nem chance de gritar.
Foram desfeitos.
Desintegrados em fragmentos vermelhos, cinzas, poeira, sombra.
A onda de pressão arrancou membros, virou torsos ao contrário,
e a estalactite derretida explodiu em correntes líquidas que fatiaram o ar como lâminas ferventes.
A luz que veio depois foi ainda pior.
Um clarão branco, tão frio quanto o gelo que a precedera,
tão quente quanto o raio que a rasgara.
Um contraste impossível, um choque que queimava de um lado e congelava do outro.
Corpos se partiram no meio disso — alguns petrificados antes de explodirem,
outros evaporando em pedaços que nem chegaram a tocar o chão.
O estrondo final subiu numa espiral.
Uma coluna de vento e fogo se ergueu, retorcida,
como se um gigante invisível socasse o mundo de dentro para fora.
Cada segundo da explosão parecia durar mais que o anterior,
como se a força não estivesse só destruindo — estivesse saboreando a destruição.
Nada restou perto do epicentro.
Nada.
Nem ruínas, nem corpos, nem armas caídas.
O próprio ar parecia ter fugido, deixando um vazio sufocante,
onde a poeira se recusava a cair.
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