Índice de Capítulo

    Aperto.

    Um nó de carne, segurando quem nem acordou ainda. Observando e vigiando, suas íris glauco pela única fita de luz se infiltrando por uma rachadura vinda da janela.

    O azulado da escuridão silenciosa, assim como sua respiração, o corpo gelado de quem está ali consigo, sua aura emanando gelo…

    Soltando uma nuvem pela boca, ela assoprou-na sob Kevyn.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Kevyn balançou de um lado para o outro. Cada passo mais distante que o outro, as inúmeras árvores, seus sentidos se aguçando, sua cabeça girando, tremendo pelo o que poderia acontecer.

    Ele andou, calmo, o vento sussurrou desespero, mas a única coisa desesperada, era o vazio.

    Atrás de si.

    Animais o seguiam.

    Kevyn sorriu.

    Breve, pôde enxergar uma fortaleza, repleta de madeira de troncos de árvores próximas, alí virou um centro desmatado, sendo regido por uma imperatriz que nem reino tinha.

    Kevyn riu.

    Ao se aproximar, ela estava lá, esperando-no com tristeza no olhar.

    O garoto sentiu culpa nos olhos dela, mas não importava.

    O vento soprou seus cabelos, irresistível, seus olhos se fixaram um no outro.

    A confusão, o medo, tudo coexistiu, mas não podia ser verdade, as pernas da garota tremiam, seus olhos queriam chorar.

    Mas do outro lado, estóico o príncipe encarou ela — não como quem afronta, ou assusta, mas como quem acolhe e diz:

    Eu estou aqui.

    Ela arregalou os olhos no instante em que percebeu o cenário completo atrás dele.

    Os animais, bestas de mana — todos — vigiavam.

    Mamíferos parados como estátuas.

    Aves imóveis com asas semi abertas, congeladas no meio do movimento.

    Insetos alinhados no ar, como se o tempo tivesse sido gentil o suficiente para lhes conceder consciência.

    Nenhum se devorava.

    Nenhum fugia.

    Nenhum lutava.

    Eles apenas observavam.

    Como se fossem criaturas racionais demais para pertencerem à terra, à floresta, ao instinto.

    Como se uma única vontade — a dele — mostrasse cada músculo e cada pulmão deles à obediência.

    Night sentiu o estômago afundar.

    Mais uma vez, ela encontrou o olhar dele.

    Os olhos do garoto estavam baixos, semicerrados pela tristeza mansa que sempre o acompanhava, aquela melancolia que parecia viver dentro do peito dele.

    Mas não eram olhos frágeis.

    Não eram olhos que pediam.

    Não eram olhos que imploravam.

    Eles estavam firmes.

    Fixos.

    Quase imóveis, como se, com um único olhar, decidisse o destino de tudo ao redor — até dela.

    Naquele instante, Night entendeu com brutal clareza o que sua força significava diante dele: 

    Nada.

    Ela era forte, sim.

    Mais forte que muitos.

    Mais rápida.

    Mais afiada que a maioria das almas vivas.

    Mas ali…

    Sob o peso silencioso do garoto, sob o olhar que continha mundos, sob a presença que fazia animais esquecerem seus instintos primordiais…

    Pequena como um sussurro na tempestade.

    Pequena como uma fagulha diante de um sol em colapso.

    Pequena no tipo de maneira que não humilha — apenas revela.

    Ele não precisou erguer a voz.

    Não precisou mover um dedo.

    Não precisou mostrar poder.

    O poder simplesmente existia ao redor dele, saturando o ar, segurando a vida pelos ombros.

    E aquela melancolia suave em seus olhos…

    Era a única gentileza que ele escolhia oferecer.

    A única coisa impedindo que o mundo pudesse se ajoelhar.

    Depois de todos os crimes que Night fez, suas manipulações, todas suas artimanhas, assédios, perversões… ali — naquele momento — ela pagou por tudo que um dia fez.

    Presa na sua própria culpa, ela só teve forças para responder:

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Quando o sol chegou em seu ápice, quatro pratos de comida repousaram sobre a mesa.

    Um belo almoço. Mas, faltava alguém, faltava muitas pessoas, mas Kevyn sempre olhou para Humbra.

    Então comeram, um almoço leve e efêmero. Tão efêmero, que seria lembrado para sempre.

    — Kevyn, o que pretende fazer?

    Perguntou Gabriel.

    — Ah… eu quero lutar com a Night.

    O lorde sorriu.

    — Você sabe que não precisa dela, você já tem a-

    Calado.

    Kevyn franziu a testa e olhou-o em fúria por um momento.

    Percebendo que perdeu a compostura, o príncipe desviou o olhar e relaxou.

    — Gabriel, eu não me importo, ela é importante para mim.

    — Não precisa se explicar, a culpa é minha por tocar no assunto.

    Os olhos de ambos tocaram-se, leve, eles sorriram.

    — Kev.

    — Aya?

    — Nesses dias você só vêm treinando… queria que me ensinasse mais…

    Um desejo — sútil e leve.

    — O que quer que eu te ensine?

    Pergunta tão inocente, uma ingenuidade que nunca foi tirada dele, afinal…

    — Você sempre foi bom em matemática e essas coisas… me ensina qualquer coisa…

    Kevyn olhou-a e percebeu o quanto eram parecidos…

    O menino sorriu.

    Gabriel, Humbra e Dayron ouviram.

    Ouviram cada sílaba como se ela tivesse caído do ar com peso demais.

    Os três ficaram imóveis.

    Nem sabiam se tinham permissão para reagir, ou se um movimento brusco poderia estilhaçar o momento — ou o garoto.

    O príncipe foi o primeiro a falhar.

    A colher escorregou dos dedos dele e caiu no prato com um tilintar pequeno, mas soou como uma explosão dentro da mesa. Ele ergueu levemente as orelhas, surpreso demais para esconder.

    O pedido…

    Aquela frase…

    Aquilo que veio…

    Ele nunca, nem em sonho, imaginava o que ouviu. Nunca, em nenhuma possibilidade do futuro, pensou que alguém diria algo assim para ele — e muito menos que Aycity seria capaz de pedir aquilo.

    O choque veio como um calor rápido sob a pele.

    Quando conseguiu reagir, baixou a cabeça devagar e olhou para o próprio prato.

    Os olhos se arregalaram um pouco — só o bastante para admitir, silenciosamente, que aquilo o atingiu fundo demais.

    Mas o mundo inteiro, por um instante, se reduziu a duas pessoas.

    Aycity esperava a resposta.

    Esperava com o coração nas mãos.

    Esperava como quem entrega algo irreversível.

    E Kevyn…

    Kevyn sentiu tudo de uma vez.

    Sentiu o peito se desfazer.

    A alma estremecer.

    O mundo inteiro ser puxado para dentro dele, como se tivesse sido arrancado de todos os lugares e recolocado ali, naquela mesa de madeira antiga.

    Amor.

    Medo.

    Esperança.

    Pânico.

    Desejo.

    Vergonha.

    Pertencimento.

    Solidão demais para caber dentro do próprio corpo — e, ao mesmo tempo, o conforto absoluto de finalmente não estar sozinho.

    Ele não sabia onde pôr as mãos.

    Onde colocar o olhar.

    Como respirar.

    Cada parte dele tremia — não era fraqueza, mas sim o corpo, ele não estava acostumado com o que recebia. 

    Carinho demais. 

    Confiança demais.

    Proximidade demais.

    Era como se alguém tivesse aberto uma porta dentro dele que ele nem sabia que existia, e agora o ar entrava rápido demais, forte demais, doía e curava ao mesmo tempo.

    Aycity o amava.

    Ou algo muito parecido com isso.

    Kevyn sentiu a garganta fechar. Lacrimejou.

    Sentiu vontade de rir.

    De chorar.

    De fugir.

    De abraçar.

    De se esconder.

    De se entregar — tudo ao mesmo tempo.

    Sentiu que finalmente alguém o enxergaria de verdade.

    E isso o deixou tão pequeno, tão vulnerável, tão vivo, que doeu.

    Ele não estava preparado.

    Nunca esteve.

    Mas aquele amor…

    Aquele gesto…

    Aquela coragem…

    Era grande demais para ignorar.

    E por um instante, enquanto o silêncio pairava sobre a mesa, Kevyn percebeu que tudo dentro dele queria responder — mas não sabia como.

    Não sabia se merecia.

    Não sabia se podia.

    E ainda assim…

    Seus olhos tremiam.

    Seu corpo tremia.

    Sua alma pulsava em direção a ela.

    E Kevyn, completamente confuso.

    completamente destruído.

    completamente tocado… tentou encontrar palavras que nem sabia existir.

    — Aya… eu aceito…

    Naquele momento, Gabriel pulou da cadeira, Humbra também e Dayron, por sua vez caiu.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Esperando no lado de fora já arrumado, Kevyn olhou o horizonte suando frio. “Encontro… não é a primeira vez, mas… dessa vez é diferente!”, perdendo o foco por um momento, o cabelo do garoto, já negro, começou a oscilar entre o espectro e a escuridão.

    “Meu cabelo vai ficar branco perto dela! Que medo! Esse sentimento!”, ele desviou o olhar, fechou os punhos e encarou o sol com as bochechas vermelhas.

    “Estou fadado, cada segundo eu fico mais ansioso…”.

    Então como um estalo — o universo parou para respirar. 

    A porta se abriu, sem ranger, escondendo quem vinha detrás de seu outro lado. 

    Roupas tão normais quanto quaisquer outras.

    Era um encontro, mas não havia motivo para temer.

    Tremer.

    Ou ceder.

    Seus olhos verdejantes refletindo o gramado, o céu, o sol e a lua que veio a encontrar.

    Após ver aqueles olhos, Kevyn se acalmou. O toque gelado de sua aura o acalmou, era perfeito demais, até para ela…

    Então sorriu. Ela sorriu.

    Isso o fez sorrir também.

    「❍」

    “Nesses dias eu vim percebendo algo”, sendo segurado pela garota, ele se deixou ser puxado pelo caminho de pedras. “Quando ela chegou, ela parecia feliz demais, tanto, que pareceu irreal, mas agora, olhando tão de perto, eu vejo sua frieza”, ele segurou a mão dela firme, e então, os olhos esmeraldas o cercaram.

    — Kevyn!

    — Oi? 

    Ele inclinou a cabeça.

    — É como na primeira vez que nos conhecemos!

    Cada passo para fora da floresta tinha um peso próprio. O solo ia ficando menos úmido, e a luz começava a aparecer entre as árvores, primeiro como faixas finas, depois como pontos mais largos. 

    Aquelas mesmas faixas vinham e tocavam seus cabelos. 

    Aquela sensação era inestimável, a beleza que Kevyn via lá, era irreal, era quase perfeita, mas era por ser imperfeita, que era tão lindo.

    A cada vez que o pé dela tocava o chão, levantava um pouco de poeira seca — um sinal claro de que estavam realmente saindo do ambiente fechado e abafado de antes.

    Por um momento, ela sorriu de novo. Não foi um sorriso cheio, só um canto da boca que subiu o suficiente para mostrar que algo, mesmo que pequeno, a aliviou. Seus ombros relaxaram um pouco, e ela respirou mais fundo, como se estivesse testando o sabor do mundo lá fora.

    Tantos momentos tinham sido vividos até ali — brigas, 

    sustos, 

    decisões rápidas demais, 

    silêncios longos. 

    Tudo isso estava nela, nos pequenos gestos: o jeito cauteloso de olhar ao redor, os dedos que mexiam no próprio pulso, os passos um diferente do outro, nada calculados.

    Kevyn observou esses detalhes e sentiu o calor subir. 

    Não era só físico; era aquele tipo de calor que vem quando você percebe que está mais envolvido do que gostaria de admitir. 

    “Ela é tão linda… por que eu tô sentindo isso por ela?”

    E cedeu.

    Era pouco, quase discreto — mas real.

    Quando seus pés tocaram a grama da planície, o chão pareceu mais macio, quase acolhedor. 

    O caminho se abriu diante deles como um espaço que, finalmente, permitia respirar sem pressa. 

    As nuvens continuavam nubladas, espalhadas como um cobertor grosso no céu, e o ar frio carregava aquele toque úmido que só existe depois de uma chuva recente — mesmo que ela tivesse caído dias atrás. O cheiro de terra molhada envolveu os dois, trazendo uma sensação familiar.

    — Kev…

    Sem perceber, Kevyn acompanhou o passo dela com mais facilidade. 

    Não havia peso ali, nem hesitação. 

    Era como ser puxado por algo simples, tranquilo. 

    Cada movimento encaixava no ritmo do outro, como se essa aproximação fosse a coisa mais óbvia do mundo.

    Não precisava de palavras. 

    Bastava o som leve da grama sendo amassada, a respiração estável dos dois e aquela estranha sincronia que aparecia quando um deles olhava para o horizonte e o outro acompanhava, sem nem pensar.

    — O que, Aya?

    Kevyn deixou-se levar por isso.

    E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não o assustou.

    — Vamos para onde, primeiro?

    — Acho que não me lembro como andar por aí, que tal me mostrar o caminho?

    Aycity fez biquinho.

    Cheia de raiva, ela se agarrou no braço dele e começou a puxá-lo para longe.

    — Vamos comer ovos mexidos e tomar café num restaurante!

    「❍❍」

    Restaurante! 

    Ovos! 

    Café!

    — Kevyn, o que você acha dela?

    — Dela?

    Aycity e Kevyn se encararam por breves segundos. Através dos olhos dela, o garoto pôde entender o que queria.

    — Ah… quando a gente foi no cinema, não consegui deixar de… perceber o quão parecida ela era com o protagonista, sabe?

    — Verdade, né?! O autor não precisava matar ela, você não acha?! Ela seria uma boa tutora pra ele, poderia ensinar a lutar, usar seus poderes!

    Ela pareceu feliz em poder falar aquilo com ele, sua voz alta, quase ofegante de alívio mostrou aquilo.

    — Você não percebeu daquela vez, né?

    — Não… era por isso que você tava chorando e falando aquelas coisas?

    — Não, eu não sabia que a vilã era tão forte, acho que você tem uma visão diferente, não daria para eles fugirem…

    Mexendo seus ovos já mexidos, Kevyn tentou ver pelos olhos dela, mas não decifrou o que queria dessa vez.

    De maneira esperta, Aycity bebeu seu café e falou em alto e bom tom:

    — Se ela tivesse se juntado a defesa pública, talvez…

    O príncipe então veio:

    — Não acho que ela iria querer ficar encoleirada feito um animalzinho da defesa pública.

    Após uma breve observação, as palavras dele nunca fizeram tanto sentido. “Ela não queria só fugir da porta ambulante, não é? Também da União soviética”, 

    Aycity apoiou o queixo sobre sua palma e se entristeceu…

    — Ele é um bom autor de tragédia…

    Ela disse.

    — Acho que ela diria para você que a realidade sempre vêm, uma hora, ou outra.

    Ele disse.

    Tentando ver pelos olhos dele, a garota tomou outro gole de café. “É tão cruel… mas…”

    — Kevyn, o que você faria?!

    Ela o encarou.

    Os olhos de Kevyn brilharam no exato instante — não de surpresa, mas de reconhecimento.

    Ele sabia que aquela pergunta viria.

     Desde antes, desde muito antes. Era quase como reviver uma sensação antiga, como se uma parte dele já tivesse passado exatamente por aquele momento.

    Involuntariamente, a memória puxou uma escolha, não como aquela, mas ainda difícil. 

    Kelly e Night… 

    Duas pessoas que ele tentou proteger, duas pessoas que o destino, de forma cruel, arrancou dele. 

    Pensar nelas ainda o atravessava, mas agora era diferente. Não era mais uma dor que o paralisava — era algo que o lembrava de quem ele se tornou.

    Kevyn respirou fundo.

    E, então, sorriu de leve.

    Encontrou os olhos dela, sustentou o olhar sem fugir.

    E finalmente confessou:

    — Eu viraria o rato da cidade, mesmo que por um tempo. Afinal, se não controlarmos nossos impulsos, sempre vamos ceder e cair no veneno, não acha?

    — Hehe… um rei que não vê veneno, não vê a cura para todos, não é? Hehehe!

    Kevyn olhou no fundo dos olhos dela e lacrimejou.

    No instante em que ouviu, algo dentro dele se abriu. 

    A memória veio como um eco doloroso e doce ao mesmo tempo, trazendo junto tudo o que ele tentou deixar para trás.

    Desacreditado, ele piscou, e as lágrimas ameaçaram descer — rápidas demais, intensas demais. 

    Então, para não quebrar completamente, virou o rosto de leve, buscando um segundo para respirar. 

    Ainda assim, não conseguiu evitar o pequeno sorriso que escapou, frágil, mas verdadeiro.

    Um sorriso que dizia: Você não sabe o quanto isso me tocou.

    — Aya, para onde vamos daqui?

    「❍❍」

    Tantos passos.

    Tantas pessoas cruzando por eles, e a cada desvio, algo no ar parecia se abrir, como se o caminho inteiro estivesse desembalando uma nova camada do mundo.

    Aycity caminhava ao lado dele, libertando-se da própria frieza sem perceber — embora ainda a emanasse, como um halo invisível que fazia o ar brilhar levemente ao redor. 

    O cabelo branco de Kevyn captava a luz das ruas, reluzindo como um fio de neve arrastado pelo vento.

    Eles seguiam juntos, quase colados por pura vontade, ou pelo que quer que estivesse guiando seus passos.

    Na ida à praça, ele insistiu nos milk-shakes.

    Insistiu com um gesto simples, repetido, quase automático.

    E ela cedeu.

    As mãos dela seguravam o copo sem que o líquido perdesse forma. Nenhuma gota derretia. A temperatura ao redor de Aycity mantinha tudo imóvel, como se o tempo respirasse mais devagar próximo dela.

    Quando a atenção da garota se desviou por apenas um instante — um tropeço de foco — Kevyn se aproximou.

    Não houve aviso.

    Só movimento.

    A borda gelada do milk-shake tocou o pescoço dela, desenhando um ponto úmido na pele pálida.

    Aycity pulou.

    Um arrepio percorreu sua nuca, indiscretamente, impossível de não se perceber, mas suficiente para mudar o ritmo do momento. Ela virou o rosto devagar e franziu a testa, observando-o em silêncio.

    O milk-shake ainda tremia levemente na mão dele.

    A luz da praça se refletia nos olhos de ambos.

    E o ar ao redor parecia ter prendido o fôlego por um segundo mais longo do que deveria.

    — Meu corpo não é gelado que nem o seu, porcaria! 

    O garoto sorriu e encostou sua bochecha no ombro dela.

    “Eu sei o porquê ela me chamou pra esse encontro?”

    A cabeça do garoto se embaralhou.

    Os momentos passavam rápidos demais, como se estivessem sendo puxados para um ponto invisível, distante, impossível de alcançar. 

    Ele piscou — uma vez, duas — tentando acompanhar o que acontecia ao redor.

    Ela não faria aquilo.

    Faria?

    As luzes da rua se misturavam ao movimento constante da calçada.

    O chão respirava sob o peso dos passos.

    As conversas, os veículos, os prédios altos, as fachadas brilhantes das corporações… tudo parecia dobrar em si mesmo, como se a cidade estivesse os observando.

    Kevyn parou.

    Por um instante, o ritmo do mundo não combinou com o dele. As pernas vacilaram, o ar prendeu no peito, e a queda veio simples, silenciosa, inevitável.

    Aycity percebeu antes que ele tocasse o chão.

    Deixou-o escorar no próprio ombro, sem pressa, sem anúncio, apenas uma aproximação firme o suficiente para sustentá-lo enquanto a cidade continuava girando.

    Ela o carregou até a fonte, onde se sentaram em sua borda. O garoto segurou sua sobremesa com fraqueza, a garota percebeu. 

    Gota.

    Patéticamente ela arregalou seus olhos, aquilo era ruim, tão ruim que doía para ela, nela.

    Ela perguntou:

    Outra gota.

    O príncipe entrou em desespero.

    Foi imediato — um estilhaço atravessando sua respiração.

    Os olhos se arregalaram, grandes demais para a própria face, e a expressão inteira se contorceu em silêncio, como se algo dentro dele tivesse cedido.

    Devagar, muito devagar, ele abaixou o rosto.

    O olhar caiu para o chão, buscando qualquer sombra que pudesse escondê-lo.

    Os ombros se retraíram, o corpo curvou apenas o suficiente para apagar a própria presença.

    E ali ficou, encarando o piso, como se não ousasse levantar a cabeça de novo.

    Ela pegou a mão dele junto com o copo e guiou o canudo até a boca dele, ela observou-o sugar o doce e então levemente corou.

    Gota atrás de gota, a chuva começou como um aviso — suave, hesitante — até desabar de vez, pesada o bastante para borrar as luzes da rua.

    Aycity não pensou: agarrou o braço dele e 

    correu.

    O som do mundo virou um único rugido de 

    água.

    Os passos dela estalavam na calçada

    molhada, rápidos, urgentes, quase tropeçados.

    O ar frio cortava o rosto, a roupa pesava a cada segundo, e a rua parecia se esticar mais do que deveria, como se o quarteirão inteiro tentasse impedi-los de avançar.

    Eles atravessaram a esquina numa explosão de respingos.

    A chuva escorria pelos cabelos, pelos dedos, pelos olhos — tudo tremia ao redor, vitrines, carros, o chão brilhando como espelho quebrado.

    E então, finalmente, a cabine apareceu.

    Vermelha, perdida no meio da tempestade, como um abrigo esquecido.

    Aycity puxou a porta com força e praticamente empurrou Kevyn para dentro.

    Entraram de uma vez, batendo contra o vidro, respiração quente contra o ar gelado.

    A chuva continuou lá fora, golpeando o teto da cabine como se quisesse arrancá-los de volta para a rua.

    Mas ali dentro, por um segundo, só existia o barulho da água e o espaço apertado onde os dois tentavam caber.

    — Fuh~ eu fui conveniente?

    — Muito, Aya…

    Ela segurou-o contra a parede e sorriu.

    Cortes surgiram no braço de Kevyn, aos poucos ele ergueu sua mão para ela, seus olhos cerrando, sua face serena, fingindo tirar algo da boca, na sua palma uma flor de chamas azuis e verdes.

    — Uma rosa azul?

    — Aya, eu sei o que está fazendo, você acha mesmo que não entendi o que ela estava dizendo em russo?

    Um leve rubor surgiu no rosto de Aycity, a garota encarou-o sem temer e aceitou a flor com um sorriso de canto.

    — Desculpa, não serve…

    Ele desfez a flor e se curou…

    O som da chuva começou a embaçar seus 

    pensamentos 

    Naquele momento,

    ela se aproximou, tocou seus corpos e se apoiou nele.

    Ela se afastou rapidamente após perceber o 

    que fez.

    Respirando fundo, ela sorriu.

    O som do telhado sendo acertado diminuiu.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Já quase anoitecendo, os dois ficaram sentados no banco, altos o bastante para ver a cidade inteira se dissolver em luzes. 

    Lá embaixo, tudo se movia devagar — carros, sombras, janelas se acendendo uma a uma — enquanto o vento subia a colina e passava por eles como quem ajeita o mundo com as próprias mãos.

    As cigarras insistiam no mesmo canto, contínuo, 

    cheio, 

    acompanhando o céu que escurecia.

    Kevyn, meio perdido nos próprios 

    pensamentos, 

    seguia o movimento lá embaixo como se ainda estivesse no meio do dia que tinham vivido, tentando encaixar cada instante em algum lugar da cabeça.

    Ao lado dele, Aycity deixou o olhar escorregar para o horizonte, as pernas balançando devagar, quase imperceptíveis. E pensou:

    Um sorriso quase cínico desenhou-se no rosto dela. 

    Às costas dos dois, a igreja se erguia silenciosa, iluminada só pelo que restava do dia. 

    O ar carregava aquela calma pesada — a que sempre aparece antes de algo que ninguém quer admitir que está chegando.

    Sem dizer nada, Aycity se inclinou. 

    O movimento foi simples, contínuo, quase involuntário. 

    E então deixou a cabeça repousar no ombro dele, como se aquele fosse o único lugar que ainda fizesse sentido naquele fim de tarde.

    “Kevyn, como eu poderia ser sua Reze, se ao menos sei nadar?”, ela fechou os olhos.

    「❍❍」

    A noite chegou, eles estavam voltando para casa, mas Aycity ainda queria uma última coisa, seu corpo desejou aquilo, ela descobriu quem era, e sabia o que pediria.

    Ela avançou. 

    A base da camisa agarrou.

    E chamou sua atenção.

    — O-o que aconteceu?

    Ele perguntou preocupado.

    — Eu quero ir em uma escola, quero nadar com você! Me ensina a nadar!

    O garoto, nervoso, olhou para os lados, sorriu, e acenou com a cabeça.

    Então eles foram, Aycity já sabia a escola que iriam, cruzaram as ruas, quando chegaram, lá estava o local, preparado para ser invadido.

    Assim entraram.

    Pularam o portão com facilidade, passearam pelos corredores até chegar numa das salas.

    Encontrando um giz, ela sorriu e apontou para Kevyn.

    — Sente-se!

    Obedecendo, o príncipe se sentou na primeira cadeira da fila e espero ansioso. 

    — Vamos lá! Eh… quanto é…

    Ela escreveu “1+1 =”, no quadro.

    Ela continuou:

    — Quem sabe responder?

    — Eu! Eu! Eu!

    Kevyn ergueu o braço, esperando.

    Aycity começou a apagar o quadro, vendo o giz de desfazendo em pó, ela olhou pelo lado de fora. “Será que um dia, nossas memórias juntos vão se desmanchar como o giz?”.

    Kevyn fitou-na com um olhar de desafio, esperando para que pudesse se entreter. Ela percebeu.

    De todas as vezes, tantas pessoas, ele estava alí e se lembraria de tudo pelos seus olhos. Mas ela ainda estava com medo de algo.

    Confiança é um prelúdio.

    Coragem.

    Esperança e amor.

    — Sério?… Mas… você parece saber tanto…

    Ele viu nos olhos dela o seu desejo. Uma chama que não foi acessa por ninguém além dela mesma… algo, distante.

    Silêncio.

    Ela pegou o giz e segurou firme, na palma de sua mão, não só giz — mas a coragem de uma alma que queria dizer tudo o que tinha guardado até então. Um murmúrio seria necessário, mas era inabalável. 

    Mais de uma palavra, mais de duas — talvez milhares em uma, mas ainda assim, muitos pensamentos vieram com aquilo, o medo da recusa, o anseio da resposta, o fragmento da sua força, o giz quebrou, virou gelo sobre o quadro, mas ela continuou, mais e mais ela se esforçou e num escorregar de mãos, o final chegou, era perfeito o que havia escrito? Nem ela sabia, talvez estivesse torto, horrível, ela só queria uma resposta.

    A primeira palavra era a letra E, a segunda, U, a terceira estava separada, era a letra Q, em sequência U, E, R, O.

    Uma parada, e continuou com N, A, M, O, R, A, R. Parou, respirou e continuou com as últimas 4 palavras, V, O, C, Ê.

    Ela respirou pesadamente e encarou ele.

    Suas sobrancelhas baixas, ele pareceu congelar, por um momento, o frio pareceu vir dele, talvez seus olhos tivessem morrido, ficou cego por tudo que já aconteceu, ocorreu, seu corpo tremeu, mas dessa vez, algo parecia deslocado, diferente e, quando percebeu, talvez fosse cedo o bastante para conseguir voltar atrás.

    Ele olhou-a nos olhos e pôde ler o que estava sentindo.

    Ele franziu os lábios.

    Cerrou os olhos.

    Abriu a boca.

    — Eu aceito, mas prometa, prometa nunca morrer. Em hipótese alguma.

    Ele percebeu que ela foi a primeira pessoa a se declarar para ele.

    No fundo, sentiu que parecia mentira.

    E por fora, nada mudou.

    Ele ergueu-de da cadeira, caminhou até a garota e encarou-a nos olhos o mais perto que conseguia 

    — Você não acredita que elas têm poder?

    — Não é isso…

    — Então… o quê?

    — Eu não quero ser uma sina que você carrega como um fardo. Eu não preciso prometer para não morrer, eu estou aqui com você…

    Kevyn recuou o olhar.

    — Eu não quero que você morra…

    Os dois tocaram seus olhos mais uma vez.

    Aycity percebeu que não adiantaria conversar, então abraçou-o. “Ele tá tão perdido quanto eu, não é?”, ela cerrou os olhos em dor, mas retornou já que não poderia ficar mal.

    「❍❍」

    Casca vazia 

    Aycity arrastou, pegou a mão dele, puxou e puxou, ela estava feliz, mas não sabia o que sentir, ela puxou e puxou.

    Os corredores, as escadas, todas vazias, como um verdadeiro lugar abandonado.

    — Vamos! Vamos! Haha! 

    Ela puxou-o até o terraço, onde estava a piscina. 

    Ela passou pelas grades e quando chegou do outro lado, ela olhou para ele, e começou a arrancar as roupas de cima.

    Um momento, ele parou para pensar, no outro já estava nu, ela o convenceu rápido, já estava acabado.

    Ela gritou e esticou a mão para o alto, vendo-no nu, bem em sua frente.

    A mesma coisa valia para Kevyn, aquilo era estupidamente novo para ele.

    Então, a revelação bombástica:

    Ela pulou na água.

    Ele se aproximou.

    Kevyn entrou na água e sentiu seu corpo flutuar.

    Aycity parecia tímida, mas estava tentando se divertir mesmo assim.

    Aycity pegou na mão dele, 

    ela guiou pela água,

    mesmo sem saber nadar.

    ☁︎ ≫ ──── ≪ • ◦ ☁︎ ◦ • ≫ ──── ≪ ☁︎

    — Kevyn, uma vez eu ouvi em um dos meus desenhos favoritos; “Homens confusos, fazem mulheres doentes”.

    — Se ama, corra atrás. Você é um dragão, vai ter problemas com poligamia e essas coisas…

    — Ter mais de uma esposa, mas está tudo bem, você é um homem bonito que nem seu pai, vai atrair muitas garotas perigosas por aí!

    — Você acha que ama a princesa, mas um dia alguém vai te conquistar de verdade. Kevyn, geralmente só nos apaixonamos à primeira vista, quando achamos um amor verdadeiro, sabia?

    — Já aconteceu?

    — Hm? Realmente? Quem foi, hein? Diz pro seu paizão, hohohoho

    ☁︎ ≫ ──── ≪ • ◦ ☁︎ ◦ • ≫ ──── ≪ ☁︎

    Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Aycity — a primeira, do lado direito.

    Ela sorriu, esticou suas mãos um pouco acima da água, como se estivesse oferecendo algo,

    Se oferecendo.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota