Capítulo 141 - Investida II
Brigitte ergueu o rosto e os olhos violetas brilharam por trás da máscara, ofegantes, firmes e teimosos. Ela sabia que estava perto do limite, mas não tinha o luxo de recuar. Assim que deu um passo para frente, sentiu duas presenças às suas costas. Niko e Evelyn correram até ela, quase escorregando sobre os fragmentos de gelo e madeira espalhados pelo chão. Os cabelos balançavam freneticamente ao vento, junto aos dela.
— Brigitte! — chamou Evelyn, aproximando-se com cuidado. — Você tá-
— Tô! — cortou ela, direta, segurando a máscara com a mão boa, segurando a lança com a axila enquanto endireitava a postura. — Tô bem. Só… cansada.
Niko analisou o estado dela em um segundo. Ele viu a respiração pesada, o braço enfaixado tremendo e a perna trêmula. Ela estava no limite. O coração do garoto apertou, mas ele não deixou demonstrar. O importante era focar no chefe.
Um estalo seco no ar chamou a atenção dos três — uma rajada curta de vento bateu contra o piso, levantando poeira e restos de mesa. Kael estava se aproximando deles. Silencioso e ameaçador. A peça mais poderosa do tabuleiro.
— A conversa de vocês acabou? Espero que sim. — disse ele, sem mudar de expressão.
O chefe deu uma única troca de olhares para cada homem e eles entenderam de imediato o que se precisava fazer. Os capangas restantes avançaram logo atrás dele — cinco ao todo — dispostos a morrer pela ordem do chefe. Dois homens comuns avançaram de frente, o tatuado veio pelo lado — sua munição havia acabado —, e os elfos, dessa vez, foram em um ataque direto.
— Vamos. — disse Niko, puxando Brigitte pelo pulso. — Não temos mais tempo.
Então, depois dessa breve pausa, a luta recomeçou, com os três avançando juntos em direção aos criminosos. Ambos os lados estavam cansados, Ambos os lados estavam cansados mas ainda assim ninguém recuou.
Os capangas lutavam como se estivessem movidos por desespero e instinto de sobrevivência. Niko e Brigitte, mesmo exaustos, mantinham o foco e a velocidade no máximo. Já Evelyn tremia a cada movimento, o pulso pulsando de dor. O único que parecia não demonstrar fatiga alguma era Kael. O chefe estava de pé como uma estátua, firme, respirando fundo, mas controlado — e o vento ao redor dele oscilava com a mesma intensidade de antes.
A elfa ergueu uma parede fina de gelo para separar o tatuado dos demais — não para prendê-lo, mas para quebrar a formação. Brigitte correu pela direita, desviando dos dois elfos que tentaram atingi-la ao mesmo tempo, deslizando pelo chão e se levantando com a lança pronta.
Niko arremessou uma faca para o chão, ativou o Portal e surgiu atrás de um dos homens comuns, derrubando-o com um golpe seco no pescoço. Reapareceu do outro lado da sala e atacou o segundo com a haste da foice, usando a arma como um bastão, golpeando rápido, e de forma não letal, os inimigos.
A abertura que Kael esperava finalmente surgiu. Ele ergueu os braços e os cruzou diante do próprio peito em um “X”, com o ar ao redor dele girando como lâminas prontas para devorar tudo à frente.
— Por que vocês só não morrem logo? — questionou ao mundo, com raiva, cerrando os dentes.
No segundo seguinte, abriu os braços com violência. A explosão de vento viajou como lâminas, arremessando pedaços de madeira e gelo contra o trio e até mesmo contra alguns dos próprios capangas.
Os dois homens comuns foram atingidos no ombro, criando um grande corte, espirrando sangue para todos os lados. Os dois caíram duro no chão, fracos demais para continuar a luta.
Brigitte conseguiu rolar para a esquerda, Niko lançou uma das facas para o lado, ativando sua Alma, desviando por pouco, mas Evelyn não teve tempo. Quando os olhos atingiram a barreira de vento, percebeu que iria ser atingida pela lâmina de vento. Só restava uma alternativa se não quisesse morrer ali mesmo, e assim o fez.
Cruzou os pulsos, forçando sua Alma a se materializar em uma grossa barreira de gelo, uma das mais fortes que criou desde o início da luta. O gelo mal se cristalizou antes do ataque de Kael bater contra ele, rachando o cristal e batendo contra a elfa direto no peito. Ela voou dois metros para trás e caiu de costas, tonta, tossindo, o rifle escorregando de sua mão.
O último dos tatuados viu a queda e seus olhos se encheram de ódio. Mesmo mancando correu até ela com toda a força que havia em suas pernas. Era o momento que estava esperando.
Ele subiu em cima da elfa, segurando a faca com ambas as mãos, mirando diretamente no peito dela.
— Isso é pelo líder, sua desgraçada! — rosnou, cheio de ódio.
Evelyn ergueu o antebraço para tentar bloquear, mas estava com os reflexos lentos, atordoada pela pancada. A lâmina desceu em uma estocada mortal. Os esforços dela eram inúteis, pouco a pouco a faca descia em direção ao seu coração— e Evelyn sabia que, daquele jeito, não conseguiria impedir o golpe por muito mais tempo.
— Evelyn! — gritou Niko, do outro lado do salão.
Ele lançou uma das facas no mesmo instante. A lâmina percorreu no ar e acertou o pulso do homem, desviando a trajetória da estocada. Antes mesmo que o tatuado pudesse recuar, Niko surgiu ao lado dele e desceu o bastão da foice com toda a força no maxilar do inimigo. O impacto ecoou como um estalo seco, e o homem caiu de costas no chão, desacordado.
Evelyn deu um grande suspiro de alívio e se ergueu com dificuldade, respirando alto, a mão pressionando as costelas latejando de dor. Brigitte se aproximou correndo, tropeçando levemente ao parar.
— Vocês dois tão inteiros? — ela disse, arfando.
— Nem perto. — respondeu Evelyn, tossindo. — Esse cara vai acabar matando a gente assim. A Alma dele não acaba não?
— Melhor a gente acabar com isso logo. — disse Niko.
— Concordo… — falou a luminar, curto. — Vejo vocês daqui a pouco.
Em seguida, a garota avançou para frente como um trovão roxo. Brigitte ignorou completamente os elfos e o restante dos capangas feridos. Nem sequer olhou para os dois elfos enquanto eles avançavam pelas laterais, ela simplesmente saltou por cima de um deles e correu direto para Kael, como se o resto do mundo tivesse deixado de existir. Tinha que acabar com aquilo logo.
A luminar avançou com a velocidade extrema que ainda conseguia produzir, os músculos imploravam para parar, mas ela continuava correndo mesmo assim. O chefe já levantou a mão novamente para impedir a investida. Brigitte quase chegou nele quando um vendaval subiu como um martelo invisível, acertando-a com uma força absurda.
Ela foi arremessada para trás de forma desastrosa. O corpo dela girou no ar antes de cair violentamente de barriga no chão. Um som grotesco ecoou alto pelo salão, como um estalo de madeira quebrando.
— ARRRRRRGGGGGGHHHHH!!!!
Um grito de pura dor escapou pela boca de Brigitte quando o braço enfaixado dobrou. Um segundo estalo veio logo depois, confirmando o pior: seu braço havia quebrado novamente.
A respiração de Brigitte ficou fraca, presa, dolorosa, mas antes de desabar por completo ela, segurando o grito e os gemidos de dor, ergueu a mão boa e lançou a faca de Niko com toda a força restante. Uma energia roxa passou pelo corpo e a lâmina voou ainda brilhando em roxo, atravessando o ar como um raio. No instante seguinte, a garota desabou a cabeça no chão.
Kael estava surpreso, nem esperava que ela tivesse forças para isso. A faca passou raspando pelo rosto dele e abriu um corte fino na bochecha, tão fino que parecia feito por uma navalha mágica.
O chefe levou a mão ao ferimento por puro reflexo, tocando o sangue quente, levando-o para a frente do rosto. Observou o sangue com alívio e decepção.
“Ela errou o ataque… que patético…”, disse mentalmente, exibindo um sorriso leve.
E então, antes que pudesse saborear ainda mais aquele gosto, sentiu algo frio e gelado, uma lâmina metálica pressionada contra seu pescoço. Quando percebeu, já era tarde. Niko estava atrás dele, ofegante, segurando Kael pelo ombro com o braço esquerdo, enquanto a foice encostava na pele dele com precisão mortal.
— Usa sua Alma e eu abro teu pescoço. Agora. — rosnou Niko, com a voz grave e firme.
Suas íris estavam completamente contraídas. Seu olhar era de puro ódio. Ele não hesitaria em matar aquele homem caso o desobedecesse.

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