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    O ar no Terminal Via Áurea era denso, uma grande estrutura de metal aparente, carregado com o cheiro metálico de engrenagens e o vapor branco que escapava das locomotivas, misturando-se ao ar quente de tarde. O movimento ali era frenético; algumas dezenas de trabalhadores com uniformes cinzentos moviam-se como formigas em uma grande colmeia, carregando caixas e empurrando carrinhos entre o complexo.

    — Mantenha a postura. — murmurou Gwen, ajeitando a gola do uniforme de manutenção que parecia, de alguma forma milagrosa, ajustar-se perfeitamente ao seu corpo. — Só precisa manter a calma e fazer o que ensaiamos. É fácil.

    — É mais fácil falar do que fazer. — respondeu ela. — Que uniforme horrível de se usar…

    Brigitte bufou, desconfortável. O casaco de operária era pesado e pinicava sua pele, mas ela mantinha o braço direito — ainda enfaixado — estrategicamente escondido sob a aba larga do tecido. Sem sua lança, sentia-se mais indefesa, mas sempre que lembrava das palavras de Leon — “um cavaleiro não precisa de nada além de um coração puro para derrotar a escuridão” —, uma coragem e determinação brotavam de dentro dela.

    À distância, escondidos atrás de uma pilha de caixas usadas, do outro lado da rua, estavam Niko e Evelyn, observando. Niko mantinha a gola do casaco erguida, os chifres ainda à mostra, calmo e concentrado em cada movimento das duas. Evelyn, por outro lado, parecia lutar contra a gravidade, apoiando-se pesadamente em uma viga de metal enquanto tentava manter um olho aberto.

    As quatro canecas não foram uma boa ideia”, pensou ela — esquecendo do fato que havia tomado cinco canecas de chope, não quatro.

    Niko e Evelyn não foram juntos de Gwen e Brigitte até o portão principal propositalmente. Quatro pessoas, incluindo dois estrangeiros, tentando entrar juntos seria um convite para um interrogatório detalhado. O plano era simples: as duas nativas abririam o caminho, enquanto Niko usaria sua Alma para infiltrar o restante do grupo.

    No portão, um guarda de rosto quadrado e olhos cansados se levantou de um banquinho ao lado do portão, barrando o caminho de Gwen e Brigitte. Em suas mãos, levava uma caneta esferográfica, um lápis, borracha e dois carimbos em uma das mãos, e uma prancheta de madeira clara na outra. Suas mãos eram enormes, combinando perfeitamente com seu olhar fechado.

    — Nunca vi vocês antes aqui. De qualquer jeito me passem a identificação e registro de turno. — resmungou ele, sem sequer levantar o rosto da prancheta.

    — Boa tarde, senhor. — Gwen sorriu, uma expressão de pura inocência que faria até um santo desconfiar. Ela estendeu um envelope amarelado em direção ao homem. — Viemos aqui para o bico de reforço na logística. O Guillem nos indicou. Ele disse que a equipe precisava de braços fortes hoje para o carregamento da Zona Sul da cidade.

    O guarda parou. Ao ouvir o nome de Guillem, ele finalmente ergueu os olhos, analisando o certificado de indicação com desleixo. Seus olhos vagaram até Brigitte, que permanecia em silêncio, tentando parecer uma “moça do interior” em busca de moedas — papel sugerido por Gwen.

    — Guillem, é? Aquele sonegador ainda me deve uma rodada de cartas. — o guarda deu um sorriso torto, antes de encarar Brigitte com desconfiança. — E quem é a baixinha aí? Ela parece que nunca segurou uma caixa de carga na vida com esses bracinhos aí.

    — É uma amiga que conheci recentemente. — Gwen respondeu rápido, dando um tapinha amigável, e levemente forte demais, no ombro de Brigitte. — Veio do interior, no norte do país. Coitada, a família perdeu tudo na colheita e ela precisa de trabalho. É forte como um touro, eu garanto.

    O guarda deu de ombros, carimbando o papel com um estrondo seco.

    — Se o Guillem garante, eu não me importo. Só não causem problemas. Entrem pelo portão lateral e apresentem-se ao gerente do turno.

    — Entendi, senhor. Muito obrigada! — disse Gwen, acenando uma vez com a cabeça.

    — Muito obrigada também, senhor. — agora Brigitte, fazendo um gesto de erguer baixo uma saia invisível, abaixar um pouco a cabeça, e cruzar o pé direito atrás do esquerdo.

    Assim que as duas atravessaram o limite do pátio, Niko percebeu que estava na hora. Eles não precisavam de papéis para entrar. Quando as duas atingiram um ponto cego da vigilância, ele tocou o ombro de Evelyn, que soltou um soluço baixo.

    — Se segura. — ele ordenou.

    Em um único instante, estavam dentro do terminal, ao lado de Brigitte, Gwen e as dezenas de pessoas que trabalhavam incansavelmente para manter o terminal em funcionamento.

    — Onde… onde tá a cerveja? — Evelyn murmurou logo depois que foi puxada pelo Portal.

    Niko não respondeu. Ele estava ocupado demais absorvendo a escala do Terminal Via Áurea. Se de fora o lugar parecia grande, por dentro era um ecossistema próprio de ferro e fumaça. O teto, sustentado por arcos de aço gigantescos, era tão alto que as nuvens de vapor das locomotivas pareciam formar uma neblina artificial no topo. O som ali era ensurdecedor, repleto de ranger de correntes, apito de máquinas e gritos de aviso por todos os lados.

    — É enorme… — Brigitte deixou escapar, a mão indo instintivamente para onde sua lança deveria estar. Como não encontrou nada, apenas coçou a nuca. — Até maior que o que foram em Reiken. Como vamos encontrar qualquer sinal do dríade aqui dentro?

    — Nos separando. — Niko disse, de voz firme apesar do caos sonoro. — Precisamos cobrir terreno o mais rápido possível. Brigitte, vai para o carregamento pesado. Evelyn, a triagem. Gwen e eu vamos circular de lados opostos.

    — Heh? Mas e…

    A dispersão foi tão de repente que, antes mesmo de Evelyn conseguir formular qualquer argumento contrário, o fluxo da multidão de operários a empurrou para um lado, enquanto Brigitte era arrastada por um grupo de carregadores para outro, e Niko e Gwen estavam andando em volta dos vagões do outro lado do terminal.

    Em segundos, a elfa se viu sozinha. Um dos funcionários lhe entregou uma prancheta que não sabia ler, repleta de números.

    — Ma-ma-mas o quê? — disse ela, olhando de um lado para o outro, confusa na multidão.

    No setor de logística pesada, o ar era mais quente e cheirava a suor e graxa velha. Brigitte foi empurrada para perto de uma plataforma onde cinco homens — quatro humanos e um híbrido, grandes e de músculos aparentes — encaravam um caixote enorme de carvalho reforçado com arestas de ferro. A frente do caixote, havia um vagão vazio. Estava óbvio seu trabalho ali.

    — Ei, mestre! Mandaram reforço! — gritou um dos operários, soltando uma gargalhada rouca ao apontar para Brigitte.

    O supervisor, um homem com o pescoço da largura de um tronco, olhou para a garota de cima a baixo. Ele viu o uniforme largo, o braço enfaixado escondido e o rosto jovem.

    — Isso é reforço ou é piada? — o homem deu uma breve risadinha irritante. — Escuta aqui, garotinha, quem quer que te mandou aqui deve estar ficando caduco. Isso aqui é carga de verdade, não é entrega de flores. Vai ajudar na cozinha ou ajuda na limpeza, aqui você só vai quebrar o outro braço, não é, não?

    Os outros riram, voltando a fazer força na caixa que mal se mexia. O orgulho de Brigitte foi ferido naquele exato momento. Ela sentiu as bochechas queimarem, não de vergonha, mas de uma indignação pura que fervia na pele.

    Quebrar o outro braço? Eles não tem ideia do que eu posso fazer…

    — Saiam da frente. — disse ela, com a voz baixa, mas carregada de uma autoridade que fez o riso de um dos homens morrer na garganta.

    — O que disse, boneca?

    Brigitte não repetiu. Ela caminhou até o caixote. O mundo ao redor dela pareceu desacelerar enquanto sua Benção despertava de sua alma. Mesmo com o braço quebrado, não hesitou em nenhum momento. Quando suas mãos tocaram a madeira fria, uma onda de choque invisível percorreu seus músculos.

    Com um único movimento fluido e potente, Brigitte ergueu o caixote acima dos ombros. O peso, que exigiria um guindaste para ser levantado, parecia nada nas mãos da Luminar. Ela caminhou com passos firmes até o vagão de destino e depositou a carga com um baque seco que fez o chão de metal balançar por alguns segundos. Todo aquele espetáculo foi feito em menos de um segundo.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os operários estavam estáticos, com as bocas abertas. Brigitte limpou uma poeira inexistente do uniforme e virou-se para eles. O brilho desafiador em seus olhos roxos era o de uma vitoriosa absoluta contra aqueles que duvidaram de seu potencial.

    — Mais alguma coisa, ou vão ficar aí parados só olhando?

    Um aplauso solitário começou no fundo, seguido por uma explosão de vivas e assobios. Os homens que a zuaram agora batiam palmas com força, impressionados pela demonstração de poder.

    Brigitte sentiu a adrenalina subir e, deixando o disfarce de lado por um momento, entregou-se ao espetáculo. Ela segurou as pontas do casaco de operária como se fosse um vestido de gala e fez uma reverência profunda e dramática, inclinando a cabeça como a estrela principal de um teatro de Daurlúcia.

    — Obrigada, obrigada! — exclamou, com um sorriso radiante que iluminou o pátio inteiro.

    Enquanto Brigitte recebia sua ovação, Evelyn estava em um tipo de inferno bem diferente. Ela vagava pelo setor de triagem, com a prancheta debaixo do braço, tentando não vomitar nos sapatos de ninguém com o álcool subindo a cabeça.

    — Onde é que aquele desgraçado se meteu? — resmungava, cambaleando levemente a cada passo. — Eu vou congelar os chifres dele quando achar aquele moleque…

    De repente, ela sentiu um impacto firme. Evelyn ricocheteou em algo sólido e quase foi ao chão, sendo segurada pelos ombros por um homem de terno cinza que parecia muito, muito apressado.

    Viatge d’urjensa! On s’es lo mèstre di carga?! Jo dis ja, aquò brusa! Per la lutz viva, perqué degun non m’ajuda?! — o homem sacudia um documento oficial na frente do nariz dela, com os olhos esbugalhados de urgência.

    Evelyn piscou, processando o luminárico como se fosse uma língua de outro planeta.

    Viage? mestre? O que esse cara tá falando?”, pensou, com o pânico subindo pela garganta.

    Ela olhou em volta e percebeu que outros funcionários estavam começando a olhar. Ela não sabia luminárico, se falasse qualquer coisa, saberiam que não pertencia àquele lugar em um segundo.

    Respòn-me, novita! Tu m’ausís pas, sorda?! Tu vis… — continuou o homem, falando sem parar.

    Não sabia o que fazer. Não responder nada seria algo muito pior do que responder em Kyndralês? Não aguentava mais aquela gritaria em sua orelha. Precisava tomar uma atitude logo.

    Evelyn tomou uma decisão desesperada. Ela arregalou os olhos, levou a mão à garganta e soltou um som abafado, como se estivesse tentando falar, mas nada saísse. 

    Eu sou muda. Sou muda e muito, muito triste. Tenham pena de mim”, convenceu-se mentalmente. 

    Ela começou a gesticular freneticamente. Apontou para a própria língua, fez um sinal de “não” com os dedos e então começou a inventar sinais que pareciam uma mistura de malabarismo com um ataque de espasmos. Ela apontava para o papel do homem, depois para um ponto aleatório no teto, e fazia círculos rápidos no ar, fingindo uma urgência mística.

    Oh… perdó… jo… jo n’aviá… pas ideja…

    Evelyn assentiu vigorosamente, fazendo uma cara de choro tão convincente que dois outros operários se aproximaram para ver o que estava acontecendo.

    Em poucos instantes, ela estava cercada por cinco pessoas tentando decifrar seus sinais absurdos, criando um bloqueio humano perfeito que impedia qualquer um de ver Niko e Gwen passando sorrateiramente pelas passarelas superiores. Justamente como havia planejado — com toda a certeza ela havia planejado isso antes e não estava mentindo.

    Sou um gênio!”, Evelyn pensou, enquanto fazia um sinal de “pombo” com as mãos para explicar que o mestre de carga “tinha voado” para longe.

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