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    MALRATH, ANOS TRÁS

    — Nunca se ajoelhem.

    Clyve estava acima deles, no alto da colina, recortado contra a noite. O vento puxava a capa e deixava os sons de Malrath longe, abafados, enquanto uma vila dormia atrás da colina.

    A fileira dos Multiplicadores permanecia imóvel na encosta, ombro a ombro, rostos virados para cima.

    — Um inimigo que para de atacar para exigir que se ajoelhem é um inimigo fraco.

    Ele desceu um passo pela pedra seca, devagar, sem tirar os olhos deles.

    — E tudo que é fraco nós esmagamos.

    O olhar dele foi para Serana.

    — Garganta primeiro.

    PRESENTE

    Serana já estava atacando.

    Ela entrou na linha do pescoço do traje como se a distância não existisse. O Bracelete de Solun apareceu no pulso no mesmo instante, o metal avermelhado sob a pele, fumaça fina saindo das bordas, o cheiro de carne queimando subindo junto com um gosto de ferro no ar.

    A garra veio.

    Primeiro, a poeira tremeu. Depois, o impacto chegou, grosso, e empurrou o chão em anel, como se alguém tivesse batido uma placa de aço no meio do pátio. Pedra rachada cuspiu grão para cima. Só então o resto veio: detrito caindo, telha batendo, madeira reclamando.

    O som chegou atrasado.

    O Cetro subiu de lado e entrou na linha. A garra raspou na madeira escura e soltou faísca, abafada pela própria pressão. O ar estourou em volta.

    Marco mal se movera.

    Serana voltou no mesmo alvo.

    O segundo golpe veio mais baixo, ainda mirando a junção do colar, e a onda de choque estourou mais perto, empurrando a poeira para o rosto dos dois. Marco manteve a base do corpo firme. O Cetro encontrava a garra dela antes do impacto, sempre no ângulo que quebrava a linha.

    O Bracelete chiou. A fumaça engrossou por um instante.

    Serana tentou acelerar.

    Três, quatro, cinco golpes vieram como um só. O ar gritava e parava. O chão vibrava em pequenos saltos. A cada defesa, o Cetro batia e voltava para o lugar sem perder a linha. Marco não recuou; o tronco quase não mudava, só o punho e o olhar.

    Serana rangeu os dentes, e o braço tremeu um fio quando a dor queimou por dentro do pulso. Ela ignorou. Torceu o quadril, trocou a mão e voltou na junção do visor de novo, direta.

    O Cetro interceptou outra vez.

    Ela forçou o Bracelete.

    A pele do pulso escureceu na borda do metal. O cheiro de queimado ficou mais forte. O braço respondeu mesmo assim, e o próximo golpe veio com raiva, com o corpo inteiro por trás.

    Marco não se moveu.

    O Cetro girou por dentro e desviou a garra para fora da linha do pescoço; o ataque passou no vazio ao lado do visor. Serana sentiu o alvo escapar e tentou corrigir na mesma respiração.

    Atrás, os passos vieram ao mesmo tempo. Serana não tinha chamado, mas eles entraram do mesmo jeito.

    Löerg avançou com o florete alto e a ponta fixa, buscando a linha limpa na altura do visor. Cedric entrou pelo lado, duas lâminas formando um “V” para fechar a distância e impedir que Marco retomasse base. Pátkos surgiu já perto, braços projetados na intenção de agarrar e travar.

    Marco não estava mais ali.

    O espaço onde o corpo dele estivera ficou vazio de um jeito agressivo, como se alguém tivesse arrancado a imagem do mundo. O ar estalou, a poeira subiu, e, quando os quatro olharam, Marco já pairava acima deles, alguns metros no alto.

    A surpresa apareceu no rosto deles.

    Löerg abriu mais os olhos e ergueu o florete um palmo tarde, a ponta procurando o vazio acima. Cedric girou as duas espadas para cima com pressa demais, sem tração no chão para transformar aquilo em salto; a lâmina quase bateu uma na outra antes de ele corrigir. Pátkos flexionou as pernas para desaparecer de novo e travou no meio, músculos presos, porque o ponto de chegada tinha sumido com a referência. Serana só levantou o queixo e acompanhou com o olhar, fumaça ainda escapando do pulso, o Bracelete quente demais para disfarçar.

    Do outro lado do pátio, Hamita pousou Lou-reen no chão com cuidado que não combinava com o campo de batalha. A general ficou de lado, pesada, imóvel, o rosto pálido e sujo. Aemerta já estava ali, com os braços marcados de poeira e sangue seco, Kooups e Grithin fora da arena destruída, jogados para trás de uma linha de pedra quebrada como carga retirada do fogo.

    Hamita e Aemerta olharam para cima ao mesmo tempo.

    O Marco no ar parecia pequeno.

    Ele estendeu o Cetro para baixo, como se medisse uma coisa invisível no espaço. O rosto não mostrava esforço.

    — Manipulação do ar: pressão atmosférica vezes trinta.

    O mundo desabou sem cair.

    O ar ficou pesado de uma vez, e o chão cobrou na hora.

    Cedric foi prensado contra a pedra, peito e ombros batendo primeiro; as duas armas escorregaram da pegada e estalaram no piso. Löerg desceu junto, joelho e mão raspando a superfície rachada antes de o corpo inteiro colar, o florete batendo de lado e ficando preso sob o antebraço. Pátkos tentou sumir, mas a pressão arrancou a tração das pernas; ele caiu como se o mundo tivesse ficado mais denso no meio do passo, rosto perto demais do chão para pensar em qualquer ponto de chegada.

    A poeira não subiu. Ela achatou, espalhada em película, grudando na pedra e na pele.

    Serana sentiu o impacto atravessar os ossos. O Bracelete chiou mais alto no pulso, metal quente demais para aguentar; a fumaça escapou em linha baixa, colada ao braço. Ela tentou manter o tronco alto e erguer a garra, e o braço parou no meio, travado pela própria massa. O joelho dela bateu na pedra, depois o outro, e a garra riscou o chão quando ela foi forçada para baixo.

    Fissuras abriram em volta de mãos, joelhos e pontas de arma, linhas rápidas que corriam para fora em anéis quebrados. Serana ainda ergueu o rosto, fumaça subindo do pulso, e encarou o Marco no alto sem pedir nada.

    Marco ficou acima deles, imóvel no ar, o Cetro apontado para baixo como uma barra cravada no céu.

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