Capítulo 115 — Eu disse encerrado.
Hegoria continuava inclinada sobre o corpo aberto no centro do galpão.
A mesa estava tomada por panos manchados, frascos, lâminas finas e pedaços escuros que já não pareciam pertencer a nenhum corpo natural. Ela afastou uma camada de carne endurecida com a pinça, observou a fibra grossa por baixo, anotou duas linhas no próprio caderno e voltou ao corte sem mudar a expressão.
Venia estava no canto, mexendo nas próprias anotações. Riscou uma palavra, escreveu outra acima e virou a página com cuidado. Dois soldados guardavam a porta, rígidos demais para esconder o desconforto com o cheiro de sangue frio e metal lavado.
A porta abriu, e o frio entrou antes de Lou-reen. Atrás dela, Halikah veio abatida, com o rosto pálido e as mãos presas demais ao cabo da espada.
Hegoria ergueu os olhos por cima das lentes. O olhar passou por Lou-reen, parou em Halikah e ficou ali um instante a mais.
— Achei que a garota tivesse ido para casa.
Lou-reen tirou neve do ombro com a mão enluvada.
— Eu estava levando. Até sermos atacadas.
Hegoria largou a pinça na bandeja rápido demais.
— Atacadas por quê?
Lou-reen não respondeu de imediato. Virou para um dos soldados na porta.
— Abra o resto.
O soldado obedeceu na hora, puxando a segunda folha da porta pesada. O frio entrou mais fundo no galpão.
Lou-reen apontou para o outro.
— Você. Traga algo quente para ela beber.
Halikah não reagiu. Continuou parada atrás da general, pálida, com os dedos duros no cabo da espada.
Hegoria olhou de Lou-reen para a garota.
— General?
Antes que Lou-reen falasse, correntes arrastaram no pátio.
Metal raspou pedra. Um soldado gritou alguma ordem do lado de fora. Outro respondeu com esforço na voz. Então veio um impacto pesado contra a madeira da entrada aberta, forte o bastante para fazer os dois guardas recuarem meio passo.
Quatro soldados apareceram na entrada puxando correntes grossas. Cada corrente prendia uma parte do corpo da criatura: dois braços, cintura e pescoço.
Ela entrou aos trancos, arrastando os homens junto. O corpo era estreito, fechado, com os ombros travados e os pés tentando encontrar base mesmo sob a força das correntes. A silhueta ainda lembrava uma pessoa, só que o rosto deformado e a pele escurecida quebravam a ilusão de perto.
Trapos rasgados pendiam do tronco e das pernas, grudados em sangue velho e neve derretida.
A criatura firmou um pé no chão de pedra e puxou.
Dois soldados perderam meio passo. Um terceiro fincou a bota e grunhiu entre os dentes. Os elos esticaram de uma vez, rangendo, e a criatura abriu a boca num som rouco, sem palavra nenhuma.
— Para o centro! — Lou-reen apontou com a espada. — Abram as correntes. Não a deixem fechar a mão em ninguém.
Um dos soldados escorregou quando a criatura puxou de novo. O elo correu pela luva dele e quase escapou.
— Pelo elo de trás! — Lou-reen avançou meio passo. — Não disputa força com ela.
Os quatro corrigiram ao mesmo tempo. Dois cederam terreno, os outros puxaram de lado, abrindo o corpo da criatura para longe da mesa. As correntes rangeram, esticadas em cruz, até os pés dela rasparem o centro do galpão.
Halikah ficou imóvel.
Os dedos dela apertaram tanto o cabo da espada que os nós ficaram brancos. O rosto continuou virado para a frente, mas os olhos vacilaram, fugiram para o chão e voltaram para a criatura.
Hegoria se afastou da mesa devagar.
A expressão dela já tinha voltado ao lugar. Os olhos correram pelas correntes, pelos ombros travados, pelo modo como a criatura ainda tentava corrigir a base mesmo presa. Depois passaram por Halikah, pararam por uma fração de segundo na mão rígida da garota e voltaram para a criatura.
Ela pegou o caderno sem tirar os olhos da criatura.
O carvão correu rápido pelo papel. Uma linha, depois outra. Um traço curto ao lado. Ela virou meia página com o polegar e continuou escrevendo.
A criatura puxou as correntes outra vez.
Hegoria só levantou os olhos por um instante, depois voltou a anotar.
— Onde apareceu?
Lou-reen acompanhou os soldados com a espada baixa.
— Na rua da casa da garota.
Um dos homens puxou a corrente da cintura até um aro preso no chão. A criatura girou o tronco de uma vez, tentando acompanhar o movimento, e o elo estalou contra a pedra.
— Atacou vocês ou parecia buscar outra coisa?
Lou-reen olhou para Halikah por um instante.
— Ela foi direto na garota.
O carvão parou no papel.
Hegoria terminou o traço com atraso e virou o caderno um pouco na mão.
— Mesmo com você ali?
— Mesmo comigo ali.
Dois soldados baixaram a corrente da cintura e prenderam no aro. A criatura dobrou o corpo contra o peso, ombros travados, pés raspando a pedra. Outro soldado tentou fechar a trava do braço direito e quase perdeu os dedos quando ela puxou de volta.
O homem recuou meio passo, corrigiu a pegada e travou a corrente com uma peça grossa de ferro.
Hegoria voltou a escrever.
— E quando você entrou na frente?
Lou-reen demorou uma respiração.
— Mudou de alvo quando eu forcei.
A criatura puxou tudo ao mesmo tempo. Os aros rangeram. Um frasco vazio tremeu na mesa.
Lou-reen apontou com a espada para a porta.
— Fora da linha dela. Dois na entrada, dois do lado de fora. Ninguém entra sem ordem.
Os soldados obedeceram, afastando-se em passos curtos. A criatura ficou presa no centro, peito subindo e descendo, cabelo sujo caído sobre o rosto.
Hegoria manteve o caderno aberto.
— Respondeu a voz?
Halikah enrijeceu.
Lou-reen virou o rosto para a tenente.
— Chega.
O último soldado recuou para fora da linha da criatura. Os outros dois foram para a entrada, ainda ofegantes, com as mãos presas nas armas e os olhos grudados nas correntes.
A criatura puxou de novo. Os aros rangeram, mas seguraram.
Lou-reen ficou olhando mais um instante para o corpo preso no centro do galpão. Depois virou para a mesa.
O cadáver aberto continuava na mesa, espalhado entre panos, frascos e lâminas. Lou-reen olhou para o peito rasgado, para as fibras expostas, para os cortes que Hegoria tinha ampliado.
A general apontou com a espada.
— Encerrado. Costure, registre o que falta e prepare o enterro. Isso foi uma pessoa.
Hegoria baixou o caderno.
— General, ainda há estruturas internas que podem explicar—
— Eu disse encerrado.
A voz de Lou-reen não deixou espaço.
Hegoria ficou parada por um instante, com o caderno meio aberto na mão. Depois fechou a capa devagar e olhou para o corpo na mesa.
— Sim, general.
A criatura puxou as correntes no centro do galpão.
Os aros de ferro rangeram no chão. Um dos soldados na porta levou a mão à espada por reflexo, mas Lou-reen ergueu dois dedos sem olhar para ele. O homem parou.
O soldado voltou com uma caneca fumegante, mas a garota não pegou.
— Deixe ali — Lou-reen disse.
O soldado colocou a caneca sobre uma caixa baixa, longe da mesa e das correntes.
A porta do galpão abriu de novo.
Marco entrou primeiro, com neve nos ombros e uma esfera de selenita presa na mão. Kalamera veio logo atrás, mais rígida que o normal.
— Fomos atacados na forja — Marco disse.
A frase morreu antes de terminar quando ele viu a criatura no centro do galpão.

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