Índice de Capítulo

    Hegoria continuava inclinada sobre o corpo aberto no centro do galpão.

    A mesa estava tomada por panos manchados, frascos, lâminas finas e pedaços escuros que já não pareciam pertencer a nenhum corpo natural. Ela afastou uma camada de carne endurecida com a pinça, observou a fibra grossa por baixo, anotou duas linhas no próprio caderno e voltou ao corte sem mudar a expressão.

    Venia estava no canto, mexendo nas próprias anotações. Riscou uma palavra, escreveu outra acima e virou a página com cuidado. Dois soldados guardavam a porta, rígidos demais para esconder o desconforto com o cheiro de sangue frio e metal lavado.

    A porta abriu, e o frio entrou antes de Lou-reen. Atrás dela, Halikah veio abatida, com o rosto pálido e as mãos presas demais ao cabo da espada.

    Hegoria ergueu os olhos por cima das lentes. O olhar passou por Lou-reen, parou em Halikah e ficou ali um instante a mais.

    — Achei que a garota tivesse ido para casa.

    Lou-reen tirou neve do ombro com a mão enluvada.

    — Eu estava levando. Até sermos atacadas.

    Hegoria largou a pinça na bandeja rápido demais.

    — Atacadas por quê?

    Lou-reen não respondeu de imediato. Virou para um dos soldados na porta.

    — Abra o resto.

    O soldado obedeceu na hora, puxando a segunda folha da porta pesada. O frio entrou mais fundo no galpão.

    Lou-reen apontou para o outro.

    — Você. Traga algo quente para ela beber.

    Halikah não reagiu. Continuou parada atrás da general, pálida, com os dedos duros no cabo da espada.

    Hegoria olhou de Lou-reen para a garota.

    — General?

    Antes que Lou-reen falasse, correntes arrastaram no pátio.

    Metal raspou pedra. Um soldado gritou alguma ordem do lado de fora. Outro respondeu com esforço na voz. Então veio um impacto pesado contra a madeira da entrada aberta, forte o bastante para fazer os dois guardas recuarem meio passo.

    Quatro soldados apareceram na entrada puxando correntes grossas. Cada corrente prendia uma parte do corpo da criatura: dois braços, cintura e pescoço.

    Ela entrou aos trancos, arrastando os homens junto. O corpo era estreito, fechado, com os ombros travados e os pés tentando encontrar base mesmo sob a força das correntes. A silhueta ainda lembrava uma pessoa, só que o rosto deformado e a pele escurecida quebravam a ilusão de perto.

    Trapos rasgados pendiam do tronco e das pernas, grudados em sangue velho e neve derretida.

    A criatura firmou um pé no chão de pedra e puxou.

    Dois soldados perderam meio passo. Um terceiro fincou a bota e grunhiu entre os dentes. Os elos esticaram de uma vez, rangendo, e a criatura abriu a boca num som rouco, sem palavra nenhuma.

    — Para o centro! — Lou-reen apontou com a espada. — Abram as correntes. Não a deixem fechar a mão em ninguém.

    Um dos soldados escorregou quando a criatura puxou de novo. O elo correu pela luva dele e quase escapou.

    — Pelo elo de trás! — Lou-reen avançou meio passo. — Não disputa força com ela.

    Os quatro corrigiram ao mesmo tempo. Dois cederam terreno, os outros puxaram de lado, abrindo o corpo da criatura para longe da mesa. As correntes rangeram, esticadas em cruz, até os pés dela rasparem o centro do galpão.

    Halikah ficou imóvel.

    Os dedos dela apertaram tanto o cabo da espada que os nós ficaram brancos. O rosto continuou virado para a frente, mas os olhos vacilaram, fugiram para o chão e voltaram para a criatura.

    Hegoria se afastou da mesa devagar.

    A expressão dela já tinha voltado ao lugar. Os olhos correram pelas correntes, pelos ombros travados, pelo modo como a criatura ainda tentava corrigir a base mesmo presa. Depois passaram por Halikah, pararam por uma fração de segundo na mão rígida da garota e voltaram para a criatura.

    Ela pegou o caderno sem tirar os olhos da criatura.

    O carvão correu rápido pelo papel. Uma linha, depois outra. Um traço curto ao lado. Ela virou meia página com o polegar e continuou escrevendo.

    A criatura puxou as correntes outra vez.

    Hegoria só levantou os olhos por um instante, depois voltou a anotar.

    — Onde apareceu?

    Lou-reen acompanhou os soldados com a espada baixa.

    — Na rua da casa da garota.

    Um dos homens puxou a corrente da cintura até um aro preso no chão. A criatura girou o tronco de uma vez, tentando acompanhar o movimento, e o elo estalou contra a pedra.

    — Atacou vocês ou parecia buscar outra coisa?

    Lou-reen olhou para Halikah por um instante.

    — Ela foi direto na garota.

    O carvão parou no papel.

    Hegoria terminou o traço com atraso e virou o caderno um pouco na mão.

    — Mesmo com você ali?

    — Mesmo comigo ali.

    Dois soldados baixaram a corrente da cintura e prenderam no aro. A criatura dobrou o corpo contra o peso, ombros travados, pés raspando a pedra. Outro soldado tentou fechar a trava do braço direito e quase perdeu os dedos quando ela puxou de volta.

    O homem recuou meio passo, corrigiu a pegada e travou a corrente com uma peça grossa de ferro.

    Hegoria voltou a escrever.

    — E quando você entrou na frente?

    Lou-reen demorou uma respiração.

    — Mudou de alvo quando eu forcei.

    A criatura puxou tudo ao mesmo tempo. Os aros rangeram. Um frasco vazio tremeu na mesa.

    Lou-reen apontou com a espada para a porta.

    — Fora da linha dela. Dois na entrada, dois do lado de fora. Ninguém entra sem ordem.

    Os soldados obedeceram, afastando-se em passos curtos. A criatura ficou presa no centro, peito subindo e descendo, cabelo sujo caído sobre o rosto.

    Hegoria manteve o caderno aberto.

    — Respondeu a voz?

    Halikah enrijeceu.

    Lou-reen virou o rosto para a tenente.

    — Chega.

    O último soldado recuou para fora da linha da criatura. Os outros dois foram para a entrada, ainda ofegantes, com as mãos presas nas armas e os olhos grudados nas correntes.

    A criatura puxou de novo. Os aros rangeram, mas seguraram.

    Lou-reen ficou olhando mais um instante para o corpo preso no centro do galpão. Depois virou para a mesa.

    O cadáver aberto continuava na mesa, espalhado entre panos, frascos e lâminas. Lou-reen olhou para o peito rasgado, para as fibras expostas, para os cortes que Hegoria tinha ampliado.

    A general apontou com a espada.

    — Encerrado. Costure, registre o que falta e prepare o enterro. Isso foi uma pessoa.

    Hegoria baixou o caderno.

    — General, ainda há estruturas internas que podem explicar—

    — Eu disse encerrado.

    A voz de Lou-reen não deixou espaço.

    Hegoria ficou parada por um instante, com o caderno meio aberto na mão. Depois fechou a capa devagar e olhou para o corpo na mesa.

    — Sim, general.

    A criatura puxou as correntes no centro do galpão.

    Os aros de ferro rangeram no chão. Um dos soldados na porta levou a mão à espada por reflexo, mas Lou-reen ergueu dois dedos sem olhar para ele. O homem parou.

    O soldado voltou com uma caneca fumegante, mas a garota não pegou.

    — Deixe ali — Lou-reen disse.

    O soldado colocou a caneca sobre uma caixa baixa, longe da mesa e das correntes.

    A porta do galpão abriu de novo.

    Marco entrou primeiro, com neve nos ombros e uma esfera de selenita presa na mão. Kalamera veio logo atrás, mais rígida que o normal.

    — Fomos atacados na forja — Marco disse.

    A frase morreu antes de terminar quando ele viu a criatura no centro do galpão.

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