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    Logo, Niko e Gwen desceram as escadas metálicas com pressa, mas o que encontraram lá embaixo não foi a discrição que Niko esperava. O plano original era que Brigitte e Evelyn se infiltrassem para observar qualquer movimento suspeito e relatar depois, mas o que Niko via agora era o completo oposto do que estava esperando.

    — Mas o que diabos elas estão fazendo? — resmungou Niko, parando no último degrau e massageando as têmporas.

    O setor de Carga Pesada estava praticamente parado — todas as cargas dentro do vagão. Brigitte, em vez de estar discretamente vigiando o pátio, estava em cima de uma plataforma de embarque, gesticulando com o braço bom enquanto contava, com uma empolgação contagiante, como havia enfrentado uma matilha de lobos e salvado uma ninhada de gatinhos.

    — Eu já estava com todos aqueles gatinhos nos braços, miado. Eu falava pra eles: “tudo bem, gatinhos. Vocês estão a salvo.” E quando aqueles lobos maléficos começaram a me cercar, eu não pensei duas vezes! — exclamava para uma plateia de operários que estava presa às palavras dela.

    — Brigitte! — Niko chamou, a voz carregada de uma irritação contida.

    A Luminar parou no meio de um gesto dramático. Ao ver a expressão sombria de Niko e o olhar de julgamento de Gwen, seu rosto corou instantaneamente. Ela percebeu, tarde demais, que o plano era observar, não entreter. Ela tossiu duas vezes para limpar a garganta, olhando para os homens que pareciam decepcionados com a interrupção.

    — Bem… por hoje é só! Isso vocês vão descobrir o que acontece na próxima sessão! — anunciou ela, saltando da plataforma.

    — Ahhh, poxa! Não faz isso, guria! — reclamou um dos brutamontes.

    — Conta mais um pouco, se não a gente vai precisar voltar ao trabalho! — gritou outro.

    — Desculpa, pessoal, mas agora não dá.

    Em seguida, Brigitte se juntou a Niko e Gwendolyn, ajeitando o uniforme desconfortável com um sorriso sem graça e tentando evitar o contato visual com o chefe.

    Se o setor de Brigitte era um teatro, o de Evelyn era um circo de mímica maluco. Niko e as outras chegaram à triagem e encontraram a elfa cercada por cinco funcionários que discutiam fervorosamente, enquanto ela continuava sua performance de “muda” com uma dedicação absurda.

    — Então… o mestre de carga teve a carteira roubada por um passarinho? — um funcionário se questionou.

    — Seu idiota! — rebateu outro. — É óbvio que ela está dizendo que o mestre adotou um passarinho!

    Evelyn, com a prancheta apertada contra o peito, assentia com um olhar melancólico para tudo o que estavam dizendo e fazia um sinal de “pombo” com as mãos, batendo as asas. Ela não entendia uma única sílaba do que saia da boca deles, mas estava claramente se divertindo com o caos que criou.

    Niko se aproximou, sentindo a veia da testa pulsar. Ele tocou o ombro da elfa com força.

    — Vem cá. — disse ele, cortando a conversa dos funcionários.

    Evelyn deu um sobressalto, mas rapidamente recuperou a pose de “sofrimento”. Ela olhou para os funcionários, levou a mão ao coração em um gesto de gratidão dramática e fez um último sinal de tchau antes de ser puxada pelo braço por Niko. Os funcionários deram um sinal de tchau, voltando a discutir em seguida.

    — Minhas mãos estão doendo de tanto sinalizar abobrinha… — disse Evelyn assim que se afastaram, a voz voltando ao normal. — Descobriram alguma coisa?

    — O plano era observação, Evelyn. Ob-ser-va-ção. — Niko sibilou de volta, aborrecido. — Isso também serve pra você, Brigitte. Em vez disso, vocês duas quase viraram as mascotes do terminal.

    — Mas pelo menos a gente tem alguma pista? — perguntou Brigitte.

    — Sim, a Gwen encontrou um suspeito. Ele está no vestiário.

    Ele olhou para a trupe, agora reunida. A raiva que sentiu alguns segundos atrás, logo se desfez. Estava mais calmo e, de certa forma, aliviado de que nada aconteceu com elas — levando em conta o que acabou de acontecer.

    — Vamos logo, ele pode sair a qualquer momento.

    Bernart entrou no vestiário com o coração martelando nas costelas. Ouviu alto o som dos seus próprios passos no piso de concreto, ecoando entre as fileiras de armários de metal. No lado oposto, havia um grande espelho e dezenas de pias. Entre os dois conjuntos, pequenos bancos de madeira sem encosto. O lugar estava vazio, mergulhado em um silêncio úmido que cheirava a sabão barato e cloro, quebrado apenas pelo gotejo rítmico de uma torneira mal fechada.

    Ele parou diante do armário “42”. Suas mãos tremiam tanto que ele errou a chave por duas vezes. Quando finalmente abriu a porta metálica, o rangido da dobradiça pareceu como um grito de acusação. Lá dentro, escondido sob uma muda de roupa suja, estavam os documentos: as notas de despacho da madrugada de ontem.

    Bernart respirou fundo, passando a mão pelo rosto suado. Estava há quase vinte e quatro horas sem dormir, sustentado apenas por café barato e pelo medo.

    — Será que ela era mesmo estranha? — murmurou para as paredes vazias, a imagem daquela garota de olhos verdes invadindo a sua mente. — Ou é só o cansaço? O estresse está me fazendo ver fantasmas em cada esquina…

    Ele pegou os documentos, sentindo o peso do papel, tão pesado quanto os pecados que carregava. Seus olhos vagaram para uma pequena fotografia em preto e branco colada na parte interna da porta: uma menina sorridente, de no máximo sete anos, com os mesmos olhos castanhos que os seus. Sua filha.

    — O que ela pensaria? — o sussurro saiu quebrado. — Ela acha que o pai ajuda a despachar mercadorias e construir vias… se soubesse que ajudei a trancar aquela pessoa numa carroça… aquele olhar… ele parecia tão… triste.

    Ele apertou os papéis contra o peito, de olhos marejados. Sua ganância tinha parecido um caminho fácil para pagar as dívidas e as pensões atrasadas, até mesmo alegar uma nova requisição na justiça, mas o preço desse caminho fácil estava sendo sua sanidade.

    — O que eu tô fazendo? — perguntou-se, puxando a bochecha para baixo com uma mão trêmula, a voz falhando.

    — Essa é uma ótima pergunta — disse uma voz fria, vinda de trás.

    Bernart virou-se subitamente para trás, com o coração saltando na garganta. Diante dele, quatro figuras mascaradas estavam entre ele e o banquinho. Através das aberturas das máscaras, quatro pares de olhos o vigiavam: azuis gélidos, roxos intensos, verdes penetrantes e um par de olhos brancos com escleras negras. Este último possuía chifres de cervo na cabeça.

    Ele abriu a boca para gritar, mas o som morreu antes de nascer. Instantaneamente, o grupo o cercou. O garoto com chifres de cervo encostou a lâmina curva de uma enorme foice em seu peito, enquanto a de olhos verdes pressionava o cano frio de uma pistola em sua testa. Na lateral, a de olhos azuis empunhava estacas de gelo, servindo como aviso final.

    — Q-quem são vocês? — Bernart gaguejou, o corpo colado contra o metal do armário.

    — Isso não importa. — a figura de olhos roxos respondeu, com a voz firme e autoritária. — Você só precisa responder às nossas perguntas.

    — Por favor… eu tenho uma filha. — suplicou ele, a voz já fraca, o corpo tremendo e arrepiado.

    A figura de olhos verdes deu um passo à frente, ainda com a pistola colada no homem, o rosto ficando a poucos centímetros de distância. Observou o homem atentamente durante um segundo, e lançou uma risada seca e sem humor.

    — Que pai de merda você é, então. É exatamente por causa dela que você devia responder às perguntas. Não quer que ela cresça sabendo que o pai é um cúmplice de monstros, quer?

    Bernart olhou mais uma vez para a foto da pequena menina. Suas ombros caíram, e a resistência que ainda restava se dissolveu em um suspiro de derrota. Eles tinham razão. Sua filha não o via de uma forma boa desde… aquele dia. Ficar em silêncio só pioraria a tensão entre eles. Ele assentiu devagar.

    — Eu… ajudo. Eu conto tudo…

    — Você teve participação no tráfico sapiente do dríade? — perguntou a de olhos verdes, a voz abafada pela máscara.

    — Eu… eu fui uma das pessoas que ajudou na coleta. — Bernart confessou, fechando os olhos. — Só isso. Foi meu primeiro trabalho desse tipo, eu juro. Eu nunca mais faria algo assim, eu só precisava do…

    — Não ligo para as suas promessas ou para o que planeja no futuro. — ela o cortou, ríspida. — Você fez o errado e ponto final. Guarde suas desculpas para quem se importa. — terminou inclinando a cabeça para a porta do armário.

    Em seguida, o mascarado de chifres levantou a mão perto da boca e murmurou algo inaudível para a colega de olhos verdes. Ela assentiu e voltou-se novamente para o homem.

    — Você tem alguma noção de onde o dríade possa estar agora?

    Bernart estendeu os papéis que amassava contra o peito.

    — Aqui. São os documentos de despacho da madrugada de ontem. Tem as informações do condutor da carroça e o endereço do destino. — admitiu ele. — Eu… devia ter queimado isso ontem… Foi o que eles me mandaram fazer… mas não consegui.

    A garota de olhos verdes tomou o maço de papéis. Eram apenas dois, mas estavam cheios de informações e notas.

    — Vamos dar uma olhada nisso.

    — Aí tem tudo que pode ser útil para vocês. — Bernart completou. — Mas não posso prometer que vai ser o suficiente. Eles são… cautelosos.

    O grupo se afastou um pouco, finalmente baixando as armas de Bernart, que suspirou aliviado. A trupe trocou algumas palavras rápidas e inaudíveis entre si. Após alguns segundos de uma conversa silenciosa, todos acenaram em concordância.

    A figura de olhos roxos caminhou até Bernart e pousou uma mão sobre o ombro dele, apertando-o levemente.

    — Se você realmente quer ser o pai que sua filha merece, vá até a delegacia e se entregue. É a atitude correta a se tomar.

    Antes que Bernart pudesse responder ou perguntar como faria aquilo, o ar ao redor do grupo pareceu dobrar e distorcer. Em um piscar de olhos, as quatro figuras simplesmente sumiram.

    Bernart ficou sozinho no silêncio do vestiário. Ele olhou para a foto da filha por um longo tempo, deu um suspiro profundo e carregado de pesar, e começou a fechar seu armário.

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