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    Capítulo 090 – Terreno Ermo!

    O fim da manhã dava lugar ao início da tarde quando Ecos acompanhou Amelie até Magia Hortus.

    A aprendiz caminhava com os passos bem pesados, seu cansaço estava evidente e gritava a cada movimento, seus cabelos longos e cobreados, bem ondulados, balançavam bastante enquanto seguia o seu mestre.

    — Mestre… Você disse que eu poderia descansar, mas ainda estamos andando.

    Ela não conseguia esconder toda aquela fadiga que a consumia, tentava manter o ritmo atrás do bruxo, mas ele estava bem mais à frente.

    — E você vai descansar. Mas em um lugar especial. Um lugar que vai te ajudar muito mais do que qualquer cama comum.

    Ela o encarou com uma certa curiosidade, mas, por mais que fosse curiosa, naquela vez ela não questionou.

    Amelie confiava em Ecos, mesmo estando exausta. Ela aprendeu que Ecos sempre tinha um propósito em cada uma das suas ações, até nas mínimas possíveis.

    Cada lição era valiosa.

    Quando chegaram ao local, era um jardim.

    A aprendiz parou por um instante, seus olhos arregalaram-se com tamanha beleza que se estendia à sua frente. Magia Hortus era realmente um dos lugares mais bonitos de toda Nox Arcana.

    Flores de todas as cores imagináveis se espalhavam por canteiros cuidadosamente organizados, era como se cada planta conseguisse vibrar com a sua própria energia, tudo era tão palpável.

    O homem bruxo observara a reação da sua pupila, soltando um sorriso bem sutil. Ele sabia que aquele lugar sempre causava uma primeira impressão muito marcante aos seus visitantes de primeira viagem.

    — Magia Hortus, seja bem-vinda. — disse ele, apresentando o jardim com bastante orgulho.

    Amelie olhou ao redor, tentava absorver cada detalhe. As plantas pareciam até mais vivas do que qualquer jardim comum que ela já havia visto. Existia algo no ar, algo que ela não conseguia nomear, ou até mesmo compreender.

    Entretanto, ela sentia, com muita força.

    — Como ele funciona? — indagou a pupila, a curiosidade estava superando, mesmo que temporariamente, o seu cansaço.

    O homem caminhou alguns passos adiante, parando próximo a um canteiro onde pairavam algumas rosas. Ele estendera a mão, tocando suavemente uma das pétalas. Amélie conseguiu ver claramente como a flor parecia responder ao toque.

    Brilhava.

    — Este jardim é plantado, semeado e cuidado unicamente com magia. — Ele explicou. — Cada planta aqui foi cultivada através das artes arcanas.

    Cada uma daquelas plantas estava imbuída com quantidades absurdas de mana.

    Amelie se aproximou das mesmas rosas, sentindo o seu aroma que emanava com força. Um cheiro doce… intenso.

    Era diferente de qualquer outra rosa.

    Ela se inclinou, cheirando uma das flores, e sentiu algo estranho acontecer.

    Era como se a sua energia suave estivesse fluindo através dela, como se algo trafegasse diretamente da rosa para o interior do seu ser.

    Não era nada que Amelie conseguisse explicar, mas sentia que algo estava mudando.

    — O que é isso que eu estou sentindo?

    Ela perguntara, encarando Ecos com os olhos arregalados.

    — Esse jardim é considerado o maior Terreno Ermo de todo o reino de Sihêon.

    Ecos sorriu, reconhecendo a reação da pupila. Ele sabia que ela estava começando a perceber os efeitos do lugar.

    — Terreno Ermo? — Ela repetia, tentava compreender.

    O bruxo assentiu.

    — Zonas Ermidas, ou Terrenos Ermos… consistem em ambientes que sejam natural ou intencionalmente embebidos com uma quantia tão absurda de mana… Que se torna uma fonte de recuperação para os arcanos.

    — Uma fonte de recuperação? — Amelie perguntara.

    Ela escutou atentamente, tentando processar aquela informação. Ela ainda não compreendia completamente.

    — Exatamente isso, apenas por estarem presentes, os arcanos se sentem recarregados devido à tamanha abundância de mana que está nesse local.

    Ele sorriu.

    — É como se o próprio ar estivesse preenchido com energia arcana, pronta para ser absorvida.

    A pequena bruxa ficou maravilhada, ela olhou ao redor novamente, percebendo o jardim com novos olhos. Já que agora ela entendia por que sentia aquela sensação estranha.

    Por que parecia tanto que algo estava fluindo através dela.

    Era o mana excedente.

    — Isso é incrível — disse ela, a voz cheia de admiração.

    O mentor observava a pupila por um instante, ainda percebendo que o seu cansaço permanecia.

    — Vamos sentar ali. — sugeriu. — Você vai sentir o efeito completo do terreno ermo.

    Amelie seguiu o mestre até o banco e sentou-se cuidadosamente.

    O assento era feito de pedra, mas estava surpreendentemente confortável. Ela se acomodara, observando as flores que cercavam o local.

    Eram flores de cores vibrantes, cada uma mais bela que a outra. Rosas vermelhas, lírios brancos, tulipas amarelas e muitas outras que ela não saberia nomear.

    Todas essas flores pareciam pulsar com uma energia própria e o ar ao redor estava carregado, que agora ela reconhecia… Mana.

    Com o passar do tempo, Amelie começou a sentir algo mudar dentro dela. O cansaço que outrora a consumia começava a desaparecer gradualmente. Era como se uma energia suave estivesse fluindo através do seu corpo, retirando o cansaço e substituindo-o por um prazer momentâneo.

    Preenchia cada célula, cada músculo… Cada parte do seu ser.

    Ela fechara os olhos por um momento, permitiu que aquela sensação a envolvesse por completo.

    Era reconfortante, revigorante, era como se a energia suave estivesse tomando cada centímetro do seu eu.

    Ecos encarou a bruxa e pôde ver o brilho da vida retornando para ela. A palidez que havia marcado o rosto da aprendiz estava desaparecendo, transmutando para uma cor saudável.

    Os olhos que antes pesavam com a exaustão estavam alertas e vivos.

    — Você está sentindo… o efeito de um terreno ermo… A recuperação de um arcano, preenchendo-o com tanta mana que potencializa completamente as suas forças.

    Ela abriu os olhos e encarou seu mestre com gratidão.

    Ela realmente estava se sentindo melhor, muito melhor do que havia sentido há alguns minutos. O cansaço havia desaparecido quase completamente. Além de sentir uma energia muito nova fluindo através dela.

    — Isso é maravilhoso — disse ela, a voz mais forte agora. — Obrigada pelo conhecimento, Mestre Ecos.

    Ele sorriu, satisfeito com a reação. Ele sempre gostava de ver como os aprendizes respondiam com a sensação de presenciar um terreno ermo.

    — Você tem sido a melhor pupila que tomei para mim nos últimos anos. Mesmo não conseguindo replicar perfeitamente a minha disciplina mágica… Ainda assim, é um avanço significativo.

    — Obrigada. É uma grande responsabilidade ser a única arcana fazendo parte do Esquadrão do Centro da Praça.

    Assim que ela mencionou o nome do grupo de heróis que viviam a mando do imperador, imediatamente percebera uma mudança na expressão do seu mestre bruxo. A seriedade em Ecos aflorou quando escutou o nome do esquadrão e os seus olhos se tornaram mais intensos, sua visão ficara mais focada.

    — O Esquadrão do Centro da Praça…

    Amelie apenas assentiu com a cabeça, ela notou a mudança em seu mestre, mas não entendia o que poderia ter causado tamanha reação.

    Ecos ficara um período em silêncio, como se estivesse pensando em uma decisão bastante importante. Então, ele estendeu a mão para o interior do seu manto e puxara um pergaminho com uma aparência muito velha.

    O pergaminho parecia muito mais antigo que a própria Amelie, com bordas desgastadas e um tom amarelado que gritava a sua idade. Havia algo precioso naquele objeto, pois o pergaminho emanava uma energia diferente.

    — Tome.

    Ele foi direto.

    Assim que ele estendeu a mão, Amelie aceitou, mas ainda com bastante confusão em seu rosto.

    — O que é isso?

    Ela perguntou enquanto olhava para o objeto, tentando entender o que poderia ser aquilo, era um pergaminho leve.

    — Abra.

    Ele mantinha a seriedade.

    A aprendiz desenrolara o pergaminho cuidadosamente e seus olhos se abriram mais assim que vira o conteúdo. Havia uma série de símbolos que ela nunca havia visto antes, lembravam runas antigas e padrões arcanos.

    Tudo aquilo estava além do seu conhecimento.

    Embora ela tenha estudado símbolos diversas vezes, mesmo procurando algo que pudesse fazer sentido, nada desenhado ali parecia familiar. A única coisa que ela conseguia entender era que, no final do pergaminho, havia uma assinatura com uma pequena mancha de sangue.

    “Magistri Echoes, Arcani”

    A assinatura era de Ecos.

    Amelie encarara seu mestre completamente confusa, pois não entendia o que significava aquilo.

    — Mestre…

    Ela começou, mas Ecos a interrompeu.

    — O nome desse artefato mágico… É o Pergaminho do Amigo Verdadeiro. E eu decidi entregá-lo a você.

    Amelie conseguiu ficar ainda mais desnorteada, então olhara mais uma vez para o pergaminho. Buscava qualquer coisa para entender o que estava acontecendo.

    O artefato carregava um nome estranho.

    — Por que eu estou recebendo isso?

    — Quando você estiver em muito perigo…

    Dissera Ecos, com a voz séria.

    — Quando estiver acreditando fielmente que você está à beira da morte e não tem mais o que fazer… Você vai precisar jogar esse pergaminho para cima e, então, consumi-lo utilizando uma conjuração de fogo. Entendeu?

    Amelie escutou cada uma daquelas palavras.

    — Consumi-lo com uma conjuração de fogo?

    — Sim, para o pergaminho ser ativado a partir das chamas… Mas apenas use quando realmente estiver crente de que está prestes a perecer… Apenas quando não houver alternativa.

    Amelie olhou para o pergaminho, fechando-o. Sentiu o peso da responsabilidade que havia sido colocado sobre seus ombros.

    Aquilo estava longe de ser um presente, era algo muito mais sério do que isso.

    — O que vai acontecer quando eu ativar, mestre?

    Ecos soltara um sorriso sincero, embora o ambiente estivesse muito mais melancólico do que alegre.

    Ele poderia explicar melhor, mas havia algo dentro dele que preferiria não ter que dizer mais nada.

    — Prefiro que você nunca tenha que ativar isso. Mas, se for o caso, apenas… confie em mim.

    A bruxa olhou para Ecos, enrolou o pergaminho e guardou-o em um bolso seguro do seu vestido.

    Ela confiava no seu mestre.

    Os dois ficaram em silêncio por uns bons instantes, cada um processando da sua forma o que havia acontecido.

    Então, Ecos levantara do seu banco, estendendo a mão para auxiliar a aprendiz.

    — Vamos.

    Amelie se levantou, sentindo-se completamente recuperada. O terreno ermo havia feito seu trabalho, e ela estava pronta para continuar. Os dois começaram a caminhar pelo jardim.

    E a conversa fluiu naturalmente entre eles.

    Falaram sobre magia, sobre os estudos, sobre o Esquadrão do Centro da Praça, sobre a vida. Ecos compartilhou histórias de seus anos como membro do Círculo Mágico, e Amelie escutou com atenção.

    Absorvendo cada palavra.

    A tarde se estendeu, e os dois ficaram jogando conversa fora enquanto o sol começava a descer no horizonte. O jardim continuava a pulsar com energia arcana, e Amelie sentia que aquele momento era especial.

    Que aquela conversa era importante.

    O pergaminho permanecia guardado, esperando pelo momento em que seria necessário. E Amelie esperava, do fundo do coração, que aquele momento nunca chegasse.


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