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    Capítulo 099 – Majestosa Torre!


    Os três furtivos ficaram sozinhos à beira do riacho turvo.

    Observando o serpentear dos braços da água escura e coberta de limo.

    O sol ainda não subira por completo; o ar estava bastante frio e pesado.

    O algoz da pele de ébano apontou para a margem oposta.

    — Procuraremos a pedra; segundo o que Anusha escreveu, pelo descrito, ela está próxima ao riacho… Azulada, polida com um brilho sutil.

    — Vamos nos dividir? — perguntou Dalila. — Um segue cada um dos lados dessa margem, quem achar, grita.

    — Combinado — dissera Megitsune, começando a caminhar.

    Os três espalharam-se; Lavish seguiu pela margem à esquerda, Megitsune seguiu pela direita, logo seguida de Dalila.

    As pedras eram a princípio acinzentadas, depois verdes do musgo, algumas castanhas…

    Nenhuma azulada.

    Lavish chegou a parar junto a um aglomerado de rochas.

    Uma delas parecia mais lisa.

    Ele limpara o limo com a mão, por baixo, surgia um brilho desfalecido.

    Ele chamou prontamente as outras duas. Assim que os três se reuniram, observaram melhor a pedra: polida, da mesma cor que o céu ao entardecer, parecia que haviam sido aprisionadas estrelas em seu interior.

    — Então… É essa. — O algoz contemplava, falando quase que em um sussurro.

    — Ao que tudo indica. — Dalila tentava observar como a pedra reagia de acordo com a luz que batia nela ou com o ângulo no qual a encarava.

    — Agora, a única coisa que iremos precisar é de sangue animal… Fresco. — Solanki terminou de concluir.

    — Vi algumas aves e pequenos mamíferos durante todo o nosso percurso; duvido que estejam tão longe assim… Eu caço. — Dissera a eikiana no meio do silêncio de ambos.

    — Cuidado, Megi — advertiu a sua colega.

    — Não se preocupa, não vou demorar.

    E então a algoz sumiu entre as árvores. Lavish e Dalila ficaram junto à pedra, aguardando.

    Após alguns curtos momentos, o algoz de pele de ébano cruzou os braços e virou sua atenção para a garota.

    — O que você acha?

    — Do que… Exatamente? — Ela o encarava com uma pequena pitada de confusão nos olhos.

    — Do império, dos algozes…

    — Acho que a coroa nos trata como ferramentas: úteis quando convém, descartáveis quando não.

    — Partilho dessa mesma visão. — O homem da pele de ébano assentiu com a cabeça.

    — Mas não significa que eu ache que Maut Ka Mandir faz diferente. — Dalila cortava o silêncio.

    Ele voltou sua atenção, surpreso.

    — Eu ainda acredito na guilda… Mas percebeu que apenas os mais novos se arriscam tanto? Nunca vi nenhum dos algozes mais velhos se arriscando; muitos sequer cumprem contratos, mais.

    — Em uma determinada idade… Não seremos mais tão silenciosos quanto hoje, Dalila. — Lavish contornava a conversa.

    — Você diz isso como se eles fossem vinte, trinta anos mais velhos que nós… Sabe que não são.

    — A quarentena está nos obrigando a nos arriscarmos.

    — Mas são os algozes mais velhos que decidem quem se sacrifica.

    O homem se calou; não era tão mais velho que a Dalila, como os algozes acima dele também não eram tão mais velhos assim. Isso fez o senhor Solanki repensar algumas cenas em sua mente, em uma quietude agoniante.

    — Se sobrevivermos… — Dissera Dalila. — Talvez as coisas melhorem, seremos úteis para o imperador, seremos úteis para nossos superiores… Seremos úteis.

    — Vamos sobreviver. — O homem falava de forma direta.

    E, mais uma vez, o silêncio caiu sobre a dupla. Cogitavam procurar pela Megitsune, mas era apenas um pretexto para saírem dali; ela não havia sumido há mais de dez minutos, até aquele momento.

    — Como está ela? A pequena Trinity?

    Lavish aliviou um pouco o seu rosto, assim que Dalila perguntara sobre sua filha adotiva, a pequena garotinha salva pela Niyati, o último ato de misericórdia da sua grande amiga, antes de ter sido assassinada pelo Anusha.

    — A menina está bem… Apronta sempre que pode.

    Ela viu; a garota da pele de caramelo sentiu em seu companheiro de guilda, um amor tão genuíno e límpido. O que movia aquele homem era ter uma criança para cuidar, para guiar. Os olhos de Lavish brilhavam ao olhar para o vazio, apenas de lembrar da sua filha.

    — Minha Trinity está cada dia mais adorável. — ele elogiou.

    Dalila não conseguiu conter o sorriso, no fim, havia esperança no meio do caos.

    Uma salvação para a nuvem negra que tentava engolir Maut Ka Mandir.

    Eles iriam conseguir, estava fixo na mente da garota.

    — Onde eu despejo isso?

    Megitsune voltava do meio do nada, com um coelho na sua mão, ele ainda estava quente.

    O sangue escorria entre os dedos da eikiana, enquanto se aproximava da dupla que aguardava ansiosamente o seu retorno.

    — Em cima da pedra. — Dissera Lavish. — O suficiente para cobrir a superfície.

    A garota inclinou o corpo do animal sobre a rocha; os fios vermelho-escuro espalharam-se pela superfície azulada.

    Sem poderem perceber ao certo quando começou, a pedra estava brilhando.

    Uma luz azulada, viva, como se estivesse vindo de dentro da pedra.

    Os três prontamente recuaram um passo, enquanto o brilho crescia até cobrir a superfície da pedra.

    Tudo estava se concretizando, tudo indicava o sucesso daquela empreitada.

    Ainda faltava uma parte.

    Lavish encarou as outras duas, diretamente em seus olhos.

    — Agora… As palavras, devemos dizer… Juntos.

    Algozes não são ritualísticos, não da forma que se espera que fossem. Muitos seguiam mantras e repetiam as mesmas frases, apenas por escutarem demais em seus treinos regressos. Os usuários de katar não eram místicos, tampouco confiavam na veracidade das ações em prol de um efeito que estivesse fora da cogitação real.

    Eles eram bastante criativos, sim, e sabiam que existiam seres capazes de realizar atos que desafiam a lógica, como os arcanos. Mas, para um algoz, a razão precisa ser posta acima de tudo; eles mexem com o que é vivo e precisa morrer, não tem nada muito mágico nisso.

    Precisava ser uníssono, mas eles dariam as mãos? Eles fariam um círculo?

    As escritas de Anusha não descreviam os mínimos detalhes.

    De qualquer forma, após terem repetido algumas vezes, em um determinado momento eles conseguiram falar, como se fosse apenas uma voz:

    — Aperire tempus.

    Fora quando o brilho da pedra intensificou-se.

    O ar tremeu, uma onda de calor ou de magia passou rapidamente por eles.

    Do outro lado do riacho, perto da linha do horizonte, algo começara a tomar forma.

    Primeiro era uma névoa, depois surgiram alguns contornos…

    Uma torre…

    Não era uma torre comum; era uma construção tão alta e majestosa que parecia rasgar o céu.

    A Torre de Crono, o Mago dos Portais.

    Ela materializou-se diante daqueles três pares de olhos.

    As paredes eram de um material que não era nem pedra, nem metal, mas algo entre ambos. Negro e reflexivo. Como uma obsidiana.

    A base da torre era deveras larga, com degraus que subiam em espiral. Quanto mais alta a torre se erguia, majestosa, mais ela se estreitava, por fim, ela terminava em uma agulha que furava todas as nuvens.

    — Eu não consigo acreditar… — Dissera Lavish, maravilhado, mas desconfiado na mesma intensidade.

    — Isso, algo… Algo desse tamanho está tão próximo assim do nosso reino e nunca sequer percebemos? — Comentou Megitsune.

    — O inimigo estava logo abaixo de nós e ninguém sabia de nada. — Dalila lamentou, descrente.

    A revelação fez o trio de algozes tremer por um instante, Lavish prontamente deu uns passos à frente, concluindo:

    — Então foi nessa torre que o irmão mais velho do imperador viajou e acabou sendo morto.

    Eles observavam toda a arquitetura com calma e deslumbramento, viam as janelas que eram alongadas, cortavam as fachadas, sem vidro algum, apenas com vazios escuros e chamativos.

    Em diversos pedaços daquelas paredes negras brilhavam em claro algumas runas, com piscadelas cor âmbar, que estavam indicando a revelação da torre.

    Era, de fato, uma construção megalomaníaca, feita para intimidar quem visse, e conseguia entregar o que prometia. Os três estavam anestesiados.

    O tempo parecia dobrar-se à volta da torre, como se a realidade ao redor dela esticasse e repuxasse, modificando silhuetas conhecidas do plano de fundo às espagetificações confusas do que teriam sido um dia.

    Na frente da torre.

    Como se estivessem estado ali o tempo todo, invisíveis até o presente momento, havia homens.

    Assim que o véu que escondia a torre cedeu, e ela ficou visível, eles também.

    Esses homens já encaravam ao norte, como se estivessem tentando entender quem havia surgido na sua linha do horizonte.

    Eles estavam quietos, observando… Se o trio de algozes tivesse passado por ali sem ter feito o ritual para enxergar a torre, teria sido morto por forças invisíveis?

    Eram seis.

    Três com armadura e espadas, dois com arcos e um com vestes longas e um cajado.

    Não que estivessem próximos o suficiente para que houvesse uma troca de olhares, mas os seis conseguiram perceber que o trio de algozes estava conseguindo visualizar a torre.

    Isso era um perigo.

    Que precisava ser rapidamente combatido.

    Então os defensores da torre não postergaram e iniciaram sua movimentação; eles corriam em direção aos três que acabaram de realizar o ritual da visão.

    — Lavish! — Megitsune percebeu o começo da corrida dos inimigos presentes.

    — Eu percebi… E eles estão vindo para cá, pois conseguiram compreender que nós agora estamos vendo a torre.

    — Então… Eles conseguem se camuflar tal qual a torre do Crono, que engenhoso… e perigoso. — Dalila dissera com um tom curioso e estudioso.

    — E quem raios são esses homens!? — Megitsune não queria perdê-los de vista.

    — Arrisco-me a dizer que sejam os Aventureiros Caídos.

    Era um nome que já havia passado pelos ouvidos das duas, mas elas não tinham tanto conhecimento quanto o algoz da pele de ébano. Ele percebeu a confusão e aproveitou esse momento em que ele sacava e amarrava as suas katares nas mãos para explicar para elas.

    — Aventureiros Caídos… Assim eram chamados. Homens e mulheres que um dia tiveram tudo para viver de forma honrada e justa, reinos que os acolhiam e guildas que os treinavam. Eles carregavam juramentos que poderiam ter sido cumpridos; em vez disso… Venderam tudo ao mago dos portais.

    — Tudo…? Tudo o quê? — indagou a eikiana.

    — Sua honra… Suas almas.

    Os três já estavam com as suas armas em mãos, decidiram espalhar um pouco a sua posição, isso daria conta dos arqueiros e do possível arcano, caso estivessem próximos demais. O alvo seria mais fácil.

    Crono pagava alto.

    Ele pagava por sangue, silêncio e guardas.

    Os aventureiros caídos faziam o que ele ordenava sem pestanejar, tornaram-se com o tempo mercenários cruéis que matavam, torturavam e vigiavam em troca de ouro e de promessas de poder.

    Eles não carregavam bandeiras, carregavam apenas o bolso cheio, embora suas consciências estivessem vazias, e muitos deles tinham renome, eram guerreiros conhecidos, arqueiros invejados e arcanos tutores.

    Apenas caíram quando preferiram o preço de Crono à vida que tinham. Agora eles guardavam a torre e exterminavam quem se aproximasse, apenas.

    Os três algozes estavam do lado de cá do riacho, relativamente na linha do horizonte em relação à torre.

    O susto da visão passou em alguns segundos; os três já estavam com suas katares em postos.

    Os defensores da torre fechavam distância em uma linha bastante arquitetada. À frente estavam os três guerreiros, logo atrás os dois arqueiros e, por fim, o mago das vestes longas, com o seu cajado erguido quase como se aquilo fosse uma extensão do seu braço.

    — Lá vêm eles! — gritou Lavish.

    Fugir não era uma opção; os membros de Maut Ka Mandir não saberiam como se esquivar pela mata e seriam abatidos com muita facilidade, mas também estavam em desvantagem, tanto numérica quanto de terreno.

    Lutar contra um algoz em um campo aberto… Parecia fácil para os inimigos.

    Contra-atacar seria a melhor opção.

    Lavish, em um largo salto, atravessara o riacho com seu par de katares para baixo. O primeiro guerreiro que surgiu logo depois tinha uma barba ruiva e um elmo contido; sua armadura rangia enquanto ele investia contra o senhor Solanki.

    O algoz não esperou o protocolo de duelo: cravou um golpe na curva curta da clavícula, abaixo da proteção da armadura, arrancara um sulco de carne de precisamente dois dedos de largura.

    Sangue quente saltou para o rosto de Lavish; o guerreiro rosnou com sofrimento, seu aço falhou no meio do golpe.

    — Não acho que estejam esperando honra de nós, não é? Caído? — Lavish brincara.

    O primeiro guerreiro compensou com um corte horizontal que disferiu logo em seguida, acertando o algoz no flanco, parcialmente desviado, mas ainda assim, a lâmina o mordeu.

    A pele de ébano fora rasgada e o músculo ficou exposto.

    O ar saira dos pulmões de Lavish em um suspiro curto de dor. Mas, ainda assim, ele manteve sua katar firme, como se não tivesse sentido nada, no fim das contas.

    “Fortes… são fortes” Pensou.

    Megitsune estava lá, entrou pelo flanco esquerdo desse mesmo guerreiro, sua kunai encontrou o espaço entre a cota de malha e o cinto do homem, a lâmina passou sedenta, abrindo as entranhas em camadas.

    Subiu um cheiro de ferro e de medo… Misturado ao cheiro do riacho.

    Aquele guerreiro cambaleara, mas ainda não era um cadáver, não que pudesse conseguir sobreviver a ferimentos como aqueles depois dessa luta, de qualquer forma.

    O primeiro arqueiro, magro e estranho, zuniu sem qualquer espécie de piedade.

    A flecha disferida não buscou nenhum ponto vital a princípio, atingiu o espaço móvel do ombro de Megitsune.

    Fez com que a seta raspara músculo e tendão.

    A algoz de Eikõ rodara, evitando o acerto em cheio, mas o impacto arrancou-lhe um grito tão abafado atrás do pano que cobria a metade do seu rosto.

    Seus olhos rapidamente encheram d’água, e seu sangue chorava pelo braço.

    — Meg! — Gritou Dalila.

    Ela seguia, corria ainda em direção ao primeiro guerreiro.

    Os arqueiros e o mago estavam longe demais; por ora, eles precisavam focar em cada um individualmente para que a desvantagem numérica pudesse ser extinguida.

    A algoz da pele de caramelo fechou o arco com um golpe baixo. Mais uma vez, focavam no primeiro guerreiro; a katar dela subira por baixo da couraça, bem no espaço onde cedia.

    O abdômen desse homem parecera uma nova boca, berrando sangue pela relva.

    O homem começara a tossir uma espuma rosada, seus olhos perderam o foco por um instante.

    — Por que você não cai? — Brandava Dalila.

    Ela precisava esquivar-se rapidamente.

    Mais ao longe, o mago murmurou sílabas que tinham um cheiro de enxofre. Ela não entendeu o que ele dizia, mas compreendeu o que estava por vir.

    Uma faísca correu pelo ar, saindo dos dedos do mago e viajando como uma pequena folha de árvore ao vento até bater nos antebraços de Dalila, explodindo e engolindo seu corpo por completo no meio de pó, poeira e fumaça.

    — Dalila!

    Ela caiu para o lado, tentando ficar em pé após ter desviado parcialmente da bola de fogo, mas aquele pequeno choque queimou a sua pele e deixou bolhas abertas espalhadas onde sua carne ardeu, cruas e pegajosas.

    A jovem algoz cerrou os dentes; ela gritaria de dor, mas não daria esse gosto ao mago.

    — Dispersem! — alertava Lavish.

    Ele gritava enquanto descia a katar mais uma vez no primeiro guerreiro; o algoz não tinha a menor intenção de deixar esse inimigo sequer respirar.

    Dessa vez, o corte transpassou a face interna da coxa, atingindo uma artéria.

    O jato pintou a lama do riacho de vermelho vivo; aquele guerreiro ajoelhou-se como se estivesse rezando, sua boca estava cheia de sangue e fluidos espumosos.

    Lavish ergueu a katar, iria encerrar tudo aquilo, ali.

    Quando o segundo guerreiro, mais novo, com um escudo largo, surgiu.

    Ele bateu com o ombro no algoz de pele negra, desviando a atenção dele, que ceifaria a vida do aliado defensor da torre. Por fim, cravou a espada na costela do algoz, tentando enfiá-la o máximo que conseguia, buscando cada vez mais espaço entre as costelas.

    Aquilo doeu como fogo interno. Lavish sentiu o gosto do metal e o material vibrar quando arranhava os seus ossos; sua visão estreitou-se por um milésimo.

    Enquanto focados um no outro, Megitsune viu a abertura no pescoço do primeiro guerreiro quando ele levantou o queixo para vomitar ainda mais sangue.

    Ela cortou o que restava da sua dignidade, com a traqueia exposta… Ar e sangue misturaram-se em um borborinho de horror.

    Ela não podia hesitar, de fato.

    Cravou a katar de novo, atrás da nuca, e puxou.

    O primeiro a morrer, o guerreiro caiu com o corpo a convulsionar, agindo como um animal esfolado que ainda, desesperadamente, tenta fugir.

    — Lavish! Aguenta aí!

    Dalila saltara para o segundo guerreiro, que ainda estava tentando empalar seu companheiro de guilda. A katar da mulher de pele de caramelo bateu no aço do escudo e deslizou; ela precisou mudar o ângulo para atacar mais uma vez.

    Decidiu enterrar a ponta da sua katar no joelho articulado, o grito seco, sentindo que seus ligamentos estavam sendo partidos. O segundo guerreiro gritou como se não fosse humano, tamanha a dor que sentia.

    Antes que ela pudesse finalizar, o terceiro guerreiro finalmente a alcançou. Ele era o mais alto, carregava consigo um machado de lâmina dupla. Assim que ele avançou sobre a Dalila, desferiu um golpe desesperado para que ela desgrudasse do seu aliado.

    Ela rodou, mas o golpe a atingiu mesmo assim; seu dorso foi raspado, abrindo uma faixa longa do couro das suas vestes. O corte também expôs fibras rosadas sob aquela luz matutina; sua carne havia sido cortada.

    Enquanto isso acontecia, Lavish interceptava o segundo guerreiro, devolvendo um golpe que estalou seco no antebraço que segurava o escudo; o som do osso quebrando ecoou naquele riacho, o escudo tombara.

    O segundo homem tentou levantar o braço bom, mas Lavish cortara o tendão do ombro com um puxão cruel e muito preciso.

    — Filho da puta! — agonizava o homem com os braços moles.

    Lavish não respondeu a essa ofensa, apenas o atingiu com um golpe na lateral do pescoço, onde o elmo não cobria. Sua katar abrira a jugular em jatos; o segundo guerreiro caiu de joelhos e tentou segurar a ferida com as duas mãos, inutilmente, mal tinha controle dos braços.

    Seu sangue escorreu entre os dedos como se sua vida fosse apenas líquido esparramado, fugindo aos poucos até que não respirasse mais.

    O segundo arqueiro era um homem baixo, com uma cicatriz que cruzava a sua orelha até o queixo. Ele disparara contra a Megitsune enquanto ela estava distraída em seu embate; a seta cravou-se na lateral do quadril, rasgando couro e deixando aquele pedaço em carne viva. Ela cambaleou, mas manteve a sua katar na mão direita; respirava em estalidos relativamente curtos.

    Buscava com a outra mão suas kunais.

    Ela precisaria arremessar.

    Fora quando o primeiro arqueiro disparou novamente, frio e bastante analítico.

    A flecha entrou no braço da Megitsune, rasgando músculo e deixando a ponta presa por um instante antes de cair de vez. Ela apenas arrancara o projétil com um puxão abrupto e seguiu em frente; seus olhos estavam bastante estreitos por trás do pano do rosto.

    O mago lançara, ainda longe, uma lança de calor quase invisível que estalou no peito de Dalila. Ela quase caiu para trás, sentindo queimar sua pele; o cheiro de carne cozida subiu ao seu nariz.

    Ela cuspiu; sua boca estava amarga, mas ela continuou avançando.

    Ainda havia um homem que impedia os algozes de atingirem os três da retaguarda. Lavish encarava o terceiro guerreiro enquanto respirava pesadamente, já que seu flanco ainda estava sangrando.

    Os três pareciam cercá-lo. E isso o desesperou brevemente.

    Ele precisava escolher quem iria atacar, sabendo que receberia golpe dos outros dois que seriam poupados. Prontamente, ele partiu para um deles.

    Megistune atacou esse guerreiro pela retaguarda. Enquanto ele mirava Dalila, o posterior da sua coxa rasgou com brutalidade. O homem berrou e o machado acabou oscilando; ele perdeu a precisão e Dalila conseguiu recuar alguns passos para não ser atingida.

    — Que vontade… de desmaiar… — Ela dizia, solta enquanto recuava.

    Lavish e Megitsune abriram um largo sorriso.

    Eles compadeciam.

    Direto na omoplata, Megitsune ainda estava retornando do golpe que disferiu quando sentiu o disparo do segundo arqueiro sobre ela.

    O pano que guardava seu rosto acabou manchado do seu próprio sangue, que salpicou em sua direção.

    — Kono yarō… 1

    Dalila cravara sua katar no joelho restante do guerreiro, derrubando-o parcialmente. O golpe quebrou a sua estabilidade e ele bateu com os joelhos na lama, usando seu machado enterrado para poder se apoiar.

    Ele ainda estava em condições de lutar e, mesmo ajoelhado, revidou com um corte ascendente, que atingiu e abriu o antebraço de Dalila até o osso; ela sentiu o frio do metal vir primeiro, logo depois da queimadura da carne viva.

    Lavish não deixaria que o homem disferisse mais alguma coisa e saltou sobre ele; sua katar entrou pelo topo do ombro, entre as placas da armadura, partindo os ossos e rasgando mais profundamente os seus músculos. O homem até havia tentado erguer o machado, mas seu braço não havia obedecido.

    Por mais que estivessem em desvantagem, um algoz sabe exatamente onde atingir e como atingir. Os guerreiros não estavam esperando uma precisão tão absurda, e os defensores da retaguarda provavelmente estavam rezando para que não fossem alcançados.

    O primeiro dos arqueiros mirou em Megitsune mais uma vez, quase como se houvesse uma rixa pessoal. Sua seta cravou na panturrilha, fazendo a eikiana cair sobre um dos joelhos, mas ela levantou logo em seguida. Naquele momento, a katar tremia em sua mão.

    Lavish atingiu novamente, aquele golpe direto pela nuca com um estalido seco de osso se partindo. O último guerreiro morreu sem mais nenhum som; seu corpo apenas tombou na frente pela lama.

    Espaço vazio.

    O caminho estava livre.

    Os três algozes riram enquanto sangravam.

    Isso foi uma visão aterradora para os três guardiões da torre que haviam sobrevivido. Eles começaram a recuar sem dar as costas para as crianças de Maut Ka Mandir.

    O mago gritou uma sílaba forte e uma labareda fina viajou da sua boca até o peito de Dalila, novamente.

    Queimou sua pele e couro; ela continuou sentindo seu cheiro queimado enquanto avançava com ódio.

    Flechas, os dois arqueiros começaram a deferir, agora não apenas em Megistune, mas também nos outros dois que estavam ficando mais próximos.

    Focaram tanto na eikiana que esqueceram do pele de ébano e da pele de caramelo.

    O primeiro arqueiro ainda tentava recuar, puxou outra flecha e estava pronto para disferir, mas Lavish não deu tempo de resposta, correndo e saltando para frente até fazer com que sua katar cortasse o antebraço que segurava o arco.

    Carne e tendão.

    O arco caiu e o homem gritou; seus dedos ainda tentavam puxar a corda que nem sequer existia mais, estava no meio do mato curto.

    Havia um ferido. Enquanto o primeiro arqueiro se tornava o novo alvo, o outro e o mago tentavam aumentar ainda mais a distância, mas sem fugir, necessariamente.

    Megitsune alcançou o arqueiro ferido; ela quase gargalhou de satisfação antes de descer o seu golpe. Ela segurava a kunai como se fosse uma adaga, descendo agressivamente onde o couro não protegia.

    Ela o esfaqueou; o arqueiro praticamente se dobrou de tanta dor. Ele ainda tentara agarrá-la com desespero, mas ela se esquivou e cravou novamente a kunai nele.

    O som da carne rasgando e dos jatos de sangue preencheu toda aquela planície.

    Enquanto esfaqueava agressivamente um dos arqueiros, o outro tentava atingir Megitsune pelas costas. Dalila prontificou-se a se aproximar desse segundo para, além de distraí-lo, impedir que atingisse a eikiana.

    Lavish ergueu os olhos; no horizonte, ainda estava lá a torre.

    Alguém em uma das janelas encarava aquela carnificina.

    Alguém que também pertencia à torre, igual àqueles homens, mas parecia estar se deleitando com as mortes.

    Não parecia se mover para ajudar os defensores.

    Era uma silhueta escura, longe demais para o algoz decifrar quem pudesse ser.

    Ele fitou por poucos segundos; a batalha logo abaixo do seu nariz era o mais importante.

    Ainda atacando com a kunai em uma das mãos, com a outra, que segurava a katar, Megitsune atingiu o peito do primeiro arqueiro, entre as costelas, com muita força e desespero.

    Aquilo perfurou o pulmão do homem, que começou a se engasgar. Não contente, ela circulou o seu corpo e cortou o seu pescoço com um puxão limpo, clínico.

    O arqueiro tombou para frente sem vida.

    Dalila estava próxima do segundo arqueiro; ele já estava recuando em direção ao mago, mas não conseguiu ser mais veloz do que a garota. Ela cortou-lhe o braço direito no bíceps, rasgou seu músculo até o osso, que ficou exposto.

    O homem gritou.

    O arco caiu.

    E, desesperadamente, ele tentou pegar uma adaga curta que repousava no seu cinto.

    Fora quando Lavish cravou rapidamente sua katar no abdômen do segundo arqueiro, subindo-a lentamente.

    Conforme ele erguia a arma, o homem dobrava-se sobre a lâmina, vomitando sangue espesso. Os olhos do arqueiro arregalaram-se e suas mãos buscavam agarrar Lavish, como se pudesse auxiliar em algo.

    Faíscas fumegantes atingiram Lavish, que olhou para o lado e percebeu os gestos que vinham do mago. A pele negra estalou com o fogo, subindo o cheiro de carne queimada mais uma vez.

    O homem da pele de ébano não recuou; ele cerrou os dentes até que a sua mandíbula doesse, ele encarou o fundo dos olhos do mago.

    — Assim que esse cair… eu vou pegar você.

    Enquanto Lavish dizia isso, os últimos espasmos do arqueiro finalizavam, e o algoz sentiu o peso desbalanceado do corpo morto, soltando o homem pela lateral.

    Só restava o mago, de vestes longas. Ele estava com as mãos trêmulas e, ao escutar Lavish, ele gritou e correu, fugindo com medo.

    Megitsune avançara primeiro, baixa e rápida; sua katar cravou-se na coxa dele, abrindo as vestes e manchando seu manto longo de sangue. O homem gritou sílabas que estavam longe de ser uma língua humana.

    Essas sílabas geraram uma agulha de luz que acertou rapidamente Megitsune no estômago, queimou a pele e deixou um buraco pequeno, mas bastante agonizante. Parecia uma mordida gigante de um inseto. A eikiana gemeu; todo seu corpo ardia lentamente.

    Mas tudo terminou quando Dalila o alcançou, atingindo-o com um golpe no pescoço enquanto ele ainda focava em direção a eikiana. A cabeça dele inclinou-se para trás em um ângulo quase obsceno, como se, mesmo com ela quase desgrudando do restante do corpo, ele ainda tentasse encarar quem ceifou sua vida.

    Dalila finalizou cravando a katar no olho dele no instante seguinte, como um gesto final.

    O mago deixara seu corpo relaxar, caindo finalmente, quieto.

    Silêncio.

    O riacho continuava a correr, como se nada tivesse acontecido.

    Os seis defensores da torre jaziam na lama, cada um em uma posição diferente que parecia uma coreografia meticulosa do massacre.

    Lavish estava ofegante, seu flanco e o seu peito sangravam com agressividade, e sua pele queimada ainda ardia.

    Dalila tinha seus antebraços e o peitoral em carne viva, com bolhas abertas e sangue seco misturado ao suor.

    Megitsune tremia agressivamente, com seu corpo furado e mais ferimentos de flecha do que conseguia contar. Ainda assim, ainda trêmula e pálida pela hemorragia, ela segurava a katar.

    Lavish olhou para aquela mesma janela; já não havia mais ninguém.

    Ele ter virado seu rosto fez com que as duas virassem também; então, os três olharam para a torre.

    O brilho da pedra azulada começava a enfraquecer.

    A construção monumental tremeluzia, lenta e baixa, como reflexo na água.

    Cada vez menos sólida, cada vez menos presente.

    Em poucos instantes, a torre voltou a se esconder-se.

    Aquele véu desceu mais uma vez, o que fez com que os três compreendessem: existia um tempo para o ritual. Depois desse tempo, o véu voltava e a torre desaparecia.

    Eles não podiam sequer se dar ao luxo de desmaiar, por mais que estivessem com as energias indo embora.

    Poderia ter alguém ainda ali, que naquela hora estava invisível, que naquela hora poderia estar à espreita.

    — Não… Não era… — Disse Lavish. — Anusha estava… falando a verdade…


    1. Nesse trecho, a eikiana está chamando o arqueiro que a acertou de bastardo.[]
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